{"id":15993,"date":"2018-12-17T10:46:31","date_gmt":"2018-12-17T13:46:31","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=15993"},"modified":"2019-03-16T20:15:13","modified_gmt":"2019-03-16T23:15:13","slug":"dedos-de-prosa-ii-57","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-57\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Carlos Sant Anna<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_15995\" aria-describedby=\"caption-attachment-15995\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santosin.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-15995 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santosin.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santosin.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santosin-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/Adelmo-Santosin-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15995\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Adelmo Santos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pela janela aberta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se um peixe\u00a0entrar em sua casa sem bater, n\u00e3o estranhe ou fique\u00a0nervosa,\u00a0\u00e9 porque, p\u00e9 ante p\u00e9,\u00a0ele resvalou o corpo\u00a0para fora da tarde\u00a0e porque claramente cansou do lago artificial\u00a0em que vivia enclausurado.\u00a0H\u00e1 sinais e testemunhas\u00a0do licor evaporado do seu h\u00e1lito\u00a0quando ele passou pelo \u00e1trio da igreja\u00a0e o andar era um b\u00e1lsamo\u00a0para aquele esp\u00edrito inquieto.\u00a0Antes, ao passar pela porta, exclamou\u00a0&#8220;que lugar maravilhoso&#8221;, e sorveu um pouco de paz\u00a0com os belos vitrais que se real\u00e7avam em ambas as laterais da igreja.\u00a0Parou, pensou e concluiu que o ar era solene e a igreja (talvez) seria pequena para remoer as inquieta\u00e7\u00f5es metaf\u00edsicas que sacudiam a sua cabe\u00e7a na deambula\u00e7\u00e3o vespertina.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Minhas ostras <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vira e mexe as ostras desfilam pela cal\u00e7ada da praia do Bogari, cal\u00e7ando sapatos coloridos, como se nunca tivessem sido colhidas pelos meus apetrechos de pesca nos arrecifes. Quando tal acontece, quase sempre, remexem no meu antigo ba\u00fa. S\u00e3o meus espantos guardados, sem chave, justo quando finjo n\u00e3o pensar em nada. As ostras giram o tronco em minha dire\u00e7\u00e3o e, sol\u00edcito, digo-lhes que se acomodem ao meu lado, no banco de areia da praia. Sentadas, me falam do que viram e ouviram, quando presas nas forma\u00e7\u00f5es rochosas, pr\u00f3ximas \u00e0 costa, tornando-se muitas vezes c\u00famplices de algumas hist\u00f3rias. E ficamos, ent\u00e3o, eu e elas, sob um c\u00e9u estrelado, \u00e0 beira de outro instante. No meu \u00edntimo, uma estranha magia. A casa dos meus pais, a poucos passos. \u00c9 do \u00fatero do tempo que elas ressurgem, que brotam. A pele arrepia, a alma cintila. E as ostras passam, ficam e se fincam em mim, pois, ainda que morti\u00e7a, trazem sempre uma claridade, como se fosse a luz de uma vela. Peda\u00e7os de saudades da ponta do mar, da pen\u00ednsula de ontem, cirandas de hist\u00f3rias que nunca chegam ao fim, um show de vaga-lumes por todos lados que estilha\u00e7am o ar, abrem o arm\u00e1rio e v\u00e3o aquecendo, sem pressa, as esquecidas paredes da mem\u00f3ria. Aproveito a lassid\u00e3o que nos acolhe e vou tamb\u00e9m abrindo os olhos, as m\u00e3os, o corpo, enquanto elas parecem dizer-me que j\u00e1 n\u00e3o preciso correr contra o rel\u00f3gio. Contra o tempo. Aquecidas, as ostras ensaiam uma can\u00e7\u00e3o praieira do Caymmi para a noite que avan\u00e7a madrugada a dentro. Suspiram e se afastam. N\u00e3o consigo desviar meu olhar dos moluscos que se distanciam lentamente, tampouco me ocorre o que ainda queria dizer&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quase triste<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se eu ainda tivesse o ala\u00fade. S\u00e3o outros os tempos. E rubro ou incolor s\u00e3o os pingos da mem\u00f3ria, sem p\u00e9s ou asas para sustent\u00e1-la. Um eclipse. Pular da cama sem fazer nenhum esc\u00e2ndalo pode safar o v\u00e9u da boca de Madalena. Melhor \u00e9 que n\u00e3o o fa\u00e7a. Seria como, a contragosto, apanhar um viscoso metr\u00f4, sem conhecer as linhas e perder-se nos atalhos das beg\u00f4nias no meio da clorofila dos executivos da classe m\u00e9dia, bolinando os rastros no teu corpo salgado. E est\u00e3o perdidas as fagulhas da piscadela, como um voo da inf\u00e2ncia? Esqueceu? E a minha alma reserva, entre copas, pergunta: &#8220;O que \u00e9 que houve, Madalena?&#8221; &#8220;O que \u00e9\u00a0 meu n\u00e3o se divide&#8221;. \u00c9 o olfato que irriga meus pa\u00edses baixos, por isso me falta talento, incenso e girass\u00f3is para este desespero nas ruas vazias sem o meu amolador de facas. E quanto o velho poeta ficaria surpreso ao ver-me atritando as nuvens ou na vertigem dos p\u00e9s em bot\u00e3o nas m\u00edseras cadernetas do armaz\u00e9m da esquina. O filho da m\u00e3e, no pasto das estrelas, sempre acrescentava um pouco mais nas contas da semana. E como ainda somos precoces na hora do choro da saudade, para depois tudo perdermos na aposta. Me espera, vai, me espera! Ainda podemos gozar juntos, Madalena, como uma pele de orvalho na madrugada. Ou como num poema bem resolvido! Ou ent\u00e3o durma! O desamparo \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o das mar\u00e9s, e o teu m\u00e9dico, cubano, n\u00e3o fala bem o portugu\u00eas. E tem mais, sem a luz do teu sol, confesso este meu fado de poeta a emoldurar o fugaz, enquanto a fuma\u00e7a do cigarro sobe e se perde pelas frestas das telhas da cumeeira da casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><strong>Desamparados<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acabamos por nos acostumar com tudo, mais cedo do que esperamos, dizia Joaquim para si mesmo como um pragm\u00e1tico pensador, primeiro enrolando um cigarro com as folhas da sua estufa particular, depois com a lupa do seu tempo de estudante nas m\u00e3os, mergulhado nas \u00e1guas fundas da antiga conviv\u00eancia, como se o mar, que sempre o apetecera, andasse no ritmo da cad\u00eancia do mundo por entre as \u00e1rvores toldadas por estranhezas humanas, enquanto ele examinava, inata curiosidade, um inseto que tecia no espelho uma can\u00e7\u00e3o inspirada num poema de Drummond. Verdades que se escondem mal finda o arrepio da tardan\u00e7a e da solid\u00e3o, sem que Joaquim saiba o motivo das apar\u00eancias das coisas porque n\u00e3o consegue desprender-se dos ferr\u00f5es feitos do nada que sangram a sua pele. A cadela destrambelhou a vida da casa, tal qual um inc\u00eandio num a\u00e7ude em noite de tempestade. A cantoria das crian\u00e7as, alegrando a casa, bem poderia ser uma esperan\u00e7a, uma aurora, que coubesse no c\u00e9u daquele homem no colo do dia, mas, ao contr\u00e1rio, provoca n\u00e1useas, um tremor nas m\u00e3os que o engole aos poucos, levando-o para bem longe de si mesmo. Folha levada pelo vento. E a cadela parece segui-lo. As mais fundas \u00e1guas e o bicho a segui-lo no jeito de ser sem jeito, desencanto da vida. E quanto mais se revela esse jeito cambaio dele ser, se v\u00ea mais longe, sem descobrir as verdades avaras ou que outro nome tenha as intemp\u00e9ries que amanhecem sob os t\u00faneis da escurid\u00e3o completa. E chama a cadela para a vida que ainda n\u00e3o viveu, para as estrelas que n\u00e3o se cansaram de riscar o c\u00e9u. Para as sobras da inf\u00e2ncia. Joaquim molda os m\u00fasculos na barra de ferro que o seu pai instalara no meio do corredor para este fim. Vapt-vupt, enfia as cal\u00e7as, veste uma camiseta e sai para abrigar-se na amurada do mar anilado olhando os surfistas se empinarem nas pranchas nas primeiras ondas da manh\u00e3 e os c\u00e3es desamparados que rosnam com a orla negra lambendo suas patas ao expandir e retrair-se no seu fluxo cont\u00ednuo sobre a areia da praia. E nenhum pormenor da boca da manh\u00e3 escapa aos olhos de Joaquim que virgulam os matizes azulados do horizonte que n\u00e3o se escrevem com palavras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Jos\u00e9 Carlos Sant Anna<\/strong> \u00e9 professor aposentado da Universidade Federal da Bahia. Atualmente \u00e9 o editor da\u00a0 <strong>Quarteto<\/strong>. E j\u00e1 andou publicando os seus alfarr\u00e1bios pela vida afora.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atmosfera fant\u00e1stica e envolvente dos minicontos de Jos\u00e9 Carlos Sant Anna<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":15994,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3582,2534],"tags":[41,2523,276,3597],"class_list":["post-15993","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-128a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-dedos-de-prosa","tag-jose-carlos-sant-anna","tag-minicontos","tag-quarteto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15993"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15999,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15993\/revisions\/15999"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/15994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}