{"id":16084,"date":"2019-03-07T11:20:12","date_gmt":"2019-03-07T14:20:12","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16084"},"modified":"2019-03-16T20:12:41","modified_gmt":"2019-03-16T23:12:41","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-62","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-62\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Elis Matos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ana Mendes<\/strong> nasceu em S\u00e3o Paulo do Potengi, interior do Rio Grande do Norte, em 1994. Graduanda em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, escreve desde os 12 anos e declama desde 2014. Teve poemas publicados na colet\u00e2nea <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, publicou nas antologias CidaDelas (2017, Sebo Vermelho) e Blackout (no prelo), participou do grupo de declamadores Dirocha, assina a <em>fan page<\/em> Erro Errante, no <em>Facebook<\/em>,\u00a0 e o blog Pensamentos avulsos. Utiliza-se ainda de zines, como forma de publicar seus escritos, tendo publicado: Birgona, di\u00e1rio de um Cego; Prazer Pega Mate e Come e Terno. Seu feito mais recente foi ganhar o Concurso Othoniel Menezes, com a antologia po\u00e9tica intitulada <em>B\u00e9lica<\/em>. Os tra\u00e7os desencontrada(mente) brilhantes que marcam a identidade po\u00e9tica da potiguar falam muito sobre seus embates com o mundo, ao passo que geram o encontro perfeito da inspira\u00e7\u00e3o com a palavra. De olhar emblem\u00e1tico e postura cr\u00edtica, Ana Mendes denuncia em seus escritos v\u00e1rios dos problemas sociais brasileiros e mundiais. Para al\u00e9m das lutas identit\u00e1rias, percebe-se certa agudez nos versos que instigam reflex\u00f5es variadas aos leitores. Mulher l\u00e9sbica, poeta, declamadora e educadora, \u00e9 no encontro com o papel que o brilho de Ana se faz forte. Quando Ana declama, a\u00ed sim, \u00e9 <em>A\u00e7ofrio<\/em> entrando pelos olhos e ouvidos e significando ainda mais do que se pode denotar, no aqui e agora da arte!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16086\" aria-describedby=\"caption-attachment-16086\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/DESTAQUE-int-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16086 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/DESTAQUE-int-I.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/DESTAQUE-int-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/DESTAQUE-int-I-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16086\" class=\"wp-caption-text\">Ana Mendes \/ Foto: Talne Freitas<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Captar os m\u00faltiplos sentidos que a palavra assume, tanto no momento da feitura, quanto na emiss\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o da poesia, cremos ser uma das sensa\u00e7\u00f5es mais intensas vivenciados pelos poetas. Quando a poesia \u00e9 impressa em livros, esta troca se d\u00e1 com um intervalo de tempo mais espa\u00e7oso do que quando a obra \u00e9 declamada! Voc\u00ea participa junto com outros sete poetas do Coletivo itinerante <em>Di Rocha<\/em>, cujo lema principal \u00e9: \u201cPoesia pede rua!\u201d. Conte-nos um pouco sobre a experi\u00eancia de declamar seus poemas para o p\u00fablico, no aqui e agora da arte. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211; <\/strong>Grata pelo convite, esta \u00e9 uma linda oportunidade de me aproximar das pessoas que possam vir a ler meus poemas.\u00a0 Anterior ao Di Rocha, eu j\u00e1 me experimentava declamar na cidade de Natal, mais ou menos desde o final de 2014 para c\u00e1, pois o Di Rocha \u00e9 de 2016 e encerrou as atividades no mesmo ano. Ent\u00e3o, antes disso, eu j\u00e1 declamava em saraus improvisados ou organizados, festas (tipo &#8220;invadir a programa\u00e7\u00e3o&#8221; e irromper nas brechas, entre uma atra\u00e7\u00e3o e outra, com um poema), eventos culturais de modo geral. Declamar foi um desses acontecimentos \u00e9brios e espont\u00e2neos, fui percebendo sua potencialidade atrav\u00e9s das rea\u00e7\u00f5es das pessoas, a princ\u00edpio, e pelas sensa\u00e7\u00f5es que performar me suscitavam; n\u00e3o necessariamente nesta ordem, mas achei curioso dizer assim&#8230; Como todo acontecimento, n\u00e3o sabia ao certo tudo o que o impulsiona, mas sempre tentei refletir o que eu queria com isso, al\u00e9m de gostar da adrenalina (risos), isto \u00e9, o que fazer disso, a ponto, inclusive, de precisar dar uma pausa para pensar sobre. \u00a0Apesar de comunicativa e fazer um curso (Filosofia), que d\u00e1 uma boa base argumentativa, eu me percebi silente em alguns espa\u00e7os de debate (ou do cotidiano mesmo) por ene motivos. Assim, compreendi a voz-palco como a guisa de me projetar no mundo, ou, pelo menos, na cidade de Natal, j\u00e1 que sou uma interiorana estudando na capital, acredito que foi tamb\u00e9m a forma que encontrei de conhecer a cidade e me fazer conhecer. Sobre a experi\u00eancia em si, para mim, \u00e9 ato puro, pois tenho impress\u00e3o que minha mente\/pensamento, por alguns minutos, est\u00e1 em suspens\u00e3o. Acredito que declamar, no hoje, \u00e9 um manifesto de liberdade, seja qual for a forma\/estilo ou conte\u00fado do poema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em seus poemas h\u00e1 algumas men\u00e7\u00f5es a palavra erros, como no zine independente <em>Bigorna \u2013 di\u00e1rio de um cego<\/em>, onde, ao final, voc\u00ea assina: \u201cdiagrama\u00e7\u00e3o e todos os erros sobrepostos: Ana Mendes\u201d, al\u00e9m disso, voc\u00ea \u00e9 autora da p\u00e1gina <em>erro errante<\/em>, criada em 2017, na rede social Facebook, que funciona como uma vitrine com parte de seus escritos. Qual a acep\u00e7\u00e3o do <em>ritmo errante<\/em> em seus textos? H\u00e1 alguma rela\u00e7\u00e3o existencial? A seu ver, em qual medida o erro \u00e9 importante \u00e0 exist\u00eancia humana e qual sentido eles tomam em seus poemas?<\/strong><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211; <\/strong><em>Birgorna<\/em> foi minha primeira zine, a vers\u00e3o que te passei foi a primeirinha.\u00a0 A frase no final era uma ironia aos poss\u00edveis erros gramaticais e de estrutura, que eu poderia ter deixado passar. N\u00e3o apenas ironia, por\u00e9m assumindo os &#8220;erros&#8221; que s\u00e3o pr\u00f3prios de escritos de di\u00e1rio, uma vez que fiz uso de &#8220;automatismo&#8221;, isto \u00e9, deixar me levar pelo subconsciente.\u00a0 Em outra vers\u00e3o, tem a revis\u00e3o de Ayrton Alves (risos). Bom, creio que <em>Bigorna<\/em> \u00e9 um marco. Porque eu tive muita resist\u00eancia de criar um material f\u00edsico, pois era um tipo de &#8220;exposi\u00e7\u00e3o&#8221;, que foge do meu controle, ao contr\u00e1rio do blog, da p\u00e1gina no <em>Facebook<\/em>. Mas \u00e9 marco n\u00e3o apenas por isso, porque tamb\u00e9m \u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o na minha forma de escrever, aqui assumo a prosa e certo surrealismo. Apropriei-me de erro e err\u00e2ncia, refletindo sobre como me sentia na \u00e9poca e ampliei isso para uma perspectiva mais &#8220;universalista&#8221; sobre a vida. Ent\u00e3o, sim, possu\u00eda uma veia existencialista nesse movimento. Apropriei-me das palavras tamb\u00e9m, como que relembrando a mim do engodo da perfei\u00e7\u00e3o, dessa busca obsessiva que, por vezes, caio. Quando criei a p\u00e1gina era a fim de dar mais visibilidade aos textos, de perder o medo de me expor, pois at\u00e9 ent\u00e3o utilizava apenas no blog e num grupo de <em>Facebook<\/em>. Mas, com o passar do tempo, fui percebendo que erro errante se tratava de um projeto, de me tornar mais \u00edntima de mim mesma e da minha escrita, a tentativa de romper com minha pr\u00f3pria maneira de escrever, fazendo uso do automatismo e depois &#8220;lapidando&#8221;, retirando v\u00edrgulas, mai\u00fasculas, quebrando a sequ\u00eancia das ora\u00e7\u00f5es, por exemplo, e, contraditoriamente, empreender a busca por uma identidade. Sobre a import\u00e2ncia do erro: acredito que quando n\u00e3o o confundimos com a perspectiva crist\u00e3 de pecado, \u00e9 uma del\u00edcia, pois \u00e9 abertura aos m\u00faltiplos significados na literatura e, tamb\u00e9m, se atentarmos mais aos processos do que \u00e0 finalidade (o certo), iremos perceber o qu\u00e3o plural foi o aprendizado sobre algo (na educa\u00e7\u00e3o). Ent\u00e3o, meu exerc\u00edcio \u00e9 me voltar mais ao movimento de cada &#8220;estilo&#8221; de escrever (quando observo meus poemas antigos) do que uma execu\u00e7\u00e3o fidedigna do que projetei &#8211; isso quando o escrito tem uma intencionalidade &#8220;tra\u00e7ada&#8221;. N\u00e3o sei se expliquei direito (risos). Hoje, acredito que estou muito mais anal\u00edtica do que errante, mas gosto de relembrar os processos pelos quais passei&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Falando em processos, conte-nos: como ocorrem seus processos criativos? Muito da abordagem est\u00e9tica dos poemas decorre das influ\u00eancias e viv\u00eancias dos seus criadores. No poema \u201cEscrever poemas \u00e9&#8230;\u201d, voc\u00ea deixa escapar algumas dicas de como sua criatividade passeia por<em> um eterno pique esconde<\/em> <em>\/ de enxergar o olho ocultar o choro<\/em>. Seu <em>locus <\/em>social enquanto mulher l\u00e9sbica influencia em sua poesia? De que maneira isso reverbera?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211;<\/strong> Acho que n\u00e3o sei responder a estas perguntas, acredita? Mas posso tentar pensar aqui e agora alguns elementos: sobre processos criativos, quando os mencionei, \u00e9 como um olhar em retrospectiva, de ter me percebido mudando. Mas h\u00e1 algumas inten\u00e7\u00f5es que sempre me permearam, como, por exemplo, intentar poemas concretos e poemas cada vez mais concisos e precisos, ainda que sempre me parta de um &#8220;descontrole&#8221;, quando bate a vontade de escrever, isto \u00e9, n\u00e3o tenho muito controle no exato momento que tenho vontade de escrever. \u00c0s vezes, parto de palavras espec\u00edficas, que vejo se repetirem nas minhas leituras. Talvez muito do meu processo criativo se d\u00ea por repeti\u00e7\u00e3o, ou seja, aquilo que sempre me visita, em sons\/gestos, ideias, imagens. Fico intrigada quando estou &#8220;perseguindo&#8221; a mesma coisa, por certo tempo. Ultimamente, tem sido elementos b\u00e9licos. Sobre ser mulher l\u00e9sbica, creio que sim, reverbera, s\u00f3 n\u00e3o sei descrever como na poesia ou em processos criativos isso se d\u00ea. Mas fa\u00e7o quest\u00e3o de declamar um poema que tenha algum conte\u00fado expl\u00edcito sobre minha sexualidade, o amor por uma mulher, entre outros. Inclusive, a primeira coisa que tentei escrever (acho que aos doze anos) foi uma m\u00fasica que eu falava que gostava de uma &#8220;pessoa&#8221;. No come\u00e7o, eu ocultava os pronomes femininos para que ningu\u00e9m soubesse. Mas acredito que parte de n\u00e3o saber responder tua pergunta tamb\u00e9m seja porque estou refletindo muito sobre meu g\u00eanero, e isso perpassar, experimentar a minha feminilidade e masculinidade, ou algo entre os dois. O que ainda posso comentar sobre ser l\u00e9sbica e a poesia \u00e9 que fico puta em ver que quando n\u00f3s temos espa\u00e7o na literatura, ou quando somos reconhecidas em certos espa\u00e7os, \u00e9 sempre atrav\u00e9s da poesia er\u00f3tica, que, para mim, s\u00f3 escancara o quanto h\u00e1 de fetichismo e hipersexualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16087\" aria-describedby=\"caption-attachment-16087\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/INTERNA-m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16087 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/INTERNA-m.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/INTERNA-m.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/INTERNA-m-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/INTERNA-m-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16087\" class=\"wp-caption-text\">Ana Mendes \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na sua fala \u201cquando somos reconhecidas em certos espa\u00e7os, \u00e9 sempre atrav\u00e9s da poesia er\u00f3tica, que para mim s\u00f3 escancara o quanto h\u00e1 de fetichismo e hipersexualiza\u00e7\u00e3o<em>\u201d <\/em>h\u00e1 uma clara den\u00fancia \u00e0 constru\u00e7\u00e3o estereotipada da mulher l\u00e9sbica dentro do campo editorial. Estereotipa\u00e7\u00e3o essa que condiciona a escritora a uma tem\u00e1tica espec\u00edfica: a er\u00f3tica. Qual o mecanismo utilizado por voc\u00ea para se desvincular dessa armadilha? Al\u00e9m disso, h\u00e1 entre os seus escritos textos que problematizem estas quest\u00f5es? Se n\u00e3o, quais os perigos em se abordar estas quest\u00f5es de identidade do mercado liter\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211;<\/strong> Sendo curta e grossa: eu n\u00e3o escrevo mais poemas er\u00f3ticos, e, se escrevo, n\u00e3o publico <em>online<\/em> e tento experimentar passear por estilos de escrita de tempos em tempos. De imediato, n\u00e3o foi uma escolha consciente, mas, quando li sua pergunta sobre quais mecanismos utilizo, me veio essa resposta s\u00fabita. Sobre a segunda pergunta, acredito que, quando voltei a escrever em 2014, eu problematizava muito sobre a quest\u00e3o da gram\u00e1tica, n\u00e3o apenas como cr\u00edtica, mas foi tamb\u00e9m a guisa de expurgar a ideia de n\u00e3o ser &#8220;boa&#8221;, por n\u00e3o dominar tudo da gram\u00e1tica e da hist\u00f3ria da literatura. Sobre os perigos, eu n\u00e3o saberei responder a essa quest\u00e3o porque, sinceramente, n\u00e3o penso a respeito do &#8220;mercado liter\u00e1rio&#8221; convencional como um risco ou obst\u00e1culo para mim. Por que eu estou no mundo, sabe? A melhor publicidade \u00e9 estar na rua, trocando com as pessoas, e outra, estou atenta \u00e0s micro editoras e pessoas que desenvolvem seus trabalhos alternativos e afetivos em suas produ\u00e7\u00f5es, como a Muganga Edi\u00e7\u00f5es (RN), Sol Negro (RN) Pad\u00ea Editorial (DF). Numa perspectiva mais crua, empoderamento e quest\u00f5es identit\u00e1rias ganham cada vez mais for\u00e7a, portanto, vendem. Ent\u00e3o, acho que o mercado deva se adaptar (suponho que j\u00e1 esteja, pois capitalismo \u00e9 isso (risos)). No mais, boto f\u00e9 em micropol\u00edticas; por isso, minha aten\u00e7\u00e3o voltada para essas editoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No que toca as tem\u00e1ticas, quando analisamos a hist\u00f3ria da escrita das mulheres, notamos que existe uma grande luta no sentido de colocar a voz da mulher enquanto uma voz humana, capaz de falar sobre mais variados temas. Isso porque, durante muito tempo, os temas ditos universais eram reservados aos homens, enquanto \u00e0s mulheres foi oferecido o recorte \u201cliteratura feminina\u201d. Nesse sentido, tamb\u00e9m caminhou o espa\u00e7o reservado \u00e0s escritoras l\u00e9sbicas. Como voc\u00ea enxerga o comportamento do mercado liter\u00e1rio com rela\u00e7\u00e3o a sua literatura? Qual import\u00e2ncia tem a colet\u00e2nea <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, que utiliza selo <em>online<\/em>, como forma de driblar a din\u00e2mica desse mercado?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211; <\/strong>Huumm&#8230;\u00a0 fiquei surpresa e grata com o convite da Daniela Galdino. Um convite como este, que integra uma diversidade de mulheres e de conte\u00fados &#8211; pelo modo que foi e \u00e9 manejado (muito dialogado e articulado para dar visibilidade a singularidade da todes) &#8211; amadureceu minha vis\u00e3o sobre produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o da literatura, como tamb\u00e9m me p\u00f4s a refletir sobre o meu ser escritora e o que eu queria disso, ou seja, amadureceu minha confian\u00e7a, pois algu\u00e9m (que admiro o trabalho) gosta e confiou naquilo que produzo. Assim, creio que a import\u00e2ncia e o diferencial do projeto \u00e9 o di\u00e1logo que a colet\u00e2nea <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> estabelece entre ela e o social, a fim de resolver o problema\u00a0 que \u00e9 a invisibilidade do nosso trabalho liter\u00e1rio e intelectual. Sobre o mercado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha literatura, irei me ater a minha cidade e como tenho visto a din\u00e2mica por aqui, pois minha viv\u00eancia sobre publica\u00e7\u00f5es que envolvam outrem \u00e9 muito restrita, j\u00e1 que produzo independentemente meu material (zines). No geral, vejo que h\u00e1 poucas editoras interessadas numa troca sincera para al\u00e9m do lucro. Ser\u00e1 que beiro a ingenuidade descrevendo assim? (risos). Percebo como h\u00e1 um movimento de usura, de apropria\u00e7\u00e3o de algumas lutas para obter vantagem (financeira) apenas para si, uma vez que o &#8220;apoio&#8221; \u00e0s pautas \u00e9 apenas pontual e n\u00e3o sistem\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A autopublica\u00e7\u00e3o pode guardar duas faces distintas, por um lado o autor tem a liberdade criativa garantida, por outro, a responsabilidade sobre o processo de distribui\u00e7\u00e3o aumenta significativamente. Voc\u00ea disse que produz independentemente o seu material (zines). Explique sobre esta forma de auto publicar. O que \u00e9 uma zine? Qual a din\u00e2mica da produ\u00e7\u00e3o e da divulga\u00e7\u00e3o?\u00a0 Aproveite e fale um pouco sobre as tem\u00e1ticas abordadas por voc\u00ea nestes materiais. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES \u2013<\/strong> Ah! <em>Zine<\/em>, a palavra \u00e9 um diminutivo de <em>fanzine<\/em>, que consistia numa revista improvisada (n\u00e3o profissional) e de baixo custo de produ\u00e7\u00e3o, feita por f\u00e3s, sobre bandas ou outro conte\u00fado, que surgiu nos EUA no s\u00e9culo 19. Foi largamente utilizada com diversas inten\u00e7\u00f5es, tanto no movimento punk, liter\u00e1rio e de artes gr\u00e1ficas, como \u00e9 o caso dos quadrinhos. No Brasil, \u00e9 conhecida como qualquer produ\u00e7\u00e3o independente e muito usada pelo movimento liter\u00e1rio. Sobre a din\u00e2mica de produ\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o, sigo intuitiva e org\u00e2nica. Produzo conforme vai me batendo a vontade de ir a algum evento cultural da cidade; no geral, sigo escrevendo e &#8220;guardando&#8221; material e, quando vejo ali um padr\u00e3o de narrativa, passo a organizar para impress\u00e3o. Assim, por ser uma produ\u00e7\u00e3o\/escrita espont\u00e2nea, n\u00e3o h\u00e1 uma tem\u00e1tica escolhida de antem\u00e3o. Mas sobre os temas nos <em>zines<\/em> j\u00e1 publicados: <em>Bigorna, di\u00e1rio de um cego<\/em> \u00e9 um relato em prosa, em micro textos, de sonhos; <em>Prazer, Pega Mata e Come<\/em> s\u00e3o pequenos poemas er\u00f3ticos; <em>Terno<\/em>, concisos poemas sobrepostos como c\u00edlios, escritos movidos pelo tom terno de conte\u00fados diversos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nas imagens contidas na obra <em>Profundan\u00e7as 2<\/em>, voc\u00ea tem um olhar bem emblem\u00e1tico, forte, al\u00e9m disso algumas delas est\u00e3o em preto e branco. Fale um pouco sobre o processo criativo dessas fotografias. Voc\u00ea p\u00f4de dar sugest\u00f5es ou aprovar as imagens? Outra coisa, o quanto de Ana Mendes h\u00e1 naqueles frames? Conte um pouco de sua trajet\u00f3ria enquanto intelectual e escritora fazendo uma correla\u00e7\u00e3o com as imagens da colet\u00e2nea. <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES \u2013<\/strong> Ah! Adorei a ideia de uma antologia liter\u00e1ria e fotogr\u00e1fica, as fotos deram corpo e cor \u00e0 diversidade liter\u00e1ria ali. Inclusive, nunca tinha feito um ensaio antes. Sobre o processo criativo das fotografias, foi algo bem dialogado entre n\u00f3s, eu e Josi Oliveira, a fot\u00f3grafa. Ela captou bem as caracter\u00edsticas recorrentes nas minhas fotografias pessoais postadas no <em>Instagram<\/em>, como tamb\u00e9m daquilo que, por vezes, se faz inten\u00e7\u00e3o nelas, que \u00e9 propriamente esse jogo de luz (claro e escuro). Tamb\u00e9m tentamos aproveitar o espa\u00e7o que t\u00ednhamos dispon\u00edvel, utilizando como cen\u00e1rio alguns bairros que gosto muito na cidade de Natal, a Ribeira Cidade Alta e Alecrim, por exemplo. Sobre o que h\u00e1 de Ana naquelas fotos, hoje, talvez uma objetividade mais concreta a respeito desse jogo de luz: comecei a fotografar e filmar, neste ano, com uma c\u00e2mera mesmo (antes s\u00f3 por celular). Minha trajet\u00f3ria intelectual&#8230; Bom, acredito que comecei a pensar mais sistem\u00e1tica\/filosoficamente sobre o entremeio da filosofia e poesia, por\u00e9m &#8220;performando&#8221; n\u00e3o apenas com a declama\u00e7\u00e3o, mas utilizando de recursos audiovisuais, nos quais n\u00e3o sou a protagonista, a princ\u00edpio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O seu poema sem t\u00edtulo publicado em <em>Profundan\u00e7as 2<\/em> \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o muito forte, com imagens e\u00a0 mensagens bem diretas: \u201cSempre que resisto\/ Sou arrastada, esfolada, pisoteada. (&#8230;) Quem eu sou?\/ Sou o sonho da Humanidade\/ Que voc\u00eas esquecem e perseguem\u201d. Acreditamos ser uma poesia de protesto. Fale um pouco sobre as den\u00fancias pretendidas por este poema. Em qual lugar de sua identidade ele toca? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211;<\/strong> Este \u00e9 o poema que acho muito &#8220;completo&#8221; e o que uso de front em todo espa\u00e7o novo, portanto, \u00e9 um poema para ser declamado.\u00a0 Foi escrito em 2016, ap\u00f3s o rompimento da barragem da Samarco (empresa da Vale) de Mariana, num per\u00edodo no qual estava acontecendo muita coisa e eu estava muito atenta. Ah! Enquanto recorte, este poema \u00e9 medo e viol\u00eancia, por esta mulher, LGBTGI+, baixa renda e tamb\u00e9m fala sobre muitos dos meus, em outros recortes de situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O poema \u00e9 uma catarse que denuncia a situa\u00e7\u00e3o de medo e vulnerabilidade vivenciada pela comunidade LGBTGI+, no Brasil e no mundo. Mas um trecho chama a aten\u00e7\u00e3o pela sua men\u00e7\u00e3o \u00e0 parte oriental do globo: \u201cAfogam-me na lama\/ Me bombardeiam no oriente \/ \u00c0s vezes, caminho com um fuzil \/ Que me pesa mais que meu corpo\/ E a fome, minha companhia insepar\u00e1vel\u201d. Se poss\u00edvel, fale-nos um pouco mais sobre o processo criativo e a rede de significados presentes em seu poema.<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211;<\/strong> Confesso que receio dissecar demais o poema, mas tendo em vista seu conte\u00fado, acho necess\u00e1rio discutir sim. Bom, como foi escrito em 2016 n\u00e3o recordo muito bem, mas lembro de ter escrito de uma vez s\u00f3 e precisei fazer pouqu\u00edssimos arranjos, de t\u00e3o s\u00fabito. Deu-se a partir de diversas imagens, que ora oscilam sobre o oriente, ora quanto \u00e0s periferias do Brasil. Intentei uma diversidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por fim, estamos em um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o presidencial bastante delicada, favorecida por uma onda conservadora bastante forte. Como voc\u00ea analisa a atual conjuntura? Quais seus sentimentos e progn\u00f3sticos para os pr\u00f3ximos anos, no Brasil? Qual papel assume a arte nos processos de resist\u00eancia? Quais reflex\u00f5es imediatas que movimentos de repress\u00e3o provocam em voc\u00ea, enquanto escritora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA MENDES &#8211;<\/strong> Uau&#8230; Muitas quest\u00f5es. Ent\u00e3o, h\u00e1 um tempo venho no autocuidado de me preservar e fortalecer, filtrando pessoas, ambientes e discursos. Apesar de uma sensa\u00e7\u00e3o de maior sobriedade, de perceber todos esses movimentos individuais e pol\u00edticos, n\u00e3o me sinto h\u00e1bil para fazer uma explana\u00e7\u00e3o sobre a conjuntura de modo geral, por\u00e9m, me vem uma palavra: estreitamento, de direitos e oportunidades, portanto, de realizar sonhos, sim, sonhos, proje\u00e7\u00f5es de n\u00f3s mesmos em outro espa\u00e7o-tempo, em plenitude e com dignidade. Em 2019, me formo, sem perspectiva de atuar como professora de Filosofia (algo que descobrir que gosto e quero, de fato). Por\u00e9m, em 2018, quando precisei repor a grana da bolsa do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 Doc\u00eancia) do qual participava (foi ent\u00e3o que trabalhei num sebo, desde abril), ent\u00e3o eu percebi o qu\u00e3o \u00e9 improviso e tamb\u00e9m poss\u00edvel delinear estrat\u00e9gias a longo prazo (dentro de um ano?!). Precisamos nos lembrar da experi\u00eancia de ver pessoas fora da bolha da universidade, tanto em coletivos como tamb\u00e9m individualmente (minha m\u00e3e), que se fazem de improviso-estrat\u00e9gias, desde sempre, n\u00e3o se encerrando numa perspectiva de medo. Assim, atentar o olho para o que acontece em minha cidade e atuar cotidianamente-vivendo, habitando a cidade, em toda sua confusa intera\u00e7\u00e3o. Desde eventos culturais \u00e0s economias criativas, interc\u00e2mbio de conhecimentos e autocuidados em pr\u00e1ticas. Como exemplo, pretendo dividir, junto ao Ateli\u00ea Sunsarara, uma oficina\/minicurso de argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, o ateli\u00ea da artista visual (grafiteira) Solar Shana Prec\u00e1ria, que visa criar um espa\u00e7o, no qual se re\u00fanam mulheres, para trocar conhecimentos e artes, regularmente, em 2019. Ent\u00e3o, acredito que a arte, pelo menos em minha vida, enquanto catarse me provoca uma \u201cfor\u00e7a-cuidado\u201d criativa de me projetar no mundo, \u00e9 minha espinha dorsal. Desse modo, enquanto escritora\/performer\/educadora, estou atenta aos improvisos-estrat\u00e9gias que possam me desviar. Desejando que as repress\u00f5es n\u00e3o alcancem meu \u00edntimo e oferecendo, no di\u00e1logo com o outro, a mesma brecha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Elis Matos<\/em><\/strong><em> \u00e9 \u201ccria\u201d da Universidade Estadual de Santa Cruz, licenciada em Filosofia e bacharela em Comunica\u00e7\u00e3o Social, especialista em Gest\u00e3o Cultural e mestranda em Linguagens e Representa\u00e7\u00f5es. Trabalhou enquanto Coordenadora de oficinas, workshop e mesa do Festival de Cinema Baiano, nas suas IV, V e VI edi\u00e7\u00f5es. Pesquisadora, cronista e palestrante feminista, lan\u00e7ou a tag #ondeofeminismomechamaeuvou e vai!\u00a0 Aprendeu a sonhar uma vida justa at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias\u2026<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Planando por sobre o territ\u00f3rio da identidade, Elis Matos entrevista a poeta, fot\u00f3grafa e performer Ana Mendes<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16085,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3603,16,2539],"tags":[3604,3482,63,3485,3383],"class_list":["post-16084","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-129a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-ana-mendes","tag-elis-matos","tag-entrevista","tag-identidade","tag-profundancas-2"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16084"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16084\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16088,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16084\/revisions\/16088"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16085"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}