{"id":16095,"date":"2019-03-07T11:46:08","date_gmt":"2019-03-07T14:46:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16095"},"modified":"2019-03-16T20:25:38","modified_gmt":"2019-03-16T23:25:38","slug":"aperitivo-da-palavra-i-23","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-23\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Literatura que n\u00e3o economiza no humor e na fantasia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Geraldo Lima<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Capa-Parreira-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16144\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Capa-Parreira-int.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Capa-Parreira-int.jpg 302w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Capa-Parreira-int-201x300.jpg 201w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claudio Parreira \u00e9 desses escritores que enxergam a realidade pela \u00f3tica da zombaria, do humor, do escracho. Sua cr\u00edtica aos poderosos ou ao comportamento humano passa sempre pelo rebaixamento ou pela a\u00e7\u00e3o de despir qualquer gesto grandioso da sua aura de import\u00e2ncia. Na sua narrativa n\u00e3o cabem a sisudez, a dramaticidade ou o discurso grandiloquente. N\u00e3o que ela seja marcada pela frivolidade, muito pelo contr\u00e1rio: esse seu car\u00e1ter de desconstru\u00e7\u00e3o do que se determina como s\u00e9rio aponta exatamente para a descren\u00e7a do autor na ideia de reden\u00e7\u00e3o do ser humano por interm\u00e9dio de um discurso edificante. Claudio Parreira \u00e9, nesse sentido, um pessimista. Da\u00ed o modo zombeteiro com que trata literariamente as afli\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 esse modo de narrar irreverente que o leitor encontra em <em>A Lua \u00e9 um grande queijo suspenso no c\u00e9u<\/em>, romance que o autor publicou, em 2017, pela Editora Penalux.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os que leram <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>, de Machado de Assis, fica mais f\u00e1cil entrar no clima fant\u00e1stico e irreverente desse romance de Parreira. N\u00e3o que isso se imponha como exig\u00eancia para se entender a hist\u00f3ria contada por ele, mas, com certeza, os que leram a referida obra de Machado v\u00e3o sacar de imediato que o romance <em>A Lua \u00e9 um grande queijo suspenso no c\u00e9u<\/em> dialoga diretamente com ela. N\u00e3o s\u00f3 dialoga, como traz, para dentro da sua narrativa, a figura do Bruxo do Cosme Velho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSem considerar o absurdo de estar conversando com algu\u00e9m, digamos, tecnicamente morto, mandei uma pergunta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 O que \u00e9 que voc\u00ea, senhor&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Assis. M. Assis ao seu dispor \u2013 ele respondeu, o cigarro lan\u00e7ando uma fuma\u00e7a pregui\u00e7osa para o alto\u201d [p\u00e1g. 35].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 semelhan\u00e7a do livro de Machado de Assis, o romance de Parreira traz tamb\u00e9m um defunto-autor [que faz constante uso da metalinguagem e da intertextualidade]. S\u00f3 que, neste caso, um defunto-autor que est\u00e1 escrevendo um di\u00e1rio, cujos eventos d\u00e3o-se entre os muros de um cemit\u00e9rio. O livro abre, na verdade, com um pr\u00f3logo narrado em terceira pessoa. Nesse pr\u00f3logo, sabemos que um corpo est\u00e1 sendo levado para o IML, numa ambul\u00e2ncia, acompanhado por um m\u00e9dico e um enfermeiro.\u00a0 Junto ao corpo encontra-se um caderno. E \u00e9 atrav\u00e9s da leitura, feita pelo m\u00e9dico, do que est\u00e1 escrito nesse caderno que somos conduzidos \u00e0 hist\u00f3ria que se passa no interior de um cemit\u00e9rio. Essa hist\u00f3ria, para espanto do leitor, ainda est\u00e1 sendo escrita pelo protagonista, que, inicialmente, denomina-se Paf\u00fancio [a quest\u00e3o do duplo \u00e9 uma das tens\u00f5es presentes na narrativa]: \u201c\u2013 Admiro a sua determina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil viver uma aventura e escrev\u00ea-la ao mesmo tempo\u201d (p\u00e1g. 109). Essa trama pode parecer absurda e inveross\u00edmil num primeiro momento, mas, durante o desenrolar da narrativa, somos constantemente alertados de que, ali, no reino dos mortos [e no reino da fantasia, tamb\u00e9m!], tudo \u00e9 poss\u00edvel. O engra\u00e7ado \u00e9 que, assim como a protagonista da pe\u00e7a Valsa n\u00ba 6, de Nelson Rodrigues, o tal Paf\u00fancio n\u00e3o se reconhece como morto. E vai levar um bom tempo at\u00e9 reconhecer a sua nova condi\u00e7\u00e3o, apesar de todas as evid\u00eancias de que j\u00e1 n\u00e3o se encontra no mundo dos vivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Br\u00e1s Cubas, no al\u00e9m-t\u00famulo, decide escrever suas mem\u00f3rias com \u201ca pena da galhofa e a tinta da melancolia\u201d, o personagem de Parreira n\u00e3o far\u00e1 muito diferente: com a caneta da galhofa e da fantasia, ele, instigado por outro personagem, o misterioso Bernab\u00e9, d\u00e1 in\u00edcio \u00e0s suas idas e vindas em busca da panaceia, neste caso, pela cura do grande mal que aflige a humanidade: a Mis\u00e9ria. A partir da\u00ed, o que se v\u00ea \u00e9 o <em>nonsense<\/em>, o fant\u00e1stico, a irrever\u00eancia, num universo em que se misturam vivos e mortos. Esse jogo entre vida e morte, entre o anseio pelo conhecimento e a d\u00favida de que se vale a pena mesmo busc\u00e1-lo, cria uma certa tens\u00e3o entre o protagonista e aquele que o instigou a procurar a panaceia. Mas nada a\u00ed se prop\u00f5e a criar discuss\u00f5es muito engajadas ou climas dram\u00e1ticos. Quando a narrativa se encaminha nessa dire\u00e7\u00e3o, o defunto-autor trata logo de desconstru\u00ed-la, apelando, at\u00e9 mesmo, para o ju\u00edzo cr\u00edtico do autor de <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPoucos fatos, \u00e9 verdade, mas ainda assim. Esta seria, portanto, a minha salva\u00e7\u00e3o (e a de Bernab\u00e9 tamb\u00e9m) e, paradoxalmente, a minha maldi\u00e7\u00e3o. \u00d3!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2013 Larga m\u00e3o de ser dram\u00e1tico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O forte cheiro de cigarro n\u00e3o deixou d\u00favidas: era o tal M. Assis de novo&#8230;\u201d (p\u00e1g. 107).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No esfor\u00e7o de afastar o discurso de qualquer tom solene, o autor procura manter a linguagem num n\u00edvel menos elevado, apelando, \u00e0s vezes, para a linguagem chula, coloquial. \u201cEm busca da f\u00f3rmula de porra nenhuma, de uma panaceia t\u00e3o concreta quanto um unic\u00f3rnio\u201d (p\u00e1g. 53). \u201cEstava sobre uma laje de m\u00e1rmore fria pacar\u00e1i\u201d (p\u00e1g. 99).\u00a0 Assim, qualquer palavra mais sofisticada ou express\u00e3o mais po\u00e9tica da linguagem que apare\u00e7am, como que por descuido do narrador, eis que s\u00e3o logo sacaneadas, rebaixadas, usando-se, para isso, divertidas notas de rodap\u00e9. \u201c\u2013 Bobagem \u2013 pensei enquanto o vento chicoteava meu rosto e cabelos com a f\u00faria das suas car\u00edcias.\u201d\u00b2<sup>9<\/sup> E a nota de rodap\u00e9: \u201c29. Deusolivre! Que express\u00e3o&#8230;\u201d (p\u00e1g. 81).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tom da narrativa de Claudio Parreira \u00e9 esse. E nessa narrativa marcada pelo gracejo impera a constante desconstru\u00e7\u00e3o do sentido elevado da linguagem. Cabe ent\u00e3o ao leitor desconstruir-se tamb\u00e9m e entregar-se ao clima de goza\u00e7\u00e3o que a permeia. Muitas vezes, somos alertados pelos autores sobre os riscos ou consequ\u00eancias da leitura da sua obra [o que s\u00f3 nos instiga mais ainda a l\u00ea-la]. \u00a0Assim o faz Lautr\u00e9amont [ou o eu l\u00edrico\/narrador dos seus Cantos de Maldoror] logo no Canto Primeiro: \u201cN\u00e3o conv\u00e9m que qualquer um leia as p\u00e1ginas a seguir; s\u00f3 alguns conseguir\u00e3o saborear este fruto amargo sem maiores riscos. (&#8230;) Ouve bem o que te digo: dirige teus passos para tr\u00e1s e n\u00e3o para frente, assim como os olhos de um filho que se afasta respeitosamente da contempla\u00e7\u00e3o augusta do rosto materno\u201d (p\u00e1g. 31). Ou o pr\u00f3prio Br\u00e1s Cubas, em tom bem debochado: \u201cA obra em si mesma \u00e9 tudo; se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te n\u00e3o agradar, pago-te com um piparote, e adeus\u201d (p\u00e1g. 12). \u00a0Parreira, ou seu defunto-autor, s\u00f3 vai se dirigir ao leitor, nesses termos, l\u00e1 para a p\u00e1gina 41, quando percebe que a sua narrativa circular, ou seu eterno retorno ao ponto de partida, pode enfastiar o leitor mais impaciente: \u201cMas aqui, c\u00e1 entre n\u00f3s, j\u00e1 percebi uma coisa: esta narrativa vai e volta, se enrola sobre si mesma, n\u00e3o fode nem sai de cima. Acho que \u00e9 bom dar logo um norte a esse neg\u00f3cio, sen\u00e3o voc\u00eas a\u00ed podem ficar entediados e fechar o livro, o que n\u00e3o \u00e9 bom pra mim e muito menos para a editora. Sigamos ent\u00e3o!\u201d (p\u00e1g. 41).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, caro leitor, mergulhe sem medo nas p\u00e1ginas f\u00fanebres e delirantes dessa obra de Claudio Parreira e se divirta um bocado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lima <\/em><\/strong><em>\u00e9 escritor, dramaturgo e roteirista.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Lima escreve sobre \u201cA Lua \u00e9 um grande queijo suspenso no c\u00e9u\u201d, romance de Claudio Parreira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16208,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3603,2533,16],"tags":[11,2087,250,3619,496],"class_list":["post-16095","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-129a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-claudio-parreira","tag-geraldo-lima","tag-penalux","tag-romance"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16095"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16095\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16147,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16095\/revisions\/16147"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}