{"id":16177,"date":"2019-03-15T09:39:45","date_gmt":"2019-03-15T12:39:45","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16177"},"modified":"2019-05-19T11:38:16","modified_gmt":"2019-05-19T14:38:16","slug":"dedos-de-prosa-i-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-64\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16180\" aria-describedby=\"caption-attachment-16180\" style=\"width: 354px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Sumauma.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16180 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Sumauma.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Sumauma.jpg 354w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Sumauma-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16180\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Joana Velozo<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por um bunker<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem sa\u00edda, empreendi esta fuga. Havia uma ladeira no caminho para o trabalho, e aquelas \u00e1rvores j\u00e1 conhecidas suas. Passei por elas feito um foguete. Parei rapidamente no mercado para retomar o f\u00f4lego e ent\u00e3o segui em disparada, sempre em frente. Onde daria, n\u00e3o sei. S\u00f3 queria estar ainda mais longe. \u00c9 que, de repente, at\u00e9 minha cidade se tornara sua. E eu j\u00e1 n\u00e3o suportava mais estas paisagens. Nem mesmo o mar, o muro do mar. Foi quando decidi optar pelos livros, onde j\u00e1 me abrigara com sucesso tantas vezes. Olhei minhas estantes de universo, quantos seiscentos e tantos enredos a esperar por este personagem. Tal o desespero, que cabia at\u00e9 em a obra de arte na era de sua reprodutibilidade t\u00e9cnica. Me encaixava em Benjamin sem eixo. Firme em n\u00e3o desistir, ainda que as pernas quase n\u00e3o aguentassem o peso, do corpo que se movia e se movia e se movia. Tal o desespero que cabia em diante da dor de Susan Sontag. Neste, s\u00f3 por ironia. Insone. Lendo e relendo Fante. Aut\u00f4mato do pensamento, rumo \u00e0s teses que me sustentariam, esp\u00e9cie desajeitada de esqueleto. Pensei criar ali um bunker como o de Hitler. E enquanto as tropas aliadas n\u00e3o o destru\u00edssem, de l\u00e1 comandaria meu ex\u00e9rcito. Fechado em mim, sempre correndo, parei numa pra\u00e7a, revi o gramado e as flores. Havia minado o gramado, esmagado com meus p\u00e9s as flores. Sentei um pouco em um de seus bancos de concreto, neoconcreto, mas sem sintaxe. Talvez ningu\u00e9m me alcan\u00e7asse. Ali, invis\u00edvel, silencioso como se n\u00e3o existisse. Como algu\u00e9m que prende a respira\u00e7\u00e3o para mergulhar e simplesmente esquece. Como quem entra num autom\u00f3vel, a m\u00e1quina im\u00f3vel segue rumo imprevis\u00edvel. Confiaria. Em nova pausa, parei ofegante a olhar os folhetos coloridos na vitrine de uma ag\u00eancia de viagens. Para onde? Haveria certamente algum destino. Qual era mesmo o nome da ilha ao meio-dia? Aquela nossa ilha ao meio-dia. Voc\u00ea sabe. Todas aquelas coisas que julgara nossas e que foram apenas minhas. Ilus\u00f5es pedem perd\u00e3o. S\u00f3 assim se consegue ir adiante. Mas sem parar \u00e9 quase perto, quase. Se mais corresse, \u00e9 certo, se mais e mais e mais corresse, quem sabe, finalmente me aproximaria. Ap\u00f3s cruzar este pa\u00eds inteiro, chegar \u00e0 rua em que voc\u00ea vivia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um ver\u00e3o invenc\u00edvel <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A espera da chuva me comove. A frase soou como se eu houvesse proferido uma heresia antes. Falei que um dia de sol faz esquecer que a morte existe. Pensava nisso aquela tarde, caminhando no condom\u00ednio, quando a tempestade veio. T\u00e3o forte que parecia que o universo inteiro chacoalhava por dentro. A chuva me deprime, pensei em sil\u00eancio, adiando alguma intimidade. N\u00e3o queria contar a ela sobre a casa da inf\u00e2ncia. Papai amarrando um pl\u00e1stico com barbante, abaixo do teto de telhas v\u00e3s, sobre nossas camas. Fic\u00e1vamos vigiando enquanto a bolha enchia de \u00e1gua, at\u00e9 os olhos n\u00e3o aguentarem. No dia seguinte, mam\u00e3e mergulharia as pernas na enxurrada, tentando salvar os m\u00f3veis. Sentia vergonha ainda. Nada denunciava minha expertise, quando via fam\u00edlias que perdem todas as suas coisas. N\u00e3o havia raz\u00e3o para dizer a ela que fui uma dessas crian\u00e7as pobres que temem a chuva ou entregar em suas m\u00e3os algo que me revelasse. Uma dist\u00e2ncia s\u00f3bria seria nossa ponte, de prefer\u00eancia t\u00e3o longa quanto Danyang\u2013Kunshan. Que aquela mo\u00e7a ficasse em Xangai e me deixasse quieta em Nanjing. Mas ent\u00e3o ela se aproximou da sacada da casa onde est\u00e1vamos, por um desses acasos imprevis\u00edveis, porque havia um jardim de inverno, e seus dedos finos desenharam no ar, pr\u00f3ximo da minha cabe\u00e7a, o que imaginei ser uma pequena \u00e1rvore. Observava, l\u00e1 fora, o c\u00e9u cinzento, certamente comovida. Logo, logo, choveria. Tristeza, \u00e0s vezes, \u00e9 pesada feito nuvem. Um retrato sem profundidade. Era assim que desejava que me visse. Foto impressa em papel, apenas imagem. Como um desses perfis que exp\u00f5em nas redes sociais. Talvez, no verso, uma frase inteligente, um aforismo de Nietzsche, algo que a impressionasse. Tudo menos que soubesse a pen\u00faria das janelas de madeira sem vidro, a fragilidade da porta de madeira, cheia de buracos, por onde imagin\u00e1vamos espreitar-nos algum olho, e os ratos. Nunca falaria com ela sobre os ratos, sobre como convivera com os ratos. Temia que morresse de medo ou de ternura. Quem sabe o que uma coisa como aquela despertaria? Notei que ria, distra\u00edda, diante dos primeiros pingos. Um abismo crescia na forma como v\u00edamos a aproxima\u00e7\u00e3o da tempestade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/strong><em> \u00e9 autora dos livros De volta \u00e0 caixa de abelhas (As letras da Bahia, 2002), Uma balada para Janis (P55, 2009), Ticket Zen (Escrituras, 2010), Escorpi\u00e3o Amarelo (P55, 2012), S\u00e3o Selvagem (P55, 2014) e O exerc\u00edcio da distra\u00e7\u00e3o (Penalux, 2017). Teve alguns de seus poemas inclu\u00eddos nas colet\u00e2neas Roteiro da Poesia Brasileira, anos 2000 (Global, 2009), Travers\u00e9e d\u2019Oc\u00e9ans \u2013 Voix po\u00e9tiques de Bretagne et de Bahia (\u00c9ditions Lanore, 2012), Autores Baianos, um Panorama (P55, 2013) e na Mini-Anthology of Brazilian Poetry (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois contos in\u00e9ditos de K\u00e1tia Borges <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16178,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3603,2534],"tags":[419,41,2896,3626,3627],"class_list":["post-16177","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-129a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-katia-borges","tag-por-um-bunker","tag-um-verao-invencivel"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16177","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16177"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16183,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16177\/revisions\/16183"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}