{"id":1621,"date":"2012-06-04T17:43:34","date_gmt":"2012-06-04T20:43:34","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=1621"},"modified":"2012-07-02T20:13:39","modified_gmt":"2012-07-02T23:13:39","slug":"aperitivo-da-palavra-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p><strong>Affonso <em>S\u00cdSIFO<\/em> de Sant\u2019Anna<\/strong><\/p>\n<p><em>Por W. J. Solha<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Capa-do-Livro-interno-Affonso.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1623\" title=\"Capa do Livro interno- Affonso\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Capa-do-Livro-interno-Affonso.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Capa-do-Livro-interno-Affonso.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Capa-do-Livro-interno-Affonso-199x300.jpg 199w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zaratustra \u2013 aos trinta anos &#8211; desce a montanha pra levar sua mensagem \u00e0 humanidade, que est\u00e1 <strong><em>l\u00e1 embaixo<\/em><\/strong>.<strong><em> <\/em><\/strong>\u00a0S\u00edsifo, aos setenta e tantos, cansado de tanto sacrif\u00edcio por nada, faz o mesmo, mas pra se despedir. Pois n\u00f3s \u2013 seus leitores ou n\u00e3o &#8211; fomos contados, medidos e pesados por ele&#8230; com resultado bastante negativo:<\/p>\n<p><em>A mim me tocou<\/em><br \/>\n<em>viver numa \u00e9poca em que mi\u00fados seres<\/em><br \/>\n<em>rastejam sem vis\u00e3o no p\u00f3 do instante<\/em><br \/>\n(DEPOIS DE TER VISTO)<br \/>\n<em><\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.<\/em><br \/>\n(RITUAL DOM\u00c9STICO)<\/p>\n<p><em>Onde est\u00e3o esses<\/em><br \/>\n<em>que ao nosso lado<\/em><br \/>\n<em>parecem t\u00e3o passivos<\/em><br \/>\n<em>com o ar silencioso<\/em><br \/>\n<em>e corrosivo?<\/em><\/p>\n<p><em>Onde est\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e3o apenas vivendo<\/em><br \/>\n<em>morrendo<\/em><br \/>\n<em>como sub ser vivos.<\/em><br \/>\n(ONDE EST\u00c3O?)<\/p>\n<p><em>Banqueteiam suas fezes em alarido<\/em><br \/>\n<em>como se ouro fossem<\/em><br \/>\n<em>e dan\u00e7ando \u00e0 borda do abismo<\/em><br \/>\n<em>se rejubilam<\/em><br \/>\n<em>&#8211; com a vertigem.<\/em><br \/>\n(DEPOIS DE TER VISTO)<\/p>\n<p>E isto \u2013 em ESCLEROSE E\\OU MALEVITCH \u2013 \u00e9 terr\u00edvel:<\/p>\n<p><em>Depois de aprisionar figuras<\/em><br \/>\n<em>nas molduras de seus quadros<\/em><br \/>\n<em>chegou ao \u00e1pice da arte<\/em><br \/>\n<em>&#8211; e do espanto:<\/em><br \/>\n<em>Emoldurou<\/em><br \/>\n<em>&#8211; o branco sobre o branco.\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00edsifo, ante tal pedra no meio do caminho, d\u00e1 um basta. Affonso Romano de Sant\u00b4Anna, que al\u00e9m de grande poeta \u00e9 um contumaz viajante, d\u00e1 com ela <em>encalhada <\/em>no Egito:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1624\" title=\"Imagem 1\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-1.jpg\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-1.jpg 448w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-1-300x224.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea, inacabado porque fraturado, o que seria o maior obelisco da terra em que tudo era gigantesco:\u00a0 sua concreta pedra de S\u00edsifo\\Drummond. E escreve um dos melhores poemas de seu novo livro, com uma forte compuls\u00e3o de se servir de um recurso&#8230; concretista:<\/p>\n<p><em>Esse obelisco\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 inacabado<\/em><br \/>\n<em>fora de Assuam\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 esse obelisco<\/em><br \/>\n<em>o maior de todos\u00a0\u00a0\u00a0 com a quarta<\/em><br \/>\n<em>face n\u00e3o cortada\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 da pedra no ch\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>esse obelisco sem\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 inscri\u00e7\u00e3o alguma<\/em><br \/>\n<em>a n\u00e3o ser as rachadu\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 ras do terremoto<\/em><br \/>\n<em>que o partiu\u00a0 esse\u00a0 ob\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 elisco<\/em><br \/>\n<em>abandonado ontem\u00a0 ho\u00a0\u00a0 je visitado<\/em><br \/>\n<em>por multid\u00f5es at\u00f4nitas\u00a0\u00a0\u00a0 esse obelisco<\/em><br \/>\n<em>inerte tem algo huma\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 no perturbador<\/em><br \/>\n<em>em torno dele assim\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 morto e torto<\/em><br \/>\n<em>estirado como se fo\u00a0\u00a0\u00a0 sse um osso<\/em><br \/>\n<em>ou algo nosso inse\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 pulto em torno<\/em><br \/>\n<em>dele circulamos o\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 lhando o ch\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>como se algo e\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 m n\u00f3s tamb\u00e9m<\/em><br \/>\n<em>tivesse se par\u00a0\u00a0\u00a0 tido<\/em><br \/>\n<em>sem alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>\u201cPobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a tradi\u00e7\u00e3o diga e Vinicius sustente que \u201cpoeta s\u00f3 \u00e9 grande se sofrer\u201d e o tema da proximidade da morte seja um achado &#8211; no <em>S\u00edsifo desce a montanha \u2013 <\/em>do porte do corvo repetindo o nome da finada Lenora pro amante desconsolado &#8211; em Poe -, \u00e9 claro que (para mim, pelo menos, que o considero nosso maior poeta vivo \u2013 e tamb\u00e9m, talvez, <em>morto<\/em>) n\u00e3o existe motivo <em>real <\/em>pro desconsolo. Pelo contr\u00e1rio: Affonso deixa o nome na Hist\u00f3ria de nossa literatura, e \u2013 enquanto vai pra Cartago e Assuam, Chicago mais Teer\u00e3 &#8211; nos intervalos descansa carregando pedra:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p align=\"center\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1625\" title=\"Imagem 2\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-2.jpg\" alt=\"\" width=\"343\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-2.jpg 343w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-2-205x300.jpg 205w\" sizes=\"auto, (max-width: 343px) 100vw, 343px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sinto que o incomoda o fato de sua poesia, em certa fase, ter tomado partido por causas arriscadas, por conta dos <em>sub ser vivos. <\/em>Ele diz, em PAREM DE JOGAR CAD\u00c1VERES NA MINHA PORTA:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Dei de m\u00e3o comendas e ins\u00edgnias<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o tenho mais que na pra\u00e7a erguer protestos<\/em><br \/>\n<em>e distribuir esmolas n\u00e3o \u00e9 mais a minha sina.<\/em><br \/>\n<em>Acabo de entrar no Pavilh\u00e3o da Harmonia Preservada<\/em><br \/>\n<em>e me liberto<\/em><br \/>\n<em>&#8211; na Cidade Proibida na China. <\/em><br \/>\n<em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p><em>Imposs\u00edvel ficar no tempo que me coube<\/em><br \/>\n<em>o\u00a0 tempo todo<\/em><br \/>\n<em>Preciso repousar num campo de tulipas<\/em><br \/>\n<em>reaprendendo a ver o que era o mundo<\/em><br \/>\n<em>antes de<\/em><br \/>\n<em>como um S\u00edsifo moderno<\/em><br \/>\n<em>desesperado<\/em><br \/>\n<em>julgar<\/em><br \/>\n<em>&#8211; que o tinha que carregar.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ep\u00edgrafe de seu livro, a prop\u00f3sito, vem de Clarice Lispector:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A gradual deseroiza\u00e7\u00e3o de si mesmo \\ \u00e9 o verdadeiro trabalho que se elabora \\ sob o aparente trabalho.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deseroiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Seria isto?:<em><\/em><\/p>\n<p><em>Olho e acaricio meu c\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>e apagando a luz da sala,<\/em><br \/>\n<em>tranco as portas<\/em><br \/>\n<em>exilando o medo.<\/em><br \/>\n(AQUELAS QUEST\u00d5ES)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 estranho ouvir sobre tal busca de autodesmistifica\u00e7\u00e3o em Affonso, que me foi apresentado por S\u00e9rgio de Castro Pinto h\u00e1 s\u00e9culos, e que me lembrou, na \u00e9poca \u2013 pelo gigantesco <em>A Catedral de Col\u00f4nia, <\/em>que tentei emular com meu <em>Marco do Mundo, <\/em>e pelo bravo <em>QUE PA\u00cdS \u00c9 ESTE?, <\/em>sendo ele pr\u00f3prio de ombros largos e grande charme &#8211;\u00a0 a mais marcante figura \u00e9pica de minha adolesc\u00eancia:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/imagem-3-e-4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1687\" title=\"imagem 3 e 4\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/imagem-3-e-4.jpg\" alt=\"\" width=\"555\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/imagem-3-e-4.jpg 555w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/imagem-3-e-4-300x137.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 555px) 100vw, 555px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-51.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1684\" title=\"Imagem 5\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-51.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-51.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Imagem-51-300x240.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas o tema \u00e9 A Morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou apenas um pouco mais \u201cnovo\u201d que ele. Affonso \u00e9 de 37; eu, de 41. Tenho, portanto, sentido a aproxima\u00e7\u00e3o dela, tamb\u00e9m. E, como sempre me pareceu caber \u00e0 poesia tirar as palavras de nossa boca, os melhores momentos do <em>S\u00edsifo desce a montanha<\/em> s\u00e3o \u2013 para mim &#8211; aqueles em que o poeta aborda \u2013 heroicamente, apesar da inspetora Lispector \u2013 o t\u00e3o temido tema. PREPARANDO A CREMA\u00c7\u00c3O, por exemplo, \u00e9 antol\u00f3gico. Pela simplicidade veraz ou feroz com que Affonso revela ter feito o que ainda n\u00e3o me decidi a fazer, embora seja um ato inevit\u00e1vel:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Levanto-me. Vou ao cart\u00f3rio<\/em><br \/>\n<em>autorizar minha crema\u00e7\u00e3o. Autorizar<\/em><br \/>\n<em>que transformem<\/em><br \/>\n<em>minhas v\u00edsceras, sonhos e sangue<\/em><br \/>\n<em>em fic\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>O que pode haver<\/em><br \/>\n<em>de mais radical?<\/em><br \/>\n<em>Assinar este papel<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o simples<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o fatal.<\/em><br \/>\n<em>Autorizar a solu\u00e7\u00e3o final<\/em><br \/>\n<em>de todos os poemas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSolu\u00e7\u00e3o final\u201d. Veja a sutileza com que ele nos remete \u00e0 <strong>Solu\u00e7\u00e3o Final da Quest\u00e3o Judaica<\/strong>,<strong> <\/strong>como foram considerados os terr\u00edveis cremat\u00f3rios nazistas nos campos de concentra\u00e7\u00e3o.<strong> <\/strong>Mais sutil ainda \u00e9 o fato de que ele n\u00e3o lamenta ter <em>o corpo<\/em> em chamas e reduzido a cinzas, mas \u201ctodos os poemas\u201d desintegrados com ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confirmando a imagem que sempre tive a seu respeito, o poeta tem amor intenso pela vida. Da\u00ed que \u00e9 comovente v\u00ea-lo dizer mais adiante:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>H\u00e1 muito venho me preparando<\/em><br \/>\n<em>me despedindo do sorriso da mulher, das filhas<\/em><br \/>\n<em>da rua onde diariamente passo<\/em><br \/>\n<em>me despedindo dos livros<\/em><br \/>\n<em>vizinhos e paisagens.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro: em RITUAL DOM\u00c9STICO ele nos fala do aconchego do seu lar, com toques de extrema delicadeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Toda noite<\/em><br \/>\n<em>acendo algumas velas na sala<\/em><br \/>\n<em>enquanto minha mulher prepara o jantar.<\/em><br \/>\n<em>somos n\u00f3s dois<\/em><br \/>\n<em>e essa cachorrinha meiga<\/em><br \/>\n<em>com seu estoque inesgot\u00e1vel de afeto.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa cachorrinha meiga \u00e9 presen\u00e7a recorrente no livro. Algo como a cadela Baleia de <em>Vidas Secas <\/em>ou o c\u00e3o interpretado por Serv\u00edlio de Holanda no espet\u00e1culo <em>Vau do Sarapalha. <\/em>Num desses instantes, Affonso se excede. Talvez haja me comovido mais porque tive, durante anos, uma pequin\u00eas chamada Lady, como a de Disney, e vi em casa cenas como essa, fantasticamente flagrada em LEVARAM OS SEIS FILHOTES. N\u00e3o \u00e0 toa os olhos de minha mulher marejaram quando li para ela:<\/p>\n<p><em>Levaram os seis filhotes dessa cachorrinha<\/em><br \/>\n<em>que chora <\/em><br \/>\n<em>geme de desespero<\/em><br \/>\n<em>procura suas crias pelos cantos da casa<\/em><br \/>\n<em>sob a mesa<\/em><br \/>\n<em>no jardim<\/em><br \/>\n<em>na lareira<\/em><br \/>\n<em>e pede socorro com seus olhos<\/em><br \/>\n<em>exigindo explica\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>\u201cE pede socorro com seus olhos exigindo explica\u00e7\u00e3o\u201d!<\/p>\n<p>\u00c9 com detalhes assim que Affonso ressalta o apego \u00e0 vida que sente estar por perder. Ainda em PREPARANDO A CREMA\u00c7\u00c3O, diz:<\/p>\n<p><em>Olho cada parte de meu corpo<\/em><br \/>\n<em>que vai se desintegrar:<\/em><br \/>\n<em>mexo os dedos, vejo as veias <\/em><br \/>\n<em>e no espelho esse olhar<\/em><br \/>\n<em>que nada mais ver\u00e1.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 me vi fazendo o mesmo in\u00fameras vezes e me pareceu bem rever isso em versos.<\/p>\n<p>Mas de repente, em COMPREENS\u00c3O \u2013 num surto de otimismo \u2013 ele conclui que n\u00e3o h\u00e1 morte, <em>tudo \u00e9 recome\u00e7o. <\/em>Da\u00ed que \u2013 tal qual num sonho \u2013 implicitamente evoca para si \u2013 ao optar pela crema\u00e7\u00e3o &#8211; um fim igual ao do profeta Elias&#8230; com o que tudo se transfigura:<em><\/em><\/p>\n<p><em>Espero que um carro de fogo me arrebate numa tarde dessas<\/em><br \/>\n<em>e sem estremecimento<\/em><br \/>\n<em>me dissolva de vez na eternidade.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas\u00a0 enigmas o cercam de todo lado e o angustia saber que a Esfinge vai devor\u00e1-lo sem que eles os decifre. No INDEPENDEM DE MIM diz:<\/p>\n<p><em>Meus rins, meu pulm\u00e3o, meu f\u00edgado<\/em><br \/>\n<em>(e o cora\u00e7\u00e3o)<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o carecem que lhes ordene <\/em><br \/>\n<em>o que fazer.<\/em><br \/>\n<em>Na verdade me antecederam.<\/em><br \/>\n<em>me hospedaram apenas. E se rebelam<\/em><br \/>\n<em>se os for\u00e7o a me obedecer.<\/em><br \/>\n<em>s\u00e3o aut\u00f4nomos<\/em><br \/>\n<em>mais que aut\u00f4matos.<\/em><br \/>\n<em>Eu \u00e9 que sou essa estranha coisa<\/em><br \/>\n<em>pensando mov\u00ea-los.<\/em><br \/>\n<em>(&#8230;)<\/em><\/p>\n<p>E aqui termino, anotando o que ele diz a respeito, NO LABIRINTO:<\/p>\n<p><em>Habito o mist\u00e9rio que me habita<\/em><\/p>\n<p>O que me remete a uma frase do <em>Ulisses <\/em>que vivo me repetindo:<\/p>\n<p>&#8211; Falar do mist\u00e9rio no seio do pr\u00f3prio mist\u00e9rio: isso \u00e9 arte.<\/p>\n<p>\u00c9, na verdade, arte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<em>(<strong>W. J. Solha<\/strong>\u00a0lan\u00e7ou Relato de Pr\u00f3cula em 2009, pela A Girafa, romance escrito com incentivo da Bolsa da Funarte de 2007. Em 2006, obteve o Pr\u00eamio Graciliano Ramos por sua Hist\u00f3ria Universal da Ang\u00fastia, Ed. Bertrand Brasil. Em 2005, o Pr\u00eamio Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto pelo poema longo Trigal com Corvos, ed. Palimage, de Portugal. Em 2011, publicou o romance, Ark\u00e1ditch, pela Ideia Editora. Recentemente, lan\u00e7ou seu mais novo livro, o poema longo Marco do Mundo<\/em>)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cS\u00edsifo desce a montanha\u201d, novo livro de poemas de Affonso Romano de Sant\u2019Anna, \u00e9 tema das densas observa\u00e7\u00f5es de W. J. Solha<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":1676,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[290,2533],"tags":[377,11,382,384,378,380,381,379,159,189,383,376,247],"class_list":["post-1621","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-68a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-affonso-romano-de-santanna","tag-aperitivo-da-palavra","tag-autodesmistificacao","tag-clarice-lispector","tag-cronica","tag-drummond","tag-morte","tag-obelix","tag-poemas","tag-resenha","tag-sergio-de-castro-pinto","tag-sisifo-desce-a-montanha","tag-w-j-solha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1621","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1621"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1621\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2078,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1621\/revisions\/2078"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1676"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}