{"id":16265,"date":"2019-05-07T10:20:20","date_gmt":"2019-05-07T13:20:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16265"},"modified":"2019-05-19T11:34:47","modified_gmt":"2019-05-19T14:34:47","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-63","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-63\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resili\u00eancia \u00e9 uma palavra que, h\u00e1 pouco tempo, entrou em uso comum no vocabul\u00e1rio popular. Segundo o dicion\u00e1rio Houaiss, o sentido figurado do termo ilustra \u201ca capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar \u00e0 m\u00e1 sorte ou \u00e0s mudan\u00e7as\u201d. Ou seja, toda pessoa que, apesar das adversidades, vai adiante, encarando a vida de frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, outro conceito, surgido faz t\u00e3o pouco tempo e que sequer consta nos dicion\u00e1rios, tem a ideia de representar com mais intensidade a resist\u00eancia humana: a antifragilidade. N\u00e3o que seja o oposto da resili\u00eancia, mas um significado diferente. Uma pessoa antifr\u00e1gil \u00e9 aquela que, diante das adversidades, torna-se mais forte. N\u00e3o importa de qu\u00e3o alto ela caia ou qu\u00e3o profundo possa ser ferida, ela sempre vai crescer na rela\u00e7\u00e3o com seus desafios e problemas; sempre vai reafirmar seu poder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 dif\u00edcil identificar qual desses conceitos melhor se adequa a L\u00edgia Vitalina, protagonista de \u201cPor cima do mar\u201d, de <strong>Deborah Dornellas<\/strong>. Em sua estreia no romance, a jornalista, escritora e artista pl\u00e1stica carioca\/brasiliense, h\u00e1 sete anos radicada em S\u00e3o Paulo, d\u00e1 voz a uma mulher negra, filha de um oper\u00e1rio e de uma dona de casa, que passou sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia na periferia de Bras\u00edlia enfrentando dificuldades sociais, discrimina\u00e7\u00e3o e um estupro que preferiu esconder, de modo a alcan\u00e7ar seus objetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A personagem L\u00edgia estudou com o ensino dispon\u00edvel, entrou para a faculdade e formou-se em Hist\u00f3ria, seguindo carreira acad\u00eamica centrada na pesquisa entre a cultura brasileira e a africana. Numa viagem ao Rio, conhece um professor angolano, com quem se casa, tem filhos e passa a viver na cidade de Benguela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certos componentes do enredo refletem a pr\u00f3pria vida da autora, tamb\u00e9m casada com um angolano e com uma carreira acad\u00eamica voltada para o estudo da cultura africana. S\u00e3o fus\u00f5es entre realidade e fic\u00e7\u00e3o que tornam a personagem t\u00e3o bem delineada em seu aspecto humano, que, na d\u00favida se sua caracter\u00edstica mais marcante \u00e9 resili\u00eancia ou antifragilidade, n\u00e3o foge \u00e0 certeza de que se trata de uma das protagonistas mais fortes e inspiradoras da literatura contempor\u00e2nea brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Prova disso \u00e9 que o romance foi agraciado, no fim do ano passado, com o pr\u00eamio Casa de las Am\u00e9ricas, distin\u00e7\u00e3o oferecida pela funda\u00e7\u00e3o cubana que tem, em seu cat\u00e1logo, vencedores do porte de Maria Val\u00e9ria Rezende, Ana Maria Gon\u00e7alves, N\u00e9lida Pi\u00f1on e Luiz Ruffato. No comunicado de apresenta\u00e7\u00e3o do pr\u00eamio, os jurados defenderam ser um livro relevante e envolvente, tratando com originalidade e profundidade a vida dif\u00edcil da protagonista e das mulheres negras que vieram antes dela. E arrematam chamando aten\u00e7\u00e3o para o cuidado com a pesquisa hist\u00f3rica e a performance liter\u00e1ria de alta qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Deborah Dornellas fala sobre o longo processo de composi\u00e7\u00e3o do livro, a maneira como recebeu o pr\u00eamio e sua vis\u00e3o do meio liter\u00e1rio. Al\u00e9m disso, valendo-se das circunst\u00e2ncias que envolvem sua personagem, toca em temas como racismo, a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na sociedade e a presen\u00e7a de autores negros na literatura contempor\u00e2nea brasileira, pensando na literatura como um instrumento tamb\u00e9m capaz de fazer o leitor voltar os olhos para fora do livro.\u00a0 \u201cN\u00e3o sei se os artistas t\u00eam o dever de se manifestar sobre quest\u00f5es que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas a\u00e7\u00f5es e em sua vis\u00e3o de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. \u00c9 incr\u00edvel o que um \u00fanico livro pode fazer na vida de uma pessoa!\u201d, reflete.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16269\" aria-describedby=\"caption-attachment-16269\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Imagem-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16269 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Imagem-01.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Imagem-01.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Imagem-01-300x281.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16269\" class=\"wp-caption-text\">Deborah Dornellas \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Seu romance tem sua for\u00e7a motriz concentrada no aspecto humano da sua protagonista, uma mulher negra, de origem pobre, que, em meio a uma s\u00e9rie de fatos ruins e\u00a0de circunst\u00e2ncias adversas, supera o passado e, por amor, cruza o Atl\u00e2ntico. Como foi organizar um livro que se desenvolve em v\u00e1rias linhas narrativas, indo e voltando no tempo, para que, a certa altura, o leitor ficasse com a impress\u00e3o de que toda a hist\u00f3ria aconteceu de verdade, de que a narra\u00e7\u00e3o progredisse de forma intuitiva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS &#8211;<\/strong> Foi uma aventura. Entre o primeiro par\u00e1grafo e o ponto final, mais de cinco anos se passaram. O parto foi longo.\u00a0 E o livro como uma narrativa fragmentada, com cenas avulsas. Tentei algumas vezes domar o texto, ter mais controle sobre o processo de escrita, mas n\u00e3o consegui. A narrativa fragmentada, indo e vindo na linha do tempo, se imp\u00f4s. Depois de relutar um pouco, no in\u00edcio, acabei me rendendo. Percebi que esse livro s\u00f3 se escreveria assim. Muitas cenas, inclusive, foram escritas em madrugadas insones, no bloco de notas do celular, no tablet etc. Eu escrevia a cena, salvava, enviava para o meu e-mail e no dia seguinte revisitava, editava. Foi assim at\u00e9 quase o fim do processo. Felizmente, descobri, depois de algum tempo, que isso poderia trabalhar a favor da protagonista-narradora e da hist\u00f3ria que ela estava contando. Somente em 2017 comecei a montar uma estrutura. Confeccionei uma esp\u00e9cie de escaleta gigante, de cartolina branca, que preguei na parede do quarto. Enumerava as cenas e as colocava numa determinada ordem, para conseguir visualizar melhor. Cada cena tinha uma breve descri\u00e7\u00e3o, escrita a l\u00e1pis, para que eu pudesse apagar e trocar de posi\u00e7\u00e3o, quando necess\u00e1rio. Mais ou menos como fazem os roteiristas. Ali\u00e1s, muitas vezes me foi \u00fatil o pouco conhecimento de roteiro que tenho. Parecia que eu estava escrevendo um filme de longa metragem. \u201cPor cima do mar\u201d foi minha primeira experi\u00eancia em prosa longa, e eu n\u00e3o tinha nenhum treino nisso. Na verdade, tive que montar um quebra-cabe\u00e7a de muitas pe\u00e7as para p\u00f4r o livro de p\u00e9. Essa primeira montagem n\u00e3o sobreviveu, mas foi fundamental para eu ter um norte. Dali em diante, comecei a trabalhar na costura das cenas, mantendo sempre essa caracter\u00edstica da fragmenta\u00e7\u00e3o, com cap\u00edtulos curtos, mas j\u00e1 com uma no\u00e7\u00e3o de sequ\u00eancia. Em alguns trechos, optei por emendar cap\u00edtulos que tinham continuidade, porque nesses casos a fragmenta\u00e7\u00e3o prejudicaria o entendimento. Apesar de ter lido e estudado material sobre t\u00e9cnicas narrativas e de ter tido interlocu\u00e7\u00e3o desde o in\u00edcio da escrita (o romance nasceu em 2013, como trabalho de conclus\u00e3o de curso, para a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Forma\u00e7\u00e3o de Escritores do ISE Vera Cruz, e por isso foi lido e comentado durante as oficinas avan\u00e7adas), acho que o processo de produ\u00e7\u00e3o do texto foi um bocado intuitivo tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es e tomadas de caminhos na vida da protagonista de seu livro que muito se aproximam daquelas que configuraram a sua pr\u00f3pria vida. Isso foi algo espont\u00e2neo, quase como um flerte involunt\u00e1rio com a autofic\u00e7\u00e3o, ou, desde o come\u00e7o, voc\u00ea teve esse intuito de visitar trechos da sua realidade atrav\u00e9s de recortes ficcionais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> Tive sim o intuito de visitar trechos da realidade de Bras\u00edlia, do Brasil e de Angola por meio de recortes ficcionais. E tamb\u00e9m emprestei \u00e0 protagonista alguns elementos de viv\u00eancias minhas, de situa\u00e7\u00f5es que conheci de perto. Acho que muitos ficcionistas fazem isso. Mas n\u00e3o sinto que tenha exatamente flertado com autofic\u00e7\u00e3o.\u00a0 N\u00e3o \u00e9 uma vertente que n\u00e3o me atrai como escritora, embora como leitora eu aprecie algumas obras que v\u00e3o por esse caminho. Quanto a mim e L\u00edgia Vitalina, a protagonista-narradora, nossas biografias apenas se tocam em alguns aspectos: somos mulheres, ambas criadas no DF, pertencemos a gera\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas (ela \u00e9 de 1967, eu sou de 1959), estudamos na UnB, gostamos de m\u00fasica e escrevemos poesia. Mas me parece que as semelhan\u00e7as s\u00e3o apenas essas. N\u00e3o diria que nossos caminhos de vida se aproximam por isso. Na verdade, ao longo da produ\u00e7\u00e3o do livro, fui criando situa\u00e7\u00f5es para L\u00edgia Vitalina de maneira a tentar aproxim\u00e1-la mais de mim, j\u00e1 que somos bem diferentes. L\u00edgia \u00e9 negra, nascida e criada na periferia do Distrito Federal, numa fam\u00edlia pobre. Eu sou branca, de classe m\u00e9dia alta, nascida no Rio e criada do Plano Piloto de Bras\u00edlia. Existe um apartheid geogr\u00e1fico e social entre essas duas experi\u00eancias, esses dois pontos de vista. L\u00edgia olha para Bras\u00edlia, para o Plano Piloto, de fora para dentro. Sua trajet\u00f3ria, suas desventuras, as viol\u00eancias que sofre, sua reconstru\u00e7\u00e3o emocional, sua travessia de volta \u00e0 geografia ancestral, seu lugar de fala, tudo \u00e9 muito diferente da minha experi\u00eancia. N\u00f3s n\u00e3o falamos do mesmo lugar. A meu ver, os cen\u00e1rios e epis\u00f3dios da hist\u00f3ria coletiva de Bras\u00edlia s\u00e3o mais relevantes para a hist\u00f3ria da personagem do que os elementos da minha hist\u00f3ria que emprestei a ela. Mas, desde que me joguei nessa aventura, eu quis fazer justamente o exerc\u00edcio de me colocar no lugar da outra, de olhar a partir do ponto de vista de uma mulher com uma biografia muito distinta da minha. Para isso, era fundamental que a pr\u00f3pria personagem contasse sua hist\u00f3ria, que tivesse voz. Por isso escolhi a primeira pessoa para narrar. Foi uma escolha arriscada. Imaginei que suscitaria v\u00e1rias quest\u00f5es, como esta do prov\u00e1vel namoro com a autofic\u00e7\u00e3o, e outras, relacionadas justamente ao lugar de fala. Procurei tomar muito cuidado com isso. Mas me pareceu que a primeira pessoa da narrativa era a \u00fanica poss\u00edvel, para o livro que eu queria escrever. Desde o come\u00e7o, L\u00edgia queria contar, ela mesma, essa hist\u00f3ria. Esse romance s\u00f3 existe porque ela n\u00e3o desistiu dele (e de mim) todo esse tempo. \u201cPor cima do mar\u201d nasceu com L\u00edgia Vitalina da Concei\u00e7\u00e3o Brasil e por causa dela, e assim se sustentou at\u00e9 o fim. Impressionante a for\u00e7a dessa personagem. Apesar de ela ser uma personagem completamente ficcional, penso em L\u00edgia como uma pessoa de carne, osso, v\u00edsceras e vontade. E, mesmo depois de tantos meses da publica\u00e7\u00e3o do livro, \u00e0s vezes tenho a sensa\u00e7\u00e3o de que vou encontr\u00e1-la numa esquina. Ficamos amigas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Os personagens de seu livro vivenciam epis\u00f3dios marcantes da hist\u00f3ria do Brasil, com base no Distrito Federal, a exemplo do incidente do Quarent\u00e3o (antigo clube da m\u00fasica negra, invadido a tiros pela pol\u00edcia, nos anos 80) e do enterro do presidente Juscelino Kubitschek, em 1976. Qual o cuidado que voc\u00ea teve ao trazer esses registros hist\u00f3ricos para seu livro, contextualizando com a forma\u00e7\u00e3o dos personagens, sem soar aleat\u00f3rio ou did\u00e1tico? H\u00e1 alguma regra para se manipular a Hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS &#8211;<\/strong> N\u00e3o sei se h\u00e1 regras para se manipular a Hist\u00f3ria. Acho que precisamos ter muito cuidado com isso. Fiz o poss\u00edvel para respeitar os epis\u00f3dios hist\u00f3ricos que trouxe para o livro. At\u00e9 porque a protagonista-narradora \u00e9 historiadora e professora de Hist\u00f3ria. No \u00e2mbito coletivo, da Hist\u00f3ria do Brasil, de Bras\u00edlia e de Angola, procurei mesmo reproduzir os fatos conforme os encontrava nas pesquisas, sempre feitas e checadas em mais de uma fonte. Fiquei meio obsessiva com datas, por exemplo. Mas tamb\u00e9m me senti bem livre para ficcionalizar elementos que servissem \u00e0 narrativa, no \u00e2mbito da micro-hist\u00f3ria, das hist\u00f3rias do cotidiano, da experi\u00eancia dos personagens que criei. Colocava o personagem na cena de maneira a que a situa\u00e7\u00e3o interferisse na a\u00e7\u00e3o dele ou dela, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Em alguns trechos, criei cenas completamente ficcionais, mas em cen\u00e1rios e eventos reais, com personagens reais, como a C\u00e1ssia Eller, por exemplo, que interage com alguns personagens (L\u00edgia, Virg\u00ednia, Mosc\u00e3o), mas n\u00e3o ficcionalizei nada da hist\u00f3ria p\u00fablica da C\u00e1ssia. A mesma coisa com o enterro de JK, o baile black no Quarent\u00e3o, o epis\u00f3dio do \u201cmassacre da GEB\u201d e algumas passagens da Hist\u00f3ria de Angola, como a guerra do Huambo. A dimens\u00e3o hist\u00f3rica fez parte da proposta do livro desde o in\u00edcio, l\u00e1 atr\u00e1s, quando eu tinha apenas o conto &#8220;Vitalina&#8221;, germe do romance. Desde a apresenta\u00e7\u00e3o do projeto, j\u00e1 anexei os resultados de algumas pesquisas, tanto da hist\u00f3ria de Bras\u00edlia quanto da de Angola. Pessoas que leram partes do texto ao longo dos primeiros dois anos, inclusive professores da p\u00f3s e, posteriormente, membros da banca examinadora, sugeriram que a hist\u00f3ria da personagem caminhasse, por pouco que fosse, junto com a hist\u00f3ria de Bras\u00edlia. E que eu tamb\u00e9m falasse de Angola e inclu\u00edsse epis\u00f3dios de sua hist\u00f3ria recente. Acolhi de cara a sugest\u00e3o. Gosto muito de Hist\u00f3ria e queria mesmo mostrar Bras\u00edlia, minha cidade, e Angola, um pa\u00eds t\u00e3o importante para o Brasil e t\u00e3o pouco conhecido aqui, infelizmente. Para isso, fiz bastante pesquisa em livros, websites, textos, conversei com amigos brasilienses e angolanos etc. Durante todo o processo de escrita e reescrita, tomei cuidado para n\u00e3o passar dados hist\u00f3ricos falsos ou imprecisos. Chequei datas, lugares, nomes, vocabul\u00e1rio in\u00fameras vezes. Em 2016, viajei para Angola, visitei Luanda e Benguela. Essa viagem foi fundamental para o livro. Mais para o final de 2017, algumas pessoas em Angola e no Brasil leram a primeira vers\u00e3o. Essas leituras foram muito importantes e \u00fateis para mim. A partir das devolutivas desses leitores escolhidos, corrigi muita coisa, inclusive informa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e geogr\u00e1ficas. E tamb\u00e9m exclu\u00ed trechos, por serem did\u00e1ticos demais, explicativos, ou muito contaminados pela linguagem jornal\u00edstica \u2013 sou rep\u00f3rter de forma\u00e7\u00e3o, e alguns cacoetes profissionais podem \u00e0s vezes contaminar a escrita ficcional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Dois temas surgem com muito impacto na trajet\u00f3ria da sua protagonista, o racismo e a viol\u00eancia contra a mulher. O primeiro, em forma de preconceito e segrega\u00e7\u00e3o; e o segundo, por meio de uma cena forte de estupro coletivo. Qual a relev\u00e2ncia concreta da literatura como canal para se discutir assuntos como esses? Voc\u00ea acredita que a fic\u00e7\u00e3o tem o poder de conscientizar o leitor e fazer com que, de alguma maneira, isso se reflita no modo de enxergar a sociedade? E, dentro da tem\u00e1tica do racismo, qual o seu ponto de vista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00eamicas recentes envolvendo alguns dos livros de Monteiro Lobato?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> A literatura, assim como a arte em geral, \u00e9 sim um canal relevante para discutirmos muitas quest\u00f5es da nossa sociedade. Fa\u00e7o uso desses canais na minha cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o acho que temos sempre que produzir \u201carte engajada\u201d, para usar um conceito antigo e muito questionado. Isso poderia ser uma camisa-de-for\u00e7a para a express\u00e3o art\u00edstica, o que n\u00e3o \u00e9 bom. Eu pessoalmente gosto de usar minhas possibilidades de express\u00e3o para tratar de assuntos que me mobilizam, intrigam, incomodam, sejam eles coletivos, da sociedade ou individuais. Quero ter o direito de fazer isso livremente. Ainda mais em tempos t\u00e3o sombrios. N\u00e3o sei se os artistas t\u00eam o dever de se manifestar sobre quest\u00f5es que afligem a sociedade por meio de sua arte, mas eu invisto nisso. Acho sim que a literatura (prosa de fic\u00e7\u00e3o, poesia) tem o poder de conscientizar o leitor de maneira a que isso reflita em suas a\u00e7\u00f5es e em sua vis\u00e3o de mundo. Aconteceu e acontece comigo muitas vezes, tanto com a leitura quanto com a escritura. \u00c9 incr\u00edvel o que um \u00fanico livro pode fazer na vida de uma pessoa! Conhe\u00e7o muitos exemplos. Quanto ao Monteiro Lobato, acho que \u00e9 fundamental que, ao ler sua obra, o leitor seja informado sobre as posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas racistas e eugenistas do autor. At\u00e9 porque acho que ele nunca escondeu suas ideias a esse respeito. H\u00e1 elementos em muitos de seus livros, inclusive nos mais populares, lidos por crian\u00e7as h\u00e1 gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso que se d\u00ea nome \u00e0s coisas. Nunca fui leitora de Lobato. Talvez n\u00e3o tenha sido apresentada a ela na inf\u00e2ncia como os brasileiros escolarizados da minha gera\u00e7\u00e3o foram. Conhe\u00e7o personagens e trechos de seus livros, claro, mas muito por causa de programas de TV. Se tivesse que dar aulas sobre a obra de Lobato hoje, por exemplo, teria que ler tudo, e certamente leria com filtro. O vi\u00e9s racista em sua cria\u00e7\u00e3o prejudicaria minha frui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Outro aspecto fundamental do romance \u00e9 uma resist\u00eancia a fazer da protagonista, sufocada pelo sistema, sufocada por seus pr\u00f3prios dilemas, v\u00edtima da sociedade. Muito pelo contr\u00e1rio: h\u00e1 um fator de resili\u00eancia e de vontade de vencer muito grande na maneira de ela encarar a vida. O qu\u00e3o importante para a constru\u00e7\u00e3o da personagem foi idealiz\u00e1-la dessa maneira? E como essa imagem pode se refletir na representa\u00e7\u00e3o da mulher negra na sociedade de hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> Nos primeiros tempos de escrita do texto, Viltalina (que ainda n\u00e3o tinha o nome L\u00edgia acrescentado ao seu), era uma mulher melanc\u00f3lica, quase depressiva, muito ferida pela vida. E carregava uma heran\u00e7a de pai e m\u00e3e que fizeram dela uma pessoa t\u00edmida, contida. Se ela tivesse permanecido assim, teria se tornado uma m\u00e1rtir, uma v\u00edtima da sociedade, uma personagem p\u00e1lida, e eu n\u00e3o queria isso de jeito nenhum. Seria muito pouco para essa personagem. As feridas de L\u00edgia Vitalina a constituem, mas n\u00e3o a resumem. Al\u00e9m disso, seria um desservi\u00e7o para a luta das mulheres, especialmente das mulheres negras. Com a evolu\u00e7\u00e3o da escrita do romance, a personagem cresceu, amadureceu, ganhou for\u00e7a e autoestima elevada, at\u00e9 se tornar uma mulher aguerrida. Essa transforma\u00e7\u00e3o fica evidente ao longo da vida de L\u00edgia. De 2015 em diante, comecei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o intelectual das negras brasileiras e a seguir v\u00e1rias pensadoras negras, ler seus posts nas redes sociais, conhecer melhor seus pleitos, entender sua luta e de que lugar elas falam. Tamb\u00e9m procurei ler mais livros de escritoras negras. Essas leituras e essa aten\u00e7\u00e3o, mais o material que eu j\u00e1 tinha pesquisado e escrito, trouxeram a L\u00edgia muitas caracter\u00edsticas que ela n\u00e3o tinha antes, e penso que isso enriqueceu muito a personagem, tornou-a mais complexa. E veross\u00edmil. Esse crescimento e aprimoramento da personagem foram muito importantes para L\u00edgia Vitalina que resultou, para a hero\u00edna brasileira que me desafiei a construir desde que tive a ideia de transformar um conto com problemas de constru\u00e7\u00e3o numa prosa longa mais trabalhada. O cuidado com a representa\u00e7\u00e3o da mulher negra na sociedade de hoje foi sempre meu norte na produ\u00e7\u00e3o desse livro. Principalmente porque sou uma escritora branca que escreveu um livro que conta a hist\u00f3ria de uma personagem negra. Meu objetivo \u00e9 juntar for\u00e7as. Como disse a Ana Maria Gon\u00e7alves num programa de entrevistas em 2017, a ideia \u00e9 \u201cfalar junto\u201d e n\u00e3o \u201cfalar por\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A certa altura, a sua protagonista se apaixona, casa e vai morar em Angola, terra natal do seu marido. Voc\u00ea tamb\u00e9m \u00e9 casada com um angolano e passou um tempo no continente africano. Nesse caso, o quanto de sua experi\u00eancia pessoal serviu de mat\u00e9ria para o livro? E, desse conhecimento emp\u00edrico, consegue tra\u00e7ar paralelos e diferen\u00e7as entre a cultura angolana e a brasileira, sobretudo no que corresponde \u00e0 literatura?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> L\u00edgia se casou muito antes de mim. Na verdade, Vitalina se casou quando a hist\u00f3ria ainda era um conto, antes de 2013. Quando iniciei a escrita do romance, e logo nos dois primeiros anos, mantive o mote e muitos dos elementos do conto original. Z\u00e9 Augusto est\u00e1 l\u00e1 desde o come\u00e7o. Ele, sua biografia, parte de sua fam\u00edlia. Uma das primeiras sequ\u00eancias que escrevi foi o encontro deles no Rio, por exemplo. Nesse momento, eu ainda n\u00e3o conhecia meu marido. Na verdade, foi o trabalho com o livro que me levou a ele, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. Em 2013 e 2014, comecei a pedir amizade a v\u00e1rios angolanos e angolanas pelas redes sociais, justamente porque precisava conhecer melhor os costumes de Angola, express\u00f5es das l\u00ednguas nacionais, indica\u00e7\u00e3o de fontes de pesquisa. Foi nesse contexto que conheci o Carlos, meu marido. A amizade virou namoro virtual no finalzinho de 2015. Em mar\u00e7o de 2016, ele veio viver comigo no Brasil. Nunca nos t\u00ednhamos visto pessoalmente. O romance tinha ent\u00e3o mais de 100 p\u00e1ginas escritas j\u00e1. Carlos s\u00f3 conheceu a hist\u00f3ria de Vitalina aqui, com a leitura do material que eu havia apresentado \u00e0 banca, no come\u00e7o de 2015. At\u00e9 ent\u00e3o, eu ainda n\u00e3o tinha ido a Angola. S\u00f3 pude viajar para l\u00e1 em novembro de 2016, porque s\u00f3 ent\u00e3o tive condi\u00e7\u00f5es financeiras. E tamb\u00e9m quem me hospedasse em Luanda e Benguela e me enviasse a carta-convite, que o governo exige para expedir o visto. Quem fez isso foi minha amiga Judith Luacute, que conheci pessoalmente aqui no Brasil em 2014, tamb\u00e9m a partir de um primeiro contato pela rede. \u00c9 ela que eu homenageio com o sobrenome da fam\u00edlia de Z\u00e9 Augusto. Pude ir sozinha para Angola \u2013 Carlos ficou no Brasil \u2013 muito por causa da generosidade da Judith e de alguns amigos do meu marido, que na \u00e9poca moravam em Benguela e me acolheram. Passei apenas 17 dias em Angola. Nunca vivi l\u00e1. Essa viagem foi fundamental para que eu pudesse afinar algumas cenas, enriquecer descri\u00e7\u00f5es, andar pelos cen\u00e1rios. Muitas cenas do cotidiano das ruas de Benguela, por exemplo, foram escritas depois da viagem que foi muito curta, mas inesquec\u00edvel. Quero voltar logo. Angola entrou na minha vida h\u00e1 muitos anos, por duas portas: a primeira foi a cultura popular brasileira de matriz africana, especialmente maracatu e congado; a segunda, a literatura africana em l\u00edngua portuguesa, que conheci para valer em 2004. De l\u00e1 para c\u00e1, tenho lido tudo o que me cai nas m\u00e3os e sempre vou atr\u00e1s de mais livros de autores angolanos, mo\u00e7ambicanos, cabo-verdianos etc. Pepetela, Agualusa, Ondjaki, Ana Paula Tavares, Gociante Patissa, Mia Couto, Paulina Chiziane, entre outros. Durante anos, entre 2004 e 2007, s\u00f3 lia africanos. Acho que \u201cPor cima do mar\u201d \u00e9 tribut\u00e1rio dessas literaturas, de alguma maneira. H\u00e1 muitas semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as entre as culturas brasileira e angolana. Do nosso lado do Atl\u00e2ntico, h\u00e1 sobreviv\u00eancias importantes, plasmadas ao longo de toda a di\u00e1spora: aspectos da religiosidade brasileira, elementos da culin\u00e1ria, da m\u00fasica, das dan\u00e7as, do portugu\u00eas brasileiro etc. Mas a Angola que est\u00e1 no nosso imagin\u00e1rio \u00e9 uma Angola m\u00edtica, um lugar parado no tempo, no espa\u00e7o de uma \u00c1frica oitocentista. Do lado de l\u00e1 do oceano, a cultura brasileira tem muita influ\u00eancia e h\u00e1 um bom tempo. Nossa m\u00fasica \u00e9 bastante conhecida, admirada e consumida l\u00e1. E nas \u00faltimas d\u00e9cadas, acho que dos anos 80 para c\u00e1, as telenovelas entraram em Angola com for\u00e7a total. Quando estive l\u00e1, assisti a alguns cap\u00edtulos de duas ou tr\u00eas telenovelas que j\u00e1 tinham passado aqui. Outro fen\u00f4meno not\u00e1vel na Angola atual \u00e9 a presen\u00e7a massiva das igrejas evang\u00e9licas neopentecostais, com seus templos enormes e sua rede de TV, mas isso \u00e9 assunto para outra conversa. Noutras d\u00e9cadas, a literatura brasileira foi muito lida em Angola. Toda uma gera\u00e7\u00e3o de angolanos leu boa parte da obra de Jorge Amado, por exemplo. V\u00e1rios escritores brasileiros s\u00e3o conhecidos dos angolanos. Mas infelizmente essa \u00e9 uma via de m\u00e3o \u00fanica. Poucos brasileiros sabem alguma coisa de Angola, menos ainda leem literatura angolana. Dois ou tr\u00eas autores angolanos s\u00e3o conhecidos aqui. Acho que a maioria dos brasileiros nem sabe que Angola \u00e9 um pa\u00eds de l\u00edngua oficial portuguesa. E muito pouca gente conhece ou se interessa pela hist\u00f3ria recente do pa\u00eds. \u00c9 uma pena que o Brasil seja este pa\u00eds t\u00e3o autocentrado, ou t\u00e3o voltado para Europa e Am\u00e9rica do Norte. \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina t\u00eam muito mais a ver conosco do que grande parte da sociedade brasileira imagina e deseja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16270\" aria-describedby=\"caption-attachment-16270\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Foto2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16270 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Foto2.jpg\" alt=\"\" width=\"385\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Foto2.jpg 385w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Foto2-231x300.jpg 231w\" sizes=\"auto, (max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16270\" class=\"wp-caption-text\">Deborah Dornellas \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9 de jornalista, com mestrado em Hist\u00f3ria, por meio do qual voc\u00ea tem uma pesquisa profunda sobre a influ\u00eancia africana na cultura brasileira. Transportando esse conhecimento para o campo liter\u00e1rio, como avalia a representa\u00e7\u00e3o do negro na literatura brasileira? E, na sua opini\u00e3o, ainda h\u00e1 pouco espa\u00e7o para escritores negros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> H\u00e1 pouco espa\u00e7o para as escritoras e escritores negros na nossa literatura. Se pensarmos em termos de representatividade, menos ainda. Esses dias, li uma entrevista da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo em que ela questiona justamente o fato de sua obra s\u00f3 ter come\u00e7ado a ter visibilidade muito recentemente, quando ela j\u00e1 passou dos 70 anos de idade. H\u00e1 d\u00e9cadas ela trabalha, escreve, estuda, luta por espa\u00e7o. Isso quer dizer muita coisa. Uma obra com essa relev\u00e2ncia j\u00e1 deveria estar sendo lida h\u00e1 muito mais tempo. Para ilustrar a representa\u00e7\u00e3o do negro na literatura brasileira, uso uma fala da mesma Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, que ouvi numa das mesas da FLIP de 2017. Ela comentava mais particularmente sobre a representa\u00e7\u00e3o da mulher negra na literatura brasileira. Segundo um levantamento que ela fez, as negras na nossa literatura tradicional em geral s\u00e3o est\u00e9reis, n\u00e3o s\u00e3o capazes de ter descend\u00eancia. Isso \u00e9 t\u00e3o cruel quanto revelador. Acho que alguns ventos favor\u00e1veis a que isso mude est\u00e3o come\u00e7ando a soprar, mas ainda \u00e9 preciso correr muito trecho. E isso os intelectuais negros e negras t\u00eam feito muito bem. \u00c9 nessa trincheira que eu quero estar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Seguindo esse mesmo racioc\u00ednio, uma avalia\u00e7\u00e3o superficial do mercado liter\u00e1rio deixa claro que o espa\u00e7o e o interesse por livros escritos por mulheres ainda comp\u00f5em um percentual inferior a aquele ocupado por homens. Recentemente, a divulga\u00e7\u00e3o de um pr\u00eamio liter\u00e1rio para autores in\u00e9ditos tamb\u00e9m demonstrou essa disparidade. Trabalhando tamb\u00e9m como tradutora, seu olhar de dentro do mercado liter\u00e1rio tem essa mesma percep\u00e7\u00e3o? Acredita que ainda exista um preconceito e uma \u201cdificuldade\u201d para com os livros escritos por mulheres, tanto dos leitores quanto das editoras e das comiss\u00f5es avaliadoras de originais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> N\u00e3o sou tradutora liter\u00e1ria. Talvez um dia me aventure por esses caminhos, que me atraem muito. Mas imagino que o mercado de obras traduzidas aqui no Brasil reproduza o que o mercado liter\u00e1rio de livros nacionais faz: o refor\u00e7o da hegemonia masculina. Isso se d\u00e1 por v\u00e1rias raz\u00f5es que n\u00e3o cabe elencar aqui, mas principalmente porque o mercado liter\u00e1rio de uma sociedade machista \u00e9 fundamentalmente machista. Tenho muita implic\u00e2ncia com o termo \u201cescrita feminina\u201d, por exemplo. O que seria isso? Existe \u201cescrita masculina\u201d? Podemos falar talvez de escrita de autoria feminina, de literatura feita por mulheres, mas s\u00f3 com o intuito de marcar nossa posi\u00e7\u00e3o num mercado que resiste em abrir as portas para n\u00f3s. No mais, qualquer r\u00f3tulo \u00e9 restritivo. O mesmo serve para escritas de negros e negras, LGBTQs, perif\u00e9ricos, ind\u00edgenas etc. Tudo que est\u00e1 fora da perspectiva do homem branco, heterossexual, de classe m\u00e9dia para cima, euro-centrado \u00e9 visto como ex\u00f3tico. Isso, al\u00e9m de ser uma bobagem inomin\u00e1vel, n\u00e3o \u00e9 sequer inteligente, porque n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o o que o tal mercado liter\u00e1rio, que eu nem sei bem o que \u00e9, poderia lucrar se investisse mais nessas escritas que ele pr\u00f3prio tende a desqualificar. Parece que isso est\u00e1 mudando, mas bem devagar. Em 2018, o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura, por exemplo, s\u00f3 premiou mulheres em suas tr\u00eas categorias. Isso nos deve dizer alguma coisa sobre a literatura que estamos produzindo. Integro dois coletivos liter\u00e1rios, o Martelinho de Ouro, composto somente por mulheres, mas sem perfil feminista, e o Mulherio das Letras, de perfil mais militante. Atesto, olhando de dentro de ambos, que n\u00f3s temos uma for\u00e7a de produ\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o impressionante. O mercado que fique atento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Uma parte de seu romance se passa numa comunidade pobre, em Bras\u00edlia, e \u00e9 estranho como ainda hoje um autor surgido da periferia, da favela, ainda causa um fasc\u00ednio pela maneira como interpreta esse ambiente e o transp\u00f5e para a fic\u00e7\u00e3o, valendo-se de uma linguagem pr\u00f3pria. Foi assim, por exemplo, com o livro de contos \u201cO sol na cabe\u00e7a\u201d, do autor carioca Geovani Martins. Pensando nas caracter\u00edsticas desse tipo de literatura, como voc\u00ea avalia o olhar de fora para esse universo particular? Acredita que ainda exista uma barreira para o que foge da norma culta e traduz esse movimento como algo ex\u00f3tico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> \u00c9 como eu disse a\u00ed acima. O olhar de fora \u00e9 limitado e tende a rotular de ex\u00f3tico tudo que n\u00e3o traduz a perspectiva hegem\u00f4nica. A periferia \u00e9 olhada de fora por quem dita as regras no mercado. A ascens\u00e3o r\u00e1pida do Geovani Martins \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o a essa regra. Gosto muito do trabalho dele, li \u201cO sol na cabe\u00e7a\u201d numa noite. O texto tem muita for\u00e7a. Ocorre que quando as coisas come\u00e7am a aparecer no centro, provavelmente j\u00e1 est\u00e3o acontecendo h\u00e1 muito tempo na periferia. A periferia pulsa. E \u00e9 de l\u00e1 que vem o novo. E n\u00e3o s\u00f3 na literatura. Basta olhar para todos os movimentos que t\u00eam acontecido nas periferias do Brasil h\u00e1 d\u00e9cadas para constatar isso. Na \u00e1rea da literatura, h\u00e1 saraus, slams, feiras liter\u00e1rias \u2013 como a FELIZS em S\u00e3o Paulo, a Movida, no DF, e FLUP, no Rio, por onde inclusive o Geovani Martins passou e passa \u2013, casas editoriais independentes etc. Mas os caras s\u00f3 enxergam isso pela sua lente. E com delay.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Por falar em linguagem, embora com uma for\u00e7a de escrita descritiva, seu romance traz um teor vis\u00edvel de lirismo no modo como comp\u00f5e certas cenas e narra a maneira com que a protagonista decifra o mundo externo e o interno. De onde vem essa verve po\u00e9tica, e como ela se encaixa na constru\u00e7\u00e3o do seu livro? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> Escrevo poesia desde muito cedo. Foi por essa porta que entrei na escrita liter\u00e1ria. Embora seja uma leitora mais frequente de prosa, a poesia \u00e9 minha forma de express\u00e3o mais org\u00e2nica. Meu primeiro livro publicado foi uma colet\u00e2nea de poemas, TRIZ (In House, 2012). Desde 2012, comecei a fazer oficinas liter\u00e1rias. Fiz duas com o Marcelino Freire, antes de entrar na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o para escritores. Foi nesse ambiente que comecei a arriscar textos em prosa. A coisa se destravou a\u00ed, mas foi s\u00f3 no ano seguinte, quando entrei para o Coletivo Liter\u00e1rio Martelinho de Ouro, que tive coragem de publicar alguns dos meus contos. Desde 2013, temos publicado colet\u00e2neas de textos todos os anos, em formato de livro ou fanzine. Quanto ao lirismo, acho que n\u00e3o sei escrever sem ele. Ali\u00e1s, acho que n\u00e3o viveria sem lirismo. No romance, ele est\u00e1 por toda parte. A poesia esteve presente desde o in\u00edcio da escrita. Com uma particularidade: poesia e prosa po\u00e9tica funcionam como uma esp\u00e9cie de refrig\u00e9rio para a protagonista. E acho que para o leitor tamb\u00e9m, em alguns momentos. Descobri que esse \u00e9 um recurso meu. Quando n\u00e3o dou conta de narrar, por alguma raz\u00e3o, recorro \u00e0 poesia. Emprestei esse recurso \u00e0 L\u00edgia Vitalina, e ela aceitou. A poesia entra em momentos muito dif\u00edceis ou intensos para ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u201cPor cima do mar\u201d \u00e9 seu primeiro romance, e ganhou, no ano passado, um dos pr\u00eamios liter\u00e1rios mais prestigiados do mundo: o Pr\u00eamio Casa de las Am\u00e9ricas. Eu queria saber como foi sua rela\u00e7\u00e3o com a editoras, quando estava procurando um selo para publica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 finalmente o original do romance ser aceito pela Patu\u00e1? E se, ap\u00f3s a conquista do pr\u00eamio, surgiu algum tipo de interesse pelo seu trabalho por parte de outras editoras, talvez alguma daquelas consideradas grandes?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> N\u00e3o houve rela\u00e7\u00e3o com editoras. O Martelinho j\u00e1 publicava com a Patu\u00e1. Conversei com o Eduardo Lacerda, dono da editora, dei uma parte do manuscrito original para ele ler e logo em seguida j\u00e1 combinamos a edi\u00e7\u00e3o. Foi um processo bem r\u00e1pido. Nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito boa e fluida. Consegui fazer o livro que eu quis, no formato que escolhi. E foi o Edu quem sugeriu que eu mesma ilustrasse o romance. Isso talvez n\u00e3o fosse poss\u00edvel se eu estivesse numa editora dessas consideradas grandes. Nenhuma delas veio me procurar ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Qual o grau de transforma\u00e7\u00e3o voc\u00ea acredita que um pr\u00eamio desse porte pode trazer para sua carreira de escritora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> Receber o Pr\u00eamio Casa de Las Am\u00e9ricas, ainda mais com o primeiro romance, \u00e9 uma grande alegria e uma imensa honra para mim. Acho que as coisas j\u00e1 come\u00e7aram a mudar. E podem mudar mais ainda, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 visibilidade do livro e ao interesse que ele desperta. Qualquer pr\u00eamio relevante pode ser uma alavanca para a carreira da escritora ou do escritor. Desde que foi divulgado o resultado do pr\u00eamio, pessoas come\u00e7aram a me procurar para entrevistas, resenhas foram publicadas, convites para participar de feiras liter\u00e1rias come\u00e7aram a pipocar. Estou adorando, claro, e surfando nessa onda. Afinal todo livro \u00e9 uma aposta, um sonho e envolve muito trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 um momento muito bonito em seu livro, no qual a protagonista percebe que suas escolhas de vida a levaram a se completar no outro. Pensando na literatura como uma escolha para entender a si mesma, de que maneira o exerc\u00edcio da escrita e da cria\u00e7\u00e3o lhe completa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DEBORAH DORNELLAS \u2013<\/strong> Que bonita essa percep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha pensado nisso, nem em rela\u00e7\u00e3o a ela, nem em rela\u00e7\u00e3o a mim. Escrever, poder expressar-se \u00e9 muito bom, e o exerc\u00edcio da escrita e da cria\u00e7\u00e3o pode sem d\u00favida ser um caminho para o autoconhecimento, a autopercep\u00e7\u00e3o, o auto-acolhimento. Os momentos mais prazerosos para mim s\u00e3o aqueles em que estou escrevendo, pintando, lendo, pensando sobre um pr\u00f3ximo livro, trabalhando numa ideia. Criar, mesmo quando d\u00f3i, \u00e9 bom. Descubro isso todos os dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas e o espanhol. Participa da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista a S\u00e9rgio Tavares, a escritora Deborah Dornellas fala do seu romance de estreia e reflete sobre temas caros \u00e0 literatura dos tempos atuais<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16266,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3631,16,2539],"tags":[2910,63,65,1023],"class_list":["post-16265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-130a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-deborah-dornellas","tag-entrevista","tag-sabatina","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16265"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16265\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16272,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16265\/revisions\/16272"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}