{"id":16315,"date":"2019-05-10T11:29:13","date_gmt":"2019-05-10T14:29:13","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16315"},"modified":"2019-08-15T16:50:03","modified_gmt":"2019-08-15T19:50:03","slug":"aperitivopalavra-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavra-8\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Extempor\u00e2neo e herm\u00e9tico (?)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Krishnamurti G\u00f3es dos Anjos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/capa3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16323\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/capa3.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/capa3.jpg 280w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/capa3-195x300.jpg 195w\" sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cen\u00e1rio cultural brasileiro \u00e9 mesmo cheio de surpresas.\u00a0 Em que pese nosso antol\u00f3gico marasmo, nossa vis\u00e3o curta e imediatista voltada para os imperativos do bolso e do est\u00f4mago, essa carga tremenda de depress\u00e3o de valores, de crises \u00e9ticas, de estagna\u00e7\u00e3o de iniciativas que somem \u00e0 nossa Cultura, e a paralisa\u00e7\u00e3o criativa em que vamos afundando, aqui e ali surgem centelhas de genu\u00edno talento, inventividade e perseveran\u00e7a. No Litoral Norte do Rio Grande do Sul (cerca de 100 km de Porto Alegre), h\u00e1 uma pequena cidade chamada Os\u00f3rio, onde vive o poeta e professor de portugu\u00eas, literatura e texto t\u00e9cnico da rede p\u00fablica de ensino chamado Anderson Alves Costa ou, como \u00e9 mais conhecido, Delalves Costa. Muito bem, o senhor Costa tem j\u00e1 7 livros de poesia publicados (ele tem 37 anos), e estar\u00e1 em breve lan\u00e7ando o oitavo, que se chama <em>Extempor\u00e2neo<\/em>. Uma colet\u00e2nea de 50 poemas, alguns deles j\u00e1 publicados em livros anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E republicar alguns poemas tem mesmo o seu valor, expliquemos por que. Novamente, em que pese essa nossa amalucada sede de ineditismo, vamos deixando de esculpir a linguagem, aprimorar a express\u00e3o da t\u00e9cnica liter\u00e1ria (isto \u00e9 imprescind\u00edvel para todos, sobretudo para os iniciantes), para, finalmente, refinar as cria\u00e7\u00f5es. O poeta, como declarou em entrevista, \u00e9 adepto do exerc\u00edcio da reescrita, o qual, em geral, \u00e9 o mais exaustivo processo, momento em que intensamente se trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Antes de irmos mais adiante na aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da obra, vejamos o que ele reponde quando perguntado, na mesma entrevista, quanto a temas e estilo: \u201cAs nuances do mundo me fascinam, para cada \u00e9poca um olhar sob a \u00f3tica das viv\u00eancias e experi\u00eancias de leitura. Escrevo poesia puramente descritiva, <u>herm\u00e9tica<\/u> (grifo nosso) e\/ou memorialista, ou experimento a mistura dessas. Verso sobre o cotidiano, e tudo que o cerca e o que nele habita. Contudo, algumas tem\u00e1ticas aparecem com mais frequ\u00eancia, como j\u00e1 apontaram os cr\u00edticos e leitores mais atentos. A reflex\u00e3o sobre exist\u00eancia\/condi\u00e7\u00e3o humana e seus disfarces, a natureza e suas nuances, o universo urbano e suas transforma\u00e7\u00f5es, a inf\u00e2ncia\/tempo\/velhice, o descaso social e o erotismo s\u00e3o os temas mais relevantes, isso quando comecei a me dedicar \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria mais intensamente. N\u00e3o cultivo h\u00e1bitos, minha poesia vem da vida. Simples assim!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Volvendo ao livro. Como se sabe, o adjetivo \u201cextempor\u00e2neo\u201d significa o que ocorre fora do per\u00edodo ideal; que se manifesta numa \u00e9poca inapropriada ou que acontece inoportunamente; fora do momento oportuno; impr\u00f3prio para o tempo ou circunst\u00e2ncia em que ocorre. E a\u00ed temos uma das preocupa\u00e7\u00f5es centrais da obra desse autor. O tempo, esse senhor dos destinos, \u00e9 objeto de v\u00e1rios poemas. Interessante notar que esse tema aparece hoje em in\u00fameros poetas. H\u00e1, em nosso tempo do \u201caqui e agora\u201d e paralela a essa carreira desabalada em que vivemos, uma preocupa\u00e7\u00e3o terr\u00edvel com o escoar do tempo em nossas vidas. \u00c9 que nos damos conta \u2013 porque estamos presos a essa vari\u00e1vel existencial &#8211; que afinal n\u00e3o tiramos tudo ou mesmo nada, como queiram, do desfrute da exist\u00eancia que o pr\u00f3prio tempo de EXISTIR nos proporcionaria. Mais uma de nossas frustra\u00e7\u00f5es elementares. E ningu\u00e9m pense que estamos a nos referir \u00e0s fases naturais da vida. Inf\u00e2ncia, idade adulta, maturidade, velhice e etc&#8230; Vamos queimando etapas e j\u00e1 nem sabemos viver cada uma delas. Esse nosso sombrio tempo. Veja-se o poema:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tempos de solid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A enviar dist\u00e2ncias, \/ O descart\u00e1vel e-mail \/ Que afasta as vozes \/ Que isola os afagos \/ E amarra os rel\u00f3gios \/ Sequestram o tempo \/ E as vigas de metal. \/ O castelo \u00e9 de areia \/ J\u00e1 n\u00e3o tarda, o mar \/ \u00c0 deriva, o alicerce \/ \u00c0 deriva pessoas partem \/ Seguem e chegam \/ Como postam c\u00f3pias \/ Sem tato sem fogo. \/ Solit\u00e1rias, obstinadas \/ Passam pelos dias, \/ Vagam pelas noites, \/ Passam pelas ruas, \/ Vagam pelos fatos \/ E negam a si mesmas. \/ Fronteiras j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1\u2026 \/ O que h\u00e1 s\u00e3o curvas \/ E dist\u00e2ncias: solid\u00e3o \/ Sem direita, esquerda \/ Sobre a linha t\u00eanue \/ Solid\u00e3o enunciativa \/ Num virtual percurso \/ Entre o l\u00e1 e o s\u00f3! \/ Descart\u00e1vel, est(a)rte \/ De viver morrendo \/ Qual metal sem flor\u2026 \/ E poema sem dor\u2026 \/ E carnaval sem cor\u2026 \/ A enviar dist\u00e2ncias \/ A proje\u00e7\u00e3o, o eco \/ Da sombra curva \/ Sem rua, sem teto \/ Nem caverna pelas paredes! <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema abaixo d\u00e1 a exata medida de como o poeta pensa o Extempor\u00e2neo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Palarvas \u2013 o Extempor\u00e2neo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pra libertar, esterco. Lavras \/ e larvas no inconcluso \/ caos! Se n\u00e3o devora \/ germina-se no recluso \/ extempor\u00e2neo afora, \/ das g(est(a\u00e7\u00f5es \u00e0s palarvas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>II<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>pretenso por versos brancos \/ a tensionar decolonial \/ de Abaporu a Boitat\u00e1 \/ gesta-se arte, ou ser\u00e1 \/ terra esquartejada tal\/ Bruzundanga aos trancos\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>III<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fecundamo-nos outonais \/ agora e subversivos \/ ou \u00e9 caos, pleno luto \/ pela p\u00e1gina! Inculto, ocultam-nos outrora \/ para dializar os carnavais.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>IV<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Homempor\u00e2neo de lavras \/ em palarvas extrai arte \/ e a reparte! Destarte \/ ora canibal ora mito, \/ ver-se n\u00e3o circunscrito \/ a estercar-se de palavras.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os poemas desse livro realmente versam sobre a vida, o amor, o tempo, as aus\u00eancias, um n\u00edtido engajamento social e a pr\u00f3pria poesia. Abordam o homem em suas quest\u00f5es existenciais em busca da compreens\u00e3o metaf\u00edsica desses temas. H\u00e1 na obra textos n\u00e3o somente verdadeiramente bem trabalhados, como de uma profundidade existencial digna de nota. S\u00e3o exemplos: \u201cMaria e Jos\u00e9 e a Fam\u00edlia\u201d, \u201cQuixote \u2013 leitor de amanh\u00e3s\u201d, \u201cEpifania \u2013 a flor politizada\u201d, \u201cVividez \u2013 iguais perante a lei\u201d, \u201cO Tr\u00e1gico de Os \u2013 o rio pelas veias\u201d, \u201cAo rio, gozo de Oceano\u201d, \u201cO Homem sono em claro\u201d, \u201cO Ef\u00eamero coadjuvante\u201d, \u201cAntropofagia\u201d, \u201cLinguardente\u201d, \u201cNa pra\u00e7a, c\u00e3o e ningu\u00e9m\u201d e \u201cInconcluso \u2013 o Homendere\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das vertentes que o poeta envereda \u00e9 tamb\u00e9m das mais curiosas e criativas. Referimo-nos \u00e0 reelabora\u00e7\u00e3o ou redimensionamento ou, ainda, uma atualiza\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es formuladas por outros poetas que, sem d\u00favida, contribu\u00edram para sua forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Por vezes, ele apropria-se somente do mote de um poema. Identificamos dois momentos nos quais aparecem refer\u00eancias, embora que indiretas, a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade.\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 como deixar de recordar de Bandeira ante a leitura de \u201cVou-me embora pro Asteroide 329\u201d. No poema de Bandeira \u2013 \u201cVou-me embora pra Pas\u00e1rgada\u201d -, h\u00e1 aquele desejo de evas\u00e3o ante as impossibilidades de uma vida prestes a findar-se pela doen\u00e7a que o atormentava e pelas restri\u00e7\u00f5es de uma vida acanhada e sem perspectivas de felicidade. De toda uma vida que podia ter sido e n\u00e3o foi. J\u00e1 em \u201cVou-me embora pro Asteroide 329\u201d, o desejo de evas\u00e3o est\u00e1, a nosso ver, diretamente ligado ao fazer liter\u00e1rio do pr\u00f3prio autor em um meio extremamente desfavor\u00e1vel. Fica a pergunta a prop\u00f3sito do livro: Quem ou o qu\u00ea \u00e9 extempor\u00e2neo? O poeta ou o mundo que insiste em n\u00e3o enxergar verdades?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vou-me embora pro Asteroide 329<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>I<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Velam a morte sem corpo \/ ao falar a l\u00edngua dos contrastes, \/ a l\u00edngua dos estupef(atos). \/ Divago expl\u00edcito e tolo \/ entre tortos poliglotas, \/ sem a estes pertencer; \/ de minuto em minuto \/ acendo os lampi\u00f5es \/ pra iluminar Jos\u00e9s e Marias \/ e seus \u00edntimos pa\u00edses.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>II<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mas em tempos de fogos \/ de ruas e fogo, de m\u00e3os \/ e brasas, sobrar\u00e1 pa\u00eds? \/ Embora lhes faltem p\u00e3o, \/ assistem ao circo \/ nos bares e lares \/ os vio(lados opostos).<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>III<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Embora eu sofra de mudan\u00e7a, \/ eu clamo por met\u00e1foras! \/ Prefiro isso a feias verdades: \/ \u00f3cio a divagar. Portanto, \/ vou pro Asteroide 329, l\u00e1 \/ eu falo a l\u00edngua dos lampi\u00f5es, \/ liberto sil\u00eancio das ruas.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob outra visada podemos ler dois poemas. \u201cJOSSEU \u2013 o her\u00f3i estrangeiro\u201d e \u201cEnigma, o Claro\u201d, que nos remetem respectivamente ao poema \u201cE agora Jos\u00e9\u201d e ao livro \u201cClaro enigma\u201d, ambos de Carlos Drummond de Andrade. Quanto a este \u00faltimo, \u00e9 preciso que acrescentemos um detalhe: enquanto Drummond demonstra naqueles poemas de Claro Enigma um foco mais centrado nos sentimentos e nas transforma\u00e7\u00f5es sociais da primeira metade do s\u00e9culo XX, Delalves Costa parece abandonar o desejo de encontrar respostas e solu\u00e7\u00f5es para os problemas sociais e passa a buscar as perguntas que precisam ser feitas, e com o bom auxilio da Literatura que permite que o universo filos\u00f3fico e metaf\u00edsico mergulhe no \u00edntimo do ser humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Enigma, o Claro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 caminho incerto: longe\/perto, \/ visceral aventura; \u00e9 procura \/ que se faz realidade, elasticidade \/ que se reinventa. \u00c9 tormenta \/ pelas veias: rel\u00e2mpago instigante \/ \u00e0s escuras, luz nas procuras \/ a revelar o mist\u00e9rio. \u00c9 revert\u00e9rio \/ o verso reverso e universo \/ quando \u00e0s escuras sob procuras \/ o claro enigma, paradigma: \/ o novo de novo que deixa de ser \/ para ser outra coisa. \u00c9 coisa \/ outra que estimula, que anula \/ o \u00f3bvio de ser\u00e1, de seria \/ pelo curso, percurso que se leva \/ que se faz treva e se trava \/ aos olhos, \u00e0 mente; e de repente \/ do nada o mundo obscuro \/ se torna pleon\u00e1stico. O el\u00e1stico \/ de ponta a ponta se estica \/ e edifica a vasta aventura e apura \/ que a pura verdade habita \/ n\u00e3o erudita, bendita pela crian\u00e7a \/ sem os relevos do mundo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns leitores devem ter observado a utiliza\u00e7\u00e3o de palavras, formada por neologismos, aglutina\u00e7\u00f5es de outras palavras e\/ou sentidos conferidos pela homofonia e por sons que assumem\u00a0 sentidos pr\u00f3prios. Claro que s\u00e3o artif\u00edcios de constru\u00e7\u00e3o que o autor emprega. Realmente, uma po\u00e9tica incomum. Estamos diante de constru\u00e7\u00f5es formais (em boa parte dos poemas) bastante peculiares e que t\u00eam gerado uma caracteriza\u00e7\u00e3o de sua po\u00e9tica como \u201cherm\u00e9tica\u201d. Ora, sabemos que o conceito de hermetismo, em literatura, \u00e9 an\u00e1logo ao utilizado em filosofia, no que toca a algo cujo sentido \u00e9 muitas vezes fechado, secreto, impenetr\u00e1vel, oculto e at\u00e9 mesmo indecifr\u00e1vel para o leitor\/receptor que n\u00e3o disp\u00f5e de ferramentas necess\u00e1rias para uma apreens\u00e3o m\u00ednima. Essa esp\u00e9cie de incompreens\u00e3o que ronda um texto considerado herm\u00e9tico, no mais das vezes, est\u00e1 ligada a uma intencionalidade que apela ao leitor um duplo movimento de decifra\u00e7\u00e3o e recifra\u00e7\u00e3o. Acreditamos serem pertinentes tais observa\u00e7\u00f5es, porque desfazem preconceitos e julgamentos equivocados. Preconceitos que partem, inclusive, de uma certa parcela da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u201cpr\u00e9-hist\u00f3rica\u201d que ainda, e anacronicamente, n\u00e3o relativiza os par\u00e2metros de an\u00e1lises fundadas exclusivamente sobre bases de cunho efetivamente mim\u00e9tico. N\u00e3o \u00e9 demais referir que a base da linguagem po\u00e9tica \u00e9 a met\u00e1fora que, na sua forma radical, \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de identidade: \u201cisto \u00e9 aquilo\u201d. Em toda a nossa experi\u00eancia comum, a met\u00e1fora \u00e9 n\u00e3o-literal: ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser um retardado mental, pode tomar a met\u00e1fora literalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 n\u00e3o se busca a mimese em primeiro grau. Ali\u00e1s, j\u00e1 h\u00e1 muito tempo o poema fala por si. Desde William Blake, demiurgo de todo um universo imag\u00e9tico pessoal, tem se buscado (e conseguido), a renova\u00e7\u00e3o da linguagem po\u00e9tica. \u00c9 inclusive vasta a galeria dos ditos \u201cherm\u00e9ticos\u201d que constru\u00edram obra de elevada condensa\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Ocorre-nos, de mem\u00f3ria, Nerval, Mallarm\u00e9, Rimbaud, Val\u00e9ry, Rilke, Salvatore Quasimodo, Jo\u00e3o Cabral e Murilo Mendes, dentre outros. O pr\u00f3prio Rimbaud, em suas \u201cCartas do vidente\u201d, j\u00e1 n\u00e3o propunha ao poeta a tarefa de descobrir territ\u00f3rios desconhecidos, que ele desbravaria na frente e de onde traria not\u00edcias, muitas vezes informes, ao leitor? Muito bem, o senhor Delalves Costa pratica uma poesia de intensa elabora\u00e7\u00e3o formal, com maestria t\u00e9cnica e o uso de uma metalinguagem cortante. Sim pode parecer opaco, de uma opaca tessitura atravessada por sombras e sil\u00eancios. Mas \u00e9 precisamente da\u00ed que adv\u00e9m o equil\u00edbrio entre sil\u00eancio e palavra, entre o individual e o coletivo, entre a tradi\u00e7\u00e3o e a renova\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que se entenda que nos \u00e9 proposto um h\u00e1bil jogo dial\u00f3gico no qual o poeta cria entre o mundo real e o universo do imagin\u00e1rio, a partir de uma consci\u00eancia lingu\u00edstica que dinamiza o est\u00e1tico e humaniza o desumanizado ao tensionar a linguagem ao extremo, desafiando o diz\u00edvel. Pensemos nisto antes de afirmar: Ah, o sujeito \u00e9 um herm\u00e9tico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, finalmente, h\u00e1 tamb\u00e9m em \u201cExtempor\u00e2neo\u201d, uma busca de caminhos, de solu\u00e7\u00f5es, de sa\u00eddas para uma nova vida, enfim, porque ningu\u00e9m mais hoje, em s\u00e3 consci\u00eancia, pode admitir que a humanidade siga trilhando esse caminho de insensatez. Os tr\u00eas \u00faltimos poemas do livro s\u00e3o testemunhos v\u00edvidos dessa busca. Transcrevemos o poema \u201cA Reinven\u00e7\u00e3o\u201d:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00c9 preciso rasgar o modelo hip\u00f3crita \/ deste sistema talhado maquiav\u00e9lico. \/ Deste sistema retalhado de costuras \/ de consequ\u00eancias ardilosas\u2026 Ali\u00e1s,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00e9 preciso rasgar o que n\u00e3o edifica, \/ amputar punho tirano. Rasgar-se. \/ \u00c9 preciso morder pelo alicerce \/ a morta pol\u00edtica dos caneta\u00e7os. \/ \u00c9 precisa rein(ventar f\u00f3rmulas) \/ sim, para desentortar bengalas \/ \u00e9 preciso, sim, reformas \/ e significados concretos \/ sim, remontar conceitos \/ e desobstruir mundos coagulados.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Sim. \u00c9 preciso repensar sobras \/ o vigente modelo remendado. \/ Vamos atear fogo no resultado \/ renascer das cinzas n\u00e3o basta, \/ \u00e9 preciso remodelar as chamas. <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Krishnamurti G\u00f3es dos Anjos<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor, pesquisador e cr\u00edtico liter\u00e1rio. Autor de Il Crime dei Caminho Novo \u2013 Romance Hist\u00f3rico, Gato de Telhado \u2013 Contos, Um Novo S\u00e9culo \u2013 Contos,\u00a0 Embriagado Intelecto e outros contos e\u00a0 Doze Contos &amp; meio Poema. Tem participa\u00e7\u00e3o em 27 Colet\u00e2neas e antologias, algumas resultantes de Pr\u00eamios Liter\u00e1rios. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panam\u00e1, M\u00e9xico e Espanha. Seu \u00faltimo livro, publicado pela editora portuguesa Chiado, \u2013 O Touro do rebanho \u2013 Romance hist\u00f3rico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional &#8211;\u00a0 Pr\u00eamio Jos\u00e9 de Alencar, da Uni\u00e3o Brasileira de Escritores UBE\/RJ em 2014, na categoria Romance.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cExtempor\u00e2neo\u201d, livro do poeta Delalves Costa, \u00e9 tema das leituras de Krishnamurti G\u00f3es dos Anjos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16316,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3631,2533],"tags":[11,3641,3640,2776,159],"class_list":["post-16315","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-130a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-delalves-costa","tag-extemporaneo","tag-krishnamurti-goes-dos-anjos","tag-poemas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16315"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16315\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16380,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16315\/revisions\/16380"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16316"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}