{"id":16342,"date":"2019-05-13T08:51:16","date_gmt":"2019-05-13T11:51:16","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16342"},"modified":"2019-08-15T16:49:29","modified_gmt":"2019-08-15T19:49:29","slug":"dedos-de-prosa-ii-59","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-59\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Luan Bonini<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16344\" aria-describedby=\"caption-attachment-16344\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Almir-Bindilatti-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16344 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Almir-Bindilatti-1.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Almir-Bindilatti-1.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Almir-Bindilatti-1-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Almir-Bindilatti-1-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16344\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Almir Bindilatti<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre escorpi\u00f5es pt. I<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E ae, nene.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Olha, achou alguma coisa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Nada. E voc\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Porra nenhuma. Mas foda-se. Que se foda essa merda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tem caf\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tem sim, vou fazer. E a pequena cozinha se encheu com o cheiro de caf\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de uma semana eu estava sentado de novo naquela cozinha. Um ovo, tr\u00eas kilos de arroz e quatro batatas. Tudo encaixado estrategicamente em dois potes. Microondas. Talheres dentro de um<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">copo. A prateleira encardida suportava tudo aquilo com eleg\u00e2ncia. Os produtos de limpeza ficavam embaixo, quest\u00e3o de facilidade. \u201cMelhor que nada\u201d, pensei. At\u00e9 o fim do m\u00eas era aquilo. Acendi o \u00faltimo cigarro e espantei a fome com ele. Hora de dormir que amanh\u00e3 \u00e9 outro dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois dias depois arrumei um trampo no porto de Peru\u00edbe. Meus dedos ficavam fodidos, carne viva. Conheci ela na praia, cai\u00e7ara e escorpiana. Nicole. Morena, queimada de sol e l\u00e1bios grossos. Pouco<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">conhecia das coisas da cidade grande. Vendedores ambulantes que disputavam cal\u00e7adas, mendigos e putas, buzinas e carros. Pouco sabia. Alugamos dois c\u00f4modos. Tudo deu certo por dois meses, \u00e9 o tempo m\u00e9dio para at\u00e9 paranoias individuais aparecerem. Depois tudo vem \u00e0 tona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas meses depois j\u00e1 est\u00e1vamos um querendo matar o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ae, bola um beck?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Podepa, bolo sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fumei e fui pra casa. Sabia que Nicole estaria em l\u00e1 e aquilo me desanimava. Sofria por anteced\u00eancia. As mesmas merdas de sempre. Dinheiro, pai morto e m\u00e3e desempregada, quem foi no programa de quem, artistas, yoga e medicamentos contra o peso. Eu aguentava tudo aquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relacionamentos s\u00e3o assim. O problema era quando est\u00e1vamos juntos e usando drogas. E come\u00e7ou a ficar constante. As mudan\u00e7as de humor, agressivas por parte de ambos, nos desgastavam. Dia a dia. Bebida e coca\u00edna, eu preferia a bebida e ela o p\u00f3. Nos d\u00e1vamos bem enquanto tinha sobrando. Depois vinha a merda. Certo dia dei uma rasteira num maninho s\u00f3 porque olhou a bunda dela. E o trampo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">continuava. Peixes, camar\u00f5es, merdas marinhas. Certo dia eu e Nicole tivemos a pior briga. Saiu por uns quatro dias, voltou, como se nada tivesse acontecido. O cheiro de sexo e cerveja ainda impregnava seu corpo. No dia seguinte que voltou quis arrumar outra briga. Algo se quebrou em mim e foda-se. Taquei suas merdas no ch\u00e3o e mandei se foder. Ela gritava e eu tamb\u00e9m, ela me machucava enquanto tentava se machucar. A merda tava completa. E eu tava no meio. Os dias seguintes foram de sil\u00eancio profundo entre os dois. Est\u00e1vamos imersos nas nossas merdas internas. Depois ela sumiu. E o trampo continuou. Pregui\u00e7a. Sabia que meus dias naquele trampo estavam contados. N\u00e3o suportava o cheiro de peixe impregnado nas m\u00e3os, roupas e cabelos. O odor piorava conforme o dia passava. Os dedos encaro\u00e7ados, fruto das cabe\u00e7as de camar\u00f5es descascadas. Cabe\u00e7as e mais cabe\u00e7as. Bolhas e cortes. Sabia que a merda do camar\u00e3o fica na cabe\u00e7a? Arranca-se a cabe\u00e7a pra tirar a merda. Literalmente o filho da puta tem merda na mente. Barata do mar. Aquela merda preta percorre quase metade do corpo dele. Pelo menos todo dia tinha peixe na mesa. Arrastei por mais tr\u00eas meses o servi\u00e7o. Peguei o dinheiro, um bucado de peixe e fui pra S\u00e3o Paulo. Trampar de flanelinha n\u00e3o dava tanto, mas os dedos pararam de encaro\u00e7ar. Pelo menos minhas m\u00e3os melhoraram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas semanas depois cansei das ruas. Queria um gabinete, algo com ar condicionado. Come\u00e7o de ano era sempre uma merda, o calor fodia tudo. Ainda possu\u00eda dez reais e um ma\u00e7o de eigth. O mundo era<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">indiferente aos meus problemas e eu sabia disso. Fumei um cigarro e fui entregar curr\u00edculos. N\u00e3o deu certo, pelo menos n\u00e3o hoje. Mas amanh\u00e3 \u00e9 outro dia. Fechei os olhos e dormi. Bem suave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte fui no \u00f4nibus conversando com um parceiro, trombei por coincid\u00eancia, tinha acabado de sair da cadeia. Conheci ele em Peru\u00edbe e agora l\u00e1 estava ele. Vendendo uns halls em S\u00e3o Paulo. Ideia vai, ideia vem, me aparece com uma foto no celular e pergunta:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ta vendo essa foto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que foto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Essa porra, olha aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; To vendo. E a\u00ed?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Comassim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Que que voc\u00ea acha, porra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu sei l\u00e1, acho nada. Que tem?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A mina tirou essa foto antes de se matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas que merda! Porque voc\u00ea tem essas merdas? Assiste essas merdas. Coisa de doente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Doente nada, vi hoje numa mat\u00e9ria. Passou de tarde, Datena. Doidera. Proc\u00ea v\u00ea como a vida \u00e9 um bagulho fr\u00e1gil, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pode pa, \u00e9 sim. Falando nisso, se viu o Luis?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vishe. Voc\u00ea \u00e9 o primeiro dos moleques que eu trombo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pode pa, que fita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descemos no mesmo ponto. Quando come\u00e7ou a contar sobre a cadeia, logo em seguida, escuto um barulho alto. Ecoado. Me viro e um policial d\u00e1 um tap\u00e3o na minha mochila que cai. Agacho pra pegar e levo uma bicuda na bunda. Caio de cara no ch\u00e3o. Merda! Ele come\u00e7a a esparramar os pertences com o coturno enquanto faz coment\u00e1rios sobre meus pertences. O fardado n\u00e3o se deu ao trabalho de encostar nas minhas coisas com as m\u00e3os. Passava o coturno em tudo. \u201cQue merda \u00e9 essa? Pobre sabe ler agora?\u201d, pega o livro e l\u00ea o nome do autor meio sem jeito \u201cFEREZ?!\u201d. \u201cQue porra \u00e9 essa?\u201d, grita olhando ao redor. Eu sem saber o que dizer fico quieto. Ele me levanta pela blusa e pergunta de novo \u201cQue porra \u00e9 FEREZ?\u201d. \u201d\u00c9 F-E-R-R-E-Z, senhor\u201d. \u201cR de rato\u201d. \u201c\u00c9 um escritor do cap\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cE agora favelado sabe escrever? que porra, hein. \u00c9 o que me faltava\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu parsa n\u00e3o teve a mesma sorte. N\u00e3o teve o mesmo di\u00e1logo. Foi levado n\u00e3o sei pra onde. Tem passagem? Tem? Ent\u00e3o vem c\u00e1. Nunca mais o vi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Loucura. Depois daquilo resolvi recuperar o tempo perdido. Comecei trabalhar e estudar. Os curr\u00edculos finalmente deram certo. 8 horas num arquivo empoeirado e 05 horas numa cadeira de madeira. Depois de um tempo torna-se autom\u00e1tico. \u00d4nibus, chefe, carteira rabuda, chefe gritando, almo\u00e7o, futebol do fds, chefe, \u00f4nibus, professor e salas lotadas. De repente acordei dentro do \u00f4nibus. Demorei um pouco at\u00e9 conseguir perder a sonol\u00eancia. De repente pego uma conversa do meu lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cOi. Voc\u00ea \u00e9 do noturno n\u00e9? Faz qual aula no primeiro hor\u00e1rio?\u201d um bombado, do tipo de academia, pergunta pra uma morena de vestido preto e pernas grossas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cAh, LP V. Mas\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cAaaaaah, n\u00e3o, \u00e9 que eu fa\u00e7o uma depois da sua\u201d. O cara responde na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cMas o que voc\u00ea quer saber porra?\u201d. A mina reage. O cara enfia o rabo entre as pernas e sai vazado. Eu dou uma risada. Ela me olha com um olhar ainda cauteloso e diz \u201cHomem tem que ser assim sen\u00e3o monta\u201d. Bem, se ela diz. E comecei a observar outras pessoas conversando. Animadas, afinal, sexta. O professor declama \u201cfim de aula, bom final de semana a todos!\u201d. Finalmente! \u00d4nibus, caminhada, \u00f4nibus, caminhada e porta, xave, cheiro de mofo. Boa sexta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mesma \u00e9poca conheci Karen. Morena de in\u00edcio, possui um belo nariz e pernas grossas. A cintura fina dava o toque. Me esperava em casa com uma garrafa de vinho. Ali\u00e1s, suco de uva com \u00e1lcool. Conversas sobre o cotidiano, comer, banho e dormir. Sexo deix\u00e1vamos pro dia seguinte, antes do servi\u00e7o. De repente, t\u00e1 tudo no autom\u00e1tico. A gente se torna ref\u00e9m da comodidade. Insens\u00edvel a toda merda. Explodimos nosso c\u00e9rebros com comida radioativa e propagandas med\u00edocres, um atr\u00e1s do outro. E pl\u00e1! Uma arma contrabandeada por um policial gordo acaba na nossa m\u00e3o. E estouramos nossos miolos. P\u00e1! O dia a dia nos mata. Rapidin. Consome. Quando me dei conta estava na frente de casa novamente. Chave na m\u00e3o, porta abrindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Normalmente encostava de s\u00e1bado na Santa pra fumar um baseado. E de vez em quando encostava o Felipe. Playboy, branco e faixa preta em jiu jitsu. De cada dez palavras, nove sobre si. M\u00fasculos, academia e bandido bom \u00e9 bandido morto. Um trago no baseado\u2026 cof! cof! Tem que matar todos esses filhos da puta. Cof! Gastei mil reais em ester\u00f3ides. Tudo pelo corpo n\u00e9?! Ah, eu n\u00e3o aguento. Foda-se, vou embora. Levanto e saio andando. Ningu\u00e9m entendeu nada e no dia seguinte o neguinho perguntou \u201cCaralho, lu\u00e3! Que porra foi aquela ontem? C\u00ea saiu do nada.\u201d \u201cAh, sabe como \u00e9. \u00c0s vezes n\u00f3is passa mal\u2026 mas ae vamos fumar um?\u201d \u201cVamos ae\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentei com o neguinho, nome Guilherme, mas conhecido como neguinho, e acendi o baseado. J\u00e1 tava bolado. Na sequ\u00eancia dois moleques encostaram no outro lado da pra\u00e7a pra fumar tamb\u00e9m. Entre um trago e outro escutei entre eles algo sobre as garotas da escola. C\u00ea viu a Bruna? Eu vi, m\u00f3 gostosa. Essas coisas. De repente um tap\u00e3o! Pl\u00e1! Me viro e vejo os dois moleques levando um enquadro monstruoso. Os policiais apareceram do nada. Nessa meu parsa j\u00e1 se ligou, pegamos o beck e vazamos na mi\u00fada. Melhor n\u00e3o arrastar. Fui pra casa e queimei l\u00e1 mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Domingo e tudo de novo. Segunda, ter\u00e7a, quarta. Quinta-feira e uma japonesa, meio metro e cabelos negros, entra na sala. Come\u00e7a a falar. E falar. A boca abre, fecha e mesmo assim mant\u00e9m um sorriso<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">eterno. Dos assuntos mais alegres, como happyhour, at\u00e9 a crise pol\u00edtica atual e morte de Marielle, todos os assuntos eram acompanhados daquele medonho sorriso. Talvez nunca tenha passado necessidade na vida. Um pai professor s\u00f3cio em multinacional e m\u00e3e professora universit\u00e1ria, estabilidade financeira,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">professor de dan\u00e7a, escola particular, f\u00e9rias na Europa, boas amizades e ruas arborizadas. Tudo encaminhou aquela descendente asi\u00e1tica pra felicidade. Tanta felicidade que nem a morte ou mis\u00e9ria<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">abalavam. Nenhum parente viciado em crack ou vizinha suicida. Talvez por isso sorria tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parei de olhar pra ela, desisti de ouvi-la e comecei a rabiscar num peda\u00e7o de papel. Eu? Tinha tudo pra dar errado. E dei. Mas \u00e0s vezes coisas boas aconteciam. E o segredo \u00e9 se agarrar nelas. Quando tudo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">aquilo acabou fui pegar o \u00f4nibus. Acendi o cigarro e percebi. O mundo continuava l\u00e1. E amanh\u00e3 era sexta. Happyhour e os mesmos b\u00eabados de sempre. Beber com o pessoal do trampo \u00e9 uma merda. Dificilmente d\u00e1 certo. Os papos viram grandes debates. Ruins s\u00e3o os cr\u00edticos, pior ainda, cr\u00edticos escritores. E com essa p\u00e9rola Oswald inicia aquela merda. Dizia no \u00faltimo domingo ter comido quase um porco inteiro, joelho, toucinho, com arroz e couve. Oswald devorou o toucinho do coitado em poucos minutos. Luisa era vegetariana e come\u00e7ou a discursar sobre amor aos animais e como humanos s\u00e3o horr\u00edveis. Antropofagia? S\u00f3 dos \u00edndios. Eu limitava a acenar com a cabe\u00e7a meio sem entender. N\u00e3o tinha pique pra\u2019quele falat\u00f3rio. S\u00f3 queria ir pra casa e dormir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois meses depois perdi o emprego. Justificaram com \u201cfalta de interesse\u201d e \u201ccorpo mole\u201d. Al\u00e9m de trabalhar era preciso fingir que amava trabalhar. Sem seguro desemprego fui me virando. E sabia me virar. Comprava sucos de 2 litros e fazia 4, 5. Ligava \u00e0s vezes a tv e porra, que merda fazem com nosso \u00edndios? Dizimam a maioria, fodem um monte de tradi\u00e7\u00e3o antiga, e depois ainda reclamam quando os cabe\u00e7as vermelhas querem uma terra. Terra Ind\u00edgena por direito. E dai que \u00edndio tem celular?! Todo mundo tem e \u00edndio tamb\u00e9m \u00e9 gente, tamb\u00e9m faz parte de todo mundo. Tamb\u00e9m quer terra. Enquanto a antropofagia ind\u00edgena e oswaldiana tem objetivo de assimilar qualidades, o canibalismo do dia a dia faz o mais forte comer o mais fraco. Pura devora\u00e7\u00e3o. Empilhados em f\u00e1bricas. Pausados em gabinetes. Continuamos marchando rumo \u00e0 luz. A luz. Colocamos nossas bolas no cu e sa\u00edmos todas as manh\u00e3s como se us\u00e1ssemos fardas. Aceitamos. Sim, senhor! E voltamos pra casa. Filhos ingratos e esposas t\u00e3o perdidas quantos n\u00f3s. Um tiozinho do aluguel, chefe zangado. Ta\u00ed o sonho brasileiro, americano, venezuelano. Ta\u00ed. Olhei pro teto e decidi ir pra rua. A chuva tinha acabado e a goteira ainda continuava. N\u00e3o encontraria o cara do aluguel t\u00e3o cedo. S\u00f3 aparecia em dia de pagamento. E tava longe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Luan Bonini Bonilha de Oliveira<\/em><\/strong><em> nasceu em S\u00e3o Paulo, Brasil, no dia 01 de novembro de 1994. Filho de m\u00e3e solteira, durante a inf\u00e2ncia passou por muitos bairros e cidades paulistas, como S\u00e3o Matheus, Jd. Jaqueline, Campo Limpo, Peru\u00edbe. Instalado no Butant\u00e3, mais tarde vai morar em Tabo\u00e3o da Serra, Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo. Come\u00e7ou a escrever por volta dos 18 anos, influenciado por Ferrez, Hemingway e Celine. Em 2014, ingressou no curso de Letras na Universidade de S\u00e3o Paulo e atualmente tenta viver da escrita.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arremessos cotidianos num conto de Luan Bonini<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16343,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3631,2534],"tags":[81,41,3648,3647],"class_list":["post-16342","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-130a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-entre-escorpioes-pt-i","tag-luan-bonini"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16342"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16345,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16342\/revisions\/16345"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}