{"id":1644,"date":"2012-06-04T19:26:01","date_gmt":"2012-06-04T22:26:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=1644"},"modified":"2012-07-02T20:13:18","modified_gmt":"2012-07-02T23:13:18","slug":"dedos-de-prosa-ii-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-3\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1646\" aria-describedby=\"caption-attachment-1646\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/som2menor.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1646 \" title=\"som2menor\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/som2menor.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/som2menor.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/som2menor-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/som2menor-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1646\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Juh Moraes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\">\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>PROBLEMA DE LINGUAGEM<\/strong><\/p>\n<p><em>Regina M. A. Machado<\/em><\/p>\n<h6 align=\"right\"><em><br \/>\nNada impede, responde a m\u00e3e, mas presta esclarecimento: o verde dos parques \u00e9 para dar realce ao marrom. Marrom de qu\u00ea? Marrom de onde? Do Tiet\u00ea, de tudo. Cidade com pouco marrom n\u00e3o \u00e9 cidade, \u00e9 mata Atl\u00e2ntica; quer voltar aos tempos do descobrimento, po\u00e7o de ignor\u00e2ncia?<br \/>\n<\/em><br \/>\nZulmira Ribeiro Tavares, \u00ab Vinhetas com o Tio Paulista \u00bb<em><\/em><\/h6>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O telefone tocou na hora do almo\u00e7o e ela atendeu na copa mesmo, foi por isso que todo o mundo entrou na conversa com a amiga francesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Oi, Sandrine, que boa surpresa, voc\u00ea por aqui? &#8230; Quando \u00e9 que vem me visitar?&#8230; N\u00e3o vai ficar em S\u00e3o Paulo? Vai para onde?&#8230; Para o campo?!?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os meninos come\u00e7aram a rir e a ca\u00e7oar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois \u00e9, voc\u00ea ouviu, n\u00e9? O pessoal achou engra\u00e7ado porque aqui ningu\u00e9m diz isso. Existe a palavra, claro, mas n\u00e3o se usa nesse sentido. Usa o qu\u00ea? \u00c9\u00e9hhh&#8230;.. acho que eu diria&#8230; para o interior?&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00f3 se for para uma cidade do interior!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papo continuou em franc\u00eas e eles se desinteressaram. Quando ela desligou, um deles perguntou se a mo\u00e7a ia para alguma cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o, ela n\u00e3o quer saber de cidade e na falta de coisa melhor, vai continuar dizendo campo mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Campo fica com cara de tradu\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Como \u00e9 que a gente pode dizer?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ela vai para alguma fazenda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o era fazenda \u2013 ela tinha perguntado e a francesa disse que n\u00e3o estava interessada nem em planta\u00e7\u00e3o nem em cria\u00e7\u00e3o de gado porque para ela isso era paisagem devastada. E o que ela mais queria era rio com mata preservada, muito passarinho, e para isso tinha que ter muita \u00e1rvore, coisa que nunca tem bastante em fazenda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Isso tamb\u00e9m n\u00e3o, na fazenda do vov\u00f4 tinha muito passarinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9, sobretudo em gaiola&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Menino, como voc\u00ea inventa! Voc\u00ea nem sequer conheceu a fazenda direito. Na beira do rio havia uma mata enorme, tinha at\u00e9 lobo-guar\u00e1 quando eu era pequena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Passarinho, ent\u00e3o, era mato&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d4 menino metido! Havia muito sanha\u00e7o nas mangueiras, e no pomar o tio Ademar ca\u00e7ava passarinho, lembra? Eu morria de pena quando via os coitadinhos, t\u00e3o pequenininhos, sangrando no ch\u00e3o. E ningu\u00e9m dizia nada, acho que era normal&#8230; nunca entendi muito bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois eu achava bonito, ele t\u00e3o elegante, com botas e roupa c\u00e1qui, de bigode e aquela espingarda reluzente&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Caraca! As armas e os bar\u00f5es ornamentados com um peito varonil! Acho que prefiro os desejos buc\u00f3licos da amiga da titia&#8230; e ent\u00e3o, qual \u00e9 o programa dela?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bom, ela vai passear na floresta e vai se hospedar num hotel ecol\u00f3gico. O dono do hotel guia os h\u00f3spedes para ver, ouvir, fotografar os p\u00e1ssaros, descobrir plantas, essas coisas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos filhos, havia tamb\u00e9m os sobrinhos que estudavam perto e vinham almo\u00e7ar na casa dela. Ela gostava de receber a fam\u00edlia, sobretudo os mais jovens, de ouvir as hist\u00f3rias e dar risada com as conversas deles. A irm\u00e3 tamb\u00e9m vinha \u00e0s vezes, talvez para n\u00e3o esquecer dos almo\u00e7os de domingo na casa da m\u00e3e, s\u00f3 que para os sobrinhos n\u00e3o adiantava marcar dia \u2013 eles passavam quando estavam pelo bairro ou ent\u00e3o n\u00e3o vinham. N\u00e3o dava mais para fazer como antes, a cidade era outra, muito maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Daqui a pouco voc\u00ea vai dizer que ela vai passear no bosque enquanto seu lobo n\u00e3o vem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pois \u00e9, eu tamb\u00e9m estava pensando nisso e n\u00e3o achei a palavra que queria. Floresta para mim lembra contos de Grimm, coisas traduzidas que a gente lia quando era crian\u00e7a. Ou ent\u00e3o uma ideia-problema, como \u201cfloresta amaz\u00f4nica\u201d, que fica t\u00e3o longe que n\u00e3o \u00e9 bem real.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Para mim, bosque \u00e9 que \u00e9 uma palavra liter\u00e1ria, desencarnada. Floresta \u00e9 normal, ali\u00e1s tem uma bem mais perto, a floresta da Tijuca&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas essa \u00e9 reconstitu\u00edda. Depois que pelaram a montanha para plantar caf\u00e9, apareceu um ingl\u00eas maluco que replantou tudo. At\u00e9 o Jos\u00e9 de Alencar fala nisso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ent\u00e3o como \u00e9 que fica? E se a gente disser que ela vai pro mato?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mato pra mim ficou como lugar de escravo fugido, vai bem com capit\u00e3o do mato, esconderijo de bandido, n\u00e3o combina com a europeia em busca de natureza-pureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ningu\u00e9m ainda falou em mata! Tem a mata Atl\u00e2ntica, as matas ciliares&#8230; e nisso se fala muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas ser\u00e1 que d\u00e1 para dizer que algu\u00e9m vai para a mata? Nunca ouvi isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Achei! A gente podia dizer que ela vai para a ro\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Combina menos ainda&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ro\u00e7a eu gosto, vai bem com caipira, biju, caf\u00e9 com duas m\u00e3os, cambucu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre havia um ou outro dos mais velhos para ensinar alguma coisa aos seus adolescentes pregui\u00e7osos e ela bem que gostava. Se ousasse corrigir o que os filhos diziam, ou tentar trazer alguma informa\u00e7\u00e3o nova, era revolta ou ca\u00e7oada na certa. Vindo dos primos mais velhos, tudo passava macio, e, mesmo se houvesse discuss\u00e3o, era evidente que eles ouviam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00eas sabiam que ele comprou um dicion\u00e1rio de caipir\u00eas?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fui buscar socorro, figura! Meti a cara num mundo soterrado, nas nossas catacumbas, no nosso tesouro de piratas. Eu sou um universit\u00e1rio pasteurizado, s\u00f3 leio teoria traduzida e falo uma l\u00edngua de merda, mas para ser um cani\u00e7o pensante eu tenho que ter raiz. Paix\u00e3o de raiz, sacom\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tempo perdido, \u00f4 cientista! Essa menina n\u00e3o tem nem ideia do que voc\u00ea est\u00e1 querendo dizer. Ela agora quando fala parece que anda decifrando l\u00edngua estrangeira, com essa mania de pronunciar tudo que est\u00e1 escrito. \u00c9 besta mesmo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os outros aproveitaram para massacrar:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o \u00e9 besta, pobrezinha. O problema \u00e9 o tamanho da ignor\u00e2ncia que \u00e9 imenso, global&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ah-ha, ontem ouvi ela dizer que, de noite, ia estar assistindo todas as novelas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quem n\u00e3o concorda com voc\u00eas \u00e9 sempre uma besta, isso a gente j\u00e1 sabe. Mas com dicion\u00e1rio e tudo, ainda n\u00e3o vi o grande pesquisador dizer \u201cn\u00f3is vai\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9, isso n\u00e3o d\u00e1. Mas para mim \u00e9 uma outra maneira de falar, que n\u00e3o \u00e9 a da minha tribo. Ser\u00e1 que \u00e9 errado? N\u00e3o sei. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o sei viver em floresta e moro em pr\u00e9dio. Verdade que tem gente que acha que essa \u00e9 a \u00fanica maneira civilizada de morar&#8230; E o pior \u00e9 que cada vez mais gente mora assim. Assim como eu, ali\u00e1s, mas nem por isso acho que \u00e9 uma boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00c9 uma boa morte, isso sim&#8230; E se a gente n\u00e3o achou um jeito de falar do que a amiga da titia est\u00e1 procurando \u00e9 porque floresta para n\u00f3s \u00e9 para ser derrubada, mata em beira de rio \u00e9 desperd\u00edcio, n\u00e9? Pra qu\u00ea, deixa s\u00f3 uma fitinha&#8230; n\u00e3o tem lugar na l\u00edngua porque n\u00e3o tem lugar na terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Caipira tamb\u00e9m \u00e9 um nada, todo o mundo agora faz como a telespectadora ali, s\u00f3 acredita nessa linguagem desenraizada, sem nenhum car\u00e1ter&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A dela \u00e9 uma esp\u00e9cie de melting pot raso, de feiticeira fashion victim&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E eis que o ingl\u00eas invade a linguagem da nossa kamikaze fundamentalista!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, esquentava. Havia os de esquerda, os da direita e os que planavam, depois vieram os apaixonados por ecologia e, por \u00faltimo, o sobrinho estudante de antropologia. Esse s\u00f3 falava em culturas amea\u00e7adas, civiliza\u00e7\u00f5es desaparecidas, e os outros s\u00f3 com a natureza; parecia um concurso para ver quem ia desaparecer primeiro, se eram as florestas e os bichos ou as dan\u00e7as e os sotaques&#8230; O \u00fanico que gostava da tecnologia quanto-mais-melhor, era o filho do meio, bom de matem\u00e1tica, esperto e calad\u00e3o, mas pegava na hora qualquer cochilo dos mais idealistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; E voc\u00ea a\u00ed, \u00f4 peregrino de bast\u00e3o e p\u00e9 no ch\u00e3o, esqueceu que descobriu tudo isso por causa da internet? E se quiser ir adiante nas pesquisas, vai ter que ler muita publica\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cada um tem a internet que merece&#8230; e fala o ingl\u00eas que pode.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; T\u00e1 bom, mas t\u00e1 chato! Vamos voltar para o passeio da francesa, pelo menos estava engra\u00e7ado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por mim, ela pode ir cagar no mato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pronto, engrossou. E eu daqui a pouco vou ter que ir. Tem caf\u00e9, tia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tem, \u00e9 claro! J\u00e1 se viu faltar caf\u00e9 nesta casa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; &#8230; nesta heran\u00e7a direta dos latifundi\u00e1rios bar\u00f5es do imp\u00e9rio!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mais respeito, menina, os nossos bisav\u00f3s nunca foram bar\u00f5es, eram fazendeiros, sim, e sempre cuidaram da terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ora, mam\u00e3e, com a m\u00e3o do gato, n\u00e9? Que eu saiba eles nunca moraram na fazenda, trocaram os escravos pelos colonos e fizeram casar\u00e3o na Paulista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00eas dois, fiquem sabendo que a nossa fam\u00edlia nunca nem chegou perto dessa fortuna que est\u00e3o imaginando. E morou na fazenda sim, n\u00e3o trabalhava no eito, mas estava l\u00e1 o tempo todo. Quem veio para a cidade, para um bairro bem mais modesto e sem casar\u00e3o nem mans\u00e3o, foram meus pais. E vieram para os filhos poderem estudar, seus ingratos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quem pediu? Eu sonho \u00e9 com uma casa de madeira, com rede na varanda, lampi\u00e3o de querosene e um c\u00e9u com todas as constela\u00e7\u00f5es se atropelando de brilho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u00d4 cara, isso \u00e9 sonho de citadino! Se voc\u00ea nunca tivesse sa\u00eddo de l\u00e1, ia sonhar \u00e9 com a divina agita\u00e7\u00e3o desta megal\u00f3pole.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Coitado, nunca acampou, nunca saiu do asfalto, nunca transou debaixo da tenda&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Coitado \u00e9 filho de rato que nasce pelado no meio do mato!, gritou o primeiro, mas foi cortado por uma e logo duas vozes cantando em coro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; \u201cQuem n\u00e3o dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou\u201d&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Assim n\u00e3o d\u00e1, todo o mundo berrando e cantando ao mesmo tempo vira bagun\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voltemos \u00e0 amiga, que \u00e9 assunto neutro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Foi pro mato. Cad\u00ea o mato? O fogo queimou. Cad\u00ea o fogo? A \u00e1gua apagou&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Cala a boca, papagaio de pirata!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o fale assim com seu primo! Quer sair da mesa?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Mas ele n\u00e3o para de dizer besteira, ora!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Besteira na sua boca \u00e9 mato \u2013 cada coisa em seu lugar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bom, t\u00e1 na hora, vou puxar. Pena que vou sem saber para que raio de lugar vai a francesa. Depois voc\u00ea pergunta para ela?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o adianta, filho, ela vai me responder com um termo de l\u00e1 das terras dela, que ela vai traduzir como puder. Voc\u00eas que gostam de andar no mato \u00e9 que devem saber&#8230;\u00a0 eu n\u00e3o ia nem no capinzal, para n\u00e3o sujar a roupa nem o sapatinho de verniz, ent\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 para saber o nome de coisas que nunca fiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Eu tamb\u00e9m vou indo. Mas n\u00e3o fique triste, minha tia, a gente gosta de voc\u00ea assim mesmo, bem sinhazinha de sala e de piano. E at\u00e9 a pr\u00f3xima tert\u00falia, bandalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(<strong>Regina M. A. Machado<\/strong> mora no exterior h\u00e1 muitos anos e, para ela, o Brasil visto de longe come\u00e7ou a mostrar tantas e t\u00e3o v\u00e1rias cores, sons, gentes e falares, que ela n\u00e3o teve outro jeito sen\u00e3o tentar entender para se entender)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As diferentes apropria\u00e7\u00f5es da linguagem desfilam soltas no conto de Regina M. A. 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