{"id":16455,"date":"2019-07-22T11:55:51","date_gmt":"2019-07-22T14:55:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16455"},"modified":"2019-08-15T22:42:53","modified_gmt":"2019-08-16T01:42:53","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-64\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mirar a vida, observar seus fen\u00f4menos mais detidamente. Deparar-se com os territ\u00f3rios do humano sem deixar de levar em conta o olhar reflexivo e transformador, esse algo capaz de movimentar rotas sem se perder no campo limitador das ret\u00f3ricas. Frases, quando ditas ao l\u00e9u, n\u00e3o demarcam a subst\u00e2ncia das ideias, posto que sequer ensaiam mudan\u00e7as ou vislumbram auroras. No meio disso tudo, um poeta rasura os postulados disfar\u00e7ados de raz\u00e3o, engendra nos seus versos a tradu\u00e7\u00e3o de um estado de esp\u00edrito que transcende a materialidade das coisas. Tudo isso sem se embriagar pela f\u00e1cil sedu\u00e7\u00e3o das travessias meramente contemplativas ou daquelas que se limitam a ver tudo como um jogo puramente est\u00e9tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o existe poesia fora do humano: eis a impress\u00e3o que arrisco em colocar quando o art\u00edfice das palavras \u00e9 um algu\u00e9m como <strong>Alberto Bresciani<\/strong>. \u00c9 ele um autor n\u00e3o somente envolvido com a constru\u00e7\u00e3o textual dos seus versos, mas especialmente com o impacto que tais escritos ter\u00e3o em quem os l\u00ea. N\u00e3o se trata aqui de uma preocupa\u00e7\u00e3o com a ades\u00e3o de simpatias, e sim de um di\u00e1logo vivo sobre o qual est\u00e3o apoiadas bases de nossas tenras e complexas exist\u00eancias. Acima de tudo, Alberto nos incita ao enfrentamento de quest\u00f5es cruciais \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o enquanto humanos, erigindo um universo po\u00e9tico que se fundamenta em doses de emo\u00e7\u00e3o, lucidez e estranhamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Autor de livros como <em>Incompleto movimento <\/em>(2011) e <em>Sem passagem para Barcelona <\/em>(2015), ambos editados pela Jos\u00e9 Olympio Editora, o carioca Alberto Bresciani vive hoje em Bras\u00edlia. E o momento atual desse escritor aponta para os desdobramentos em torno de sua mais recente obra: <em>Fundamentos de ventila\u00e7\u00e3o e apneia<\/em>, lan\u00e7ada este ano pela Editora Patu\u00e1. O livro apresenta um sofisticado emprego da linguagem, denotando profunda sensibilidade e entrega a temas que correm imbricados a tudo o que vivemos. As incurs\u00f5es do poeta por elementos que constituem certa din\u00e2mica do mundo animal correm paralelas ao que somos enquanto esp\u00e9cie dita racional. Dentro do delicado mecanismo que descreve os fen\u00f4menos de outros tantos seres vivos, Alberto nos conclama a mergulhar intensamente em nossos pr\u00f3prios percal\u00e7os como se necessit\u00e1ssemos de um resgate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para falar um pouco sobre seu novo momento com as palavras, o poeta, de modo extremamente gentil e atencioso, concede a entrevista que agora segue. Na conversa, abordou-se de um tudo: os impactos do novo livro, reflex\u00f5es sobre o papel da arte, o fazer liter\u00e1rio e seus desafios, entre outros temas. De todo o dito, nada \u00e9 mais valioso do que perceber, pulsando com vivacidade, o aflorar de uma sens\u00edvel consci\u00eancia de mundo, notadamente preocupada com uma ampla no\u00e7\u00e3o de humanidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16535\" aria-describedby=\"caption-attachment-16535\" style=\"width: 358px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-B.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16535 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-B.jpg\" alt=\"\" width=\"358\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-B.jpg 358w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-B-215x300.jpg 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 358px) 100vw, 358px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16535\" class=\"wp-caption-text\">Alberto Bresciani \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Fundamentos de ventila\u00e7\u00e3o e apneia&#8221; faz uso de mecanismos pertencentes ao mundo animal, uma sens\u00edvel constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica cuja linguagem corre paralela \u00e0s quest\u00f5es humanas. Diante do que somos hoje enquanto esp\u00e9cie, seu livro pode ser tomado tamb\u00e9m como um grito de alerta?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211;<\/strong> Observar animais e estud\u00e1-los, na medida do poss\u00edvel, sempre foram atividades interessantes para mim. Observ\u00e1-los com prazer e, ainda, com assombro. Tive animais de estima\u00e7\u00e3o de todos os tipos e, quando crian\u00e7a, gostava de os tornar personagens de hist\u00f3rias que inventava. Em regra, \u00e9 dif\u00edcil resistir \u00e0 tend\u00eancia de antropomorfizar o comportamento dos animais. Fazemos isso quase involuntariamente. Embora diferentes enquanto esp\u00e9cies, partilhamos, todos os seres vivos, um mesmo mundo e, em situa\u00e7\u00f5es v\u00e1rias, a luta pela sobreviv\u00eancia na natureza se iguala ao esfor\u00e7o que, entre homens, fazemos para enfrentar os dias. H\u00e1 momentos em que os animais parecem sa\u00eddos de um \u00c9den criacionista. Tamb\u00e9m temos nossos espa\u00e7os de paz. No entanto, a viol\u00eancia est\u00e1 \u00e0 solta. O ritmo \u00e9 assustador. E isto remete \u00e0 viol\u00eancia presente nos enredos naturais. Perceber e sentir as injusti\u00e7as da contemporaneidade, as amea\u00e7as de retrocessos civilizat\u00f3rios, a devasta\u00e7\u00e3o que causamos no meio ambiente e traduzi-los, como conceito, pelo instante, por exemplo, em que o predador impiedosamente abate sua presa apavorada, foi um dos recursos metaf\u00f3ricos que utilizei. A poesia \u00e9, a todo tempo, um sinal de alerta. Alerta que vai desde as situa\u00e7\u00f5es mais \u00edntimas que afligem o poeta at\u00e9 as quest\u00f5es maiores que sacodem o planeta. Os poemas de <em>Fundamentos de ventila\u00e7\u00e3o e apneia<\/em> surgem nesse contexto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Caberia, ent\u00e3o, dizer que a arte, sobretudo pelos caminhos da palavra, seria capaz de operar em n\u00f3s alguma possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o ou reinven\u00e7\u00e3o? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Sim. N\u00e3o tenho d\u00favidas. A arte estimula a reflex\u00e3o sobre o mundo em que vivemos, dialoga com a filosofia. E se habilita a faz\u00ea-lo, em sua ess\u00eancia, para al\u00e9m dos c\u00edrculos das regras, da \u00e9tica e da moral, dos paradigmas vigentes em um dado momento da hist\u00f3ria e dos preconceitos. Era o que dizia Adorno. O artista est\u00e1 &#8211; e deve estar &#8211; livre para se expressar, para entender o que acontece e pregar suas den\u00fancias, noites e luzes em cada porta. No caminho das palavras, como diz, encontramos, individualmente, quando lemos ou ouvimos, possibilidades de habitar outros eus e corpos, de outras vidas e experi\u00eancias. Podemos perceber os erros de circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e de falsas verdades impostas pelos interesses de plant\u00e3o. Podemos tamb\u00e9m alcan\u00e7ar nossas verdades. H\u00e1 livros que nunca acabam, personagens que nunca nos deixam, frases tatuadas na lembran\u00e7a, poemas que nos alimentam e advertem. Do ponto de vista do artista, a descoberta de sua voca\u00e7\u00e3o pode construir uma vida nova, uma vida plena, reconstruir o que parecia ru\u00edna. \u00c9 importante, no entanto, ressaltar que, antes de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio que se tenha acesso \u00e0 arte. E isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com a educa\u00e7\u00e3o. Com alimentos na mesa e cidadania. N\u00e3o somos um povo ilustrado. Poucas mudan\u00e7as favorecem imensa parte da popula\u00e7\u00e3o, que se mant\u00e9m dentro de uma bolha isolante da cultura &#8211; e de tanto mais &#8211; desde o per\u00edodo colonial. Alguns projetos pioneiros, sabemos, t\u00eam grande sucesso, levando livros, m\u00fasica e dan\u00e7a a comunidades carentes. Que se multipliquem, prosperem. Seremos assim, um dia, quem sabe, uma sociedade melhor e mais feliz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Esse tema do acesso \u00e0 arte \u00e9 deveras interessante quando pensamos que, na contemporaneidade, a contribui\u00e7\u00e3o de autores e artistas contra-hegem\u00f4nicos vem ganhando cada vez mais relev\u00e2ncia. Muitos desses criadores, perif\u00e9ricos ao <em>mainstream<\/em>, encampam, atrav\u00e9s de suas obras, uma defesa afirmativa de suas identidades, de suas vis\u00f5es de mundo. Como voc\u00ea vislumbra a for\u00e7a que emana de tais subjetividades? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Com interesse, reconhecimento e muita simpatia. Somos diferentes em m\u00faltiplos sentidos. Infelizmente, a intoler\u00e2ncia e o desrespeito sempre desaguaram na edifica\u00e7\u00e3o de nichos e no aprisionamento, nesses nichos, de diferentes grupos, recusados pela compreens\u00e3o dominante. S\u00e3o por\u00e7\u00f5es de matizes variados, separadas por hemisf\u00e9rios, circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas e sociais, g\u00eaneros, etnias, cren\u00e7as. Todas t\u00eam legitimidade e direito \u00e0 sobreviv\u00eancia e ao acatamento pelas demais. H\u00e1 tamb\u00e9m aquelas viol\u00eancias que a sociedade, como um todo, prefere ocultar. A literatura \u00e9 o espa\u00e7o da den\u00fancia. Autores que n\u00e3o se moldam \u00e0quela compreens\u00e3o dominante ou ao prot\u00f3tipo consagrado traduzem, com a for\u00e7a de sua escrita, experi\u00eancias de vida muitas vezes desconhecidas ou nunca pensadas com aten\u00e7\u00e3o. Por aliena\u00e7\u00e3o, pelo impacto da grande m\u00eddia ou por lacunas de viv\u00eancias, verdades s\u00e3o esquecidas. Ao pronunci\u00e1-las, esses autores permitem a tomada ou a renova\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, com a possibilidade, ap\u00f3s alguma decanta\u00e7\u00e3o, de constru\u00e7\u00e3o de novas regras de conv\u00edvio, de alargamento da raz\u00e3o. Se h\u00e1 liberdade de express\u00e3o, \u00e9 de valor extremo toda contribui\u00e7\u00e3o que permita a evolu\u00e7\u00e3o do que se compreende como \u201co humano\u201d. Mesmo que a pr\u00e1tica da literatura, dentro do <em>mainstream<\/em>, n\u00e3o seja, necessariamente, condena\u00e7\u00e3o eterna ao \u00faltimo c\u00edrculo da desqualifica\u00e7\u00e3o, romper seus limites, como efeito da forma ou da tem\u00e1tica, por si, j\u00e1 \u00e9 coisa boa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voltando ao seu novo livro, \u00e9 poss\u00edvel perceber nele a ideia de que sua po\u00e9tica est\u00e1 mergulhada nos imperativos colocados pelo presente em que nossas humanidades est\u00e3o mergulhadas. Enquanto escritor, em que medida voc\u00ea assume a condi\u00e7\u00e3o de dar um testemunho de seu tempo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>A literatura fotografa o momento hist\u00f3rico em que acontece. Ali\u00e1s, \u00e9 uma fonte de pesquisa hist\u00f3rica fabulosa. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o reagir ao que o mundo nos oferece ou empurra garganta abaixo. Vivemos em um pa\u00eds de diferen\u00e7as sociais inimagin\u00e1veis. Isto me incomoda a vida inteira. Sou juiz do trabalho j\u00e1 h\u00e1 muito tempo. N\u00e3o direi que, entre erros e acertos, o trabalhador sempre est\u00e1 com a raz\u00e3o. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o posso ignorar a enormidade de horrores que a experi\u00eancia me apresenta. S\u00e3o humilha\u00e7\u00f5es impostas a quem n\u00e3o vende a quantidade de produtos desejada pelo empregador, com castigos que ultrapassam o absurdo, acidentes do trabalho em volume tr\u00e1gico, com perdas de vidas e mutila\u00e7\u00f5es, crian\u00e7as trabalhando e longe dos estudos, pessoas escravizadas, a mis\u00e9ria que nos assola desde tempos coloniais. Al\u00e9m da bagagem profissional, um caminhar pelas ruas das grandes cidades, conhecer zonas de extrema pobreza de nosso pa\u00eds-continente trazem marcas desoladoras. Ao lado disso, o notici\u00e1rio nos abarrota de vis\u00f5es catastr\u00f3ficas da fome, dos abusos, da falta de compaix\u00e3o no mundo inteiro. Somos testemunhas de uma \u00e9poca terr\u00edvel. Algumas dessas situa\u00e7\u00f5es transparecem em <em>Fundamentos de ventila\u00e7\u00e3o e apneia<\/em> e tendem a estar ainda mais presentes em meus pr\u00f3ximos livros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Qual o seu maior inc\u00f4modo diante do cen\u00e1rio de retrocesso que experimentamos hoje no nosso pa\u00eds, sobretudo nos matizes culturais?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Sinto espanto, sobressalto. O pasmo segue em uma escadaria de Escher, pelo que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo e pelo que acontece em tantas partes do Globo. Circum-navega\u00e7\u00e3o do espanto e pela coniv\u00eancia. Uma amiga de muita intelig\u00eancia diz que a humanidade e o pa\u00eds j\u00e1 passaram por prova\u00e7\u00f5es t\u00e3o diversificadas e, ao final, tudo foi superado. \u00c9 preciso, nem que seja no fundo da alma, manter alguma esperan\u00e7a de ressurrei\u00e7\u00e3o dos valores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Atualmente, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o mercado editorial vem se reconfigurando no que se refere \u00e0s possibilidades de participa\u00e7\u00e3o. No cerne desse processo, est\u00e1 a atua\u00e7\u00e3o das editoras independentes, as quais inauguraram modelos alternativos de neg\u00f3cio, oportunizando espa\u00e7os para novos e an\u00f4nimos escritores. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, acredita que esse novo panorama veio para permanecer e transformar efetivamente as pr\u00e1ticas de publica\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o das obras?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Percebo essa democratiza\u00e7\u00e3o da possibilidade de publica\u00e7\u00e3o com muita alegria. A realidade da internet, com seus portais e blogues, e das redes sociais, com a comunica\u00e7\u00e3o em tempo real, j\u00e1 fez muita diferen\u00e7a. N\u00e3o consigo enxergar m\u00e9rito nenhum em um sistema no qual somente grandes editoras podem consagrar vozes ou em que apenas determinados autores s\u00e3o os escolhidos. Todos que escrevem merecem espa\u00e7o e algum cr\u00e9dito. Quem decidir\u00e1 se ter\u00e3o direito \u00e0 leitura e \u00e0 perman\u00eancia ser\u00e3o os leitores. E, aqui, vale lembrar que h\u00e1 p\u00fablicos diferentes, que elegem seus estilos e g\u00eaneros. Pensando em poesia, h\u00e1 quem prefira textos f\u00e1ceis, doces. H\u00e1 quem prefira os que desafiam um pouco mais. As pequenas editoras t\u00eam permitido o acesso de autores e leitores \u00e0 boa literatura, que, de outro modo, estaria condenada \u00e0 gaveta eterna. Editoras como a Patu\u00e1 &#8211; e n\u00e3o posso deixar de me referir ao\u00a0 Eduardo Lacerda, com seu hero\u00edsmo todo -, como a Penalux, de Tonho Fran\u00e7a e Wilson Gorj, tantas outras, s\u00e3o vias maravilhosas para a publica\u00e7\u00e3o de novos escritores de qualquer idade. Os livros t\u00eam qualidade editorial e circulam o suficiente para concorrerem aos maiores pr\u00eamios liter\u00e1rios do pa\u00eds. Sei de jovens escritores acantonando editores e se esfalfando para merecer aten\u00e7\u00e3o das grandes editoras, e n\u00e3o vejo sentido. \u00c9 muito bom ser publicado. \u00c9 muito bom ser publicado por uma grande editora. No entanto, uma editora menor, com toda certeza, ser\u00e1 mais atenciosa para com o autor e lhe poder\u00e1 trazer muita sorte. Penso que, no momento, \u00e9 um modelo que veio para ficar. Digo \u201cno momento\u201d, porque o mundo se tornou uma metamorfose permanente, com tecnologias que nos atropelam quando menos se espera.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16536\" aria-describedby=\"caption-attachment-16536\" style=\"width: 359px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16536 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-II.jpg\" alt=\"\" width=\"359\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-II.jpg 359w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Alberto-II-215x300.jpg 215w\" sizes=\"auto, (max-width: 359px) 100vw, 359px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16536\" class=\"wp-caption-text\">Alberto Bresciani \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O curioso, dentro dessas tecnologias que nos atropelam, \u00e9 perceber que alguns pap\u00e9is se modificam nesse contexto de apari\u00e7\u00f5es digitais. Com certa frequ\u00eancia, autores deixam de ter a sua import\u00e2ncia atrelada \u00e0 obra e passam a ser incensados como celebridades apenas pelo que representam em mat\u00e9ria de performance p\u00fablica. \u00c0 reboque disso tudo, tamb\u00e9m h\u00e1 o fen\u00f4meno da superexposi\u00e7\u00e3o da intimidade, no qual aspectos da vida privada dos escritores assumem um lugar de destaque, sobretudo em m\u00eddias sociais.\u00a0 De que modo esse estado de coisas pode comprometer as pr\u00e1ticas liter\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>A chegada da internet e das redes sociais trouxe uma quantidade muito grande de questionamentos e altera\u00e7\u00f5es sens\u00edveis no comportamento das pessoas. H\u00e1 muitos estudiosos, como Castells, que se dedicam ao tema. N\u00e3o sou especialista e respondo como expectador interessado.\u00a0 A performance como meio de promo\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno contempor\u00e2neo \u00e0s redes sociais e peculiar aos escritores. Existia antes. Existia e existe em outras \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o. Convenhamos que j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tanto espa\u00e7o para o escritor recolhido, misterioso, recluso. Ou h\u00e1, mas o alcance de sua literatura ser\u00e1, muito provavelmente, restrito. As editoras n\u00e3o t\u00eam tempo ou energia para a divulga\u00e7\u00e3o de todos os autores que publicam. Vale para as grandes editoras tamb\u00e9m. \u00c9 necess\u00e1rio que o autor se ocupe com a sua pr\u00f3pria divulga\u00e7\u00e3o, com a divulga\u00e7\u00e3o de seu trabalho. Isto, porque, exatamente pela quantidade de autores no mercado, outro feito do presente \u00e9 colocar maior foco no leitor e no que l\u00ea do que nos autores propriamente ditos. As redes sociais facilitam aquele trabalho. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso considerar que o conceito ou o valor da privacidade n\u00e3o tem o mesmo feitio para as gera\u00e7\u00f5es mais jovens. Assim, h\u00e1 quem transforme sua vida em um livro aberto, um relato ou uma autofic\u00e7\u00e3o <em>online<\/em>. E com sucesso. Conquistam milhares de seguidores e vendem milhares de livros. H\u00e1 quem adoe\u00e7a nesse processo e adquira obsess\u00e3o pelo monitoramento de seus perfis nas redes sociais e deixe de produzir ou, ent\u00e3o, rebaixe a qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 mais palat\u00e1vel para as redes. A performance \u2013 e \u00e9 preciso ter talento para isso \u2013, como eu dizia, por si, n\u00e3o \u00e9 necessariamente m\u00e1, quando busca a divulga\u00e7\u00e3o de obra de qualidade. Causar\u00e1 algum preju\u00edzo quando representar o exemplo de trabalho sem qualidade liter\u00e1ria. Como o exemplo arrasta, notaremos \u2013 e notamos \u2013 outros escritores, com grande potencial art\u00edstico, tentados a reproduzir o comportamento e aquele formato menor em sua produ\u00e7\u00e3o. De qualquer modo, a literatura ainda \u00e9 maior e mais do que tudo isso. Ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 quem sustente que a cr\u00edtica liter\u00e1ria perdeu sua for\u00e7a no Brasil, a ponto de praticamente n\u00e3o mais existir. Concorda com essa percep\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Pelo vi\u00e9s tradicional e can\u00f4nico, concordo. Com a quase extin\u00e7\u00e3o dos cadernos especializados e com as dificuldades por que passam jornais impressos, os espa\u00e7os at\u00e9 ent\u00e3o reservados aos cr\u00edticos desse molde diminu\u00edram. A cr\u00edtica, com caracter\u00edsticas mais convencionais, migrou, de certo modo e em parte, para a academia, com menor alcance em termos de p\u00fablico e sob formato mais t\u00e9cnico e, assim, herm\u00e9tico. A pr\u00f3pria natureza e as exig\u00eancias do trabalho acad\u00eamico, ao lado do extenso n\u00famero de livros hoje publicados, tamb\u00e9m impedem a velocidade, a atualidade e, em consequ\u00eancia, o debate mais vivo. \u00c9 evidente que os trabalhos assim produzidos t\u00eam qualidade e import\u00e2ncia. Em contrapartida, um novo modelo de cr\u00edtica surge com a atua\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea de jornalistas, de escritores, pela via da resenha, de mat\u00e9rias e da concess\u00e3o de visibilidade \u00e0s obras que esses formadores de opini\u00e3o \u2013 e tamb\u00e9m o mercado \u2013 decidem que merecem destaque. Ressalvados poucos jornais liter\u00e1rios e revistas impressas que ainda resistem bravamente, a avalia\u00e7\u00e3o, que se poderia talvez dizer mais suave, \u00e9 publicada em peri\u00f3dicos virtuais, o que, apesar de\u00a0 limitar seu alcance a usu\u00e1rios habituados a endere\u00e7os eletr\u00f4nicos e \u00e0s redes sociais, repele filtros que a grande m\u00eddia costuma impor. Torna-se mais democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos apenas um corpo com finitude decretada?\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Pergunta delicada. A sobreviv\u00eancia (e a morte em paralelo) \u00e9 um dos temas centrais de <em>Fundamentos de ventila\u00e7\u00e3o e apneia<\/em>. A compreens\u00e3o da morte tem movimentado mentes privilegiadas. De Plat\u00e3o a Todd May, passando por Schopenhauer, Montaigne, Sartre e tantos outros. Vejo a morte como parte da vida. Mas n\u00e3o, n\u00e3o somos apenas um corpo com a finitude decretada. Todos os seres vivos morrem. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Nisso, irmanamo-nos. Os outros animais, no entanto, enxergam a morte somente quando ela os amea\u00e7a, como o meu porco-espinho, acantonado pelas feras. Os humanos, diferentemente, s\u00e3o capazes de pensar a respeito, mesmo que saud\u00e1veis e protegidos. A morte d\u00e1 sentido \u00e0 vida, nubla o t\u00e9dio da eternidade f\u00edsica ainda imposs\u00edvel, faz com que desafiemos o destino, como ant\u00edlopes que atravessam rios repletos de crocodilos, buscando o futuro, um novo presente, logo ali na outra margem. A morte amplifica o valor do presente. Assim como <em>killifishes<\/em>, nunca teremos a certeza de uma nova chuva que nos permita (sobre)viver. Somos, assim, corpos destinados \u00e0s experi\u00eancias e repletos de possibilidades enquanto conservarmos a consci\u00eancia. Se a perdermos, o fim anteceder\u00e1 o perecimento do corpo. De maneira sincr\u00e9tica, acredito em Deus. Do mesmo modo, sinto que a morte do corpo n\u00e3o representa absoluta finitude.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto Alberto Bresciani conhece Alberto Bresciani?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Eu pediria alguns anos para responder melhor. Sei ou tento saber do que se passou comigo, do que testemunho agora. Para o futuro, insistir \u00e9 o que posso. Sou, normalmente, silencioso, melhor com a escrita do que com a voz. Verbalizar \u00e9 sempre um risco de exageros. O sil\u00eancio me obriga \u00e0 minha companhia com intensidade, a conviver com toda a perplexidade do que n\u00e3o consigo compreender, com o maravilhamento das coisas belas que alcan\u00e7o, com todas as boas e m\u00e1s mem\u00f3rias, erros e acertos. Tenho o v\u00edcio da busca de informa\u00e7\u00e3o, com o desassossego que vem no estojo. Sou um \u201colhador\u201d, um contemplativo. Posso me esquecer do mundo e da vida diante de uma planta que desafia o cimento da cal\u00e7ada. Gosto da eloqu\u00eancia silenciosa dos livros. Gosto das palavras e dos livros, do poder da m\u00fasica, de ficar em casa, de chocolate, terra, vegetais e animais, de abusar do conforto e do abrigo da minha fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ALBERTO BRESCIANI &#8211; <\/strong>Catarse, coragem ou covardia, justificativa? Copio Ren\u00e9 Char, \u00e9 como se houvesse um atraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, que compele \u00e0 supera\u00e7\u00e3o. Porque \u00e9 preciso dizer mais do que a voz permite.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> confessa que, definitivamente, n\u00e3o consegue sobreviver sem arte. Por isso, atira-se a livros, discos e filmes com o sabor perene da primeira vez. Por isso, edita a Revista Diversos Afins, \u00e9 baterista amador e Mestre em Letras: Linguagens e Representa\u00e7\u00f5es (UESC), aliando Literatura, Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Transitando pelas alamedas da Literatura e outras paragens humanas, uma entrevista com o poeta Alberto Bresciani<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16538,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3661,16,2539],"tags":[2356,63,137,489],"class_list":["post-16455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-131a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-alberto-bresciani","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-pequena-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16455","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16455"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16455\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16571,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16455\/revisions\/16571"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16538"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16455"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16455"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16455"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}