{"id":16484,"date":"2019-08-04T11:03:54","date_gmt":"2019-08-04T14:03:54","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16484"},"modified":"2019-11-01T17:27:50","modified_gmt":"2019-11-01T20:27:50","slug":"dedos-de-prosa-iii-63","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-63\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marith\u00ea Azevedo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16543\" aria-describedby=\"caption-attachment-16543\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stefani.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16543 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stefani.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stefani.jpg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stefani-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Stefani-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16543\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Felipe Stefani<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sangue de \u00edndio<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bento tinha mania de abra\u00e7ar as \u00e1rvores. Acordava cedo e antes de ir para a escola corria para a mata perto dali, conversava com uma, conversava com outra. E abra\u00e7ava, abra\u00e7o forte mesmo de quem gosta muito da pessoa abra\u00e7ada.\u00a0 Com essa mania, a m\u00e3e dizia que ele devia era ter sangue de \u00edndio. \u2013\u00cdndio \u00e9 que acha que arvore \u00e9 gente. Tirando a mania, a m\u00e3e se orgulhava do menino: inteligente, esperto, afetuoso e com sa\u00fade. A professora vivia elogiando o Bento. \u2013 Bento vai longe. Quem sabe ele poderia at\u00e9 ser um m\u00e9dico, quando crescesse, pensava a m\u00e3e, em sil\u00eancio. Um dia, quando Bento j\u00e1 tinha sa\u00eddo para abra\u00e7ar as arvores, a m\u00e3e ouviu ru\u00eddos de motosserras vindo da mata. Saiu na porta e viu um monte de caminh\u00f5es parados em volta das arvores. A m\u00e3e fechou a torneira da pia, tirou o avental, tapou o bolo com um pano de prato e foi l\u00e1 ver o que estava acontecendo. No caminho encontrou outros vizinhos olhando. Quando chegou, v\u00e1rias arvores j\u00e1 tinham sido derrubadas. E havia um grupo de homens em volta de um tronco, jogado na terra, tentando tirar alguma coisa. Quando a m\u00e3e se aproximou dos homens, viu o Bento agarrado a um tronco com as pernas e os bra\u00e7os. Tiveram que enterrar o menino com o peda\u00e7o de tronco junto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0Pauzinhos de picol\u00e9<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">-M\u00e3e, se voc\u00ea achar pauzinho de picol\u00e9 na rua, traz pra mim? Pergunta o Luis Antonio, entretido, na varanda, contando os pauzinhos de picol\u00e9 que j\u00e1 tinha conseguido. Nisso, passa o avi\u00e3o, baixinho, ali perto. -Est\u00e3o jogando rem\u00e9dio na planta\u00e7\u00e3o, vem pr\u00e1 dentro que este \u00e9 forte, depois vai ficar se co\u00e7ando a\u00ed, diz a m\u00e3e. Luis Antonio corre pra dentro com a caixa de pauzinhos de picol\u00e9 na m\u00e3o. A m\u00e3e olha aquele monte e pergunta: -Pra que, tanto palito de picol\u00e9, menino? Eles esperam o avi\u00e3o passar, com portas e janelas trancadas. Quando n\u00e3o se ouve mais o ru\u00eddo do avi\u00e3o, Luis Antonio pega a caixa com os pauzinhos de picol\u00e9 e sai de casa. \u2013 Vou cat\u00e1 passarinho. Luiz Antonio caminha pelo bairro, olhando debaixo das arvores. Acha um, coloca na caixa, acha outro, coloca na caixa e, assim, enche a caixa. Caminha para um terreno baldio e l\u00e1 est\u00e1 o Gen\u00e9sio esperando por ele, tamb\u00e9m com uma caixa na m\u00e3o. Luiz Antonio corta o palito de picol\u00e9 no meio e faz uma cruzinha que ele amarra com um peda\u00e7o de barbante. Gen\u00e9sio joga as que tem prontas no ch\u00e3o. Luiz Antonio pega uma faca velha e cava uns buraquinhos na terra. Os dois enterram todos os passarinhos, colocam terra por cima e fincam, nos montinhos, as cruzinhas que fizeram. O terreno \u00e9 bem grande e est\u00e1 lotado de cruzinhas de pauzinhos de picol\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O biquini estampado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Doida para estrear meu biquini estampado com tons de azul e verde, que eu comprei em Caragu\u00e1, sai para a praia. No outono, o clima \u00e9 ameno e aproveitei, ent\u00e3o, a brisa gostosa da manh\u00e3, com aquele sol mansinho que n\u00e3o arde, mas bronzeia devagarinho a pele. Ah! porque eu estava precisando largar o corpo na areia e me deixar abra\u00e7ar por aquela \u00e1gua fria que faz sossegar a alma. O mar estava calmo, ondas tranquilas, poucos surfistas. Os primeiros vendedores est\u00e3o come\u00e7ando a chegar com suas barracas. Achei at\u00e9 que ia ter mais gente, mas, talvez o pessoal esteja aproveitando esta manh\u00e3 de s\u00e1bado para dormir mais um pouco. Um grupo de meninas adolescentes brincava tranquilamente na beira da \u00e1gua, rindo e jogando \u00e1gua umas nas outras, quando se ouviu um estrondo. Talvez uma bomba enorme tenha explodido num morro de pedras ali por perto, mas o estranho \u00e9 que o barulho vinha de dentro do mar que agora estava violento. E como uma boca enorme que ia vomitar, uma onda gigantesca se formou na beira da praia e foi aproximando muito r\u00e1pido. Sai correndo, descal\u00e7a, como louca para a cal\u00e7ada, atravessei a rua no meio dos carros que buzinavam intermitentemente e fui parar l\u00e1 do outro lado. Nem deu tempo de pegar a toalha e o celular. Buzinas e gritos se misturavam num s\u00f3 p\u00e2nico. Parei do outro lado da rua, ofegante, exausta de tanto correr, mas o cheiro forte de peixe morto me fez olhar para tr\u00e1s. O dia se tornara cinzento e j\u00e1 n\u00e3o era mais poss\u00edvel ver o mar. Um pared\u00e3o gigantesco, alto como os edif\u00edcios deste lado, se formara com pilhas e pilhas de peixes mortos emaranhados a pl\u00e1sticos antigos e desgastados, ocupando toda a orla mar\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quase dois metros de altura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava no consult\u00f3rio do endocrinologista aguardando a minha vez, quando entra na sala de espera, uma senhora baixinha acompanhada de um rapaz de quase dois metros de altura, que abaixou a cabe\u00e7a para passar na porta. \u00a0A mulher, morena, jeito de interiorana, beirando os 50 se sentou perto de mim. A\u00ed percebi que ela n\u00e3o era t\u00e3o baixa assim como vi de longe, ao lado do rapaz de quase dois metros. O rapaz se sentou ao lado dela e esticou as enormes pernas. -Este vai ser jogador de basquete, hein! comentei. O rapaz olhou para mim e percebi nele um semblante de menino, meio ne\u00f3fito, que ainda n\u00e3o sabe das coisas. Deve ter uns 18 anos, pensei. -Mora onde? a mulher me perguntou, puxando assunto. -Aqui no bairro mesmo, respondi. -Eu vim de longe, l\u00e1 do Jardim Felicidade, disse ela. Como eu devo ter feito cara de quem n\u00e3o sabia onde era o Jardim Felicidade, ela completou: -aquele bairro onde tem a granja Eldorado. Vim consultar o menino. A m\u00e3e dele deixou ele comigo, eu que crio. Sou av\u00f3 dele. Mas eu quem cuido dele. Agora deu pr\u00e1 crescer, n\u00e3o para mais. \u2013 Mas quantos anos ele tem? \u2013 Ele tem 10, mas olha o tamanh\u00e3o. No come\u00e7o eu achava at\u00e9 bonito ele ficar grande, mas agora estou preocupada. Outra mulher entra no assunto e comenta. \u2013 Parece que existem v\u00e1rios casos de crian\u00e7as, aqui na cidade, com crescimento precoce. Assustada, fiquei imaginando este menino crescendo at\u00e9 os 18 anos. A outra acrescentou: -Teve um caso, de uma menina que menstruou aos 3 meses de idade, porque a m\u00e3e comeu muito frango de granja. Horm\u00f4nio do crescimento r\u00e1pido, serve pro bicho, serve pra gente tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Marith\u00ea Azevedo<\/strong> \u00e9 cineasta, roteirista, doutora em Artes C\u00eanicas pela USP. Propositora de po\u00e9ticas urbanas. Nasceu em Alfenas, MG. Morou em Bras\u00edlia, Rio de Janeiro S\u00e3o Paulo e atualmente vive em Cuiab\u00e1. Docente do PPGECCO, UFMT. Entre os roteiros de fic\u00e7\u00e3o que escreveu para longa, est\u00e3o: Religare, Tr\u00eas tempos, Cidade Submersa. Entre os roteiros para curta de fic\u00e7\u00e3o: Licor de Pequi, Traquitotem, A noite nossa de cada dia. Com o document\u00e1rio \u00a0Mem\u00f3rias Clandestinas, em 2007, recebeu o pr\u00eamio de melhor document\u00e1rio brasileiro no Femina, Festival Internacional de Cinema Feminino.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fantasia atravessando os contos de Marith\u00ea Azevedo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16541,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3661,2534],"tags":[41,3690,3691,276],"class_list":["post-16484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-131a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-dedos-de-prosa","tag-marithe-azevedo","tag-memorias-clandestinas","tag-minicontos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16484"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16542,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16484\/revisions\/16542"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16541"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}