{"id":16499,"date":"2019-08-05T15:33:15","date_gmt":"2019-08-05T18:33:15","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16499"},"modified":"2019-11-01T17:27:26","modified_gmt":"2019-11-01T20:27:26","slug":"dedos-de-prosa-ii-60","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-60\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Viviane de Santana<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16500\" aria-describedby=\"caption-attachment-16500\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/dd7.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16500 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/dd7.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"325\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/dd7.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/dd7-300x195.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16500\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Felipe Stefani<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Emergir<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Creio que eu tinha vinte e dois, vinte e tr\u00eas ou vinte e quatro anos. Eu pulava do trampolim de cinco metros, pulava e voltava, competia com os garotos, ficava na fila e pulava de novo. Eu estava me divertindo, nunca aprendi a nadar direito, nado do meu jeito, sem controlar a respira\u00e7\u00e3o, mas mergulhar n\u00e3o \u00e9 problem\u00e1tico pra mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, ele me disse, &#8220;se voc\u00ea consegue pular do trampolim de cinco metros, voc\u00ea tamb\u00e9m pula do de dez metros.&#8221; Ele estava deitado na toalha, em cima do gramado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 mesmo?! Tem certeza?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Claro!&#8221; Fiquei alguns minutos na d\u00favida e, sentada ao lado dele, mirei a prancha de dez metros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ent\u00e3o vou pular. Por favor, fique olhando, se acontecer alguma coisa, se eu demorar muito pra emergir, voc\u00ea j\u00e1 sabe, estou me afogando, e voc\u00ea tem que vir me salvar.&#8221; E l\u00e1 fui eu pular do trampolim de dez metros. Subi as escadas, subi as escadas, subi as escadas. Esta foi a primeira diferen\u00e7a que eu percebi: havia bem mais escadas para subir. Cheguei l\u00e1 em cima e me dei conta da segunda diferen\u00e7a: n\u00e3o havia ningu\u00e9m ali. No trampolim de cinco metros eu tinha que ficar na fila esperando os moleques se jogarem. Na fila era uma algazarra, falat\u00f3rio, risos, e minha paci\u00eancia. No trampolim de dez metros eram apenas eu, a solid\u00e3o e o sil\u00eancio. Estranhei! Mas agora eu estava ali, naquele lugar alto e vazio, como se n\u00e3o\u00a0 pertencesse \u00e0 piscina, como se fosse um territ\u00f3rio proibido. Algo perigoso e amea\u00e7ador pairava no ar, mas eu n\u00e3o sabia identificar ao certo. O vento era mais forte e arrepiava a minha pele molhada. Ao caminhar pela prancha e chegar \u00e0 ponta, olhei para baixo: tudo havia se transformado em pequeno e notei o quanto eu estava no alto, distante deles l\u00e1 embaixo. Um frio suscitou no meu ventre e n\u00e3o era o vento. Pensei em voltar, se me recordo bem, cheguei a dar alguns passos para tr\u00e1s e parei. Continuei estudando a minha possibilidade e tentando captar de onde vinha aquela amea\u00e7a que pairava naquele exato ponto do planeta. Acreditei que poderia ser simplesmente porque eu estava s\u00f3, l\u00e1 em cima, ouvindo o sil\u00eancio. Voltei a caminhar para a ponta da prancha, meus dedos dos p\u00e9s ficaram agarrados \u00e0 beirada. L\u00e1 embaixo a voragem azul me mirava e eu mirava o azul da voragem. Olhei para a frente: metade do c\u00e9u, alguns chuma\u00e7os brancos de nuvens, as \u00e1rvores verdes e a lanchonete da piscina -, pequenos e distantes. Olhei para baixo, comecei a me preparar para saltar. Pensei nas competi\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas, nas mulheres pulando e se rolando e virando no ar, e caindo n\u2019\u00e1gua. Como elas fazem isso? Abri os bra\u00e7os, elas come\u00e7am abrindo os bra\u00e7os. Me encarnei em uma nadadora ol\u00edmpica. Eu mergulharia de cabe\u00e7a, com os bra\u00e7os levantados para o alto, e ao mergulhar, eu logo faria a curva com o meu corpo para dar impulso para a subida. Mas eu ainda estava com os bra\u00e7os abertos me sentindo a est\u00e1tua de Cristo Redentor, com a pele arrepiada do vento passando pelo meu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Levantei os bra\u00e7os para o alto, tomando cuidado para n\u00e3o tocar o c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respirei fundo e me joguei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A queda foi r\u00e1pida e nada percebi do espa\u00e7o, senti apenas quando meu corpo rompeu a membrana da \u00e1gua e a velocidade me empurrou para o fundo. Logo curvei meu corpo para o impulso. Comecei a subir sossegada. Eu tinha os olhos abertos e apreciava a luz na imensid\u00e3o azul suave. E subi\u2026 e subi\u2026 e subi, mas eu n\u00e3o chegava. Eu nadava e nadava e n\u00e3o chegava l\u00e1 em cima onde a membrana me separa destes dois planetas: o l\u00edquido e o gasoso. A\u00ed, percebi qual o perigo de se pular do trampolim de dez metros: voc\u00ea afunda demais e precisa ter f\u00f4lego o suficiente para subir. Eu n\u00e3o tinha, meu ar estava acabando. Assustada, estiquei mais o meu corpo, me esforcei mais, aumentei a velocidade, me concentrei, reforcei os meus esfor\u00e7os e segui em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 luz. No fundo da piscina, o sil\u00eancio continuou, como se tivesse pulado comigo, assim como a solid\u00e3o. Eu movimentava as pernas e os bra\u00e7os o mais r\u00e1pido que eu conseguia, empurrando a massa l\u00edquida pesada \u00e0 minha volta e me concentrava para n\u00e3o perder a calma. Meus pulm\u00f5es queimavam de tanto segurar o ar e por falta de ar. \u00c9 assim que se afoga, pensei! \u00c9 assim que se morre! A solid\u00e3o e o sil\u00eancio, que me acompanhavam desde o alto do trampolim, me proporcionaram uma estranha tranquilidade azul celeste. A luz que se movia e cintilava no avesso da membrana, parecia uma entrada redonda para a salva\u00e7\u00e3o. Era apenas o sol distorcido pela cor e pelo movimento d\u2018\u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu movimentava as pernas e os bra\u00e7os me esfor\u00e7ando ao m\u00e1ximo. Quando, finalmente, consegui emergir, eu estava sem ar e sem for\u00e7as, e no primeiro aspirar pensei que fosse engolir o mundo -, o reverso do trampolim solit\u00e1rio e mudo l\u00e1 no alto, as pontas das \u00e1rvores, as nuvens brancas, o azul do c\u00e9u inteiro, o sol estrelado&#8230; Eu necessitava engolir ar, respirar,\u00a0 simplesmente respirar, mas meu corpo amolecido pelos esfor\u00e7os, meus bra\u00e7os e pernas n\u00e3o podiam mais e, sem for\u00e7as, eu podia afundar de novo. Boiei. Sempre que estou nervosa e prestes a naufragar, eu boio. De novo meus bra\u00e7os abertos, como um Cristo crucificado. Sob mim o ciano do c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu normalizava a minha respira\u00e7\u00e3o, apreciava o oxig\u00eanio. Se algum moleque passasse por mim nadando estabanado, eu perderia o controle e afundaria. Um rec\u00e9m-nascido demanda cuidados, ele \u00e9 fr\u00e1gil e indefeso. Eu era uma rec\u00e9m-nascida. Mas eu n\u00e3o podia explicar isso aos moleques desastrados, eu precisava agora encher meus pulm\u00f5es. Por sorte, nenhum deles passou por mim, rindo e espirrando \u00e1gua para os lados, agitando a superf\u00edcie. Eu estava sozinha neste trecho da piscina, a \u00e1gua lisa me sustentava como no leito de um ber\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos poucos consegui movimentar os bra\u00e7os e nadar de costas quase at\u00e9 a margem. Com os pulm\u00f5es cheios me virei e dei algumas frouxas bra\u00e7adas: alcancei a beirada, me segurei e atingi a escada, subi e sa\u00ed da piscina caminhando insegura e meio tonta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Me aproximei dele e o repreendi veementemente, &#8220;que grande irresponsabilidade a sua me falar que eu podia pular da prancha de dez metros, eu quase morri!&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele, que esteve o tempo todo deitado na toalha, e nem me viu pular, apenas disse: &#8220;mas voc\u00ea est\u00e1 aqui. Voc\u00ea conseguiu!&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No meio do inferno<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele e seu primo foram passear no final da tarde, nas f\u00e9rias de ver\u00e3o, na trilha \u00e0 margem da floresta avacalhada porque estava sendo desmatada para constru\u00edrem um balne\u00e1rio. A trilha fazia parte da antiga rua, agora havia a autoestrada logo mais acima e a mata tomou conta do caminho de terra. Eles gostavam de caminhar nesta parte selvagem, desabitada, onde somente alguns raros autom\u00f3veis passavam na estrada de areia e terra. Andavam descal\u00e7os carregando as sand\u00e1lias nas m\u00e3os. \u00c0 volta, os p\u00e1ssaros piavam, os insetos zuniam, os sapos coaxavam e o verde escuro deixava transparecer os raios de sol fraco. As \u00e1rvores n\u00e3o eram altas e cresciam intactas em um trecho; em outros, elas tinham sido desmatadas. Na mata densa, cobras, lagartas, aranhas e borboletas podiam ser vistas escondendo-se. As formigas formavam longas fileiras na areia fofa. Outros insetos desconhecidos habitavam aquele mundo. De vez em quando eles se deparavam com um corpo no solo e interrompiam o passeio para buscar um pau e mexer no morto. Virava para cima e para baixo, observavam a estranha coura\u00e7a ou a pelugem, as antenas, as asas, as patas esticadas, e seguiam. Alguns r\u00e9pteis faziam ru\u00eddo na folhagem ao sa\u00edrem correndo assustados quando eles passavam falando alto. E eles se assustavam com o susto dos bichos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegaram ao trecho onde ficava a antiga ponte. Mas ela n\u00e3o estava mais ali, apenas o seu esqueleto. Eles acreditaram que podiam atravess\u00e1-la. Assim cortariam caminho pela praia e chegariam em casa antes da tempestade. No canto esquerdo do horizonte nuvens escuras confabulavam. Ele foi na frente. No come\u00e7o da ponte a madeira estava boa, quase no meio, quando ele passou com o primo atr\u00e1s de si, a madeira rompeu-se. O primo n\u00e3o p\u00f4de continuar e regressou. Ele ficou no meio da ponte, entre um buraco e o outro mais adiante, que ele s\u00f3 viu agora. L\u00e1 embaixo o rio negro passava com as tran\u00e7as da correnteza veloz. Do outro lado do buraco havia uma estreita estrutura de cimento dando seguimento \u00e0 ponte. Ele tinha treze anos e n\u00e3o sabia nadar. Estava preso no meio do esqueleto da ponte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea precisa pedir ajuda! berrou para o primo parado na margem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 \u00c9, eu vou pedir ajuda! Mas primeiro eu preciso cagar! O seu primo gritou de onde estava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que? Eu estou morrendo aqui e voc\u00ea precisa cagar? Ele retrucou irritado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu preciso cagar! O primo repetiu agitado e se escondeu atr\u00e1s da moita ali perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele ficou sozinho, e n\u00e3o sabia se o seu primo precisava cagar porque estava nervoso ou porque n\u00e3o entendeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o e tanto fazia quanto tempo ele permanecesse em cima da ponte. O melhor seria n\u00e3o contar com o primo para sair do apuro. Olhou novamente para o outro lado da ponte. N\u00e3o podia olhar para baixo, a correnteza o deixava zonzo e o sugava. A tarde findava-se, a claridade do sol diminu\u00eda rapidamente, e as nuvens escuras se intensificavam e aumentavam. Reprovou a sua coragem. Nos passeios pela mata ele sempre sa\u00eda andando na frente, enfrentando os r\u00e9pteis e os lama\u00e7ais. Agora parado im\u00f3vel sobre a fr\u00e1gil madeira ele chegou \u00e0 conclus\u00e3o que at\u00e9 o primo chegar em casa e pedir ajuda, j\u00e1 teria escurecido. N\u00e3o havia luz el\u00e9trica ali. Seria breu puro mesclado ao ru\u00eddo dos insetos. Al\u00e9m disso, os morcegos voariam raspando em seu corpo. Ele acreditava que n\u00e3o sobreviveria. Ele n\u00e3o sabia nadar, tinha medo daquela correnteza negra, do breu da noite e dos morcegos invis\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele imaginava o seu primo chegando esbaforido em casa: \u201co Daniel est\u00e1 l\u00e1 no meio de uma ponte quebrada sem poder ir para a frente ou voltar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Que ponte, menino? Explica as coisas direito! A m\u00e3e diria. E depois da explica\u00e7\u00e3o confusa seus pais e seus tios sairiam em seu socorro, todos dentro do carro, munidos de faroletes, e seu pai dirigindo com dificuldade no caminho de areia. Talvez tarde demais! \u201cN\u00e3o. Eu n\u00e3o vou morrer\u201d, pensou. E observou novamente a constru\u00e7\u00e3o de cimento do outro lado, cogitando pular. Seria um risco de vida, ele sabia que precisava manter a calma e se concentrar e pular antes que a noite ca\u00edsse como chumbo e ent\u00e3o ele n\u00e3o enxergaria mais nada. L\u00e1 embaixo a correnteza passava indiferente. Mas ele podia morrer se pulasse tanto para o lado da viga de cimento quanto para a parte de madeira fragilizada. Talvez pular fosse mais perigoso do que se concentrar para permanecer em p\u00e9 algumas horas, no escuro, esperando ajuda. Quem sabe os morcegos voassem essa noite para outro lado! E os insetos em solidariedade a ele zunissem mais baixo. Mas tamb\u00e9m o sil\u00eancio seria assustador no qual somente o murm\u00fario das tran\u00e7as negras lhe chegaria ao ouvido. Era desesperador ter que escolher entre os diferentes caminhos ruins. Por que o seu primo precisava de tanto tempo? E se fosse o contr\u00e1rio, se fosse seu primo parado no meio da ponte e precisasse de ajuda? Como ele reagiria? O primo n\u00e3o seria t\u00e3o sensato como ele; desesperado, ele provavelmente j\u00e1 teria ca\u00eddo na \u00e1gua. Mas por um momento ele pensou que em vez dele poderia ter sido o seu primo a estar ali. Ele tinha os mesmos treze anos e sabia nadar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Onde voc\u00ea est\u00e1? Ele gritou para o primo e n\u00e3o recebeu resposta, apenas um p\u00e1ssaro gralhou e levantou voo por tr\u00e1s da copa de uma \u00e1rvore.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados alguns minutos o primo finalmente saiu de tr\u00e1s da moita gritando:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu vou buscar ajuda. Espera a\u00ed!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 E para aonde voc\u00ea acha que eu vou? Eu estou preso aqui. Ele respondeu irritado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Isso \u00e9 muito s\u00e9rio. Vai correndo pedir ajuda. Eu n\u00e3o posso ficar aqui por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o se preocupe, eu estou indo. E a figura do primo desapareceu por entre as \u00e1rvores e o matagal da trilha. Ele ficou s\u00f3, ouvindo o ru\u00eddo da \u00e1gua negra murmurando amea\u00e7adoramente sob seus p\u00e9s. Os p\u00e1ssaros haviam se calado e n\u00e3o mais voavam. Quanto tempo ele precisaria permanecer assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular, sabia que era esse o \u00fanico caminho. Seria uma quest\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o, pensou ele, se se concentrasse livre e profundamente, conseguiria. E fixou o olhar na extremidade da viga de cimento, calculou exatamente onde pousaria o p\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante alguns longos minutos ele pensou o que poderia acontecer, imaginou todas as possibilidade: bater a cabe\u00e7a e morrer com a cabe\u00e7a rachada ou cair na \u00e1gua e morrer afogado. O rio levaria o seu corpo para desembocar no mar. Ali na desembocadura o rio era raso e seu corpo permaneceria boiando na \u00e1gua escura misturada com a \u00e1gua clara e cheia de espuma do mar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longe, no horizonte esquerdo, na retaguarda, nuvens escuras j\u00e1 tinham se juntado em uma manada para desabarem em tempestade. E uma tempestade naquela regi\u00e3o litor\u00e2nea, depois de um dia quente, no meio do ver\u00e3o, significava vento forte, trov\u00f5es ensurdecedores e in\u00fameros rel\u00e2mpagos que se iluminavam intensos e tortuosos no azul cinzento do c\u00e9u e toda a nervura das nuvens poderia ser vista no plasma sobreaquecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular e sobreviver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concentrou-se em alcan\u00e7ar a viga de cimento com um p\u00e9 (ali cabia somente um p\u00e9 de cada vez), de forma nenhuma podia olhar para baixo. Seu olhar se mantinha firme para a frente, onde \u00e0 sua volta as \u00e1rvores, a montanha adiante, o horizonte acinzentado e uma risca de mar formavam a paisagem. O vento soprava cada vez mais forte. Em p\u00e9, sem ter onde se segurar, ele fitou mais uma vez as nuvens obesas marchando em sua dire\u00e7\u00e3o. Pensou em se sentar, assim n\u00e3o se cansaria tanto e n\u00e3o ficaria tonto com o vento lhe compelindo o corpo. Mas imaginar as suas pernas penduradas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0quele negro vertiginoso passando l\u00e1 embaixo lhe causou avers\u00e3o. A correnteza maligna poderia criar bra\u00e7os of\u00eddicos e lhe puxar pelos p\u00e9s. N\u00e3o, n\u00e3o podia se sentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rio estava cheio e alargara-se, por causa da chuva dos \u00faltimos dias. A grossa correnteza flu\u00eda r\u00e1pida, assustadora. O negro da \u00e1gua parecia com um rio de coca-cola, e, conforme o raio de sol e a profundeza da \u00e1gua, ele adquiria um tom avermelhado. A sua nascente ficava nas montanhas cujas silhuetas ele podia ver de onde estava. E ele n\u00e3o acreditava que a cor escura originava-se das ra\u00edzes das \u00e1rvores. Para ele aquilo era a urina daquelas \u00e1rvores na montanha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escurecia muito r\u00e1pido. Ele n\u00e3o conseguiria permanecer ereto e im\u00f3vel na escurid\u00e3o. E os morcegos vinham \u00e0 noite. Quantas vezes ele sentiu as asas de um passando rente ao seu bra\u00e7o nu ou ao seu rosto, quando estava sentado no muro do jardim, tarde da noite quente. Ele se assustava. A m\u00e3e lhe dissera para tomar cuidado, os morcegos mordiam, podiam transmitir doen\u00e7as. Ele tentaria enxot\u00e1-los com os bra\u00e7os levantados e perderia o equil\u00edbrio caindo na escurid\u00e3o do rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a tempestade o mirava. Os primeiros pingos grossos come\u00e7aram a cair e explodiam em sua pele. Mas ele n\u00e3o podia se desesperar, o medo atrapalharia a sua concentra\u00e7\u00e3o. Como em um alvo, os pingos lhe acertavam, molhavam a camiseta e o short.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um sentimento forte de arrependimento lhe enjoava o est\u00f4mago. Por que ele tinha que ter pisado nesta ponte? Por que ele foi o primeiro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E de repente os pingos cessaram, tamb\u00e9m o vento forte parou de soprar e se transformou em uma leve brisa morna. \u00c0s vezes, isso acontecia, era o intervalo antes do dil\u00favio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular o mais r\u00e1pido poss\u00edvel antes que chovesse ou escurecesse. N\u00e3o podia esperar mais. Enrijeceu o corpo, fixou o olhar na ponta da viga de cimento, calculou a queda de seu p\u00e9 direito exatamente ali. Convenceu-se de que conseguiria e concentrou-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concentrou-se novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E pulou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O p\u00e9 direito pousou no cimento duro, o corpo balan\u00e7ou desequilibrado, ele abriu os bra\u00e7os para recuperar o equil\u00edbrio, e olhou para o horizonte a sua frente. A sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio transcorreu pelo seu corpo. Mas ele ainda n\u00e3o estava fora de perigo. E de forma alguma poderia olhar para baixo. Estava no come\u00e7o da viga estreita de cimento, com os bra\u00e7os abertos como um Cristo Redentor caminhando com um p\u00e9 meticulosamente atr\u00e1s do outro, mantendo a m\u00e1xima concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E no final da viga havia mais um buraco entre a margem e a ponte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de toda a coragem e o risco para chegar at\u00e9 ali havia mais um obst\u00e1culo, faltavam poucos passos para ele estar a salvo e de novo o perigo a sua frente. Uma moleza de des\u00e2nimo abateu o seu corpo, mas ele n\u00e3o podia vacilar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A margem era um barranco escorregadio cheio de plantas gosmentas, e a \u00e1gua estava parada, suja de lama, de p\u00f3lens e restos de plantas. Ele n\u00e3o podia cair ali, seria fatal, as ra\u00edzes das plantas embara\u00e7ariam em suas pernas e o puxariam para o fundo lamacento. Mesmo que se segurasse nas plantas escorregadias, o breu da noite o mataria de medo sob o murm\u00fario da correnteza no meio do rio escuro como o inferno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele precisava pular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Novamente necessitava da concentra\u00e7\u00e3o e do sangue frio. As taboas e as folhagens sussurravam com o vento. Repensar as chances que ele j\u00e1 tinha refletido at\u00e9 ali ele n\u00e3o queria e tamb\u00e9m n\u00e3o havia mais tempo. A penumbra cobria tudo de cinza. Ele precisava pular. Era assim que podia ser morrer, concluiu, apenas ir passear em uma trilha, na natureza, nas f\u00e9rias, em um final de tarde quente e cair em um rio. A morte n\u00e3o passava de uma brincadeira de mau gosto. Ele precisava pular. A tempestade estava no seu encal\u00e7o, se chovesse enquanto ele estivesse ca\u00eddo na margem lamacenta, a correnteza alargaria-se e o atingiria levando-o consigo. Concentrou-se, ele precisava pular. N\u00e3o cairia naquela \u00e1gua nojenta. N\u00e3o podia cair ali. Daria o m\u00e1ximo de impulso. Ordenaria o seu corpo a voar alguns \u00ednfimos metros, esticaria as pernas como um sapo na hora do salto. Nada o impediria de atingir o barranco e fincar os seus p\u00e9s na terra firme. Concentrou-se. Esperou mais um momento e concentrou-se mais ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concentrou-se novamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E pulou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E sentiu o p\u00e9 carimbar a sua marca na parte seca e segura da margem, logo fincou o outro p\u00e9 mais adiante e mais um largo passo. Estava salvo, nem sequer olhou para tr\u00e1s. A penumbra o envolvia e uma trilha seguia em dire\u00e7\u00e3o ao mar. Estava livre, estava vivo, pensou correndo feliz naquele trecho descampado, de bra\u00e7os abertos para ele. Aspirou fundo o cheiro salgado da mata mesclado ao da terra e vislumbrou a silhueta escura da imensid\u00e3o do mar. Estava salvo, estava livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao chegar em casa, encontrou o primo na varanda conversando com o tio. Tudo estava na sua ordem habitual. Seu pai e seus dois tios tomavam cerveja \u00e0 mesa na varanda. O calor amolecia os gestos e a noite j\u00e1 tinha engolido as cores e os contornos. Nada revelava que eles tinham sido avisados, ningu\u00e9m se mostrou contente ou aliviado em v\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um olhar intimidador, ele fitou o primo e o seu primo lhe revidou o olhar com express\u00e3o indecifr\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele entrou na casa. As suas irm\u00e3s e os outros primos estavam na sala. A m\u00e3e e as tias terminavam de preparar a janta, na cozinha. Ele foi para o quarto onde se deitou de costas na cama e, com as m\u00e3os cruzadas embaixo da cabe\u00e7a, mirava o teto no escuro, pensando que provavelmente aquela n\u00e3o seria a \u00fanica ponte quebrada que necessitaria atravessar ao longo de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste instante a tempestade desabou derramando gotas pesadas de \u00e1gua, o vento soprava veloz assobiando por entre as frestas de madeira e batendo na janela fechada do quarto, os rel\u00e2mpagos iluminavam seguidos dos trov\u00f5es estrondosos e ensurdecedores. Dentro da casa foi uma correria para fechar as portas e as janelas. O pai, os tios e o primo entraram carregando copos, garrafas e pratos de petiscos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do lado de fora a tempestade uivava como um monstro feroz, soltando raios e batendo a forte cauda de ventania.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Viviane de Santana <\/em><\/strong><em>(S\u00e3o Paulo), poeta, tradutora e ensa\u00edsta, \u00e9 autora dos livros, Viver em outra l\u00edngua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhat\u00e3, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002)<strong>. <\/strong><\/em><em>Publica poemas em revistas e jornais, entre eles,<\/em><em> Suplemento Liter\u00e1rio de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (M\u00e9xico). Atualmente, vive em Berlim.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O movimento das hesita\u00e7\u00f5es nos contos de Viviane de Santana<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16500,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3661,2534],"tags":[419,41,3683,3684,3444],"class_list":["post-16499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-131a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-contos","tag-dedos-de-prosa","tag-emergir","tag-no-meio-do-inferno","tag-viviane-de-santana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16499"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16502,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16499\/revisions\/16502"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}