{"id":16638,"date":"2019-10-29T18:06:38","date_gmt":"2019-10-29T21:06:38","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16638"},"modified":"2019-11-01T17:23:33","modified_gmt":"2019-11-01T20:23:33","slug":"dedos-de-prosa-i-67","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-67\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16639\" aria-describedby=\"caption-attachment-16639\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Luiz-B.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16639 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Luiz-B.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Luiz-B.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Luiz-B-300x209.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16639\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Luiz Bhering<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O discurso presidencial<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um minuto, anuncia o secret\u00e1rio de Imprensa. O operador de c\u00e2mera confere o visor e calibra o foco. A meia altura do trip\u00e9, o plano americano enquadra o tampo amadeirado do que parece ser uma mesa de uso dom\u00e9stico. No canto inferior esquerdo do v\u00eddeo, tem um exemplar da Constitui\u00e7\u00e3o de 88. No canto inferior direito, um volume da B\u00edblia Sagrada. Em escala de profundidade, v\u00ea-se o recosto chumbo de uma cadeira office e, mais atr\u00e1s, a bandeira do Brasil presa, com fita crepe, na parede nua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente, ent\u00e3o, entra em cena. A princ\u00edpio, apenas o recorte do corpo que d\u00e1 das coxas at\u00e9 meio do abdome. Trinta segundos, acusa a voz do secret\u00e1rio. O presidente acomoda-se. Usa uma camisa social azul turquesa, sem gravata, sobreposta por um blazer azul marinho. O assistente de som lhe prende o microfone na lapela: Al\u00f4, al\u00f4, testando&#8230; Ato cont\u00ednuo, a maquiadora polvilha base na cara papuda e acerta, com um pente fino, o pega rapaz do penteado montado a gel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, todo mundo fora de cena! Sil\u00eancio agora, pessoal! No centro do v\u00eddeo, o presidente assume uma postura ereta e encara fixamente a c\u00e2mera. O secret\u00e1rio de Imprensa corre para detr\u00e1s do trip\u00e9 e informa: Cinco segundos, iniciando uma contagem regressiva com os dedos, que \u00e9 sucedida por uma voz feminina em OFF, escutada num pequeno monitor ao lado. \u201cForma-se, neste momento, a rede nacional de r\u00e1dio e televis\u00e3o, para o pronunciamento do presidente da Rep\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a deixa. O secret\u00e1rio de Imprensa sinaliza, mas, ao contr\u00e1rio do ensaiado, o presidente n\u00e3o come\u00e7a a falar. Ainda com a coluna reta, as m\u00e3os pousadas sobre a mesa, faz um movimento sutil, por\u00e9m firme, com a musculatura do pesco\u00e7o, como se tentasse se livrar de algo preso na garganta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo passa, est\u00e1 ao vivo para todo territ\u00f3rio nacional, e o sil\u00eancio come\u00e7a a provocar tens\u00e3o. O presidente meneia a cabe\u00e7a, empina o queixo, demonstra agora sinais de inc\u00f4modo. Ningu\u00e9m entende o que est\u00e1 acontecendo. Ele est\u00e1 engasgado?&#8230;, sussurra o operador de c\u00e2mera para o assistente de som, que d\u00e1 de ombros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente est\u00e1 mais alterado. Pressiona o pomo-de-ad\u00e3o, repete um esgar, perde a compostura. Debru\u00e7a-se sobre a mesa e, num movimento for\u00e7oso semelhante ao da expectora\u00e7\u00e3o, contrai os l\u00e1bios e, de sua boca, sai uma roli\u00e7a tripa marrom malcheirosa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos, no ambiente, se espantam. Ressoa um abafado de exclama\u00e7\u00e3o. O presidente, com os olhos arregalados, encara aquele montinho pastoso \u00e0 sua frente, olha de volta para a c\u00e2mera e retrai os m\u00fasculos da face como se n\u00e3o soubesse o que fazer. Tenta falar outra vez, e um novo arremesso de bolo fecal bate contra o tampo amadeirado da mesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minutos depois, o v\u00eddeo tinha viralizado em todo o mundo. Com igual\u00e1vel rapidez, apoiadores se manifestaram nas redes sociais, em blogs e em v\u00eddeos no Youtube, alertando de que se tratava de deepfake, uma montagem grosseira, feita por opositores, com o prop\u00f3sito de atacar a imagem do presidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o era o caso. Toda a vez que o presidente tentava se expressar, um rolo de fezes era regurgitado inevitavelmente. Falava sobre o meio ambiente, defecava pela boca. Falava sobre a ditadura, defecava pela boca. Falava sobre a diversidade de g\u00eanero, defecava pela boca. Falava sobre cultura, defecava com mais \u00edmpeto pela boca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em protocolo de emerg\u00eancia, o presidente foi levado para um centro m\u00e9dico, no entanto, depois de uma bateria de exames, proctologistas e otorrinolaringologistas n\u00e3o puderam determinar qual era a causa do fen\u00f4meno. Pol\u00edticos da base, apavorados, davam como certa a ren\u00fancia. O estafe partid\u00e1rio se preocupava em blindar a Comunica\u00e7\u00e3o do Planalto do ass\u00e9dio da m\u00eddia nacional e internacional, ao mesmo tempo que articulava a posse do vice.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O problema era o fogo amigo de alguns aliados pol\u00edticos que vazavam not\u00edcias, alimentando uma s\u00e9rie de especula\u00e7\u00f5es que pressionavam o porta-voz do Governo a se pronunciar, muito por conta tamb\u00e9m de uma ansiedade perigosa que come\u00e7ava a ganhar forma nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois dias depois, o v\u00eddeo tinha alcan\u00e7ado a marca hist\u00f3rica de dois bilh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es, e parlamentares da oposi\u00e7\u00e3o come\u00e7avam a colher votos para dar in\u00edcio a um processo de impeachment. Com o presidente ainda internado, ningu\u00e9m sabia o que fazer e tudo parecia realmente perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que, das profundezas de um por\u00e3o situado num grot\u00e3o morno dos Estados Unidos, um guru de extrema-direita faz uma live que muda todo o quadro. Defende que, na hist\u00f3ria do mundo, nunca existiu um l\u00edder com a capacidade de executar um ato que transcendia a fisiologia normal do ser humano. Que era um homem \u00fanico, um mito. Que, por estar um degrau acima na evolu\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie, todos deveriam idolatr\u00e1-lo e segui-lo. Que em fun\u00e7\u00e3o da impossibilidade dos outros mortais repetirem seu ato, os seguidores deveriam ingerir fezes, de modo a condicionar o corpo a expuls\u00e1-la pela boca. Que ele pr\u00f3prio, desde aquela manh\u00e3, tinha iniciado uma dieta no qual ingeriria tr\u00eas por\u00e7\u00f5es de fezes frescas por dia, de maneira a se tornar, oxal\u00e1!, t\u00e3o evolu\u00eddo quanto o presidente. Que mostrariam para o mundo que a fome, no Brasil, era uma mentira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, milhares de eleitores tomaram as ruas, simultaneamente em v\u00e1rios estados, para celebrar o presidente que defecava pela boca. Vestidos com camisas oficiais da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol, t\u00eanis e bermud\u00f5es, cantavam o novo Governo, a nova P\u00e1tria, o direito de ingerir fezes. Alguns, inclusive, seguravam tupperwares com por\u00e7\u00f5es de bolos fecais e iam se alimentando durante a manifesta\u00e7\u00e3o. Pais davam colheradas a seus filhos para, oxal\u00e1!, um dia alcan\u00e7arem o est\u00e1gio de evolu\u00e7\u00e3o do presidente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a crise controlada e o v\u00eddeo reduzindo, gradativamente, o n\u00famero de visualiza\u00e7\u00f5es, o estafe come\u00e7a a botar a agenda presidencial de volta aos trilhos. Inapto a falar sem expelir um rolo fecal, o presidente tenta se comunicar por meio de libras, por\u00e9m \u00e9 incapaz de articular qualquer movimento com os dedos que n\u00e3o seja o indicador e o polegar esticados, simulando uma arminha. Passa, ent\u00e3o, a ser acompanhado por assessores que seguram pequenas lousas e uma caneta piloto n\u00e3o da marca Bic. Ali escreve ordens para um grupo formado pelo vice-presidente, o chefe da Casa Civil, o ministro da Economia e um astronauta, que passam a ser a voz ativa no comando do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recolhido em casa, o presidente come\u00e7a a usar, cada vez mais, o Twitter para se expressar. Ao fim de todo post, cola a hashtag P\u00e1tria Amada Brasil e o emoji cocozinho. Tamb\u00e9m \u00e9, atrav\u00e9s de tweets, que demite dois ministros e o chefe da Receita Federal, ao descobrir que n\u00e3o seguiam a ingest\u00e3o regular de fezes frescas. Em 5 de setembro, Dia da Amaz\u00f4nia, compartilha um v\u00eddeo em que um ruralista, no centro de uma grande \u00e1rea desflorestada, pasto de cabe\u00e7as de gado, saboreia um bolo fecal a garfadas cheias, afirmando que, a exemplo do esterco que aduba o solo, as fezes aduba (sic) o c\u00e9rebro. O presidente cola, no rodap\u00e9 do post, a hashtag Respeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed se avizinha a data da Assembleia-geral da ONU, na qual \u00e9 praxe o chefe-maior do Estado brasileiro fazer o discurso de abertura. Com a reprova\u00e7\u00e3o da equipe m\u00e9dica circulando pelos bastidores do Planalto, o vice-presidente, durante uma coletiva, deixa escapar que o presidente n\u00e3o ir\u00e1 participar do evento. A declara\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, causa revolta no presidente, que ordena que o vice se dirija urgentemente \u00e0 sua casa, onde ficam cara a cara e, aos berros, dispara jatos de mat\u00e9ria fecal por todo o rosto e terno de seu imediato. Completamente enfurecido e descontrolado, o presidente passa o resto do dia defecando em todo o assoalho da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o passa por sua cabe\u00e7a (sic) faltar ao discurso de abertura. O estafe e o grupo, ent\u00e3o, re\u00fanem-se, de modo a bolar uma estrat\u00e9gia para o presidente fazer o discurso sem precisar falar. Sugerem um powerpoint; o presidente recusa. Sugerem uma dublagem sincronizada a movimentos labiais; o presidente recusa. Sugerem que fique em posi\u00e7\u00e3o de sentido e a primeira-dama discurse por ele; o presidente recusa. O presidente quer falar. Em sua cabe\u00e7a (sic), conclui que tem uma miss\u00e3o a cumprir. Um dia antes da viagem, publica, em sua conta no Twitter, que vai a ONU defender a soberania nacional, hashtag cocozinho. O post tem 200 mil curtidas e 40 mil compartilhamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nova Iorque, setembro. Diante de um audit\u00f3rio com centenas de ocupantes, entre chefes de estado, de delega\u00e7\u00f5es, autoridades diversas, rep\u00f3rteres e convidados, o presidente caminha at\u00e9 a orat\u00f3ria, levando consigo duas folhas de papel A4 escritas \u00e0 m\u00e3o, e se posta a cent\u00edmetros do microfone. Flashes de c\u00e2meras estouram em seu rosto. O presidente arruma as folhas sobre uma pequena bancada, confere outra vez o in\u00edcio do discurso, limpa a garganta e, ao projetar a voz, arremessa um bolo de fezes ao p\u00e9 da tribuna.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira fileira, lideres de na\u00e7\u00f5es europeias reagem com assombro, em seguida, com repulsa. Alguns deles, nauseados, levantam-se e abandonam o recinto. Outros, ao fundo, permanecem em seus lugares, at\u00e9 serem alcan\u00e7ados pelo futum. Mesmo para o padr\u00e3o do presidente estadunidense \u00e9 demais, e ele tamb\u00e9m deixa o sal\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente, no entanto, n\u00e3o se abala e segue defecando pela boca o conte\u00fado redigido nas folhas de papel. Ao fim, o ar concentrado est\u00e1 t\u00e3o polu\u00eddo, que mesmo os operadores de c\u00e2mera e a equipe de organiza\u00e7\u00e3o se evadiram, ficando apenas a pequena comitiva brasileira que, habituada \u00e0 intensidade do cheiro, coroa a queda do \u00faltimo rolo fecal com uma salva de palmas e assobios. O presidente \u00e9 abra\u00e7ado e cumprimentado pelo sucesso, depois todos v\u00e3o comer hamb\u00farguer num fast food da esquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De volta ao Brasil, o presidente \u00e9 recebido por uma multid\u00e3o que se autointitula os toletinhos. Carregam faixas e cartazes, cantam o hino nacional e entoam frases de efeito, ingerem fezes frescas e d\u00e3o tiros para o alto; no topo de um carro de som, uma dupla faz uma performance-homenagem de brown shower.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Analistas de direita tecem coment\u00e1rios elogiosos sobre a participa\u00e7\u00e3o do presidente na Assembleia-geral da ONU. Exaltam como foi sensato, incisivo, mantendo a compostura diante da debandada dos chefes de na\u00e7\u00e3o, mesmo quando seu modelo moral, o presidente dos Estados Unidos, deixou o recinto, cobrindo o nariz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na imprensa internacional, por\u00e9m, o discurso do presidente repercute entre a revolta e o esc\u00e1rnio. Um articulista do Le Monde define a participa\u00e7\u00e3o como um acinte, pois (trad. do franc\u00eas), \u201csabedor de que defecava pela boca no Brasil, fez quest\u00e3o de que o mundo tivesse ci\u00eancia de seu h\u00e1bito grotesco\u201d. O editorial do Deutsche Welle defende que (trad. do alem\u00e3o) \u201ca pr\u00f3xima Assembleia-geral fosse realizada nos sanit\u00e1rios do pr\u00e9dio\u201d. A capa do The Sun traz a manchete \u201cBrazil is a sh***\u201d (melhor n\u00e3o traduzir).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o combust\u00edvel para se iniciar uma guerra virtual, com memes, fake news, coment\u00e1rios, stories, text\u00f5es e tweets. Mas, com o tempo, os efeitos ganham resson\u00e2ncia na pol\u00edtica macroecon\u00f4mica e acordos bilaterais e multilaterais come\u00e7am a ser desfeitos. Todos os pa\u00edses europeus param de importar produtos e mat\u00e9rias-primas do Brasil. Multinacionais fecham f\u00e1bricas em v\u00e1rias cidades, causando demiss\u00f5es em massa. Mesmo os Estados Unidos, um aliado plat\u00f4nico, cortam rela\u00e7\u00f5es com o governo brasileiro, decretando o isolamento internacional. E assim, apesar da arrog\u00e2ncia do presidente em garantir que o pa\u00eds \u00e9 autossustent\u00e1vel, a economia caminha para a fal\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois anos depois, o desemprego atinge 44 milh\u00f5es de brasileiros, e 88,8% das fam\u00edlias est\u00e3o endividadas. A viol\u00eancia social explode contra a inexistente pol\u00edtica de seguran\u00e7a e, nos estados mais pobres, a fome mata uma crian\u00e7a a cada cinco minutos. Com a redu\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio verde da Amaz\u00f4nia a 12%, epidemias tomam as cidades que, sem estoque de vacinas, empilham cad\u00e1veres em covas coletivas. Todos os planos econ\u00f4micos e reformas se revelam pautas de festim. E at\u00e9 mesmo a Igreja, mentora e patrocinadora do Governo, fecha todas as suas sedes e seu canal de televis\u00e3o, e se muda para Mo\u00e7ambique, alegando que Deus n\u00e3o \u00e9 mais brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, o presidente lan\u00e7a sua campanha de reelei\u00e7\u00e3o. E milhares de toletinhos o acompanham em caravanas messi\u00e2nicas por todos os cantos do Brasil, reverenciando o mito, o ser incompar\u00e1vel que defeca pela boca, pois, apesar do caos social, dos continuados esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, da livre pr\u00e1tica de nepotismo, da volta da censura, do consolo da informalidade para ter o m\u00ednimo para sobreviver, todos podem contar com a ingest\u00e3o di\u00e1ria de tr\u00eas por\u00e7\u00f5es de fezes frescas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente sequer se vale mais de lousas para se comunicar, arremessando, em ritmo de campanha, mat\u00e9ria fecal a torto e a direito, sem modera\u00e7\u00e3o. No corpo a corpo, eleitores disputam o espa\u00e7o mais pr\u00f3ximo do presidente, de modo a capturar um desses rolos ainda no ar e ingeri-lo imediatamente, presumindo que a fonte original possui componentes puros, capazes de agir com mais efic\u00e1cia na modelagem do intelecto (sic).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente n\u00e3o se incomoda com o empurra-empurra, os apertos e os abra\u00e7os, guiando a multid\u00e3o numa cauda verde-amarela de inquietos movimentos, que somente se interrompem quando o l\u00edder det\u00e9m os passos para defecar, sobre os microfones e gravadores da imprensa, as mesmas malcheirosas evacua\u00e7\u00f5es. At\u00e9 que, num desses contatos diretos com eleitores de Minas Gerais, uma rep\u00f3rter de uma r\u00e1dio local atravessa o gravador por entre a barreira de pessoas e pergunta ao presidente o que ele teria a dizer para os brasileiros que n\u00e3o apoiam seu governo, que se recusam a ingerir tr\u00eas por\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de fezes. O presidente d\u00e1 um sorriso debochado e se prepare para expelir um rolo robusto sobre o rosto da rep\u00f3rter, quando abre a boca e sai a sua voz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente se espanta em ouvir a si pr\u00f3prio, depois de anos. Todos congelam, e um sil\u00eancio expansivo vai ganhando forma na multid\u00e3o \u00e0 medida que cada pessoa transmite para a mais pr\u00f3xima que o presidente voltou a falar. H\u00e1 uma perplexidade coletiva, um abalo mental, em seguida a ponta de uma rachadura. Com os dedos melados e os l\u00e1bios sujos, as pessoas come\u00e7am a se autoquestionar sobre a ingest\u00e3o de fezes, construir uma rea\u00e7\u00e3o de nojo. O presidente observa a mudan\u00e7a das express\u00f5es a sua volta. Processa novamente a pergunta, pensa no que falar, pensa na mais absurda e abjeta declara\u00e7\u00e3o para expelir um bem roli\u00e7o e fedorento bolo fecal, mas se distrai, n\u00e3o consegue, e, atormentado, sem encontrar sa\u00edda sen\u00e3o a mediocridade da pr\u00f3pria voz, insinua uma resposta, quando, do nada, surge algu\u00e9m e lhe acerta uma facada na barriga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 cr\u00edtico liter\u00e1rio e escritor, autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas, o espanhol e o t\u00e2mil. Participou da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris. Edita o site de cr\u00edtica liter\u00e1ria<a href=\"http:\/\/www.anovacritica.wordpress.com\"> A NOVA CR\u00cdTICA<\/a>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O retrato reflexivo de uma na\u00e7\u00e3o no conto in\u00e9dito de S\u00e9rgio Tavares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3693,2534,16],"tags":[81,41,1023],"class_list":["post-16638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-132a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16638"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16644,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16638\/revisions\/16644"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}