{"id":16842,"date":"2019-12-16T18:39:11","date_gmt":"2019-12-16T21:39:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16842"},"modified":"2019-12-19T10:19:12","modified_gmt":"2019-12-19T13:19:12","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-66","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-66\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Literatura segue como verdadeira ponte entre mundos, lugares que deslizam entre o vivido e o imaginado. Nesse \u00ednterim, acep\u00e7\u00f5es das nossas humanidades se delineiam de modo a compor um painel difuso sobre as tramas da exist\u00eancia. Olhando assim de tal forma, escrever pode representar substancial exerc\u00edcio de viv\u00eancias na linha sutil a divisar realidade e fic\u00e7\u00e3o. As paragens liter\u00e1rias comportam um contingente imensur\u00e1vel de subjetividades poss\u00edveis, de cen\u00e1rios e situa\u00e7\u00f5es que marcam o indel\u00e9vel e imponder\u00e1vel esp\u00edrito humano. H\u00e1 sempre um qu\u00ea do autor numa determinada obra, ainda que seja apenas algo alimentado pelo campo das refer\u00eancias, pela inalien\u00e1vel observa\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos mundanos que se nos atravessam teimosamente por entre os dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como poder\u00edamos definir, por exemplo, o que seriam os caminhos da autofic\u00e7\u00e3o? Quem de fato nos conduz nesta complexa estrada que transborda do texto para a vida? Imprecis\u00f5es \u00e0 parte, parece ser melhor pensar que se desdobram eus no corpo vasto de uma certa escritura, relatos de si que reverberam experi\u00eancias tidas ou imaginadas, as quais muitas vezes nos estimulam pela impress\u00e3o de realidade que sugerem. Se estamos ent\u00e3o mergulhados nas tens\u00f5es cotidianas, a\u00ed \u00e9 que os textos podem nos revelar mais do que meras predile\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas ou estil\u00edsticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ficamos, pois, com os vest\u00edgios e marcas palp\u00e1veis da vida quando nos deparamos com um livro como <em>O Enigma de Daniela<\/em>. Nele, sua autora, <strong>Lelita Oliveira Benoit<\/strong>, mais do que uma obra autoficcional rica em informa\u00e7\u00f5es e detalhes, constr\u00f3i uma narrativa que envolve o leitor pela capacidade de mesclar percep\u00e7\u00f5es e relatos frutos de uma realidade que emerge brutal. Nesse sentido, o texto procura o leitor, seduzindo-o a ponto de faz\u00ea-lo (o leitor) testemunha pr\u00f3xima de tudo aquilo que \u00e9 pormenorizadamente contado. \u00c0 personagem-narradora coube a cuidadosa miss\u00e3o de contar a hist\u00f3ria ver\u00eddica de Daniela, jovem m\u00e9dica que, ainda estudante, viu seu destino ser marcado por um irrespons\u00e1vel acidente automobil\u00edstico que limitou para sempre seus movimentos. A partir da\u00ed, desenrolam-se batalhas de supera\u00e7\u00e3o pessoal da jovem diante de suas restri\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e, sobretudo, de sua readequa\u00e7\u00e3o mental para seguir vivendo, al\u00e9m do enfrentamento judicial das quest\u00f5es que envolveram o acidente, tendo em vista que o motorista causador do atroz infort\u00fanio estava embriagado na ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lelita Oliveira Benoit, al\u00e9m de escritora, \u00e9 psicanalista e Doutora em Filosofia pela USP. Sua tese de doutorado, <em>Sociologia Comteana: G\u00eanese e Devir <\/em>(1999), publicada em livro pela Discurso Editorial\/FAPESP, foi indicada ao Pr\u00eamio Jabuti em 2000, sendo que anos depois, em 2007, viria a ser traduzida para o franc\u00eas e editada pela L\u2019Harmattan. Tamb\u00e9m \u00e9 autora de <em>Livro da Madrugada (E de outras enigm\u00e1ticas horas amorosas)<\/em>, livro de poemas publicado em 2013 pela Iluminuras. Com <em>O Enigma de Daniela <\/em>(2019), editado tamb\u00e9m pela mesma editora, a autora estreia na prosa. E foi justamente para falar desse seu novo momento liter\u00e1rio que ela concedeu uma entrevista \u00e0 Diversos Afins, pontuando aspectos fundamentais de seu processo criativo, desafios e perspectivas do mister. O saldo da conversa que agora segue \u00e9 deveras positivo, n\u00e3o apenas pela express\u00e3o da intelectualidade de Lelita, mas principalmente por sua sensibilidade em dividir conosco reflex\u00f5es profundas sobre a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16846\" aria-describedby=\"caption-attachment-16846\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-1-Foto-Julieta-Benoit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16846 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-1-Foto-Julieta-Benoit.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-1-Foto-Julieta-Benoit.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-1-Foto-Julieta-Benoit-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-1-Foto-Julieta-Benoit-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16846\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Julieta Benoit<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;O Enigma de Daniela&#8221; \u00e9 um livro vigoroso na medida em que trata, de forma densa, delicada e informativa, de um tema que ainda nos \u00e9 muito caro: as limita\u00e7\u00f5es do corpo f\u00edsico diante da trag\u00e9dia. Que esp\u00e9cie de desafios se configuraram de imediato em sua escolha narrativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211;<\/strong> Agrade\u00e7o as suas fortes e sens\u00edveis coloca\u00e7\u00f5es iniciais. Me tocou muito ao sentir na minha pele, na minha alma, a sua leitura do meu romance de estreia. Indo agora em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pergunta. Diria que n\u00e3o fiz escolhas narrativas. N\u00e3o tive como ponto de partida uma ou outra escolha ficcional. Diria sim que fui sugada pelo tempo \u2013 que era ent\u00e3o, o tempo <em>presente<\/em> da minha vida passada. Foi essa a escolha, pela vida. Fiz da vida, fic\u00e7\u00e3o \u2013 como \u00e9 inevit\u00e1vel no espa\u00e7o da escrita do romance, ou talvez, do romance de qualquer ser humano. E acrescento mais. A escrita desta ordem particular, a do romance, para mim ao menos, acaba sendo m\u00e1scara do eu \u2013 do <em>meu <\/em>eu. Pois n\u00e3o h\u00e1 outro caminho (<em>methodos<\/em>, em grego cl\u00e1ssico) para ser Outro de si mesmo, no espa\u00e7o ficcional. Me dupliquei. Me transformei em m\u00e1scara do meu eu. Na escrita do romance, da poesia, sou (ou somos, n\u00e3o sei bem&#8230;) Outro sendo eu mesma. E confesso que tenho grande dificuldade em fazer a interpreta\u00e7\u00e3o daquilo que lancei ao papel.\u00a0Para clarificar um pouco a minha enodoada resposta, lembro aqui do segundo pref\u00e1cio que Rousseau escreveu para o seu romance <em>Julia, ou A nova Heloisa<\/em>, que tem como subt\u00edtulo &#8220;Cartas de dois amantes de uma cidadezinha ao p\u00e9 dos Alpes&#8221;.\u00a0 No pref\u00e1cio, \u00e9 transcrita a conversa\u00a0entre o fil\u00f3sofo-escritor com o seu editor, e este \u00faltimo se refere ao conte\u00fado do romance, composto por cartas. Pergunta o editor ao &#8220;homem de letras&#8221;: &#8220;Esta correspond\u00eancia \u00e9 real ou trata-se de uma fic\u00e7\u00e3o?&#8221; Lhe responde Rousseau: &#8220;Para dizer se um Livro \u00e9 bom ou mau, que importa saber como foi feito?&#8221; Rousseau se refere \u00e0 zona do <em>fazer<\/em> que me parece mergulhada na pr\u00f3pria escrita liter\u00e1ria. \u00c9 a sua zona mais desordenada, tumultuada, ca\u00f3tica, sei l\u00e1&#8230; Pois \u00e9 o espa\u00e7o da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Implica a subjetividade do eu que escreve, entrela\u00e7ada \u00e0s suas viv\u00eancias e escolhas indeslind\u00e1veis, quase sempre. Poderia recorrer \u00e0 psican\u00e1lise, a Freud. Mas prefiro outro caminho, mais nas proximidades da literatura ficcional.\u00a0 Ent\u00e3o me permito &#8220;roubar&#8221; aqui a fala de Mikhail Bakhtin, em <em>O romance como g\u00eanero liter\u00e1rio<\/em>. L\u00e1 escreve o grande te\u00f3rico da literatura que prefere escutar a voz do romancista ao inv\u00e9s de recorrer aos linguistas ou fil\u00f3sofos da linguagem. Prefere Bakhtin acolher as vozes de romancistas tais como Rousseau, ou Friedrich Schlegel, ou Dostoi\u00e9vski e outros mais, pois s\u00e3o eles que &#8220;participam da forma\u00e7\u00e3o viva do romance enquanto g\u00eanero liter\u00e1rio&#8221;. Me coloco sempre ao lado da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, portanto, ao lado da vida, e tendo a concordar com Bakhtin. Que parece ter escutado a minha voz de romancista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Dentro dos percursos autoficcionais, seu romance vai desfiando cen\u00e1rios, situa\u00e7\u00f5es e personagens que envolvem o leitor numa sensa\u00e7\u00e3o permanente de realidade. Nesse sentido, quem l\u00ea a obra est\u00e1 amparado por cuidadosos requintes descritivos e informativos a respeito de assuntos que transitam, por exemplo, entre os saberes m\u00e9dicos e jur\u00eddicos. Como voc\u00ea vislumbra tal perspectiva?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211;<\/strong>\u00a0 O meu romance se fez da perspectiva de intenso desejo \u2013 e, assim espero, com delicadeza e muita poesia. O desejo de tocar com os meus dedos imagin\u00e1rios a realidade. Desejo amoroso sempre. \u00c9 o amor que a tudo pode enla\u00e7ar, acredito eu. No meu romance, a\u00a0 realidade emerge do fluxo do meu desejo amoroso, entre as letras e palavras, se desmanchando em fios \u2013 &#8220;desfiando&#8221;, na sua bela imagem \u2013 acontecimentos vivenciados, portanto situa\u00e7\u00f5es verdadeiras, na altern\u00e2ncia das hist\u00f3rias l\u00e1 contadas, sempre com o meu eu-m\u00e1scara enla\u00e7ado a elas. Sempre. O meu desejo amoroso foi recolhendo, aqui e ali,\u00a0 saberes diversos e m\u00faltiplas vozes que foram costuradas \u2013\u00a0 n\u00e3o encontro palavra melhor&#8230;\u00a0\u2013 \u00e0s minhas diversas leituras\u00a0 das bel\u00edssimas p\u00e1ginas da literatura judaica (Am\u00f3s Oz, Bashevis Singer, Kafka, I.L. Peretz e outros mais), das narrativas fortes e po\u00e9ticas da B\u00edblia Hebraica, da longeva hist\u00f3ria do povo judeu, e ainda de escritores n\u00e3o judeus, como Jorge Luis Borges que reverenciou esse povo milenar em sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u2013 que se leia o magn\u00edfico \u201cEl Aleph\u201d! Ent\u00e3o, o meu desejante olhar amoroso \u2013 ou, o meu eu-m\u00e1scara \u2013 foi guiando com delicadeza os meus dedos para que tocassem a realidade da sabedoria m\u00e9dica que, al\u00e9m da cura dos nossos corpos biol\u00f3gicos, procura sempre a Justi\u00e7a como exerc\u00edcio da \u00c9tica, t\u00e3o ausente agora, e talvez desde sempre. Lado a lado ao saber m\u00e9dico,\u00a0 toquei a realidade de seu outro insepar\u00e1vel comparsa, o saber jur\u00eddico. Descobri que este \u00faltimo segue, quase que aos trancos e barrancos, tentando preencher os vazios que permeiam a medida humana do justo e do injusto. Algumas vezes, chega bem perto, em outras, falha completamente. Com os meus dedos de romancista segui tecendo um enredo, \u00e0s vezes ca\u00f3tico para mim, no qual tanto o saber m\u00e9dico quanto o jur\u00eddico se mostravam quase que imobilizados diante da trag\u00e9dia de um acidente automobil\u00edstico criminoso, que \u00e9 o mote central de <em>O<\/em> <em>Enigma de Daniela<\/em>. Enfim, o romance \u2013 e n\u00e3o apenas o meu, com certeza! \u2013 \u00e9 minha voz, voz reflexiva e altamente elaborada, incluindo certa desordem da minha escrita, que tem o poder de abrigar outras vozes, vozes \u00edntimas e coletivas,\u00a0 jur\u00eddicas e m\u00e9dicas,\u00a0de professores e da estudante de medicina, do pai amoroso e da bela filha resgatada da trag\u00e9dia pelo amor paterno, vozes dos amantes enla\u00e7ados pelo m\u00fatuo encontro feliz, e tantas outras vozes significativas. E sim, o meu romance toca a realidade presente e com beleza est\u00e9tica, desejar apontar futuros poss\u00edveis, e \u2013 tenho esperan\u00e7as! \u2013 mais humanizados.\u00a0Para que um dia, talvez \u2013 quem sabe ao certo? \u2013 consigamos nos libertar do Holocausto p\u00f3s-moderno no qual estamos como que paralisados, literalmente sufocados pela injusti\u00e7a universal \u2013 e agora me remetendo \u00e0s inspiradoras palavras da poeta Maria L\u00facia Dal Farra, que escreveu a apresenta\u00e7\u00e3o de <em>O Enigma de Daniela<\/em>. Paralisados n\u00f3s todos, e n\u00e3o apenas as pessoas portadoras de tetraplegia que o meu eu-m\u00e1scara abrigou, acolheu com amor, no fluxo dessa minha narrativa romanceada de acontecidos reais, verdadeiros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nunca \u00e9 demais pensarmos sobre o que realmente desejamos para o Outro, exerc\u00edcio de alteridade no qual a promo\u00e7\u00e3o do bem coletivo nalguns momentos parece resvalar na utopia. Acredita que estamos presenciando, em escala global, um acelerado processo de desumaniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211;<\/strong> Para responder \u00e0 sua pergunta, retorno a Mikhail Bakhtin que, nos dias de hoje, muito me tem inspirado com a sua teoria do romance. Escreve Bakhtin que, no g\u00eanero romance, a realidade fica de tal forma pr\u00f3xima\u00a0da fic\u00e7\u00e3o que \u00e9 como se aquela pudesse ser agarrada e tocada pelas m\u00e3os do escritor, ou colocada de pernas para o ar, ou exibida em suas v\u00edsceras carnais. Essa grande proximidade com o presente produz, no g\u00eanero romance, o seu permanente inacabamento que o abre ao futuro, em leituras que seguem o recriando a qualquer momento e sempre. O g\u00eanero romance se estabelece como mais pr\u00f3ximo do futuro do que do passado, resvalando \u00e0s vezes na utopia, comenta ainda Bakhtin. O que isto tudo pode nos inspirar? Que o romancista tende a se encostar sim em certa utopia, no <em>nenhum-lugar<\/em>,\u00a0 no lugar do supostamente irrealiz\u00e1vel, por\u00e9m desenhado nas p\u00e1ginas de milhares de romances.\u00a0\u00a0 Pois, do outro lado da escrita ficcional,\u00a0 do romance, se encontra o seu Leitor.\u00a0 Este \u00faltimo vai preenchendo o vazio ou o adensamento excessivo entre as palavras, essa rara esp\u00e9cie de <em>nenhum-lugar<\/em>, com o cimento da pr\u00f3pria experi\u00eancia existencial. \u00c9 assim criado um tipo particular de di\u00e1logo no \u00e2mago da escrita ficcional. Do Escritor do romance e de seu Leitor:\u00a0 insepar\u00e1veis no tempo da leitura ou das reflex\u00f5es elaboradas ap\u00f3s a leitura, e que talvez acompanhem o Leitor por toda a sua exist\u00eancia. Refletindo um pouco mais em torno do elo entre o Escritor e o Leitor. \u00a0Ao menos para mim, que me bebo tamb\u00e9m nas fontes da filosofia, os di\u00e1logos de S\u00f3crates, contados por Plat\u00e3o, seriam romances de vidas, pois narram hist\u00f3rias reais. E h\u00e1 muito mais a dizer. O di\u00e1logo socr\u00e1tico est\u00e1 ali n\u00e3o como mera possibilidade de ser vivenciada por Outro, um suposto Leitor, mas est\u00e1 l\u00e1 de corpo presente, cravado em palavras e se entrecruzando na forma dial\u00f3gica da escrita de Plat\u00e3o. No que tamb\u00e9m tendo a concordar com Bakhtin, que viu nos di\u00e1logos plat\u00f4nico-socr\u00e1ticos os prim\u00f3rdios do romance europeu. E do nosso, por consequ\u00eancia. O r\u00e1pido processo de desumaniza\u00e7\u00e3o \u2013 ao qual voc\u00ea se refere e com o qual tristemente tenho que concordar \u2013 poderia talvez ser sustado com o retorno ao romance, \u00e0 poesia, \u00e0 totalidade da literatura e, \u00e9 claro, com o retorno \u00e0s demais cria\u00e7\u00f5es culturais: artes pl\u00e1sticas, cinema e qualquer tipo de inven\u00e7\u00e3o art\u00edstica (que se fragmentam em m\u00faltiplas formas de apari\u00e7\u00e3o, nos dias de hoje). Li h\u00e1 pouco um discurso proferido pelo poeta Federico Garcia Lorca, no dia da inaugura\u00e7\u00e3o de uma biblioteca p\u00fablica em sua cidade natal.\u00a0 Nesse discurso l\u00edrico, afirma o poeta que n\u00e3o s\u00f3 de p\u00e3o vive o ser humano. E se por acaso ele, o poeta, estivesse faminto, pediria metade de um p\u00e3o e um livro. \u00c9 esse um prov\u00e1vel caminho, quem sabe&#8230; Lembro ainda que tive o privil\u00e9gio de, em pequen\u00edssima parte,\u00a0 vivenciar algo semelhante, desde 1985, como professora de Filosofia em escolas de ensino superior, direcionadas particularmente\u00a0a trabalhadores pobres. A fome (ou, nos dias de hoje, a alimenta\u00e7\u00e3o carente de nutrientes necess\u00e1rios \u00e0 vida)\u00a0 se manifesta na fala e na escrita da maioria dos estudantes. Mas \u00e9 em igual medida que os mesmos estudantes manifestam fome por cultura. Se o p\u00e3o lhes foi negado \u2013 mesmo que no corpo perverso da &#8220;comida&#8221; atual \u2013 a cultura igualmente lhes foi roubada descaradamente. E nos dois sentidos, o fosso \u00e9 muito profundo entre a fome e o se sentir saciado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16847\" aria-describedby=\"caption-attachment-16847\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Lelita-Foto-Julieta-Benoit-imagem-02.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16847\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Lelita-Foto-Julieta-Benoit-imagem-02.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Lelita-Foto-Julieta-Benoit-imagem-02.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Lelita-Foto-Julieta-Benoit-imagem-02-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16847\" class=\"wp-caption-text\">Foto : Julieta Benoit<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Essa ideia de saciedade pelo acesso aos bens culturais deveria ser respeitada como um direito humano inalien\u00e1vel, posto que tamb\u00e9m estimula a forma\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico. Voc\u00ea aposta na liberta\u00e7\u00e3o do sujeito pela frui\u00e7\u00e3o da arte?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211;<\/strong> Gostaria de dar um toque psicanal\u00edtico a minha resposta. Breve retorno a Sigmund Freud, nas quest\u00f5es da arte e dos artistas. Relembro de um curto texto no qual o psicanalista-fundador discorre sobre o &#8220;princ\u00edpio de prazer&#8221; e o &#8220;princ\u00edpio de realidade&#8221;. Segundo Freud,\u00a0 esses dois princ\u00edpios parecem guiar, dar dire\u00e7\u00f5es ou doar significados \u00e0 vida ps\u00edquica de cada ser humano. O princ\u00edpio de prazer \u00e9\u00a0quase onipresente em nossas primeiras escolhas, ainda no ber\u00e7o, na primeira inf\u00e2ncia. Sua tarefa mais importante seria, a todo custo, evitar o desprazer. Mas aos poucos, o princ\u00edpio de realidade coloca interdi\u00e7\u00f5es ao primeiro, vai se impondo e ganha cada vez maior espa\u00e7o no psiquismo humano, determinando nossas decis\u00f5es relacionadas ao mundo exterior, \u00e0 sociedade em que vivemos. \u00c0s vezes, chega quase a sufocar por completo o princ\u00edpio de prazer. Trocando em mi\u00fados, seria algo bem semelhante ao princ\u00edpio de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade.<br \/>\nE me desculpe se fa\u00e7o um resumo t\u00e3o tosco de reflex\u00f5es t\u00e3o poderosas! Mas prossigo, apesar da precariedade. O artista \u00e9 aquele que, por um talento inexplic\u00e1vel,\u00a0consegue aproximar, entrela\u00e7ar os dois princ\u00edpios de funcionamento do psiquismo quando produz uma obra de arte. A um s\u00f3 tempo, a obra art\u00edstica d\u00e1 prazer ao pr\u00f3prio criador e ao seu fruidor. Enfim, a obra passa a compor a realidade e surge nela como <em>objeto <\/em>art\u00edstico. Observa\u00e7\u00e3o muito importante: o artista se recusa \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio de realidade e, de certa forma, faz a sua nega\u00e7\u00e3o, mesmo que parcial. O fruidor da arte \u00e9 aquele que compactua \u2013 talvez, secretamente ou inconscientemente \u2013 com a insubmiss\u00e3o do artista ao mundo em que vivemos, embora n\u00e3o consiga realizar o ato de rebeldia, a obra de arte. No nosso tempo presente, vigora a sensa\u00e7\u00e3o de que prevalece apenas o sufocante e puro princ\u00edpio de realidade. \u00c9 muito triste que assim seja. A arte e o seu criador, o artista, s\u00e3o censurados,\u00a0 banidos ou ignorados o tempo todo e por diversos meios.\u00a0 N\u00e3o h\u00e1 horizonte vis\u00edvel, ao menos para mim, de liberta\u00e7\u00e3o dos seres humanos pela frui\u00e7\u00e3o da arte. E me pergunto muitas vezes que significado pode ter um direito, mesmo que inalien\u00e1vel, se n\u00e3o se pode o exercer, ainda que parcialmente? Me permita repetir o que j\u00e1 disse antes: o fosso \u00e9 muito profundo entre a fome e o se sentir saciado, tanto pelo p\u00e3o quanto pela cultura. Diria que \u00e9 o fosso da terr\u00edvel desigualdade, em todas as suas formas de apari\u00e7\u00e3o, na realidade contempor\u00e2nea. E contudo, quando se sente fome, acredito que ainda vale parafrasear o poeta Garcia Lorca \u2013 e h\u00e1 ainda quem o fa\u00e7a sim! e aos gritos! \u2013 que meio peda\u00e7o de p\u00e3o aplacaria a necessidade b\u00e1sica de todo ser humano, caso chegasse acompanhado de um bom romance.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Por falar em psican\u00e1lise, h\u00e1 um exerc\u00edcio de escutas que norteia a rela\u00e7\u00e3o entre a personagem-narradora e\u00a0 Daniela, servindo de base para a exposi\u00e7\u00e3o dos relatos e situa\u00e7\u00f5es. Em que medida a sua por\u00e7\u00e3o de psicanalista auxiliou nessa constru\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211; <\/strong>Voc\u00ea tocou num assunto muito importante para o processo de elabora\u00e7\u00e3o do meu romance. Antes de tudo, devo confessar que o meu ser psicanalista s\u00f3 se mostrou por inteiro ap\u00f3s finalizar as escutas de Daniela.\u00a0 Me explico. Foi a mo\u00e7a que me revelou o que eu n\u00e3o sabia ainda, ou n\u00e3o era bastante claro para mim. Daniela me disse que eu tinha sido a sua psicanalista durante um longo tempo, um ano ou mais. Se bem que,\u00a0 acrescento eu, n\u00e3o nos moldes tradicionais. Era eu que me deslocava at\u00e9 o apartamento de Daniela. N\u00e3o havia, como o habitual, o consult\u00f3rio da psicanalista.\u00a0 N\u00e3o recebi\u00a0 pagamento em dinheiro por tais escutas.\u00a0 Por\u00e9m outros detalhes ocorriam. Dois significativos exemplos: o tempo sempre fechado da escuta e Daniela me revelando segredos. Sim, segredos os quais, ap\u00f3s o romance j\u00e1 composto, ela resistiu bastante quanto \u00e0\u00a0publica\u00e7\u00e3o de alguns trechos, pois seriam seus \u201csegredos\u201d. Hoje, quando\u00a0 junto as pontas do j\u00e1 acontecido,\u00a0 se revela para mim um exerc\u00edcio de inspira\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica intensa no decorrer da escuta n\u00e3o apenas de Daniela, mas igualmente, do pai da mo\u00e7a, o m\u00e9dico Alberto, da advogada Cleide e das demais pessoas, de cujas falas me ocupei para a constru\u00e7\u00e3o \u2013 um tanto ca\u00f3tica, confesso \u2013 \u00a0do enredo do meu romance. Veja s\u00f3 que\u00a0precisei de mais de quatro anos at\u00e9 colocar um ponto final em tudo. E enquanto isso n\u00e3o acontecia, n\u00e3o era muito claro para mim o\u00a0significado e os limites da minha experi\u00eancia de escutas de inspiradas na psican\u00e1lise. E vou al\u00e9m. Penso que\u00a0 as pessoas \u2013 que pelo ato m\u00e1gico da escrita ficcional, tornaram-se personagens do meu romance \u2013 todas elas s\u00e3o singularidades humanas, s\u00e3o \u00fanicas e insubstitu\u00edveis, e se faltasse uma apenas, o enredo n\u00e3o seria o mesmo, se enfraqueceria muito, ou talvez nem sequer existiria. Pois nunca se tratou de um enredo constru\u00eddo conscientemente, foi muito mais uma escrita beirando a desordem, durante aquele tempo em que fui sugada pela vida.\u00a0 Talvez por isso,\u00a0no romance finalizado, conservei por inteiro as vozes que escutei. Mesmo que eu tenha enla\u00e7ado\u00a0 as falas das pessoas-personagens naquilo que \u00e9 s\u00f3 meu, a minha rede de pescadora das vozes de Outros e que resultou no meu eu-liter\u00e1rio.\u00a0 Aquela que sou sustentou aquela que inventou a fantasia de Outros e a minha, a um s\u00f3 tempo. Isto tudo acontece sempre na escrita de qualquer romance? \u00c9 a minha pergunta ainda sem resposta. E nem pretendo encontrar uma que seja acabada e, portanto, sem vida, fria e morta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 interessante perceber que o processo autoral no seu romance acaba resultando numa converg\u00eancia de vozes. \u00c9 a sensa\u00e7\u00e3o ali de n\u00e3o se ter uma autoria fixa, centrada num sujeito apenas, mas na intersec\u00e7\u00e3o de subjetividades. Desde sempre voc\u00ea apostou conscientemente nisso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211; <\/strong>&#8220;Converg\u00eancia de vozes&#8221; e\u00a0 &#8220;intersec\u00e7\u00e3o de subjetividades&#8221;: bonito! Gostei das express\u00f5es, ou melhor, da sua interpreta\u00e7\u00e3o. Essa pergunta me conduz a\u00a0 Roland Barthes (brilhante escritor, quase <em>&#8220;d\u00e9mod\u00e9&#8221;<\/em>, infelizmente&#8230;). Me recordo de Barthes discorrendo sobre a &#8220;morte do Autor&#8221; e dando a pr\u00f3pria interpreta\u00e7\u00e3o da literatura e do romance, em particular.\u00a0 &#8220;A escritura \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de toda voz, de toda a origem&#8230; a come\u00e7ar pela do corpo que escreve&#8221;.\u00a0 Destrui\u00e7\u00e3o das origens, a do corpo que escreve e de sua voz. Com qual finalidade Barthes decreta a morte do Autor? Para real\u00e7ar, penso eu, a pr\u00f3pria escrita ficcional e dar espa\u00e7o para que falem as m\u00faltiplas vozes ali acolhidas. E igualmente, para destacar a import\u00e2ncia singular do Leitor.\u00a0 Sem leitores n\u00e3o h\u00e1 romance que se sustente no presente, ou que perdure por muito tempo. Voc\u00ea me perguntou se foi escolha consciente o ato de descentralizar ou dissolver a minha autoria na &#8220;intersec\u00e7\u00e3o de subjetividades&#8221;. Respondo que sim, foi consciente, e ao mesmo tempo, que n\u00e3o foi consciente. Explico o sim: \u00e9 porque perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que tendia ao coletivo,\u00a0 ao partilhado. O romance \u00e9 lugar ideal para manifestar as vozes que me habitam. E Barthes, de certo modo, falava e escrevia para esse meu outro tempo, talvez por isso esteja um pouco fora de moda. Agora, o n\u00e3o. E \u00e9 bem dif\u00edcil de explicar que n\u00e3o foi inteiramente um ato consciente, que eu me inclinava, de certo modo, \u00e0 minha anula\u00e7\u00e3o. Dei voz a\u00a0 tantos, partilhei com muitos a minha voz de escritora.\u00a0 Olhe, tenho que detalhar alguns dos meus procedimentos liter\u00e1rios.\u00a0 \u00a0O gravador de voz\u00a0 foi o instrumento mais importante para realizar as escutas. Escutava ao mesmo tempo que gravava e depois, eu mesma elaborava as falas, cuidadosa em conservar o melhor: o ouro, ou o mais precioso delas. Ressalto, ainda uma vez mais, que h\u00e1 outras vozes \u2013 al\u00e9m das pessoas reais, transformadas em personagens da minha fic\u00e7\u00e3o \u2013 vozes que recolhi da hist\u00f3ria escrita do povo judeu, do melhor da literatura judaica, das preciosas cita\u00e7\u00f5es da B\u00edblia Hebraica. E \u00e9 certo que, poucas vezes, me deixei falar, a minha voz \u00e9 silenciosa, quase ausente. E quando aconteceu de eu falar&#8230; Bem, voc\u00ea j\u00e1 sabe, \u00e9 o meu eu-liter\u00e1rio que se apresenta, um &#8220;eu&#8221; que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o do que eu sou. No meu romance, outra vez trocando em mi\u00fados, me apresento como uma quase mentira de mim mesma, fantasia do meu eu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o notar como a ideia da f\u00e9 atravessa todo o seu livro. Nesse contexto, as cita\u00e7\u00f5es de passagens da B\u00edblia Hebraica est\u00e3o sempre a introduzir cada cap\u00edtulo e acabam dialogando, de algum modo, com a atmosfera que emana das narrativas. Diga-se de passagem, a saga do povo judeu, em especial, \u00e9 algo emblem\u00e1tica no transcurso da hist\u00f3ria, sobretudo pelos desafios enfrentados. O caminho da espiritualidade \u00e9 uma via de esperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211;<\/strong> As suas perguntas me jogam sempre para o lado de escritores que me apaixonam! Como a atual. E agrade\u00e7o por me dar a oportunidade de dizer algo, ainda que bem sucinto, em torno do escritor judeu israelense Am\u00f3s Oz. A B\u00edblia Hebraica entrou no meu romance por interm\u00e9dio dos seus ensaios de <em>Os judeus e as Palavras<\/em>. Oz, em um deles, se autodenomina &#8220;escritor secular&#8221; e demonstra ver na B\u00edblia Hebraica o lugar da pura literatura, e da mais alta qualidade, encontrando nela poesia e encantamento. De passagem, recordo que Am\u00f3s Oz possu\u00eda uma grande e f\u00e9rtil erudi\u00e7\u00e3o, que se manifestou em diversas dire\u00e7\u00f5es, como no romance <em>Judas<\/em> e na autobiografia <em>De Amor e Trevas<\/em>. E h\u00e1 mais, muito mais que n\u00e3o caber\u00e1 nesta simples resposta. Oz escreveu, neste ensaio que citei,\u00a0 que o povo judeu tem uma rela\u00e7\u00e3o muito particular com as palavras. Durante s\u00e9culos e s\u00e9culos, n\u00e3o tiveram outra terra ou pa\u00eds a n\u00e3o ser o das palavras, a come\u00e7ar pela B\u00edblia Hebraica, ou a <em>Tor\u00e1<\/em>, para ser mais precisa. E quando algu\u00e9m folheia, de modo despreocupado,\u00a0o meu romance <em>O Enigma de Daniela<\/em>, encontrando l\u00e1, em suas p\u00e1ginas, cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, norteadoras de cada um dos seus cap\u00edtulos, poder\u00e1 talvez pensar: &#8220;Caramba, este deve ser um romance religioso&#8221;. Mas n\u00e3o \u00e9 de modo algum. \u00c9, isto sim, um livro que muito\u00a0 gostaria de cativar os seus leitores com palavras e apenas palavras, atrav\u00e9s de exist\u00eancias humanas significativas, vivas, como quando ocorre, em suas p\u00e1ginas, o enfrentamento de quase intranspon\u00edveis desafios diante de um acidente criminoso e que abruptamente atingiu a jovem mulher judia Daniela, de apenas 23 anos, roubando-lhe os movimentos mais importantes do seu corpo. Para completar, lembro aqui de um tema presente no meu romance, o da complicad\u00edssima rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e tradi\u00e7\u00e3o judaicas. Dou um exemplo que me chega das minhas rela\u00e7\u00f5es pessoais, portanto, de fora do romance. \u00a0 Tenho uma grande amiga cujo pai era\u00a0 judeu alem\u00e3o e que imigrou para o Brasil nos anos da 2\u00aa Guerra Mundial. Este senhor era ateu e marxista, no entanto, colaborou financeiramente para a constru\u00e7\u00e3o da Sinagoga do Rio de Janeiro. Me parece que muitas vezes \u00e9 bem complicada para os judeus e judias resolverem a equa\u00e7\u00e3o religi\u00e3o versus tradi\u00e7\u00e3o. Enfim,\u00a0 se tenho alguma f\u00e9, \u00e9 nas palavras escritas, no seu poder de encantamento, que pode mover o \u00edntimo das pessoas para algum lugar melhor, dentro ou fora delas. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m, nos dias atuais \u2013 e ali\u00e1s, sempre existiram \u2013 \u00a0palavras que ferem e, \u00e0s vezes, s\u00e3o letais. Dif\u00edcil de responder&#8230; Me afasto sempre de caminhos pr\u00e9-fabricados. E de um poema me lembro agora, do espanhol Antonio Machado, que assim escreveu: &#8220;Caminante no hay caminho, sino estellas en la mar&#8221;.\u00a0 <em>A ver<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16848\" aria-describedby=\"caption-attachment-16848\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-2-Foto-Julieta-Benoit.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16848\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-2-Foto-Julieta-Benoit.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-2-Foto-Julieta-Benoit.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-2-Foto-Julieta-Benoit-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Imagem-2-Foto-Julieta-Benoit-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16848\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Julieta Benoit<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>DA &#8211; Que esp\u00e9cie de pol\u00eamica a capa do seu romance gerou?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211; <\/strong>\u00d3tima pergunta, que me possibilita dizer algo a esse respeito. Mas, antes de tudo, gostaria de agradecer ao excelente e prestigiado fot\u00f3grafo \u00c2ngelo Pastorello, que assina a foto de capa do meu romance. E tamb\u00e9m ao artista Eder Cardoso que comp\u00f4s a capa a partir da foto de Pastorello, e ainda \u00e9 o criador do bonito projeto gr\u00e1fico do meu livro. Indo agora direto \u00e0 pol\u00eamica, que dividiu opini\u00f5es. Alguns, que criticaram insistentemente a foto, disseram que se trata de um resultado fotogr\u00e1fico resvalando a publicidade, talvez um <em>kitsch <\/em>fotogr\u00e1fico. Outros, que a aprovaram \u2013 ali\u00e1s, a maioria \u2013 viram nela algo pr\u00f3ximo a conceitos da &#8220;pop art&#8221;. \u00c9 engra\u00e7ado, pensei, que uma opini\u00e3o n\u00e3o anula a outra, mas se complementam. Preferi\u00a0 ent\u00e3o beber na fonte e fui conversar com o fot\u00f3grafo \u00c2ngelo Pastorello.\u00a0 Di\u00e1logo bastante interessante e\u00a0 bem surpreendente,\u00a0pois\u00a0 me remeteu \u00e0s minhas escolhas \u2013 ou n\u00e3o-escolhas, para ser mais precisa \u2013 na escrita de <em>O Enigma de Daniela<\/em>. Veja, de forma bem sucinta, o que Pastorello me revelou. Que nunca teve como ponto de partida um conceito, em particular. A sua \u00fanica escolha foi a de fazer um <em>portrait<\/em>, ou seja, um retrato espont\u00e2neo, sem truques, em intera\u00e7\u00e3o viva\u00a0e livre entre o fot\u00f3grafo e a pessoa fotografada, no caso, Daniela.\u00a0 Para fazer o retrato, apenas escolheu, isto sim,\u00a0 o tipo de luz,\u00a0uma luz mais volumosa, luz de cinema,\u00a0 para acentuar as express\u00f5es faciais e corporais da mo\u00e7a. De resto, completou, tudo aconteceu de maneira emp\u00edrica e espont\u00e2nea, entre o fot\u00f3grafo e Daniela.\u00a0 Enfim, Pastorello ressaltou bastante que n\u00e3o foi guiado por um ou outro conceito, e \u00e9 bastante subjetivo falar de conceitos em fotografia. Se dissesse, por exemplo, que a inten\u00e7\u00e3o era a de passar a seriedade ou o humor da mo\u00e7a, isto n\u00e3o seria completamente verdadeiro.\u00a0 Pois sempre \u00e9 o ponto de vista do fot\u00f3grafo que prevalece, um olhar apoiado por um aparato t\u00e9cnico-fotogr\u00e1fico. Enfim, nada tem a ver com conceitos pr\u00e9-estabelecidos, espec\u00edficos e, durante a sess\u00e3o de fotos \u2013 que se prolongou por um dia inteiro \u2013, nas palavras de Pastorello, \u201cdeu-se a liberdade de improvisar\u201d. E concluiu me explicando, uma vez mais, que a imagem carrega muito da subjetividade do pr\u00f3prio fot\u00f3grafo, mas acima de tudo, a de quem olha a foto.\u00a0 Na verdade, \u00e9 ainda mais importante, pois a pessoa olha e sente a imagem de acordo com o seu Universo pr\u00f3prio e \u00fanico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea me confidenciou que estava trabalhando num novo livro. O que pode nos dizer a respeito desse futuro projeto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211; <\/strong>Sim, revelei um segredo para voc\u00ea. Mas posso adiantar algo sobre esse novo projeto, j\u00e1 em curso. Ser\u00e1 (ou j\u00e1 est\u00e1 sendo) um romance de vidas, como foi <em>O Enigma de Daniela<\/em>. S\u00e3o muitas vidas femininas que estou agora abrindo a minha escuta \u00e0s suas vozes internas: seus gritos de afli\u00e7\u00e3o,\u00a0de dolorida exist\u00eancia e tamb\u00e9m, aos seus desejos mais intensos. Os meus dedos de romancista tocam a vida real de mulheres, envoltas em grandes dificuldades e lutando contra elas, o tempo todo. S\u00e3o dificuldades, diria eu, diferentes daquelas enfrentadas pela fam\u00edlia judia Bortman e, em particular, pela mulher Daniela. S\u00e3o dificuldades vivenciadas por muitas mulheres que se remetem \u00e0 pobreza material,\u00a0 \u00e0 falta de moradia digna, de uma forma\u00e7\u00e3o escolar humana.\u00a0 Sendo de natureza material e espiritual, as muralhas erguidas por tantas dificuldades seguem tentando impedir ou talvez, espeda\u00e7ar o futuro dessas mulheres entristecidas, mas resistentes. Os seus sonhos femininos persistem com tenacidade, com admir\u00e1vel beleza, apesar de tudo e contra tudo, insistem em existir.\u00a0 Sobreviventes no caos do dia a dia, universo que as sufoca. Ao sofrimento feminino estou abrindo a minha escuta neste novo romance de vidas. Nele, insisto, \u00e9 acima de tudo a voz feminina que fala. J\u00e1 tenho um t\u00edtulo, talvez provis\u00f3rio:\u00a0<em>O deserto e o canteiro<\/em><em> belo<\/em>. Inven\u00e7\u00e3o de uma jovem mulher, desprovida de tudo, mas ainda assim, dotada de imensa criatividade. Ali\u00e1s, como o atual romance, <em>O Enigma de Daniela<\/em>, cujo t\u00edtulo foi escolhido pelo m\u00e9dico neurocirurgi\u00e3o Alberto Bortman, pai de Daniela.\u00a0 Pois, a cria\u00e7\u00e3o de um romance de vidas envolve sempre a escritora, o meu eu-liter\u00e1rio, e as vozes que nele acolho \u2013 como que encantada! Sim, encantada, surpreendida e, sobretudo, emudecida. Sempre tentando transformar trag\u00e9dias em literatura, em romances, em poemas. Mesmo que apenas seja beleza liter\u00e1ria, e no papel lan\u00e7ada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA- Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LELITA OLIVEIRA BENOIT &#8211; <\/strong>Sem escrever, nada sou. \u00c9 t\u00e3o natural como respirar, sabia?\u00a0 Sem escrever, n\u00e3o h\u00e1 como eu sobreviver. Quest\u00e3o de vida ou morte, ao menos para mim. Escrevo como respiro: se me faltar a possibilidade de escrever, \u00e9 o mesmo que me sentir sufocada ou sem ar respir\u00e1vel. Ao final do processo de escrever poemas ou romances, ou at\u00e9 mesmo, artigos ou livros de filosofia ou psican\u00e1lise, sinto \u2013 \u00a0\u00e9 sensa\u00e7\u00e3o, sim! \u2013 que vozes m\u00faltiplas falam atrav\u00e9s das minhas palavras. De certo modo, j\u00e1 me habitavam desde n\u00e3o sei quando.\u00a0\u00a0 Sou apenas a voz de Outro.\u00a0 Procuro ser a transcri\u00e7\u00e3o po\u00e9tica das vozes que sendo de Outro, coincidem, de algum modo, com o meu eu-liter\u00e1rio, o eu que escreve \u2013 e respira! Refor\u00e7o: at\u00e9 mesmo na escrita te\u00f3rica, de natureza filos\u00f3fica ou psicanal\u00edtica. Como disse no come\u00e7o desta conversa inspiradora \u2013 \u00e0 qual s\u00f3 tenho que agradecer a oportunidade \u2013 sinto intranspon\u00edvel dificuldade de interpretar a minha escrita. Respiro: eis tudo&#8230; Quando fa\u00e7o tentativas de buscar sentidos na minha escrita, o ar me falta, fico ofegante, gaguejo, ou sei l\u00e1 o qu\u00ea&#8230; O que pode ter acontecido, no decorrer desta entrevista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 ca\u00f3tico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no mundo como editor, poeta, baterista e mestre em Letras.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descortinando territ\u00f3rios liter\u00e1rios, uma entrevista com a escritora Lelita Oliveira Benoit <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16843,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3713,16,2539],"tags":[63,2949,3722,8],"class_list":["post-16842","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-133a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-lelita-oliveira-benoit","tag-o-enigma-de-daniela","tag-pequena-sabatina-ao-artista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16842","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16842"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16842\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16850,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16842\/revisions\/16850"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16842"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16842"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16842"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}