{"id":16865,"date":"2019-12-17T11:10:58","date_gmt":"2019-12-17T14:10:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16865"},"modified":"2020-02-19T15:41:13","modified_gmt":"2020-02-19T18:41:13","slug":"dedos-de-prosa-ii-62","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-62\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Viviane de Santana Paulo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_16931\" aria-describedby=\"caption-attachment-16931\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/IMG_7249-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16931\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/IMG_7249-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/IMG_7249-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/IMG_7249-1-300x148.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16931\" class=\"wp-caption-text\">Pintura: Canato<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CENTO E ONZE<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Parado em cima da ponte Rio-Niter\u00f3i. A voragem. Um ponto indefinido l\u00e1 no alto, na ponta de uma reta de metal, bet\u00e3o, piche. Carlos Henrique vacila. A dor dilacera o pensamento. A dor arranca-lhe o cora\u00e7\u00e3o e o est\u00f4mago. A dor \u00e9 uma pesada pedra no peito. A imagem de seu filho perfurado, ensanguentado e morto. Fixada na mem\u00f3ria como ferro quente. Queima, arde. A ponte, a \u00e1gua dura e profunda. Ele vacila. O vento passa pela face molhada. N\u00e3o chove. O sol emba\u00e7ado de polui\u00e7\u00e3o e morma\u00e7o. O calor derrete. Os olhos chovem. A injusti\u00e7a abissal. O indestrut\u00edvel Golias. O sofrimento maior. O peso do mar im\u00f3vel. E de novo a imagem do filho perfurado.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Furo, disparo. Tudo o perfura, atravessa o corpo, estra\u00e7alha a alma. D\u00f3i a realidade dentro dele. Na sua mente perfurada de chumbo. Tiros que o acertam e destroem a vontade de viver.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Esquecer \u00e9 um b\u00e1lsamo. Mas a mem\u00f3ria dispara a imagem centenas de vezes. E tudo \u00e0 volta o acerta, fura-lhe os olhos, a boca, o ouvido. Fura o pesco\u00e7o. O sangue escorre e flui pelos olhos, pelas narinas, pela boca, pelos ouvidos, pelos furos nas veias&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No meio de um dia qualquer de novembro, o raio de sol refletia na janela. Nina lia o jornal, sentada no sof\u00e1 da sala, no apartamento no Rio de Janeiro. N\u00e3o gostava de ler jornais, raramente abria as p\u00e1ginas de um. Mas comprava de vez em quando no jornaleiro. Ele vendia exemplares do seu livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao ler os jornais parecia que tudo se tornava um problema. Desde que o povo acordou para a democracia era uma manifesta\u00e7\u00e3o atr\u00e1s da outra. Era cansativo! Ela se perguntava quando isso teria um fim e ela podia viver em paz sem as vicissitudes pol\u00edticas e econ\u00f4micas, sem ter que responder sobre sua opini\u00e3o pol\u00edtica nos eventos de literatura. Para ela, literatura n\u00e3o tinha nada a ver com pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lendo o jornal, os assassinatos a incomodavam. O artigo dizia que mais de sessenta mil pessoas morrem assassinadas em solo brasileiro, por ano. Quarenta e cinco mil, em acidentes automobil\u00edsticos. E mais adiante: Cento e onze tiros de pistola e fuzil contra o carro no qual estavam os jovens. Neste ano, s\u00e3o mais de onze mil, quinhentos e sessenta disparos pelos policiais do Batalh\u00e3o de Iraj\u00e1. Os policiais de S\u00e3o Gon\u00e7alo deram quinze mil setecentos e sete tiros. Somando com os do Batalh\u00e3o de Niter\u00f3i e do Bope chegam a quarenta e dois mil e quatrocentos e oitenta e sete mil disparos em um ano, e ainda faltava o m\u00eas de dezembro. A foto dos jovens Roberto de Souza Penha, dezesseis anos, Carlos Eduardo da Silva de Souza, dezesseis anos, Cleiton Correa de Souza, dezoito anos, Wilton Esteves Domingos Junior, de vinte anos, e Wesley Castro Rodrigues, vinte e cinco anos, horas antes do fuzilamento, mostrava a cara alegre e inocente de jovens afro-brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Os ru\u00eddos dos disparos ecoavam. Muitas balas perfuraram o tronco, muitas balas entraram por cima, por tr\u00e1s e pelo lado direito do carro. O policial que mais atirou deu onze disparos com uma pistola Taurus e dezoito com um fuzil imbel M-964 FAL.<\/em> <em>\u201c\u00c9 um vazio no cora\u00e7\u00e3o um pai sepultar um filho assim. Voc\u00ea nunca supera essa dor\u201d. \u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela passou na casa de seu editor, no condom\u00ednio CXI, na Av. Costa Barros. Um homossexual com cara de Oscar Wilde e gestos de Woody Allen. Ele, sentado na sala do escrit\u00f3rio desarrumado e cheio de livros, prop\u00f4s: \u2014 Escreva sobre isso, ent\u00e3o! Se est\u00e1 te incomodando tanto! H\u00e1 meses que ele parou de fumar e engordou. Mas come\u00e7ou a fazer uma dieta rigorosa com o aux\u00edlio de uma jovem nutricionista. E fez um tratamento de branqueamento dos dentes. Sorria um sorriso imaculado. A editora \u00e9 pequena e o n\u00famero de leitores restrito, mas ele consegue financiamento de algumas empresas conhecidas do marido dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nina sem inspira\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era ruim porque tudo o que ela escrevia seria publicado. O marido possu\u00eda amigos influentes que possu\u00edam amigos influentes, e o irm\u00e3o dela era jornalista. Seu c\u00edrculo de leitores eram a maioria mulheres e ela vendia bastantes exemplares nas reuni\u00f5es das institui\u00e7\u00f5es de caridades, promovidas pelas empresas dos conhecidos de seu marido. As boas resenhas nos jornais eram por conta dos amigos de seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze. Wesley Castro deixou um filho de dois anos. Wilton ia se formar como t\u00e9cnico em administra\u00e7\u00e3o. Carlos Eduardo tinha acabado de concluir um curso de Petr\u00f3leo e G\u00e1s e se preparava para tentar concurso para a Marinha. Roberto era Jovem Aprendiz no Atacad\u00e3o de Guadalupe. \u201cPrimeiro emprego. Estava rindo \u00e0 toa, estava bem com a vida. O primeiro sal\u00e1rio que recebeu foi brincar no Parque Madureira com os colegas dele\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de voltar para casa, Nina passou no supermercado e fez a compra da semana. E cinco ramos de copos-de-leite brancos. Quando seu marido chegasse a janta estaria pronta. Ele reclamava que ela perdia tempo escrevendo ou lendo, mas quando algu\u00e9m nasceu para escrever, ele somente poder\u00e1 ser impedido se de alguma forma for morto. Como ela n\u00e3o se deixava matar, ela escrevia ainda mais. Seus tr\u00eas filhos quase a assassinaram, mas a empregada salvou-lhe a vida. Sem a Val ela jamais seria o que \u00e9 agora, uma escritora mediana, casada com o superintendente de uma grande empresa, com tr\u00eas filhos homens adolescentes e o sobrinho que veio morar com eles depois da morte dos pais, em um acidente de autom\u00f3vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O PM botou o fuzil na cara de M\u00e1rcia Ferreira, m\u00e3e de Wilton. \u201cNingu\u00e9m se aproxima do carro\u201d, berrou. A m\u00e3e viu o seu filho e o amigo Carlos ainda vivos, gemendo. A m\u00e3e foi amea\u00e7ada por policiais, ela viu quando um deles colocou uma arma no ch\u00e3o, ao lado do carro, e tirou a chave do contato, jogou-a no porta-malas do ve\u00edculo. \u201cMinha cunhada queria ver o filho dentro daquele carro, mas o PM botou o fuzil na cara dela e disse que ia atirar em quem se aproximasse do carro. Quando chegamos deu para ver que o Wilton e o Carlos agonizavam e ainda estavam vivos. Pedimos para socorrer, mas eles n\u00e3o deixaram\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cento e onze p\u00e1ssaros al\u00e7aram voo. O bando estava pousado na \u00e1rvore e no muro do grande jardim. Cinco ninhos nos galhos das \u00e1rvores. A tarde ca\u00eda. Nina sentou-se \u00e0 mesa e n\u00e3o conseguia come\u00e7ar. N\u00e3o sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela pol\u00edcia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa. Roberto tinha recebido seu primeiro sal\u00e1rio como auxiliar de supermercado e os cinco amigos foram comemorar. Moravam no Morro da Lagartixa, no Complexo da Pedreira, onde os jovens negros morrem ou nas m\u00e3os dos bandidos ou da pol\u00edcia, um bairro distante de onde Nina mora. Era como se fosse em outro pa\u00eds, em outro continente. Precisar conviver com a incerteza se o filho ser\u00e1 vitima ou algoz. Era como uma guerra civil, um genoc\u00eddio camuflado de persegui\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de criminosos. Horas antes a pol\u00edcia tinha recebido um aviso sobre um roubo na redondeza e os suspeitos estavam dentro de um carro e uma moto. Na Curva Vinte e Um apareceu um carro e uma moto e isso foi o suficiente para a pol\u00edcia atirar. Despreparo. Sal\u00e1rio baixo. Risco de vida. Psicopatas. Psicologia. Despreparo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos pa\u00edses onde mais se mata.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nina tinha medo de ir \u00e0quela regi\u00e3o da cidade, mas buscava escrever uma hist\u00f3ria aut\u00eantica e para isso queria conhecer as fam\u00edlias, as m\u00e3es, pelo menos uma, precisava conversar com ela, saber sobre a vida dos rapazes. Soube, por meio de outro artigo de jornal, que o pai de Roberto foi um dos primeiros a chegar ao lugar da chacina, e n\u00e3o consegue esquecer a imagem do carro perfurado com o filho dentro. O adolescente recebeu 16 tiros. Soube que o alarme de Roberto toca regularmente \u00e0s 6h30. O pai n\u00e3o sabe mexer no computador do filho para desativ\u00e1-lo, e ouve o alarme tocar de segunda a sexta. O filho, de dezessete anos, nunca mais acordou para ir \u00e0 escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O alarme tocou, seis e meia da manh\u00e3. Nina levantou-se e foi ao quarto acordar os meninos. Cinco luzes acesas. Eles tinham que ir \u00e0 escola. O mais velho era o que mais lhe dava trabalho e era o \u00faltimo a se levantar. O sobrinho era o primeiro a se levantar. Eles n\u00e3o tomavam o caf\u00e9 da manh\u00e3, se arrumavam e logo sa\u00edam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o se esque\u00e7am de passar o protetor solar. Voc\u00eas t\u00eam a pele muito sens\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois iam a p\u00e9, caminhavam pelas ruas do bairro at\u00e9 chegar \u00e0 escola, atr\u00e1s de uma pra\u00e7a arborizada. O sobrinho e o de dezesseis anos pegavam o \u00f4nibus especial da escola particular que passava na rua de cima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze. Gritos. Eram amigos de inf\u00e2ncia. Cinco amigos. No selfie, um deles sorri met\u00e1lico com o aparelho corrigindo a felicidade. Cinco vidas. Josita, m\u00e3e de Roberto, morre tr\u00eas anos mais tarde, sem for\u00e7as, an\u00eamica, aos quarenta e quatro anos. Wilkerson, quinze anos, irm\u00e3o de Wilton, que estava em uma moto com um amigo e conseguiu fugir dos disparos, morre de aneurisma cerebral, um ano depois.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nina falou com a Val, que morava no bairro vizinho, sobre a possibilidade de vir a conversar com algu\u00e9m da fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea enlouqueceu? Foi a pronta resposta de Val. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m daquele bairro. N\u00e3o piso os p\u00e9s l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas voc\u00ea n\u00e3o poderia ver se algu\u00e9m conhece uma daquelas m\u00e3es?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 De jeito nenhum! E como voc\u00ea vai at\u00e9 l\u00e1? Nem t\u00e1xi circula naquela regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mas as pessoas vivem l\u00e1. H\u00e1 muitos que vivem l\u00e1 e n\u00e3o s\u00e3o todos criminosos. S\u00e3o a maioria gente como n\u00f3s. N\u00e3o s\u00e3o? Como eu e voc\u00ea que batalhamos na vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma s\u00e9rie de argumenta\u00e7\u00f5es passou pela mente de Val. Ela n\u00e3o era como a patroa. E respondeu apenas, \u201ceu n\u00e3o posso lhe ajudar. Pergunte ao seu irm\u00e3o, ele \u00e9 jornalista!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De repente, a chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Val, tira a roupa do varal. Est\u00e1 come\u00e7ando a chover! Val correu para o quintal. Mas, n\u00e3o demorou muito, a chuva parou. Cento e onze gotas de chuva na po\u00e7a no quintal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cN\u00e3o atira! Somos moradores!\u201d O bra\u00e7o para fora do carro em sinal de aviso. \u201cN\u00e3o atira! Somos moradores!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O maxilar solto por causa da pot\u00eancia das balas, pendurado<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O advogado pediu ao Tribunal de Justi\u00e7a que obrigasse o Estado a custear atendimento psicol\u00f3gico para m\u00e3e e filha. Em primeira inst\u00e2ncia, o pedido foi negado \u2014 a ju\u00edza considerou que a solicita\u00e7\u00e3o s\u00f3 poderia ser atendida ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o dos PMs.<\/em><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nina pensou que a Val sempre a teve nas m\u00e3os. Ela era de confian\u00e7a, r\u00e1pida no servi\u00e7o, pr\u00e1tica, gostava de crian\u00e7as e Nina n\u00e3o sabia de onde ela tirava tanta sabedoria sobre o relacionamento entre as pessoas. H\u00e1 vinte anos que ela trabalhava na fam\u00edlia. Com a conviv\u00eancia se afei\u00e7oaram uma a outra. Val era determinada, Nina podia se dar ao luxo de se perder na realidade, o luxo do devaneio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriana, m\u00e3e de Carlos Eduardo parou de falar. As palavras estra\u00e7alhadas dentro dela, a mudez sufocando. E o grito, a agressividade, os antidepressivos. As tentativas de suic\u00eddio. O mar. As ondas para engolir a dor. A dor acorrentando os p\u00e9s. O caminhar no p\u00e2ntano. Na m\u00e3o uma carta do filho, presente do Dia das M\u00e3es: \u201cEscrevo essa carta para te dizer que tenho a melhor m\u00e3e do mundo, n\u00e3o porque seja a minha, e sim porque, se buscasse no mundo inteiro, n\u00e3o vou encontrar outra igual, nem parecida\u201d. Monica Aparecida Santana Corr\u00eaa, m\u00e3e de Cleiton, vive \u00e0 base de antidepressivos e medo de sair de casa.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O marido chegou do trabalho. Nina preparou a janta que Val cozinhou. No prato, cento e onze gr\u00e3os. O filho mais velho fez dezoito anos, no m\u00eas anterior, e ganhou um Audi A3 sed\u00e3 branco de presente. Desde ent\u00e3o ele n\u00e3o respeitava mais o hor\u00e1rio da janta. Nina o orientou a n\u00e3o sair do bairro, n\u00e3o dirigir o carro por a\u00ed, longe. Aquele bairro era seguro, os dois bairros vizinhos tamb\u00e9m, mas ao se afastar para a zona norte, poderia acontecer roubo ou rapto. Nina se preocupava. Quatro jovens em casa, quatro filhos lhe davam trabalho. Nervoso. Paci\u00eancia. Paci\u00eancia. Nervoso. O de dezesseis anos costumava deitar a cabe\u00e7a em seu colo, no sof\u00e1 da sala, vendo televis\u00e3o. Ele tinha crescido. Desta vez, Nina deitou a cabe\u00e7a no peito dele. Cento e onze batidas do cora\u00e7\u00e3o. \u2014 Lembro de quando voc\u00ea nasceu, um beb\u00ea gorduchinho! Meu fofo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze. M\u00e1rcia Ferreira de Oliveira, m\u00e3e de Wilton: \u201cQue seguran\u00e7a \u00e9 essa nossa que a gente \u00e9 patr\u00e3o deles porque o pagamento \u00e9 a gente que paga com o nosso suor e a gente paga para eles poderem matar os nossos filhos da forma que o meu filho e os amigos deles de inf\u00e2ncia foram mortos? N\u00e3o tinha bandido dentro daquele carro n\u00e3o. Tinha um bando de adolescente querendo se divertir, querendo fazer de um s\u00e1bado um dia diferente, um dia de alegria, e hoje eu estou aqui, na porta do IML tirando o corpo do meu filho dali. Que UPP \u00e9 essa? Ele acabou com cinco fam\u00edlias. O meu filho tinha 18 anos, mas era uma crian\u00e7a. Ele deitou no meu colo e falou \u2018m\u00e3e me faz um cafun\u00e9?\u2019, como se fosse um beb\u00ea. E amanh\u00e3 eu tenho que enterrar o meu filho&#8221;.\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A m\u00e3e sa\u00eda para trabalhar, Wilton fazia o jantar e cuidava da irm\u00e3 pequena, de 6 anos. De vez em quando, ela o chamava de \u201cpai\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ano depois, Nina sentou-se \u00e0 mesa e n\u00e3o conseguia escrever. N\u00e3o sabia o que narrar sobre os cinco jovens assassinados pela pol\u00edcia dentro de um Fiat Palio branco, enquanto voltavam para casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No apartamento de seu editor, sentado na sala do escrit\u00f3rio desarrumado e cheio de livros, ele prop\u00f4s: \u2014 Escreva ent\u00e3o sobre os refugiados! Fa\u00e7a uma viagem pela Europa e escreva sobre os refugiados. Este \u00e9 um tema que est\u00e1 em voga atualmente, e \u00e9 um tema internacional. Seus av\u00f3s eram h\u00fangaros, seu marido \u00e9 descendente de italianos. Conte a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia! Seus av\u00f3s fugiram, na \u00e9poca da guerra, eram judeus, n\u00e3o eram? Escreva sobre isso! Para ser sincero, eu sabia que voc\u00ea n\u00e3o conseguiria escrever sobre estas mortes. Elas acontecem demais! Fazem parte do cotidiano brasileiro. N\u00f3s, brasileiros, lemos isso nos jornais o tempo todo! Esses jovens n\u00e3o s\u00e3o os primeiros e n\u00e3o ser\u00e3o os \u00faltimos e a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se importa. Este \u00e9 um tema muito vinculado \u00e0 vida na favela e as favelas n\u00e3o s\u00e3o o Brasil. Favela \u00e9 favela! Isso n\u00e3o \u00e9 um tema internacional e voc\u00ea n\u00e3o conseguiria vender os livros nas institui\u00e7\u00f5es importantes. Eles n\u00e3o gostam destes temas pol\u00eamicos! E poder\u00edamos ter problemas com a pol\u00edcia e com o financiamento para a publica\u00e7\u00e3o. Eu somente sugeri para voc\u00ea pensar e se ocupar um pouco. Voc\u00ea mesmo veria que n\u00e3o \u00e9 pra voc\u00ea, e foi o que aconteceu. Escreva sobre os refugiados na Europa, sobre a ditadura e a imigra\u00e7\u00e3o brasileira! A matan\u00e7a nas favelas \u00e9 horr\u00edvel, mas a maioria n\u00e3o consegue se identificar com isso e n\u00e3o quer saber de viol\u00eancia, droga, crime, policiais despreparados, corruptos, sanguin\u00e1rios ou bandidos cru\u00e9is ou jovens inocentes. J\u00e1 chega os filmes norte-americanos! \u00c9 um tema muito pesado! \u00c9 um tema masculino! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 Paulo Lins ou Drauzio Varella! Escreva sobre a ditadura! O tio-av\u00f4 de seu marido n\u00e3o esteve preso? Voc\u00ea me falou disso certa vez. Uma namorada dele sumiu. Ela era professora na universidade e foi depor, depois disso nunca mais foi encontrada. Vamos pensar em um livro que possa lhe trazer pr\u00eamios internacionais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Uma centena, uma dezena, uma unidade. Um n\u00famero harshad mais um. Jorge Roberto Lima e Penha, pai de Roberto, trabalhava de montador da Odebrecht e faz faculdade de Direito. \u201cEle era quase um beb\u00ea, e n\u00e3o vai poder nem me ver de beca. N\u00e3o \u00e9 por mim, em si, porque tudo que sempre fiz foi pelos meus filhos.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cQuando ando com essa cara triste pelo morro escuto as piores coisas que uma m\u00e3e pode ouvir. Dizem que vai doer menos se eu me conformar, que n\u00e3o sou a \u00fanica no mundo a ter perdido um filho, que eu quero ficar famosa. J\u00e1 me falaram at\u00e9 que n\u00e3o tenho motivo para sofrer porque fiquei rica com a indeniza\u00e7\u00e3o do estado. O governo n\u00e3o nos deu dinheiro algum, e a verdade \u00e9 que n\u00e3o quero um centavo. S\u00f3 quero sair daqui. Preciso salvar meus outros filhos.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c\u00c0s vezes, ela volta do trabalho chorando o caminho todo. Era o \u00fanico filho. S\u00f3 tinha o Wesley!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nina partiu para a Europa, passou tr\u00eas semanas. Os rapazes foram junto. Visitaram diversos pontos tur\u00edsticos e Nina recebeu autoriza\u00e7\u00e3o para visitar um campo de refugiados, na Gr\u00e9cia, mas n\u00e3o quis expor os rapazes \u00e0quela realidade deprimente de pessoas presas. Guerra, mis\u00e9ria, pobreza, promessa, ilus\u00e3o. Ainda mais que o sobrinho terminou o tratamento psicol\u00f3gico h\u00e1 pouco tempo. Dois anos fazendo terapia por causa da morte dos pais. Nina dedicava-lhe, \u00e0s vezes, especial aten\u00e7\u00e3o e pedia para os outros garotos terem paci\u00eancia com ele, ajud\u00e1-lo. Eram bons rapazes, carinhosos, bons filhos. Levou-os para curtir a praia turquesa e mansa. Crep\u00fasculo rosado. Cento e onze estratos transparentes no imenso azul do c\u00e9u.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 N\u00e3o se esque\u00e7am de passar o protetor solar. Voc\u00eas t\u00eam a pele sens\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela escreveu um romance sobre uma fot\u00f3grafa apaixonada por um refugiado s\u00edrio, engenheiro, que consegue falsificar os documentos e acompanh\u00e1-la para o Brasil. Men\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura grega e brasileira. Ganhou um pr\u00eamio internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze disparos atravessaram a lataria branca do autom\u00f3vel, entraram no corpo macio e quente dos jovens, perfuraram os ossos, transpassaram o t\u00f3rax, o quadril, o abd\u00f4men, o pesco\u00e7o, estra\u00e7alharam o queixo, a cabe\u00e7a&#8230; o sangue gelatinoso e escuro espalhou-se no assento, no ch\u00e3o. Cento e onze balas de ferro, duras e mortais, geladas e inanimadas. No c\u00e9u o final da tarde. \u00c0 noite as estrelas caladas. Sem brilho. Assustadas. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cQuem deveria nos proteger est\u00e1 nos matando\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cento e onze.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cCada vez que escuto um tiro penso no que Cleiton sentiu quando entrou a primeira bala. N\u00e3o consigo parar de pensar nisso. Nenhuma m\u00e3e suporta ver um arranh\u00e3o em seu filho, imagine v\u00ea-lo transformado em picadinho. Meu filho foi enterrado nu, porque n\u00e3o era mais um corpo que pudesse ser vestido.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filho mais velho de Nina, agora com vinte anos, conseguiu o seu primeiro emprego como assistente de auditoria, atrav\u00e9s da recomenda\u00e7\u00e3o do pai. O seu curriculum foi o menos atrativo, ele n\u00e3o tinha experi\u00eancia e estudou em uma faculdade particular. O mais velho nunca foi de estudar, faltou muito nas aulas e pagou amigos estudiosos para escrever os seus trabalhos. Mas no final, tudo deu certo e ele conseguiu o diploma de administrador de empresas. Um m\u00eas depois ele recebeu o seu primeiro sal\u00e1rio. Estava feliz. Encontrou os irm\u00e3os, na quadra de t\u00eanis do pr\u00e9dio, e um amigo dele. \u2014 Vamos pro restaurante, no shopping?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele in\u00edcio de noite, vento fresco e cheiro adocicado no ar. Alegres, os cinco jovens sa\u00edram com o Audi A3 sed\u00e3 branco e foram comemorar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Viviane de Santana Paulo<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, tradutora e ensa\u00edsta, autora dos livros, Viver em outra l\u00edngua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhat\u00e3, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Liter\u00e1rio de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (M\u00e9xico). Atualmente, vive em Berlim.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conto de Viviane de Santana, a dura cr\u00f4nica de uma trag\u00e9dia cotidiana<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16929,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3713,2534],"tags":[3726,81,41,149,3727],"class_list":["post-16865","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-133a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-cento-e-onze","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-viviane-de-santa-paulo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16865","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16865"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16865\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16932,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16865\/revisions\/16932"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16865"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16865"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16865"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}