{"id":16885,"date":"2019-12-17T12:12:23","date_gmt":"2019-12-17T15:12:23","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16885"},"modified":"2020-02-19T15:42:00","modified_gmt":"2020-02-19T18:42:00","slug":"aperitivopalavrai-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavrai-3\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vozes que ecoam na s\u00edncope<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Vinicius Gaud\u00eancio de Oliveira<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/rio-negro-50-nei-lopes-590001-MLB20264327608_032015-O.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16889\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/rio-negro-50-nei-lopes-590001-MLB20264327608_032015-O.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/rio-negro-50-nei-lopes-590001-MLB20264327608_032015-O.jpg 291w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/rio-negro-50-nei-lopes-590001-MLB20264327608_032015-O-194x300.jpg 194w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No carnaval de 2019, o samba-enredo da Esta\u00e7\u00e3o Primeira de Mangueira contou a hist\u00f3ria n\u00e3o oficial do Brasil, a partir da vers\u00e3o de quem construiu o pa\u00eds e logo ap\u00f3s foi largado \u00e0 pr\u00f3pria sorte. Desde a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, tanto a hist\u00f3ria oficial quanto o senso comum contam que as pessoas escravizadas tiveram as mesmas oportunidades na din\u00e2mica da sociedade. Por\u00e9m, o Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do Ocidente a por fim \u00e0 escravid\u00e3o. A vida brasileira foi marcada por um per\u00edodo cuja dor da experi\u00eancia dessa viol\u00eancia permeia at\u00e9 hoje as rela\u00e7\u00f5es sociais, e isso vai formando um imagin\u00e1rio pejorativo sobre os negros, relegando-os \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o de subempregos com baixa remunera\u00e7\u00e3o e de maior esfor\u00e7o f\u00edsico, e sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual quase sempre \u00e9 associada \u00e0 cultura subalternizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como o racismo sufoca o protagonismo negro e funciona como parte do projeto de desqualifica\u00e7\u00e3o das camadas historicamente subalternizadas como produtores de saber e de cultura, <em>Rio Negro, 50,<\/em> do escritor e sambista Nei Lopes, reconta a hist\u00f3ria oficial dando visibilidade aos saberes e \u00e0s culturas afro-brasileiras. Nesse sentido, vale destacar que o projeto que visa o apagamento das culturas, religi\u00f5es e saberes do povo negro ainda se encontra em funcionamento, visto que a Pol\u00edcia Civil do Estado do Rio de Janeiro det\u00e9m em sua posse cerca de 200 pe\u00e7as, entre imagens religiosas e instrumentos musicais apreendidos na d\u00e9cada de 1920 dos candombl\u00e9s e rodas de capoeiras, em uma \u00e9poca na qual o\u00a0 C\u00f3digo Penal (de 1890) criminalizava os centros de umbanda, os terreiros de candombl\u00e9, a capoeira e o samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no pr\u00f3logo do livro, v\u00eam \u00e0 tona duas cenas de racismo. Na primeira, com algumas doses de machismo e homofobia, ap\u00f3s a derrota da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1950 para a sele\u00e7\u00e3o uruguaia, um grupo de jovens \u201cconfunde\u201d um homem que salta do trem da Central do Brasil com Bigode, meio-campista da sele\u00e7\u00e3o brasileira, e por motivos puramente associados \u00e0 cor da pele, come\u00e7am os xingamentos e os tapas, um verdadeiro linchamento f\u00edsico e verbal na ent\u00e3o capital da rep\u00fablica, tudo isso em uma manh\u00e3 de segunda-feira: \u201c<em>Negro sem-vergonha! Cad\u00ea o outro viado, seu filha da puta? Mete-lhe a ripa! Toma, seu puto caga-leite! Para aprender a ser homem\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda, Nei Lopes d\u00e1 algumas pistas e deixa que o leitor tire suas conclus\u00f5es. O di\u00e1logo entre um jovem professor e um embaixador, no qual este desaconselha aquele de trabalhar no Itamarati, sugerindo-lhe o trabalho no cais do porto devido ao seu porte f\u00edsico musculoso, \u00e9 confirmado pelo narrador como se fosse outro caso de racismo: \u201cSe tivesse esse f\u00edsico, esses m\u00fasculos, eu ia era trabalhar no cais do porto, meu filho. Voc\u00ea nunca vai conseguir entrar para o Itamaraty. E, assim, o professor foi saindo do pal\u00e1cio sem ver nem ouvir nada, nem mesmo o outro linchamento que acontecia na velha Rua Larga de S\u00e3o Joaquim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Intelectualidade e cultura <\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O narrador apresenta uma rica galeria de personagens \u2014 ora nominadas, ora an\u00f4nimas, ora do mundo real que se atravessam, desarquivando a hist\u00f3ria do Brasil, reafirmando e confirmando os saberes daqueles que a todo o momento t\u00eam sua cultura subjugada. O Caf\u00e9 e Bar Rio Negro e Bar-Restaurante Abar\u00e1, ambos na regi\u00e3o da Cinel\u00e2ndia, s\u00e3o pontos de encontro da intelectualidade negra, que ali discute as contradi\u00e7\u00f5es de uma cidade que se pretendia moderna. Mobilidade urbana, moradia, favela e pol\u00edtica s\u00e3o temas recorrentes nas mesas dos bares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre intelectuais, m\u00fasicos e compositores, o encaminhamento narrativo indica que a cena intelectual e cultural da d\u00e9cada de 1950 \u00e9 composta, a rigor, por negros. Paula Assis \u00e9 um advogado negro que denuncia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico o referido crime da Copa, cujas suspeitas reca\u00edam, por todo o romance, sobre os tr\u00eas jovens negros. Ap\u00f3s nove anos do crime, foram identificados os respons\u00e1veis, por\u00e9m eram filhos de pais com cargos importantes na sociedade. Quando o novo promotor assume o caso, dispensa a ajuda de Paula Assis (lembre-se que este \u00e9 um advogado negro que se empenha para a elucida\u00e7\u00e3o do crime) e se posiciona a favor da manuten\u00e7\u00e3o do <em>status quo<\/em> \u201ctudo n\u00e3o teria passado de um caso fortuito, de uma triste obra do acaso\u201d. Outros intelectuais recriados na narrativa s\u00e3o Esdras e Paulo Cordeiro. Este \u00e9 soci\u00f3logo e jornalista com estudos e reportagens sobre tradi\u00e7\u00f5es populares, principalmente a do povo negro; aquele \u00e9 ator, dramaturgo e militante pelos direitos dos afro-brasileiros, al\u00e9m de um transgressor destemido, tendo como sua maior ambi\u00e7\u00e3o formar um grupo de teatro de negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de dar visibilidade \u00e0 intelectualidade negra, o autor formula com maestria o encontro de duas pot\u00eancias culturais de resist\u00eancia do povo negro, o samba e o <em>jazz<\/em>, evidenciado na chegada do trompetista americano Dizzy Gillespie ao Rio de Janeiro: \u201cApresentou-se na modern\u00edssima TV tupi, tocou com a magn\u00edfica orquestra do maestro cip\u00f3, saxofonista dos grandes&#8230; E agora, antes de pegar o avi\u00e3o de volta, aproveita para dar uma chegada at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de Oswaldo Cruz, \u00e0 Portela, para conhecer o samba\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito al\u00e9m de visibilizar o protagonismo de personagens negros a partir de uma intelectualidade acad\u00eamica, os temas da negritude tamb\u00e9m s\u00e3o discutidos por personagens cuja simplicidade de express\u00e3o lingu\u00edstica, normalmente, marca o lugar social das camadas subalternizadas: \u201cEsses dout\u00f4 que me desculpe, mas tem preto que despreza o pr\u00f3prio preto. \u00c9 s\u00f3 melhorar um tiquinho&#8230;Tem m\u00e3e \u00e9 que quer \u00e9 ver as filha com branco. Tem homem que s\u00f3 quer saber de mulher loura\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo entre Jo\u00e3o (apelidado de Mani no bar Rio Negro) e Tia Caetana revela uma pr\u00e1tica social vigente em uma \u00e9poca cujo est\u00edmulo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o eug\u00eanica era pol\u00edtica de Estado, tanto que os tr\u00eas ministros de Educa\u00e7\u00e3o da Era Vargas, Francisco Campos, Belis\u00e1rio Pena e Gustavo Capanema, eram adeptos deste ideal de base racista. Nesse sentido, apesar do cruel imagin\u00e1rio formado do negro, Jo\u00e3o \u00e9 contundente \u201cDe tanto escutar que preto \u00e9 inferior, feio, sujo, pregui\u00e7oso, a pessoa de cabe\u00e7a fraca acaba acreditando nisso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mani foi separado da m\u00e3e quando pequeno e criado em um orfanato no interior de S\u00e3o Paulo, ouvindo das freiras que sua m\u00e3e era uma vagabunda e por este motivo teria que viver distante dela. O menino jamais soube que fora criado por pessoas com ideais higienistas. \u201cTudo isso dentro de uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que eliminasse qualquer tra\u00e7o que impedisse o Brasil de se parecer uma na\u00e7\u00e3o europeia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio <em>Menino 23: inf\u00e2ncias Perdidas no Brasil,<\/em> dirigido pelo cineasta Belis\u00e1rio Franca, resultado da tese de doutorado do historiador Sidney Aguilar, conta a hist\u00f3ria de 50 meninos negros levados de um orfanato do Rio de Janeiro para trabalhar em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o na fazenda Santa Albertina (SP), cuja dona, a fam\u00edlia Rocha Miranda, era adepta ao eugenismo. Nele, chama a aten\u00e7\u00e3o uma observa\u00e7\u00e3o feita pela historiadora Ediogenes Santos sobre pr\u00e1ticas racistas da \u00e9poca, na qual os operadores dos bondes \u2014 chamados de motorneiros, em sua maioria negros \u2014 n\u00e3o podiam aparecer nas comemora\u00e7\u00f5es e nas fotografias dos passageiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 contra os resqu\u00edcios da escravid\u00e3o que <em>Rio Negro, 50<\/em> reverbera na s\u00edncope as vozes dos silenciados, recontando a hist\u00f3ria oficial atrav\u00e9s da voz (oprimida) e do viol\u00e3o (que chora), criando disson\u00e2ncia e contraponto ao enredo oficial da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vinicius Gaud\u00eancio de Oliveira<\/em><\/strong><em> \u00e9<\/em><em> carioca\u00a0 formado em Letras\/Literatura.\u00a0 Atua como cr\u00edtico liter\u00e1rio nas tem\u00e1ticas sobre\u00a0 produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e culturais<\/em> <em>cariocas.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cRio Negro, 50\u201d, de Nei Lopes, na resenha de Vinicius de Oliveira<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16886,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3713,2533],"tags":[3734,11,3732,189,3733,3731],"class_list":["post-16885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-133a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-3734","tag-aperitivo-da-palavra","tag-nei-lopes","tag-resenha","tag-rio-negro","tag-vinicius-gaudencio-de-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16885"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16945,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16885\/revisions\/16945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16886"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}