{"id":16995,"date":"2020-02-14T09:55:24","date_gmt":"2020-02-14T12:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=16995"},"modified":"2020-02-19T15:57:46","modified_gmt":"2020-02-19T18:57:46","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-67","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-67\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De quantas travessias \u00e9 feito o caminho com as palavras? Certamente de uma infinidade delas. No entanto, h\u00e1 algo na jornada de um escritor que confere um sentido especial \u00e0s experi\u00eancias vividas. Esse algo n\u00e3o est\u00e1 na busca meramente exasperada por melhores solu\u00e7\u00f5es criativas; tampouco reside no terreno das exposi\u00e7\u00f5es de uma personalidade que se mostra incensada e cultuada na esfera p\u00fablica, arena que tamb\u00e9m alimenta vaidades de ocasi\u00e3o. Estamos a falar aqui do vigor que uma obra ganha quando volta suas aten\u00e7\u00f5es para perceber o humano em suas mais diversas acep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A no\u00e7\u00e3o de que as paragens liter\u00e1rias s\u00e3o instrumento de comunica\u00e7\u00e3o e express\u00e3o das nossas humanidades \u00e9 ponto de destaque para uma literatura que fratura apagamentos sociais. E n\u00e3o somente a den\u00fancia de nossas mais comezinhas e seculares mazelas aflora nesse percurso que incomoda, mas tamb\u00e9m a ideia de que \u00e9 preciso mostrar universos de exist\u00eancia que trazem suas peculiaridades, seus modos naturais de ser e estar no mundo sem que tal mat\u00e9ria seja reduzida aos c\u00ednicos requintes do exotismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refletir sobre certas invisibilidades e inscrev\u00ea-las na pele do texto demonstra ser um relevante objetivo para um algu\u00e9m como o escritor baiano <strong>Itamar Vieira Junior<\/strong>. Dono de uma escrita segura e atenta \u00e0s quest\u00f5es de seu tempo, Itamar vem construindo sua trajet\u00f3ria liter\u00e1ria de modo deveras consistente. Desde livros de contos como \u201cDias\u201d (Caramur\u00ea, 2012) e \u201cA Ora\u00e7\u00e3o do Carrasco\u201d (Mondrongo, 2017), este \u00faltimo finalista do Pr\u00eamio Jabuti, j\u00e1 era poss\u00edvel perceber como o autor acenava com um dom\u00ednio t\u00e9cnico e criativo afinado com a qualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Itamar j\u00e1 nos chamava aten\u00e7\u00e3o com seus livros anteriores, \u00e9 com seu \u00faltimo trabalho, o romance \u201cTorto Arado\u201d (Todavia, 2019), que sua obra parece atingir uma esp\u00e9cie de apogeu das percep\u00e7\u00f5es. E falar desse ponto alto n\u00e3o significa apenas abordar a \u00f3tima repercuss\u00e3o que o livro obteve, incluindo a\u00ed uma premia\u00e7\u00e3o internacional, mas referendar a continuidade de um processo que \u00e9 marca registrada do escritor, sua capacidade de olhar para o povo negro e mostr\u00e1-lo protagonista diante das reiteradas investidas de invisibilidade patentes em nossa hist\u00f3ria. A partir da impactante atmosfera de seu recente livro, pudemos conversar com o autor sobre os processos atinentes \u00e0 escrita de t\u00e3o significativa obra, al\u00e9m de transitarmos sobre quest\u00f5es fundamentalmente relacionadas \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana e algumas de suas implica\u00e7\u00f5es no trato social. De todo o dito, Itamar Vieira Junior \u00e9 um nome de relev\u00e2ncia no contexto atual da literatura brasileira, n\u00e3o apenas pela qualidade de seus escritos, mas tamb\u00e9m pela propriedade do seu pensamento cr\u00edtico e desperto diante da realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_16996\" aria-describedby=\"caption-attachment-16996\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/interna-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16996 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/interna-01.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/interna-01.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/interna-01-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16996\" class=\"wp-caption-text\">Itamar Vieira Junior \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Lendo &#8220;Torto Arado&#8221;, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no Brasil profundo que ali est\u00e1, principalmente se considerarmos tens\u00f5es que envolvem as popula\u00e7\u00f5es quilombolas e seu, digamos assim, permanente desterro. De que maneira voc\u00ea mergulhou no cotidiano dessas comunidades e dali retirou subs\u00eddios para a feitura do livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211;<\/strong> Sou ge\u00f3grafo de forma\u00e7\u00e3o e h\u00e1 quase 14 anos eu trabalho com as popula\u00e7\u00f5es do campo. Primeiro no estado do Maranh\u00e3o, onde conheci comunidades quilombolas, ind\u00edgenas, ribeirinhos, sem-terra, e depois no estado da Bahia. Anos mais tarde fui fazer meu doutoramento em Estudos \u00c9tnicos e Africanos, que estava intrinsecamente relacionado com o meu trabalho como servidor p\u00fablico, e pude aprofundar minha pesquisa. A hist\u00f3ria de \u201cTorto Arado\u201d me acompanha h\u00e1 mais de 20 anos. O t\u00edtulo, inclusive, remanesce dessa minha primeira tentativa de escrev\u00ea-lo \u2013 sem \u00eaxito &#8211; na adolesc\u00eancia. A hist\u00f3ria das irm\u00e3s, a rela\u00e7\u00e3o com o pai que fala com os esp\u00edritos, todo esse n\u00facleo central da trama permaneceu. Com o passar dos anos a hist\u00f3ria incorporou quest\u00f5es de ordem sociol\u00f3gica que refletem a minha forma\u00e7\u00e3o, a minha ancestralidade e o interesse pela hist\u00f3ria do Brasil. Ao longo de anos &#8211; eu que nasci numa grande cidade -, tive o privil\u00e9gio de conviver com camponeses, escut\u00e1-los, aprender sobre a vida no campo e conhecer suas hist\u00f3rias. Era o que eu precisava para retomar esse antigo projeto de escrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nessa sua aproxima\u00e7\u00e3o com as comunidades, certamente foram in\u00fameras as narrativas escutadas. Ao mesmo tempo em que voc\u00ea teve contato com esse manancial de depoimentos, percebeu tamb\u00e9m uma necessidade de visibilizar tais grupos no seu mister de escritor? Indo mais al\u00e9m, diria que \u201cTorto Arado\u201d encerra um clamor consciente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>Primeiro acho que \u00e9 desejo de qualquer escritor contar uma boa hist\u00f3ria. Embora esteja previsto no meu projeto liter\u00e1rio percorrer caminhos diferentes para refletir minimamente a grande diversidade da nossa sociedade, o que me levou a escrever \u201cTorto Arado\u201d foi a vontade de contar uma hist\u00f3ria que contemplasse o anacronismo dos nossos processos sociais, a heran\u00e7a da escravatura, a luta pela terra como o direito mais elementar da exist\u00eancia porque sem ch\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 vida, movimento, n\u00e3o h\u00e1 alimento. O romance trata de um grupo de trabalhadores que, em contato com outros grupos que travam lutas por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e por terra, se identifica como quilombola. Mas poderiam ser ind\u00edgenas, ribeirinhos, geraizeiro, sem-terra, qualquer agrupamento humano que detivesse este elo de coexist\u00eancia com a terra que n\u00f3s, ocidentais e urbanos, parecemos ter perdido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; As irm\u00e3s Belon\u00edsia e Bibiana s\u00e3o algo emblem\u00e1ticas na medida em que expressam, dentro de duros enfrentamentos sociais, o vigor do universo \u00edntimo que as atravessa. Pelo olhar de cada uma delas, o livro ganha uma pulsa\u00e7\u00e3o narrativa diferenciada, evocando o duplo interno\/externo a partir do modo como ambas pensam e vivem suas trajet\u00f3rias. Diria que tal escolha narrativa lhe foi mais desafiadora?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>Concebi a hist\u00f3ria inicialmente narrada por uma \u00fanica irm\u00e3, a Belon\u00edsia.\u00a0 A determinada altura da escrita eu percebi que a diferen\u00e7a e a complementaridade de suas viv\u00eancias s\u00f3 poderiam ser transmitidas ao leitor de forma plena se conhecemos as suas perspectivas individuais. E por que s\u00e3o as mulheres, as narradoras, e n\u00e3o os homens? Pelo simples fato que nesta regi\u00e3o, no interior do Nordeste, encontrei mulheres que pela aus\u00eancia do homem por diversos fatores &#8211; morte por baixa expectativa de vida ou viol\u00eancia, emigra\u00e7\u00e3o para o trabalho ou mesmo o abandono da fam\u00edlia -, as mulheres assumem um protagonismo que precisava ser visibilizado. Por isso s\u00e3o elas a narrarem a hist\u00f3ria. E s\u00e3o tr\u00eas narradoras que contam as suas perspectivas sobre o que aflige a popula\u00e7\u00e3o de \u00c1gua Negra: seja pelo olhar infantil e sonhador de Bibiana, ou pelos gestos duros de quem n\u00e3o sabe viver al\u00e9m da terra de Belon\u00edsia, ou pelo olhar de quem p\u00f4de atravessar a hist\u00f3ria para contar que o passado n\u00e3o nos abandona, por mais que tentemos nos afastar. Na nossa trajet\u00f3ria social quase sempre iremos alcan\u00e7ar as respostas sobre o presente em um passado aparentemente distante, mas que se perpetua em pr\u00e1ticas vigentes que refletem uma segrega\u00e7\u00e3o secular e colonial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A atmosfera de \u201cTorto Arado\u201d tamb\u00e9m nos lembra a exist\u00eancia daquilo que podemos chamar de invisibilidade em camadas, ou seja, de experi\u00eancias de apagamento que, num efeito cumulativo, agregam simultaneamente a condi\u00e7\u00e3o da negritude, da pobreza, do ser mulher, dentre outras. O que dizer desse delicado territ\u00f3rio de humanidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>Com a tecnologia que dispomos acho que essa invisibilidade s\u00f3 persiste porque \u00e9 interessante ao sistema. A literatura reflete tamb\u00e9m as diferen\u00e7as deste mesmo sistema: quem tem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de qualidade? Quem pode ler bons livros, escrever conforme a norma culta ou experimentar novas formas? E durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, com honrosas exce\u00e7\u00f5es, a literatura n\u00e3o refletiu a nossa diversidade \u00e9tnica e cultural. Esteve durante muito tempo voltada para os conflitos da classe m\u00e9dia branca. Esse \u00e9 um ponto crucial quando me proponho a escrever: quero que a literatura se volte para as clivagens sociais, os cantos esquecidos do pa\u00eds. Talvez nessas experi\u00eancias limites de humanos ocultados por um sistema esteja a chave para entender o todo. \u00c9 o que eu gostaria de capturar com a escrita: o mais profundo dessas exist\u00eancias, que consequentemente ser\u00e1 nossa tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A fixa\u00e7\u00e3o do homem do campo \u00e0 terra tamb\u00e9m levanta reflex\u00f5es para quem l\u00ea seu livro. E estamos falando aqui duma no\u00e7\u00e3o de pertencimento ao solo ancestral, mesmo que n\u00e3o se tenha, por sucessivas gera\u00e7\u00f5es, a posse formal dos territ\u00f3rios em que tais pessoas habitam desde sempre. Na sua opini\u00e3o, de que modo continuamos nos equivocando quando o assunto \u00e9 pensar e viabilizar uma reforma agr\u00e1ria no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>O atual problema fundi\u00e1rio brasileiro reflete as quest\u00f5es da forma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds: a primeira diz respeito \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do solo brasileiro imposta pela coloniza\u00e7\u00e3o em modelo de sesmarias, que legou grandes extens\u00f5es de terra a particulares que gozavam de status ante \u00e0 Coroa. A segunda foi quando esse modelo de sesmarias foi substitu\u00eddo pela lei de terras de 1850, que firmou a compra como a \u00fanica forma de acesso \u00e0 terra. E quem poderia comprar? Foi assim que se consolidou parte da nossa desigualdade social, que poderia ter sido corrigida pela reforma agr\u00e1ria, que foi, nos \u00faltimos governos, incipiente, e agora se encontra definitivamente abandonada como pol\u00edtica p\u00fablica. Esta \u00e9 a nossa mais elementar quest\u00e3o social, porque um pa\u00eds n\u00e3o pode prescindir de alimentar a sua popula\u00e7\u00e3o de forma extensiva e ambientalmente correta, protegendo a natureza. N\u00e3o pode querer que sua popula\u00e7\u00e3o renuncie o direito \u00e0 terra, porque sem a terra n\u00e3o h\u00e1 vida. Ainda n\u00e3o temos asas para vivermos suspensos na atmosfera, e mesmo os que t\u00eam, os p\u00e1ssaros, precisam descer para comer o que nasce do ch\u00e3o. Da\u00ed a import\u00e2ncia dos muitos movimentos que lutam por seus territ\u00f3rios: ind\u00edgenas, quilombolas, dos atingidos por barragem e ribeirinhos. Para essas popula\u00e7\u00f5es, a terra n\u00e3o \u00e9 um bem econ\u00f4mico, mas, sim, a sua hist\u00f3ria. \u00c9 a extens\u00e3o de seu corpo. \u00c9 a sua morada. E o modelo neoliberal em curso privilegia as grandes corpora\u00e7\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam nenhum v\u00ednculo com a terra, que a usa como um recurso sem vida, sem passado ou qualquer esperan\u00e7a de futuro. N\u00e3o h\u00e1 concilia\u00e7\u00e3o quando se tem os graves problemas fundi\u00e1rios, que n\u00e3o s\u00e3o somente fundi\u00e1rios, mas fundantes da nossa desigualdade social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_16997\" aria-describedby=\"caption-attachment-16997\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna-o2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16997 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna-o2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna-o2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna-o2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16997\" class=\"wp-caption-text\">Itamar Vieira Junior \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Nos \u00faltimos anos, o meio acad\u00eamico tem sido cada vez mais palco de pesquisas, disserta\u00e7\u00f5es e teses que buscam discutir e repensar os diversos apagamentos sociais que enfrentamos cotidianamente. Voc\u00ea mesmo \u00e9 egresso de um doutorado em Estudos \u00c9tnicos e Africanos, por exemplo. De que forma tais esfor\u00e7os podem romper o confinamento universit\u00e1rio e ser algo efetivos na sociedade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>As pesquisas e o pensamento decolonial que encontraram abrigo nos centros universit\u00e1rios t\u00eam chegado de muitas formas \u00e0 sociedade. A literatura \u00e9 apenas um dos caminhos que tem sido percorrido. De forma pragm\u00e1tica, essa produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica tem sido atravessada pelo pensamento decolonial: da arquitetura \u00e0s ci\u00eancias humanas e sociais, passando pelas artes. Ela tem possibilitado a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade menos desigual, onde se discute e se pensa formas de reduzir os danos de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Principalmente quando as pesquisas est\u00e3o voltadas para fora da universidade, quando n\u00e3o se encerra nos gabinetes e salas de aula, e tenta pensar o mundo com os pr\u00f3prios sujeitos da hist\u00f3ria. \u00c9 claro que essa evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 permanente, nem mesmo constante, um exemplo \u00e9 o estado de regress\u00e3o das pautas sociais em que o Brasil e o mundo mergulharam nos \u00faltimos anos. Mas a produ\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria continua, mesmo sob ataque, e ser\u00e1 um farol para reconstruirmos o que est\u00e1 sendo destru\u00eddo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em escala global, acredita que estamos vivendo um processo de desumaniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>N\u00e3o creio. Se olharmos a trajet\u00f3ria da humanidade, cercada de viol\u00eancia e grandes calamidades, vivemos uma \u00e9poca de ouro. Houve avan\u00e7os para os direitos humanos no s\u00e9culo XX, muitos surgidos a partir de grandes trag\u00e9dias, como o holocausto nazista. \u00c9 claro que vivemos em um mundo conservador, pouco afeito \u00e0s mudan\u00e7as, ent\u00e3o elas quase sempre v\u00eam acompanhadas de rea\u00e7\u00f5es, como as que vivemos atualmente com a ascens\u00e3o pol\u00edtica da extrema-direita e dos regimes autocr\u00e1ticos em alguns pa\u00edses. Mas a humanidade tem ganhado consci\u00eancia, humanidade, e nosso s\u00e9culo promete mais avan\u00e7os em rela\u00e7\u00e3o aos direitos humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua carreira liter\u00e1ria hoje assinala uma visibilidade bastante significativa, com sua obra sendo reconhecida e atingindo repercuss\u00e3o dentro e fora do pa\u00eds. O que mudou, de fato, em sua trajet\u00f3ria em face dessa proje\u00e7\u00e3o? O homem Itamar hoje \u00e9 sujeito de \u00e2nimo renovado em face dos aprendizados?<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>Acho que o mais interessante disso tudo foi o contato que pude estabelecer com escritores e leitores, seja no Brasil ou em Portugal. E tamb\u00e9m o fato do livro ter sido editado por um grande grupo editorial me fez conhecer o trabalho dos editores de carreira, as estrat\u00e9gias de marketing e a profissionaliza\u00e7\u00e3o da escrita. Tenho aprendido muito, mas, de fato, pouca coisa mudou. Porque o que continua a me mover \u00e9 a paix\u00e3o pela literatura, e para tanto n\u00e3o precisei estabelecer uma carreira ou obter um pr\u00eamio, apenas dei liberdade \u00e0 minha intui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA- H\u00e1 quem sustente que mergulhar nos caminhos da arte seja tamb\u00e9m uma alternativa para suportar o peso que a realidade das coisas nos imp\u00f5e em certa medida. \u00c9 razo\u00e1vel considerar essa esp\u00e9cie de fuga diante do universo oce\u00e2nico e desafiador que \u00e9 o autoconhecimento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>N\u00e3o considero a arte uma &#8220;fuga&#8221;, ela \u00e9 parte da experi\u00eancia humana. Desde as pinturas rupestres, que datam de 40 mil anos, aos nossos dias, o que existe e persiste \u00e9 a necessidade do homem criar e comunicar a sua exist\u00eancia. Concordo que dentro do conjunto de express\u00f5es humanas, a arte talvez seja a que nos permita &#8220;suportar o peso da realidade&#8221;, porque est\u00e1 intrinsecamente relacionada \u00e0 nossa dimens\u00e3o subjetiva. \u00c9 nela ou a partir dela que nos autoconhecemos: o medo, os afetos, as grandes quest\u00f5es da vida, ainda que num plano subjetivo. Por ser subjetivo, talvez nos permita emular a nossa pr\u00f3pria vida e enfrentar os problemas que estejam por vir. A literatura, em especial, \u00e9 generosa neste sentido: quando pegamos um livro para ler n\u00f3s estabelecemos um &#8220;contrato&#8221; com o autor e as personagens de que, durante um per\u00edodo, no processo silencioso e \u00edntimo da leitura, &#8220;viveremos&#8221; aquelas vidas. Assim, nos colocamos no lugar do outro num denso movimento de humaniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que chamamos de empatia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ITAMAR VIEIRA JUNIOR &#8211; <\/strong>Esta \u00e9 uma pergunta intermin\u00e1vel, porque n\u00e3o se encerra em nenhuma resposta. Lembro de ainda adolescente ter lido uma entrevista da escritora Rachel de Queiroz e fiquei muito intrigado com a resposta \u00e0 mesma pergunta, onde ela dizia que escrevia porque n\u00e3o sabia cozinhar. Anos depois vi uma lend\u00e1ria entrevista do jornalista Jaime Lerner \u00e0 escritora Clarice Lispector que devolvia a pergunta com outra pergunta: &#8220;e eu sei?&#8221;. Eu imagino que esse imenso desejo humano de se comunicar e legar para as gera\u00e7\u00f5es futuras um registro \u00e9 que nos move a ler e interpretar o mundo atrav\u00e9s da arte. Penso nos homens e mulheres que nos deixaram registros da arte rupestre, quais eram as suas inten\u00e7\u00f5es ao pintar as paredes das cavernas que habitavam? Certamente queriam comunicar algo aos seus pares e legar, qui\u00e7\u00e1, registros para as gera\u00e7\u00f5es que viriam. O que me move a escrever \u00e9 a vontade pessoal de registrar o meu tempo, de comunicar aos que se interessarem o meu olhar sobre o mundo, que reflete por sua vez os olhares dos que me influenciaram. Ao mesmo tempo, escrever reflete uma f\u00e9 inabal\u00e1vel na literatura, n\u00e3o de que ela possa mudar ou alterar nada, mas de que possa ser um ex\u00edlio, confort\u00e1vel ou n\u00e3o, para os que buscam conhecer a si mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 ca\u00f3tico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre em Letras e doutorando.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adentrando o solo das humanidades, uma entrevista com o escritor Itamar Vieira Junior <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":16999,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3740,16,2539],"tags":[3744,63,3743,137,3385,8,3742,903,3741],"class_list":["post-16995","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-134a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-brasil-profundo","tag-entrevista","tag-escravidao","tag-fabricio-brandao","tag-itamar-vieira-junior","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-quilombolas","tag-racismo","tag-torto-arado"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16995","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16995"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16995\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17125,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16995\/revisions\/17125"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16999"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16995"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16995"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16995"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}