{"id":17045,"date":"2020-02-16T13:17:32","date_gmt":"2020-02-16T16:17:32","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17045"},"modified":"2020-05-03T17:54:44","modified_gmt":"2020-05-03T20:54:44","slug":"aperitivo-da-palavra-25","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-25\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos de D\u00eanisson Padilha Filho<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Capa-Um-chevette-girando-no-meio-da-tarde-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17048\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Capa-Um-chevette-girando-no-meio-da-tarde-1.jpg\" alt=\"\" width=\"284\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Capa-Um-chevette-girando-no-meio-da-tarde-1.jpg 284w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Capa-Um-chevette-girando-no-meio-da-tarde-1-189x300.jpg 189w\" sizes=\"auto, (max-width: 284px) 100vw, 284px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrito em 1876, o conto \u201cO sonho\u201d, do russo Ivan Turg\u00eaniev, \u00e9 considerado um arauto da modernidade psicol\u00f3gica, pois prenunciava, por meio da fic\u00e7\u00e3o, temas que seriam a base da psican\u00e1lise no s\u00e9culo 20. Na trama, um jovem come\u00e7a a ter sonhos repetidos com o pai, que morreu quando ele tinha seis anos. Os encontros s\u00e3o antecedidos por andan\u00e7as pelo subconsciente, frequentando pessoas e cen\u00e1rios de composi\u00e7\u00f5es substancialmente realistas. At\u00e9 que, em meio a um festejo local, o protagonista se depara com o mesmo homem do sonho e planta-se a d\u00favida se est\u00e1 no mundo concreto ou dentro de uma produ\u00e7\u00e3o on\u00edrica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Turg\u00eaniev dosa, de forma impec\u00e1vel, a ambiguidade no movimento entre esses planos, fornecendo ao texto uma caracter\u00edstica \u00edmpar de tornar a assimila\u00e7\u00e3o do sonho narrado numa experi\u00eancia muito pr\u00f3xima do que seria a de um sonho de verdade. Duas d\u00e9cadas depois, no volume \u201cA interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d, Freud cita o fil\u00f3sofo alem\u00e3o Karl Burdach para decifrar tal fen\u00f4meno na configura\u00e7\u00e3o de chaves que levam a cole\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias a simular os acontecimentos em estado de vig\u00edlia. \u201cMesmo quando toda a nossa mente est\u00e1 repleta de algo, quando estamos dilacerados por alguma tristeza profunda, ou quando todo o nosso poder intelectual se acha absorvido por algum problema, o sonho nada mais faz do que entrar em sintonia com nosso estado de esp\u00edrito e representar a realidade em s\u00edmbolos\u201d. Neste caso, sonhar nada mais \u00e9 que prolongar o vivido por meio de representa\u00e7\u00f5es. Os sonhos, invariavelmente, levam \u00e0 vida comum, em vez de se apartarem dela. Em outras palavras, por mais transgressiva que possa ser a experi\u00eancia on\u00edrica, sempre ser\u00e1 uma am\u00e1lgama do que foi experimentado internamente e externamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O baiano D\u00eanisson Padilha Filho bebe desse conceito em seu mais recente livro de contos, \u201cUm chevette girando no meio da tarde\u201d. S\u00e3o 10 narrativas curtas, cuja mat\u00e9ria nuclear \u00e9 o sonho em sua proje\u00e7\u00e3o difusa e sensorial, por\u00e9m reproduzida a partir de uma mec\u00e2nica na qual o desenho do cotidiano nunca deixa de ser como o conhecemos. N\u00e3o se trata de alucina\u00e7\u00f5es ou experimenta\u00e7\u00f5es ins\u00f3litas, e sim de imagens de consist\u00eancia estranha, embora familiar. O inusitado n\u00e3o se filia a uma percep\u00e7\u00e3o dilatada, mas a vertentes da interpreta\u00e7\u00e3o do mundo no qual a frequ\u00eancia dos sentimentos se sintoniza a uma est\u00e1tica dualista, inclusive atrav\u00e9s de coment\u00e1rios sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vide \u201cBarrac\u00e3o de enlatados explode no ar\u201d, conto que abre o livro. Um sujeito, que participa de uma tal Festa do Mar, resolve ir a um bar gourmetizado e, enquanto toma uma cerveja, come\u00e7a a enxergar a fauna local em sua forma antropom\u00f3rfica: a beluga, o le\u00e3o-marinho, a baleia branca etc. O autor trata essas manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas com um tra\u00e7o de humor, mas tamb\u00e9m usa desses arqu\u00e9tipos para criticar o comportamento forasteiro, a ades\u00e3o do estrangeirismo na cultura e nos h\u00e1bitos regionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O texto seguinte, \u201cLivro de contos no painel de um velho Boeing\u201d, evidencia a busca por uma qualidade est\u00e9tica, valendo-se das possibilidades pitorescas do sonho de modo a se criar composi\u00e7\u00f5es visuais muitas vezes mais vigorosas que o pr\u00f3prio desenvolvimento do enredo. O narrador (sugestivamente um segundo eu do autor) descobre-se dentro de um velho Boeing da Varig, arrastando-se na pista em meio aos carros, enquanto atravessa a cidade. Trata-se de um insight narrativo que canaliza seu alto poder imag\u00e9tico para a discuss\u00e3o do desamparo do escritor diante do inevit\u00e1vel fracasso da escrita. \u201cTalvez, cada um de n\u00f3s seja esse avi\u00e3o obsoleto que n\u00e3o consegue voar\u201d, conjectura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como Turg\u00eaniev, Padilha guia o andamento de suas tramas atrav\u00e9s de um senso de imprecis\u00e3o entre o que \u00e9 estado on\u00edrico e o que \u00e9 estado de vig\u00edlia. \u201cAqui vamos n\u00f3s mais uma vez\u201d e \u201cUm chevette girando no meio da tarde\u201d remontam o per\u00edodo do col\u00e9gio, da inf\u00e2ncia plena, sobre a qual, segundo Freud, incorre, com mais intensidade, os sonhos de ang\u00fastia, aqueles cujos \u201csentimentos desprazerosos nos ret\u00eam em suas garras at\u00e9 despertarmos\u201d, representando \u201cindisfar\u00e7\u00e1veis realiza\u00e7\u00f5es de desejos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cUm amigo em dia com a moda\u201d segue no tema da ang\u00fastia, s\u00f3 que a liter\u00e1ria, como que numa resposta desesperan\u00e7osa ao personagem no interior do Boeing. \u201cNunca ser\u00e3o le\u00f5es\u201d lan\u00e7a m\u00e3o outra vez do arqu\u00e9tipo antropom\u00f3rfico para dar significado a uma alegoria sociopol\u00edtica, enquanto \u201cAs camisolas dos monges tibetanos\u201d recorre a um teor sat\u00edrico para falar de medita\u00e7\u00e3o, terapia junguiana e clich\u00eas liter\u00e1rios, executando um inesperado movimento de metalinguagem que sugere o fecho de uma parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A colet\u00e2nea se encerra com \u201cTrilogia de sal e vento\u201d, cujo tom naturalista e uma certa dissens\u00e3o entre vida pedestre e voos farsescos trazem \u00e0 mem\u00f3ria o Copi, de \u201cA Internacional Argentina\u201d, e os trechos mar\u00edtimos de \u201cUm ano\u201d, do chileno Juan Emar. O conto final, \u201cN\u00e3o s\u00e3o cavalos-marinhos\u201d, evoca uma entidade mitol\u00f3gica de modo a construir uma met\u00e1fora sobre o qu\u00e3o penoso \u00e9 tentar domar os galopes selvagens da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sonhos de D\u00eanisson Padilha Filho podem n\u00e3o ter enredos complexos, mas s\u00e3o enriquecidos pelo jogo construtivo da ambiguidade, plasmando um territ\u00f3rio onde imagina\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia direta do autor surpreendem ao trazer uma sensa\u00e7\u00e3o de inconsist\u00eancia no tratamento de temas t\u00e3o objetivos. Combinam fugas visuais concretas com abstra\u00e7\u00f5es generalizadas, a partir de um impasse extra\u00eddo do subconsciente que parece indagar: se, ao fim, o fracasso espera, por que insistir no sonho de ser escritor? Diante das possibilidades de tantas interpreta\u00e7\u00f5es, penso que essa quest\u00e3o nem Freud explica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 cr\u00edtico liter\u00e1rio e escritor, autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas, o espanhol e o t\u00e2mil. Participou da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris. Edita o site de cr\u00edtica liter\u00e1ria A NOVA CR\u00cdTICA.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de D\u00eanisson Padilha Filho pela abordagem de S\u00e9rgio Tavares <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17046,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3740,2533],"tags":[11,3753,419,2455,1724,189,1023,3662],"class_list":["post-17045","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-134a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-chevette","tag-contos","tag-denisson-padilha-filho","tag-mondrongo","tag-resenha","tag-sergio-tavares","tag-sonhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17045","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17045"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17045\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17121,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17045\/revisions\/17121"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17046"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17045"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17045"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17045"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}