{"id":17083,"date":"2020-02-17T11:12:51","date_gmt":"2020-02-17T14:12:51","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17083"},"modified":"2020-02-19T15:39:55","modified_gmt":"2020-02-19T18:39:55","slug":"janela-poetica-iii-68","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iii-68\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica III"},"content":{"rendered":"<p><em>Maria Fernanda Elias Maglio<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17086\" aria-describedby=\"caption-attachment-17086\" style=\"width: 323px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17086\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna.jpg\" alt=\"\" width=\"323\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna.jpg 323w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Interna-194x300.jpg 194w\" sizes=\"auto, (max-width: 323px) 100vw, 323px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17086\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Hermes Polycarpo<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EU ERA O RIO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: right;\"><em>\u201c... e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro \u2014 o rio.\u201d<\/em>\r\n(Guimar\u00e3es Rosa)<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gosto das paredes emboloradas<br \/>\nDo lodo nas quinas das garagens escuras<br \/>\nO capim-gordura crescendo no v\u00e3o do cimento<br \/>\nO calor claustrof\u00f3bico das cozinhas oleosas<\/p>\n<p>Das rachaduras nos tijolos<br \/>\nA carne da constru\u00e7\u00e3o revelada pela neglig\u00eancia<br \/>\nDo tempo<br \/>\nDas gentes<br \/>\nDos desencontros<\/p>\n<p>Gosto dos sentimentos sem nome<br \/>\nDas saudades que s\u00e3o tamb\u00e9m repulsa<br \/>\nEsquecimento<br \/>\nDo amor que \u00e9 tamb\u00e9m raiva<br \/>\nQue \u00e9 tamb\u00e9m amor<\/p>\n<p>Das nojeiras inconfess\u00e1veis<br \/>\nCativas nos instantes de solid\u00e3o<br \/>\nRanhos lambidos com a ponta da l\u00edngua<br \/>\nUnhas mastigadas<br \/>\nCascas de feridas partidas na for\u00e7a dos dentes<\/p>\n<p>Gosto dos bichos que n\u00e3o s\u00e3o estimados<br \/>\nPiolhos dentando a pele do cr\u00e2nio<br \/>\nBaratas gordas se espremendo no estreito do ralo<br \/>\nAs antenas por \u00faltimo<br \/>\nPren\u00fancio de tudo que \u00e9 imundo<\/p>\n<p>Gosto das aus\u00eancias<br \/>\nOs cantos n\u00e3o preenchidos por m\u00f3veis<br \/>\nA cama n\u00e3o repartida<br \/>\nO prato vazio<br \/>\nSem farelo de comida recente<\/p>\n<p>De tudo que n\u00e3o \u00e9 recente<br \/>\nLutos petrificados pela austeridade dos anos<br \/>\nCasas erguidas por bra\u00e7os mortos<br \/>\nH\u00e1 tantos anos mortos<\/p>\n<p>Gosto da morte<br \/>\nO sil\u00eancio das alamedas de sombras<br \/>\nAs filas das formigas alargando as trincas dos t\u00famulos<br \/>\nO cheiro mineral das fendas<\/p>\n<p>N\u00e3o me interessam as flores violetas<br \/>\nCrescendo na sombra das amoreiras<br \/>\nNem as amoras<br \/>\nCajus suculentos<br \/>\nCactos ostentando folhas<br \/>\nQue tamb\u00e9m s\u00e3o caules<br \/>\nQue tamb\u00e9m s\u00e3o folhas<\/p>\n<p>Eu quero o escuro do debaixo da terra<br \/>\nPretendo a fundura<br \/>\nO miolo do acontecer<br \/>\nOssos ocultos<br \/>\nMortos de ningu\u00e9m<br \/>\nNem cruz, nem placa de bronze<\/p>\n<p>N\u00e3o me importa a superf\u00edcie<br \/>\nO lado de fora do ch\u00e3o<br \/>\nAnseio veios subterr\u00e2neos<br \/>\nLen\u00e7\u00f3is fre\u00e1ticos<br \/>\nO magma fervendo no cora\u00e7\u00e3o do mundo<\/p>\n<p>Nada me vale o mar turquesa<br \/>\nOndas esfarelando na areia<br \/>\nDesmanchando conchas<br \/>\nEu quero o oceano profundo<br \/>\nPeixes abissais de couro transparente e sexo hermafrodita<br \/>\nEnguias el\u00e9tricas sem olho nem boca<br \/>\nContorcendo a escurid\u00e3o<\/p>\n<p>N\u00e3o me comove jardins semeados<br \/>\nAs filas sim\u00e9tricas das rosas e das margaridas<br \/>\n\u00c1rvores podadas em c\u00edrculo<br \/>\nGosto das florestas ind\u00f4mitas<br \/>\nCip\u00f3s estrangulando troncos<br \/>\nO ch\u00e3o \u00famido do musgo apodrecido<br \/>\nCamadas de folhas secas dando abrigo a aranhas fluorescentes<br \/>\nEscorpi\u00f5es, formigas ruivas, lacraias de mil p\u00e9s<\/p>\n<p>N\u00e3o quero o cruzeiro do sul, a via l\u00e1ctea, saturno<br \/>\nN\u00e3o me interessam cometas e a composi\u00e7\u00e3o do solo da lua<br \/>\nTenciono mat\u00e9ria escura, as bordas de fora do universo<br \/>\nO buraco negro e a gula que engole o tempo<br \/>\nO passado obliterado e o futuro cindido em um milh\u00e3o<br \/>\nDoze milh\u00f5es de futuros<\/p>\n<p>N\u00e3o sei em que possibilidade me perdi<br \/>\nNo destino estilha\u00e7ado em que eu era<br \/>\nUma camponesa na revolu\u00e7\u00e3o mexicana<br \/>\nUm padre na inquisi\u00e7\u00e3o<br \/>\nUma cor\u00e7a de pata fraturada<br \/>\nUm peixe remando o rio<br \/>\nO rio<br \/>\nEu era o rio<\/p>\n<p>Era morna e fresca<br \/>\nO limo das margens<br \/>\nAs \u00e1guas c\u00e1usticas matando carpas<br \/>\nBotos<br \/>\nLontras<br \/>\nE aguap\u00e9s<\/p>\n<p>Depois eu era os aguap\u00e9s<br \/>\nEra o fundo e os barcos de papel<br \/>\nAs crian\u00e7as brincando na beira<br \/>\nSete crian\u00e7as soltando barquinhos<\/p>\n<p>Uma delas era eu<br \/>\nA menina de vestido azul<br \/>\nEscapul\u00e1rio<br \/>\nE olhos l\u00edquidos<br \/>\nChorava pelas orelhas<br \/>\nA vida escorrendo nas fendas<br \/>\nE de novo rio<br \/>\nPara sempre eu era o rio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E N\u00c3O TEM ESTRADA QUE EU N\u00c3O QUEIRA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quero a vida de cara limpa<br \/>\nN\u00e3o quero maconha, yoga, sertralina<br \/>\nQuero hoje e muito<br \/>\nO ontem e o atr\u00e1s<br \/>\nQuero dor sem interm\u00e9dio<br \/>\nMaternidade sem consolo<\/p>\n<p>N\u00e3o quero v\u00edrgula, hiato, camisinha<br \/>\nQuero onde e nunca<br \/>\nO longe e o depois de amanh\u00e3<br \/>\nQuero L\u00edbia e Guatemala<br \/>\nEsquim\u00f3s e abor\u00edgenes<br \/>\nQuero sal, umbigo e quinta-feira<\/p>\n<p>Quero ontem o que n\u00e3o quis amanh\u00e3<br \/>\nQuero dentes firmes e coxas fl\u00e1cidas<br \/>\nQuando n\u00e3o quero nada quero muito<br \/>\nE quero muito cada quando<br \/>\nQuero l\u00e1-aqui-nunca e dentro-fundo-depois<br \/>\nQuero o atrav\u00e9s, o avesso, o atravessado<\/p>\n<p>E n\u00e3o tem estrada que eu n\u00e3o queira<br \/>\nNem caminho que minhas pernas n\u00e3o pretendam<br \/>\nQuero o reverso da falha e o verso da perfei\u00e7\u00e3o<br \/>\nQuero dormir de cansa\u00e7o e acordar sem sol<br \/>\nQuero sonho sem sono<br \/>\nE sono povoado de estrelas cadentes<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AGORA QUE TEM \u00c1GUA EM MARTE<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>a segunda de manh\u00e3 me escorreu com a urina<br \/>\ne a noite de quarta evaporou no suor das minhas axilas<br \/>\no tempo \u00e9 alguma coisa t\u00e3o l\u00edquida<br \/>\nque escorre e evapora<br \/>\nde um jeito que s\u00f3 os l\u00edquidos fazem<\/p>\n<p>ontem eu quis ser uma pessoa melhor<br \/>\nhoje me esqueci<\/p>\n<p>descobriram \u00e1gua em Marte<br \/>\ne \u00e9 \u00e1gua mesmo<br \/>\nn\u00e3o \u00e9 gelo, g\u00e1s metano, prata derretida<br \/>\no tempo de Marte tamb\u00e9m deve escorrer<br \/>\npelos rios subterr\u00e2neos<br \/>\nlotados de bact\u00e9rias marcianas<br \/>\nmicrorganismos de antenas azuis<\/p>\n<p>agora que tem \u00e1gua em Marte<br \/>\nn\u00e3o d\u00e1 tempo de ser uma pessoa melhor<br \/>\no ser humano anda pela terra h\u00e1 200 mil anos<br \/>\no universo tem a idade de 13,7 bilh\u00f5es<br \/>\no ser humano \u00e9 o microrganismo de antenas azuis<br \/>\ndo universo<\/p>\n<p>agora que tem \u00e1gua em Marte<br \/>\na gente precisa deixar de ter ins\u00f4nia<br \/>\ne culpa<\/p>\n<p>agora que tem \u00e1gua em Marte<br \/>\na gente est\u00e1 absolvido para sempre<br \/>\nat\u00e9 os pr\u00f3ximos 3,8 bilh\u00f5es de anos<br \/>\nquando n\u00e3o vai ter \u00e1gua aqui<br \/>\ns\u00f3 em Marte<\/p>\n<p>agora que tem \u00e1gua em Marte<br \/>\neu nunca mais vou deixar de sentir sede<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>EU ERA PRIMATA E SEGURAVA PRIMATA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro o que eu era antes de ser m\u00e3e<br \/>\nAlguma coisa entre tijolo e r\u00e3<br \/>\n(s\u00f3lida e escorregadia)<br \/>\nO tempo de antes ficou sujo de uma coisa<br \/>\nque eu n\u00e3o sei<br \/>\nA vida principiou naquele dia<br \/>\ne depois s\u00f3 futuro<br \/>\nE era um futuro t\u00e3o velho que parecia passado<br \/>\nQuando eu coloquei no colo minha filha<br \/>\nEra como se carregasse minha m\u00e3e<br \/>\nOu a m\u00e3e da minha m\u00e3e<br \/>\nOu a primeira mulher do mundo<br \/>\nQue era gente e era macaco<br \/>\nAli eu era primata e segurava primata<br \/>\nE do\u00eda tanto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PONTES DE EINSTEIN-ROSEN<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre style=\"text-align: right;\"><em>Para Gabriel<\/em><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>n\u00e3o, n\u00e3o parece que foi ontem<br \/>\nfoi h\u00e1 dois s\u00e9culos<br \/>\ntalvez tr\u00eas<br \/>\na gente se encontrou numa dessas dobras do tempo<br \/>\nquando o passado \u00e9 tamb\u00e9m futuro<br \/>\ne \u00e9 tamb\u00e9m passado<br \/>\nn\u00e3o h\u00e1 dia, nem ano, nem ver\u00e3o<br \/>\no tempo \u00e9 s\u00f3 um tecido vincado<\/p>\n<p>vai ver a gente sempre esteve l\u00e1<br \/>\nno passado que n\u00e3o \u00e9 passado<br \/>\nno come\u00e7o do mundo e tamb\u00e9m no fim<br \/>\nvoc\u00ea me salvando todos os dias<br \/>\neu morrendo todas as noites<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Maria Fernanda Elias Maglio<\/em><\/strong><em> nasceu em Cajuru-SP. \u00c9 escritora e defensora p\u00fablica, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que est\u00e3o cumprindo pena. Seu primeiro livro, \u201cEnfim, imperatriz\u201d (Patu\u00e1, 2017), venceu o Pr\u00eamio Jabuti 2018 na categoria contos. Em dezembro de 2019, lan\u00e7ou \u201c179. Resist\u00eancia\u201d (poesias) tamb\u00e9m pela editora Patu\u00e1.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um sopro de resist\u00eancia na voz de Maria Fernanda Elias Maglio<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17084,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3740,9],"tags":[107,3760,2255,159,3483],"class_list":["post-17083","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-134a-leva","category-janelas-poeticas","tag-janela-poetica","tag-maria-fernanda-elias-maglio","tag-patua","tag-poemas","tag-resistencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17083"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17089,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17083\/revisions\/17089"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}