{"id":17196,"date":"2020-05-01T12:58:50","date_gmt":"2020-05-01T15:58:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17196"},"modified":"2020-06-29T17:00:39","modified_gmt":"2020-06-29T20:00:39","slug":"aperitivo-da-palavra-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-26\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do corpo surrado ao corpo encantado: um drible no prec\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Vinicius Gaud\u00eancio de Oliveira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/o-corpo-encantado-das-ruas-capa-int.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17198\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/o-corpo-encantado-das-ruas-capa-int.jpg\" alt=\"\" width=\"272\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/o-corpo-encantado-das-ruas-capa-int.jpg 272w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/o-corpo-encantado-das-ruas-capa-int-181x300.jpg 181w\" sizes=\"auto, (max-width: 272px) 100vw, 272px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez se vivencie no Brasil um dos per\u00edodos mais dif\u00edceis e contradit\u00f3rios da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Dif\u00edcil por conta dos ataques sistem\u00e1ticos \u00e0 cultura, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0s religi\u00f5es de matrizes africanas, sem falar na precariza\u00e7\u00e3o da vida, acentuada pela expropria\u00e7\u00e3o do trabalhador, esta materializada na ideia de que se virar para ganhar a vida \u00e9 empreendedorismo; contradit\u00f3ria porque os ataques v\u00eam de governos institu\u00eddos democraticamente. Tudo isso toma propor\u00e7\u00f5es maiores na cidade do Rio de Janeiro quando o chefe do executivo estadual diz que vai passar de helic\u00f3ptero por cima de uma favela atirando em quem portar fuzil, desconsiderando que uma boa parcela da massa de trabalhadores l\u00e1 reside; ou as absurdas afirma\u00e7\u00f5es do chefe do executivo municipal quando diz que investir\u00e1 em creches ao inv\u00e9s de investir no carnaval, como se uma coisa anulasse a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os problemas de ordem estrutural da cidade do Rio de Janeiro, como a falta de vagas em creche na rede municipal, na qualidade da \u00e1gua fornecida pela CEDAE, na mobilidade urbana, na qual os moradores da Zona Oeste da Cidade s\u00e3o os mais prejudicados, tendo que levar tr\u00eas horas para chegar ao centro da cidade, ou ir espremido no BRT (ou nem mesmo conseguir entrar) para trabalhar na Barra da Tijuca, passando pelos ataques a terreiros cada vez mais frequentes e pela \u201cmilicianiza\u00e7\u00e3o\u201d da vida, desenha as linhas de uma Cidade doente e m\u00edtica. Diante deste cen\u00e1rio ca\u00f3tico, como pensar a Cidade sem romantizar o prec\u00e1rio? <em>O corpo encantado das ruas<\/em>, de Luiz Ant\u00f4nio Simas, faz isso ao narrar a hist\u00f3ria de gente mi\u00fada que faz \u201cda chibata de surrar o lombo a baqueta de bater no coro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o t\u00edtulo inspirado no livro do Jo\u00e3o do Rio, <em>A alma encantadora das ruas<\/em>, que discute as contradi\u00e7\u00f5es da Cidade com olhar sobre os tipos humanos e sobre a desigualdade social no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, o autor de <em>O corpo encantado da rua<\/em> flaina pelas ruas do Rio de Janeiro observando aquilo que contrasta com o modelo de Cidade que se quer europeia. Enquanto Jo\u00e3o do Rio fala sobre pequenas profiss\u00f5es, m\u00fasicos ambulantes, mulheres mendigas e pessoas encarceradas, Simas narra hist\u00f3ria de \u201ccapoeiristas, malandros, sambistas, chor\u00f5es, vendedoras de comida de rua, m\u00e3e de santo, coveiros, empregadas dom\u00e9sticas, ca\u00e7adores de rato\u201d e, n\u00e3o se limitando apenas a isso, conta como essa gente mi\u00fada inventa a vida na fresta \u201cdando um n\u00f3 no rabo da cascavel\u201d e como ela produz cultura \u201conde s\u00f3 deveria existir o esfor\u00e7o bra\u00e7al e a morte silenciosa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com um baralhamento de linguagem, ora historiogr\u00e1fica, ora liter\u00e1ria (ou encantada?), o autor de <em>Pedrinhas Miudinhas<\/em> fala de f\u00e9, de encruzilhadas e intui\u00e7\u00f5es que perfazem caminhos que nos transportam de uma situa\u00e7\u00e3o aparentemente prec\u00e1ria e de desencanto para caminhos de riquezas de saberes e modos de vida geralmente entendidos por alguns como desimportantes. Atrav\u00e9s de seus 42 ensaios, todos come\u00e7ando por \u201cAs ruas\u201d e terminando com \u201crua\u201d, o craque Simas vai inserindo na gira todo tipo de gente massacrada pelo projeto colonial, pensando a Cidade a partir do mito de origem da Umbanda, que consiste em um culto no qual pretos e \u00edndios poder\u00e3o dar sua mensagem, criando, assim, uma \u201chist\u00f3ria a contrapelo\u201d, na qual gente mi\u00fada vai contrapor o projeto de identidade nacional de cunho euroc\u00eantrico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Grosso modo, Simas discute de que forma se d\u00e1 o movimento do Corpo nos espa\u00e7os, que s\u00e3o as ruas. Corpo aqui entendido como os elementos menores da sociedade carioca, que n\u00e3o fazem parte da cultura oficial. As ruas s\u00e3o entidades representativas, s\u00e3o lugares nos quais acontecem manifesta\u00e7\u00f5es diversas. O autor, no ensaio que fala da \u201cAreniza\u00e7\u00e3o da cidade\u201d, cita a morte simb\u00f3lica do Maracan\u00e3, que teve \u00a0extintas a geral e a arquibancada, acabando com \u201cespa\u00e7os coletivos de movimenta\u00e7\u00e3o imponder\u00e1veis, solu\u00e7\u00f5es criativas do ato de torcer, lugares de abra\u00e7os suados e eventuais porradas\u201d. Por\u00e9m, cita tamb\u00e9m uma disputa que mostra que o debate continua vivo ao observar faixas reivindicando justi\u00e7a: \u201cAs faixas para Marielle mostram que o jogo n\u00e3o acabou. Tem gente disposta a continuar disputando as arquibancadas, e consequentemente, a cidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cidade em disputa, tensionada, que \u201cama e odeia carnaval\u201d, est\u00e1 o tempo todo nos dando amostra desse embate. Assim como o Maracan\u00e3, o Samb\u00f3dromo, local no qual acontecem os desfiles do grupo de acesso e do grupo especial das escolas de samba, sofre com a \u201careniza\u00e7\u00e3o\u201d, tendo sido invadido pela \u201ccultura do evento\u201d, onde se formam camarotes com pre\u00e7os alt\u00edssimos que abrigam gente que n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para o \u201cevento da cultura\u201d. Mas as escolas de samba sabem driblar o oportunismo e preservar suas bases comunit\u00e1rias. Assim como fazia em \u00e9pocas de letras de sambas-enredo que falavam da hist\u00f3ria oficial, mas a batida da bateria era para Oxossi, no carnaval de 2020, o desfile das campe\u00e3s teve enredos sobre as Lavadeiras da Bahia, sobre Jo\u00e3ozinho da Gom\u00e9ia, sobre Exus e o Povo da Rua, sobre Elza Soares, sobre Benjamin de Oliveira e sobre um Jesus pobre e negro, todos eles dialogando com a cultura de matriz africana no meio de um lugar \u201carenizado\u201d, por\u00e9m \u201cterreirizado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa esteira do carnaval de 2020, no exato momento em que a Escola de Samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, situada na Zona Oeste do Rio de Janeiro, passava na avenida, ca\u00eda uma chuva torrencial no bairro de Padre Miguel, e em grande parte da Zona Oeste, que fez estragos no bairro. Qual a rela\u00e7\u00e3o entre os dois fatos? Simas diria a m\u00e1xima de Beto sem Bra\u00e7o: \u201co que espanta mis\u00e9ria \u00e9 festa\u201d. Isso \u00e9 cultura de s\u00edncope. O povo precisa gingar para escapar do prec\u00e1rio; precisa ter a inventividade do surdo de terceira para sair da previsibilidade. No \u00faltimo carro da escola, passa Elza Soares, homenageada com o enredo \u201cElza Deusa Soares\u201d, com os punhos erguidos e com os dizeres na parte traseira do carro aleg\u00f3rico: \u201cN\u00f3s n\u00e3o vamos sucumbir\u201d. Ao ver a escola passar e o bairro alagar, um del\u00edrio duplo tomou conta de quem vos escreve: o do encantamento da Elza Deusa Soares na avenida e do desencanto de quem precisou atravessar a outra avenida (a Brasil) para chegar at\u00e9 a Zona Oeste. Num Rio cheio de contradi\u00e7\u00f5es, a Escola de Padre Miguel deu o recado: n\u00e3o vamos sucumbir, ainda que tenhamos um ano cheio de quartas-feiras de cinzas, e com ela a dureza da travessia de caminhos submersos pelo descaso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora apenas um ensaio cite um lugar inserido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a Vila Kennedy, as formas de reivindicar saberes e vis\u00e3o de mundo s\u00e3o gen\u00e9ricas. A Zona Oeste do Rio de Janeiro se configura como um sub\u00farbio com caracter\u00edsticas diferentes como em outros. Nela, conjugam-se favela, mil\u00edcia, rural com o pior do urbano, que s\u00e3o os engarrafamentos. Com uma linha de metr\u00f4 no final da Barra da Tijuca e uma esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria em Santa Cruz, estes dois ramais polarizados s\u00e3o \u201cligados\u201d por um BRT que contraditoriamente significa Transporte R\u00e1pido por \u00d4nibus, do ingl\u00eas <em>Bus Rapid Transit<\/em>. Os usu\u00e1rios do transporte p\u00fablico sentem diariamente a precariedade para trabalhar e, registre-se, para se divertir tamb\u00e9m, visto que aos finais de semana o n\u00famero de ve\u00edculos \u00e9 drasticamente reduzido. Com isso, cria-se um lugar exclusivo para dormit\u00f3rio, no qual brincar \u00e9 proibido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num lugar em que surgiu a \u201cliga da justi\u00e7a\u201d, que teve apreendidos 117 fuzis em um <em>condom\u00ednio de bacanas e com <\/em>um n\u00famero cada vez mais expressivo de evang\u00e9licos fundamentalistas, surge na \u201cfenda da pedra\u201d o Instituto Onikoja, localizado em Sepetiba, cujo objetivo \u00e9 preservar e difundir a cultura de Matriz Africana, solidificando os saberes da heran\u00e7a africana. No local, s\u00e3o ministradas aulas de capoeira, oficina de percuss\u00e3o e uma oficina de bonecas africanas Ahosis, \u201cterreirizando\u201d Sepetiba e mostrando que l\u00e1 tem um ex\u00e9rcito de guerreiras dispostas a combater a intoler\u00e2ncia religiosa. Surgem tamb\u00e9m rodas de samba nos bairros dominados pela mil\u00edcia, como em Cosmos, com o samba da Casa Velha Verde, Samba da Aurora, Samba Ful\u00f4 e Samba da Ingrid, estes em Campo Grande. Com isso, h\u00e1 um resgate da ancestralidade da regi\u00e3o, pois \u201cnos sambas vivem saberes que circulam; formas de apropria\u00e7\u00e3o do mundo; constru\u00e7\u00e3o de identidade comunit\u00e1rias dos que tiveram seus la\u00e7os associativos quebrados pela escravid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Samba, futebol, macumba, festas, brincadeiras e Cidade s\u00e3o temas tratados pelo neto da Dona Deda, uma m\u00e3e de santo versada no xamb\u00e1, jurema e encantaria. O babala\u00f4 n\u00e3o se acovarda diante de uma Cidade \u00e0 beira do precip\u00edcio. Suas reflex\u00f5es encantadas sobre ela traz \u00e0 tona n\u00e3o a resist\u00eancia para dias dif\u00edceis, mas a reinven\u00e7\u00e3o da vida precarizada, atrav\u00e9s de saberes, pr\u00e1ticas e vis\u00e3o de mundo daqueles relegados ao nada, fruto da l\u00f3gica de uma Cidade, que, como diz o autor, foi fundada para expulsar franceses, mas que um dia resolveu ser francesa para esconder suas africanidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vinicius Gaud\u00eancio de Oliveira<\/em><\/strong><em> \u00e9 carioca formado em Letras\/Literatura.\u00a0 Atua como cr\u00edtico liter\u00e1rio nas tem\u00e1ticas sobre produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias e culturais cariocas.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vinicius de Oliveira resenha o livro de Luiz Ant\u00f4nio Simas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17201,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3764,2533],"tags":[11,1833,3776,3777,189,2291,3775],"class_list":["post-17196","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-135o-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-corpo","tag-luiz-antonio-simas","tag-matriz-africana","tag-resenha","tag-rio-de-janeiro","tag-vinicius-de-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17196","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17196"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17203,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17196\/revisions\/17203"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}