{"id":17233,"date":"2020-05-03T11:54:53","date_gmt":"2020-05-03T14:54:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17233"},"modified":"2020-06-29T16:59:28","modified_gmt":"2020-06-29T19:59:28","slug":"dedos-de-prosa-ii-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-64\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Rodrigo Melo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_17235\" aria-describedby=\"caption-attachment-17235\" style=\"width: 353px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_1695.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17235\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_1695.jpg\" alt=\"\" width=\"353\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_1695.jpg 353w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/IMG_1695-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 353px) 100vw, 353px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17235\" class=\"wp-caption-text\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Ana Luiza Tavares<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>OS REINOS DA CHUVA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma noite quente naquele apartamento do outro lado da cidade e eu estava deitado sobre o sof\u00e1 que ela havia comprado uma semana antes &#8211; o sof\u00e1 macio, de vinil preto, dividido em doze vezes no cart\u00e3o. Pensava no conto que teria que escrever para uma revista. O prazo estava perto de acabar e eu ainda n\u00e3o tinha conseguido um \u00fanico par\u00e1grafo. As coisas muitas vezes parecem mais complicadas quando se tem um prazo. Na tev\u00ea passava um faroeste. Dois sujeitos, um de frente para o outro, no meio de uma rua empoeirada, com as m\u00e3os sobre os seus coldres, \u00e0 espera de um sinal. Talvez se eu fumasse o baseado que tinha no bolso as ideias come\u00e7assem a vir e a hist\u00f3ria ganhasse forma e eu conseguisse finaliz\u00e1-la a tempo. O problema era que ela n\u00e3o gostava do cheiro. Por conta disso, eu teria que ir at\u00e9 a pra\u00e7a l\u00e1 embaixo, escolher um dos bancos que ficavam meio escondidos pela sombra das \u00e1rvores e fazer tudo muito r\u00e1pido, na esperan\u00e7a de que n\u00e3o aparecesse qualquer carro de pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos sujeitos na tev\u00ea era louro, alto e tinha uma estrela no peito. O outro era s\u00f3 um mexicano com o seu chap\u00e9u redondo e as suas roupas sujas e o seu sorriso era o sorriso de quem n\u00e3o tinha muito a perder. Talvez estivesse b\u00eabado. De repente, ele puxou a arma e a apontou para o cara com a estrela no peito. Antes que conseguisse atirar, recebeu dois tiramba\u00e7os e caiu estatelado no ch\u00e3o. E ent\u00e3o, vinda do saloom e das casas ao redor, uma multid\u00e3o come\u00e7ou a se formar em volta do seu corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O que \u00e9 isso, F\u00f3fis? &#8211; ela perguntou, segurando uma vasilha com pipocas na m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; A vida &#8211; respondi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o seria a morte?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; As duas. \u00c0s vezes as duas se misturam e viram uma coisa s\u00f3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela jogou um punhado de pipocas para dentro da boca e ficou a me olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; O que ele fez para ser morto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Era mexicano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; S\u00f3&#8230; O nome desse loiro com a arma na m\u00e3o \u00e9 Randolph Scott. Tenho um amigo que \u00e9 f\u00e3 dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bonit\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Dizem que era gay. Mantinha um caso com outro famoso. N\u00e3o lembro o nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o deve ser verdade, F\u00f3fis. Olha s\u00f3 pra ele, olha para o jeito dos ombros, dos bra\u00e7os. Posso colocar a m\u00e3o no fogo por um homem assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Escuta, n\u00e3o quero ser chato nem nada, mas n\u00e3o gostei desse apelido que me deu. Prefiro que me chame pelo nome, se n\u00e3o se importar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tudo bem, eu n\u00e3o me importo. Tem certeza de que quer assistir isso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o. Vou descer para fumar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Vai l\u00e1 na pra\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea se n\u00e3o demora. Fico preocupada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era ge\u00f3loga, mexia com pedras, mat\u00e9ria morta, tinha um gato que \u00e0s vezes desaparecia e, tempos antes, numa noite feito aquela, foi at\u00e9 o quarto e voltou com uma caixa enorme, de onde tirou duas facas, uma ta\u00e7a de metal e uma por\u00e7\u00e3o de cartas com desenhos estranhos. Jogou tudo sobre a mesa, acendeu dois incensos e disse que a minha alma era velha e teimosa e que eu precisava evoluir. Disse ainda que a minha vibra\u00e7\u00e3o tinha uma tonalidade verde escuro ou azul, o que poderia significar uma infinidade de coisas. Eu gostava dela, mas achava aquilo chato e com o passar do tempo tudo come\u00e7ou a soar exagerado, como se fosse uma esp\u00e9cie de resgate entre n\u00f3s dois. Nos encontr\u00e1vamos apenas para trepar, comer e assistir tev\u00ea, sendo que cada vez mais com\u00edamos e assist\u00edamos tev\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em vez de descer, fui at\u00e9 a cozinha e abri a geladeira. Havia uma lata de Malzebier escondida na parte dos tomates. Me sentei num banquinho ao lado do fog\u00e3o e acendi um cigarro. Dei grandes goles e longos tragos. Por um instante, fechei os olhos e tentei me imaginar longe dali, talvez nadando em uma piscina aquecida, comendo profiterolis numa sacada de frente para o mar, andando de bicicleta em alguma paragem sagrada e especial. Por algum motivo, n\u00e3o consegui. Abri novamente os olhos e enxerguei, atrav\u00e9s do basculante na cozinha, o reflexo das luzes l\u00e1 fora &#8211; as luzes de ilh\u00e9us, a cidade em que nasci e continuava a viver. Pensei que \u00e0quela hora, em alguma outro lugar, algu\u00e9m talvez compreendesse tudo o que lhe acontecia e at\u00e9 se sentisse feliz. Algu\u00e9m que n\u00e3o ficasse o tempo inteiro se perguntando o que cada coisa poderia significar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela havia mudado de canal quando voltei. Os cabelos negros ca\u00edam sobre o sof\u00e1 e suas pernas morenas se esticavam at\u00e9 a mesinha de centro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; T\u00f4 indo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Pensei que j\u00e1 estivesse voltando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; T\u00f4 indo pra casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ela se virou e ficou a me olhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Est\u00e1 chateado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; N\u00e3o. Tenho que entregar um texto at\u00e9 amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Escreve ele aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Deixei o rascunho em casa. Melhor eu ir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caminhei at\u00e9 a porta e ela me seguiu. Nos beijamos. Sua boca tinha gosto de manteiga e sal. Havia qualquer coisa diferente no seu olhar. Como se soubesse que aquela seria a \u00faltima vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sa\u00ed do pr\u00e9dio, caminhei at\u00e9 o fusca, dei a partida nele e coloquei uma m\u00fasica para tocar. Era Kingdons Of Rain, de Mark Lanegan. Ao meu redor, a cidade adormecia, uma e outra janela acesa, e por um momento me pus a imaginar as hist\u00f3rias que aquelas janelas guardavam e tornei a acreditar em belos e intermin\u00e1veis amores e pensei em como tudo pode ser bonito e intoc\u00e1vel quando a gente realmente precisa ou quer. Repentinamente, lembrei do nome do outro ator, mas j\u00e1 n\u00e3o importava mais. Tanto ele, quanto as cartas de tar\u00f4 e o sof\u00e1 de vinil haviam ficado para tr\u00e1s. Naquele instante, eu era apenas aquele sujeito a cruzar a cidade dentro do seu fusca bege, acendendo um baseado, calculando que talvez uma hora todas as coisas fizessem sentido e que bastava n\u00e3o desistir. Bastava peitar a fera e continuar, neblina adentro, at\u00e9 a vista clarear. E foi assim que segui: escutando a voz triste e rasgada de Mark Lanegan e sentindo que a cada tragada e a cada metro que o fusca vencia, eu me transformava em um homem mais livre, mais perto da verdade, e, por isso, um homem tamb\u00e9m melhor. E pensar aquilo me fez um enorme bem. E eu ent\u00e3o comecei a sorrir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<blockquote><p><strong><em>Rodrigo Melo<\/em><\/strong><em> vive em Ilh\u00e9us, no sul da Bahia, e \u00e9 autor de Riviera, romance prestes a ser lan\u00e7ado pela Editora Mondrongo.\u00a0<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Retalhos da vida num conto de Rodrigo Melo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17234,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3764,2534],"tags":[81,41,149,991],"class_list":["post-17233","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-135o-leva","category-dedos-de-prosa","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-prosa","tag-rodrigo-melo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17233"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17233\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17236,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17233\/revisions\/17236"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17234"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}