{"id":17333,"date":"2020-06-28T14:26:54","date_gmt":"2020-06-28T17:26:54","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17333"},"modified":"2020-06-29T16:53:50","modified_gmt":"2020-06-29T19:53:50","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-69","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-69\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o carregar os sintomas do mundo. A frase, dita assim num arremedo inicial das ideias, n\u00e3o \u00e9 algo leviana na medida em que todos n\u00f3s, de algum modo, estamos amalgamados ao que se chama de vida real. E pronunciar a palavra mundo, como um complexo e vasto territ\u00f3rio de apreens\u00f5es da experi\u00eancia humana, pode aclarar a compreens\u00e3o dos fen\u00f4menos que dizem respeito ao coletivo. Nesse sentido, enxergar-se como sujeito \u00e9 jamais negar a afeta\u00e7\u00e3o dos temas engendrados no tecido social, na contraposi\u00e7\u00e3o de ideias e sentimentos com os demais semelhantes, no conflito que emana das rela\u00e7\u00f5es entre as mais distintas correntes do pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o basta a mera constata\u00e7\u00e3o de que somos seres pol\u00edticos por natureza, pois \u00e9 necess\u00e1rio dar o passo adiante. Reconhecer-se pol\u00edtico \u00e9 mover as for\u00e7as que v\u00e3o do pensamento \u00e0 a\u00e7\u00e3o, catalisar revolu\u00e7\u00f5es internas e pessoais no sentido de que estas estejam a servi\u00e7o de uma manifesta\u00e7\u00e3o de implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas no conjunto da sociedade. No mister da Literatura, por exemplo, a palavra \u00e9 epifania, gozo, partilha e comunh\u00e3o de ideais que segue ao encontro de um Leitor, por vezes desconhecido, qui\u00e7\u00e1 ensimesmado nas suas convic\u00e7\u00f5es \u00edntimas, mas que pode ser convidado a reagir diante daquilo que lhe \u00e9 apresentado. Obviamente, no jogo das naturais tens\u00f5es entre emiss\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o, h\u00e1 que se considerar a apari\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel de uma plataforma cr\u00edtica que pode apresentar consequ\u00eancias imprevistas originalmente. E a virtude de todo esse processo de enfrentamento pode tamb\u00e9m estar na fa\u00edsca da provoca\u00e7\u00e3o e da d\u00favida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de uma consci\u00eancia agu\u00e7ada de mundo \u00e9 falar de uma escritora como <strong>Clarissa Macedo<\/strong>, poeta investida no percurso l\u00facido da vida. Na conflu\u00eancia de sensa\u00e7\u00f5es, a autora \u00e9 porta-voz de um olhar que se nega a fazer concess\u00f5es diante do avan\u00e7o atual e permanente da barb\u00e1rie que intenta nos devassar. Seu livro mais recente, o instigante \u201cO nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado afli\u00e7\u00e3o\u201d (Ed. Of\u00edcios Terrestres, 2019), \u00e9 tribut\u00e1rio de um painel de sentimentos que se afiguram revestidos de uma express\u00e3o pol\u00edtica e filos\u00f3fica capaz de posicionar os versos na condi\u00e7\u00e3o de pujante interpela\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Clarissa, que tamb\u00e9m \u00e9 revisora, pesquisadora e doutora em Literatura e Cultura, faz de sua poesia um instrumento de a\u00e7\u00e3o, demandando de seus leitores uma atitude jamais passiva quando o tema \u00e9 pensar as quest\u00f5es que afetam sobejamente nossas humanidades. E n\u00e3o h\u00e1, no of\u00edcio da poeta, verso algum que corra solto, dizendo algo por dizer, sem a correspond\u00eancia com uma habilidade de manejar tanto os dom\u00ednios formais da palavra quanto as ideias e sensa\u00e7\u00f5es em curso. Dito isso, n\u00e3o \u00e9 demais considerar que a autora \u00e9 uma das importantes vozes da literatura brasileira contempor\u00e2nea, qualifica\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m pode ser aferida pela leitura das suas outras obras: a plaquete \u201cO trem vermelho que partiu das cinzas\u201d (Ed. Pedra Palavra, 2014) e o livro \u201cNa pata do cavalo h\u00e1 sete abismos\u201d (Ed. 7Letras, 2014), que obteve o Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia, tendo, em 2019, sua 3\u00aa reimpress\u00e3o pela Penalux, al\u00e9m de ser traduzido ao espanhol por Ver\u00f3nica Aranda (editorial Polibea, Madrid, 2017).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atenta \u00e0s indaga\u00e7\u00f5es que lhe foram ofertadas, Clarissa Macedo concedeu gentilmente uma entrevista para a Diversos Afins. No transcurso da conversa, a obra da poeta esteve em evid\u00eancia, demarcando de modo especial a vis\u00e3o de mundo dotada de uma dic\u00e7\u00e3o intelectual que harmoniza intelig\u00eancia e sensibilidade, ferramentas indispens\u00e1veis inclusive na reflex\u00e3o sobre alguns dilemas da contemporaneidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_17337\" aria-describedby=\"caption-attachment-17337\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/interna-01.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17337 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/interna-01.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/interna-01.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/interna-01-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/interna-01-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17337\" class=\"wp-caption-text\">Clarissa Macedo \/ Foto: Ana Reis<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar do seu novo livro sem primeiro ressaltar essa verdadeira cartografia dos afetos que foi constru\u00edda ao longo de sua trajet\u00f3ria, sobretudo em cima dos la\u00e7os estabelecidos atrav\u00e9s da grande rede. Some-se a isso o fato de voc\u00ea tamb\u00e9m dedicar a obra a expoentes da resist\u00eancia feminina e negra, tais como Carolina Maria de Jesus e Elza Soares. O que dizer desse conjunto inicial de sentimentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Michel Maffesoli fala que \u00e9 preciso voltarmos ao cora\u00e7\u00e3o. Ideia esta, acredito, alojada sob uma episteme que demanda \u00e0 humanidade reinventar-se, atrav\u00e9s do amor, para existir. Eu compartilho desta no\u00e7\u00e3o. A literatura \u00e9 meu modo de estar e me reconhecer no mundo; sempre foi assim e o \u00e9 cada vez mais. Nesta exist\u00eancia por meio do liter\u00e1rio tenho colhido mais alegrias do que qualquer outra coisa. Nesse sentido, minha palavra, que em &#8220;O nome do mapa&#8230;&#8221; \u00e9 empregada, sobretudo, como artefato b\u00e9lico contra os desmandos destes tempos, abre-se \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do amor. Todas as pessoas que ali est\u00e3o mencionadas contribu\u00edram de distintas maneiras para a feitura do volume e, assim, para minha exist\u00eancia. N\u00e3o podia deixar de lev\u00e1-las comigo, de agradecer pelas contribui\u00e7\u00f5es afetuosas. Esse conjunto de poemas foi tecido a partir do gesto da inquieta\u00e7\u00e3o que anseia por uma mudan\u00e7a efetiva, que caminha pela sobriedade e que acredita na capacidade da consci\u00eancia como forma de revolu\u00e7\u00e3o. Por isso Carolina, s\u00edmbolo de resist\u00eancia e amor \u00e0 escrita; Elza, maga da m\u00fasica de todos os tempos; e Irina Henr\u00edquez, poeta e cineasta da Col\u00f4mbia, pa\u00eds irm\u00e3o com o qual temos muito que aprender &#8211; vozes negras e ind\u00edgenas que precisam ser lidas, ouvidas, respeitadas. Ent\u00e3o, apesar dos tempos de ang\u00fastia que o livro aborda, o ch\u00e3o dele \u00e9 arado pelo movimento do afeto. \u00c9 necess\u00e1rio guerrear com flores nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 emblem\u00e1tica sua \u00faltima frase sobre guerrear com flores nas m\u00e3os, ainda mais no estado de coisas atual em que vivemos. Diante de um pa\u00eds e mundo cada vez mais dist\u00f3picos, o que representa a sua assun\u00e7\u00e3o de praticar uma literatura marginal?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>A literatura \u00e9, por si s\u00f3, marginal. Por isso cumprir este caminho como tenho feito &#8211; estudando, pensando e optando por uma carreira profissional (a de revisora) que est\u00e1 ligada \u00e0 palavra &#8211; requer coragem. Escrever \u00e9 contornar o mundo com uma faca que grafa sentidos e dissid\u00eancias; \u00e0s vezes d\u00f3i, quase sempre sangra, pois na Terra o capitalismo domina todas as esferas: social, econ\u00f4mica, afetiva, pol\u00edtica. Coisa mais esquisita \u00e9 a express\u00e3o &#8220;capital humano&#8221;, que me recorda Antonio Candido quando este diz que \u201cO capitalismo \u00e9 o senhor do tempo. Mas tempo n\u00e3o \u00e9 dinheiro. Dizer que tempo \u00e9 dinheiro \u00e9 uma brutalidade. Tempo \u00e9 o tecido de nossas vidas\u201d. Acessar a literatura \u00e9 manejar a descoberta, a separa\u00e7\u00e3o entre T\u00e2natos e Cronos, \u00e9 celebrar a vida em sua dimens\u00e3o mais profunda, a dimens\u00e3o humana, rejeitando o projeto perverso de capitalizar a humanidade. &#8220;O nome do mapa&#8230;&#8221; \u00e9, nesses termos, o resultado de minha obsess\u00e3o em cartografar a palavra po\u00e9tica como resist\u00eancia \u00e0 necropol\u00edtica &#8211; algo totalmente descentrado. Mas quem se importa? Como este livro escrito por uma mulher baiana com cheiro de f\u00e1brica pode incomodar o deus mercado? Eu poderia falar sobre o meio editorial e tantas outras coisas, mas s\u00f3 digo que se meu livro puder oferecer a algu\u00e9m uma alternativa ao &#8220;capital humano&#8221;, algum tipo de devassamento de fronteiras, tudo valer\u00e1 a pena.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Fazendo alus\u00e3o ao sentimento que atravessa um poema como &#8220;Desconhecida&#8221;, a constata\u00e7\u00e3o do tempo com status de afli\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeiro desabafo. Acredita na ruptura de nossa in\u00e9rcia estrutural a ponto de podermos mudar as coisas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>No poema, &#8220;as utopias acabaram em nome da televis\u00e3o&#8221;, entrecruzadas pelo desencantamento, anunciado por Weber como resultado do avan\u00e7o do capital para todas as rela\u00e7\u00f5es &#8211; e destaco a esfera religiosa institucionalizada, que seria respons\u00e1vel, a princ\u00edpio, pela perpetua\u00e7\u00e3o da espiritualidade. No sistema regido pelo financeiro, o sagrado, o sonho, o rito, a poesia, em seu sentido mais pleno, n\u00e3o t\u00eam lugar. Esvaziar estas categorias \u00e9 roubar do ser humano a sua identidade, deixando-o \u00e0 merc\u00ea do consumo da mat\u00e9ria como forma de preenchimento, forma esta incompleta e desabitada e, por isso mesmo, mantenedora do sistema, pois se nunca encontra verdade e raz\u00e3o, nunca se satisfaz, comprando e comprando para aliviar uma dor que nem sabe que sente. Ruir com toda essa arquitetura bem projetada \u00e9 um desafio sem precedentes, sobretudo quando vemos partidos de extrema-direita, defensores do ultracapital, ressurgirem, ganhando espa\u00e7o no mundo. Por outro lado, isto \u00e9 reflexo de um maquin\u00e1rio que se sabe prestes a ruir, j\u00e1 que o planeta n\u00e3o poder\u00e1 seguir caso a explora\u00e7\u00e3o continue do modo como est\u00e1. Para que possamos sobreviver, precisaremos nos reinventar, e para isto a humanidade \u00e9 qualificada. \u00c9 frustrante que n\u00e3o mudemos pelas raz\u00f5es certas, por uma \u00e9tica ecol\u00f3gica e do amor. Mas, talvez, a sobreviv\u00eancia nos ensine, al\u00e9m de sua pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a sermos mais solid\u00e1rixs.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17338\" aria-describedby=\"caption-attachment-17338\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-02-Foto-Ana-Reis.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17338 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-02-Foto-Ana-Reis.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-02-Foto-Ana-Reis.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-02-Foto-Ana-Reis-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-02-Foto-Ana-Reis-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17338\" class=\"wp-caption-text\">Clarissa Macedo \/ Foto: Ana Reis<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em seu livro &#8220;O Amanh\u00e3 n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 venda&#8221;, o escritor e l\u00edder ind\u00edgena Ailton Krenak nos lan\u00e7a uma importante provoca\u00e7\u00e3o, fazendo-nos questionar a n\u00f3s mesmos se somos realmente uma humanidade diante dos maus tratos impostos \u00e0 natureza e da amplia\u00e7\u00e3o atroz das desigualdades sociais. Acredita que estamos experimentando um largo processo de desumaniza\u00e7\u00e3o em escala global?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Desde sempre nos desumanizamos (ou nos humanizamos?) atrav\u00e9s da barb\u00e1rie. Entretanto, com a no\u00e7\u00e3o de propriedade, que se estende \u00e0 mulher, ao\u00a0<em>outro\u00a0<\/em>e \u00e0 natureza como objetos manej\u00e1veis e subservientes, que perdem o\u00a0<em>status\u00a0<\/em>de ser, o processo de desumanizar-se foi intensificado. E s\u00e3o estas no\u00e7\u00f5es\/pr\u00e1ticas que fundamentam o imperialismo e o capital. Portanto, o que vivemos hoje \u00e9 um processo h\u00e1 muito iniciado, mas potencializado agora porque quanto mais se aprimoram a tecnologia e as ci\u00eancias mais estas escapam de uma bio\u00e9tica para serem empregadas em nome da domina\u00e7\u00e3o. Os povos ind\u00edgenas vivenciam isso desde que suas terras foram invadidas por navegadores. Hodiernamente, tudo isso espanta porque, ap\u00f3s duas severas Guerras Mundiais e tantas outras de independ\u00eancia, al\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, dentre outras quest\u00f5es, sup\u00f4s-se que hav\u00edamos aprendido algo; enquanto n\u00e3o descobrirmos a verdadeira matriz do hibridismo cultural, vendido como cosmopolita, mas que, ao fim e ao cabo, serve para a manuten\u00e7\u00e3o da coloniza\u00e7\u00e3o (mental, e por isso simb\u00f3lica e factual ao mesmo tempo), e nos centrarmos numa vis\u00e3o de mundo ecocr\u00edtica, geopo\u00e9tica, inclusiva, caminharemos rumo \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o, ao desumanizado porque extinto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Estarmos imersos hoje num contexto de pandemia exp\u00f4s mais ainda nosso fracasso civilizat\u00f3rio?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>O que direi agora soar\u00e1 como contrassenso se comparado \u00e0s respostas anteriores: n\u00e3o posso admitir que fracassamos, ao menos n\u00e3o totalmente. A pandemia tem exposto, sim, especialmente no caso &#8220;Brazil&#8221;, uma fei\u00e7\u00e3o genocida que parecia irreme\u00e1vel p\u00f3s-Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988 e tantos outros avan\u00e7os globais significativos. Mas c\u00e1 estamos, sob um governo preocupado com a abertura de shoppings centers (templo-\u00edcone do capital) em detrimento da preserva\u00e7\u00e3o da vida. Mesmo assim, creio ser poss\u00edvel sacarmos uma li\u00e7\u00e3o valiosa disso tudo &#8211; e para tanto temos a arte, que, al\u00e9m de grande manifesto sobre esta era (seja no vi\u00e9s pol\u00edtico mais imediato, seja na pung\u00eancia que debilita o humano, seja, ainda, como reino-ref\u00fagio), propicia a cria\u00e7\u00e3o de dimens\u00f5es imagin\u00e1rias que podem instituir uma nova cidadania. Permita-me trazer \u00e0 baila um pequeno poema de &#8220;O nome do mapa&#8230;&#8221;:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Prece<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na vida,<br \/>\naprendi os salmos perdidos;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">s\u00e3o eles que me pegam<br \/>\nquando o continente<br \/>\ncobre os meus olhos<br \/>\nde deserto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a literatura \u00e9, tamb\u00e9m, isso, uma acolhida quando o in\u00f3spito parece ser o \u00fanico plano sond\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em que n\u00edvel voc\u00ea carrega em si o atributo do otimismo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Deleuze alerta que migramos da sociedade disciplinar para uma de controle. E, apesar de a engrenagem do capital ser uma obra-prima do ponto de vista propagandista e como sistema de domina\u00e7\u00e3o, o pan-\u00f3ptico n\u00e3o transita imune. H\u00e1, nesse aspecto, uma rea\u00e7\u00e3o, um retorno ao sagrado, ao simb\u00f3lico, a um estado de poesia, ou seja, uma rejei\u00e7\u00e3o ao numer\u00e1rio como forma predominante da exist\u00eancia, delineando a urg\u00eancia de um reencantamento. Concep\u00e7\u00f5es como o veganismo e a crescente de religi\u00f5es, em linhas gerais, de matriz pante\u00edsta demonstram uma demanda pelo tel\u00farico, o seio original de tudo o que pulsa no planeta. Reencantar-se entrecruza, desse modo, a natureza, a arte e a reapropria\u00e7\u00e3o do tempo, n\u00e3o mais a servi\u00e7o do ac\u00famulo monet\u00e1rio e explora\u00e7\u00e3o. A vida, em sua defini\u00e7\u00e3o concreta e inteira, passa a ser prioridade. O reencantamento \u00e9 esperan\u00e7a: &#8220;\u00c0s vezes, \/\u00a0fabricamos finais do mundo \/\u00a0sonhando com o pr\u00f3ximo passo.&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17339\" aria-describedby=\"caption-attachment-17339\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-03-Foto-Ingridy-Lima.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17339 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-03-Foto-Ingridy-Lima.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-03-Foto-Ingridy-Lima.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-03-Foto-Ingridy-Lima-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/imagem-03-Foto-Ingridy-Lima-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17339\" class=\"wp-caption-text\">Clarissa Macedo \/ Foto: Ingridy Lima<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Qual a diferen\u00e7a da Clarissa de &#8220;Na pata do cavalo h\u00e1 sete abismos&#8221; para a Clarissa de &#8220;O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado afli\u00e7\u00e3o&#8221;?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Toda a diferen\u00e7a (risos) &#8211; embora eu mantenha certa identidade de escrita. &#8220;Na pata do cavalo&#8230;&#8221; me parece um livro pol\u00edtico; n\u00e3o apenas na acep\u00e7\u00e3o de que toda literatura \u00e9, em si, um ato pol\u00edtico-revolucion\u00e1rio, mas pela abordagem de temas como a dureza vivida na minha inf\u00e2ncia &#8211; e na de tantas pessoas -, o preconceito e o abandono das institui\u00e7\u00f5es. E nisto ambas produ\u00e7\u00f5es comungam. Contudo, estas discuss\u00f5es no livro anterior est\u00e3o sob a pele de uma met\u00e1fora mais incisiva e sob o signo da palavra em uma cariz mais velada. Hoje, sou capaz de reconhecer estes tra\u00e7os, incompreens\u00edveis \u00e0 \u00e9poca de feitura &#8211; uma composi\u00e7\u00e3o na qual eclodiram v\u00e1rias centelhas que h\u00e1 muito se resguardavam em meu peito. Agora sou outra poeta. Em &#8220;O nome do mapa&#8230;&#8221; optei (inconscientemente, talvez, do ponto de vista est\u00e9tico) por um discurso mais direto, mas n\u00e3o menos imag\u00e9tico, e por um debate imediatamente pol\u00edtico. Desde o golpe de 2016, coroado pelo machismo consentido nas instala\u00e7\u00f5es governamentais, passando pela ocupa\u00e7\u00e3o da extrema-direita e desembocando numa ferida quase que total das estruturas democr\u00e1ticas nacionais, tenho sido atravessada pela indigna\u00e7\u00e3o. E este foi o motor da po\u00e9tica dos mapas. Mesmo nos poemas mais l\u00edricos e amenos, por assim dizer, \u00e9 o traje da tentativa de escape e sobreviv\u00eancia que me veste. A condi\u00e7\u00e3o da classe economicamente desfavorecida no Brasil, minha origem, est\u00e1 devassada no livro. Vou costurando os impostos abusivos, a fome, as injusti\u00e7as, a derrocada da democracia&#8230; at\u00e9 chegar ao \u00edmpeto de recontar a hist\u00f3ria brasileira &#8211; \u00e9 necess\u00e1rio voltar ao in\u00edcio para entender os entre-meios. Admiro autorias que se diferenciam em cada obra mas mant\u00eam uma unidade po\u00e9tico-vocal. Isto \u00e9 algo que almejo obstinadamente ao construir um trabalho. O pr\u00f3ximo livro de poemas que estou tecendo apresenta uma voz completamente distinta da presente nos anteriores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seria insuport\u00e1vel conceber a realidade sem a Arte?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio pensar no que &#8220;aparta&#8221; a realidade da fic\u00e7\u00e3o. Muitxs autorxs\u00a0versaram sobre o tema. Umberto Eco, dentre outros, questiona o que diferencia o universo ficcional (art\u00edstico) da verdade hist\u00f3rica. Isto me conduz a refletir sobre o conceito de verdade. Nietzsche me toma pela m\u00e3o em sua &#8220;Segunda considera\u00e7\u00e3o intempestiva&#8221; para questionar a hist\u00f3ria e sua defini\u00e7\u00e3o ao longo do tempo. S\u00e3o diversos pontos de di\u00e1logo e indaga\u00e7\u00e3o. Marcia Tiburi, no pref\u00e1cio de &#8220;O nome do mapa&#8230;&#8221;, escreveu: &#8220;Eu vou me permitir dar livremente esse nome simples e conhecido ao sentimento que emana dos poemas de Clarissa: Luz.\u00a0<em>Alguma coisa em n\u00f3s pede essa luz, a luz da poesia como um voo de vagalume no meio do breu.<\/em>&#8221; (Grifos meus). Para mim, n\u00e3o s\u00f3 a poesia, mas toda a arte constitui algo que redimensiona e potencializa o que chamamos de realidade &#8211; este fio t\u00eanue entre a dita raz\u00e3o e a dita loucura -, guiando-nos com um facho em meio \u00e0 desesperan\u00e7a. A f\u00edsica qu\u00e2ntica indica que o tempo e o espa\u00e7o como timidamente conhecemos s\u00e3o mais expansivos e enigm\u00e1ticos. O ponto, para n\u00e3o me alongar, \u00e9: estamos longe de saber o que s\u00e3o, ao certo, realidade e fic\u00e7\u00e3o. O que sei, contudo, \u00e9 que a arte, enquanto aparato est\u00e9tico-narrativo&#8230;, por fomentar um suprafactual e por dar significado \u00e0 vida e \u00e0 hist\u00f3ria de maneira ampla e surpreendente, torna a exist\u00eancia mais sens\u00edvel e instigante. Seria insuport\u00e1vel um tipo de realidade sem arte porque esta confunde-se com a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>CLARISSA MACEDO &#8211; <\/strong>Afinal, por que viver?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 ca\u00f3tico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no mundo como editor, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os percursos liter\u00e1rios e mundanos, uma entrevista com a poeta Clarissa Macedo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3798,16,2539],"tags":[414,63,137,17,65],"class_list":["post-17333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-136a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-clarissa-macedo","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-poesia","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17333","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17333"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17333\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17341,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17333\/revisions\/17341"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17333"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17333"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17333"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}