{"id":17342,"date":"2020-06-28T16:51:40","date_gmt":"2020-06-28T19:51:40","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17342"},"modified":"2020-06-29T16:53:53","modified_gmt":"2020-06-29T19:53:53","slug":"dedos-de-prosa-i-71","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-71\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Viviane de Santana Paulo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17344\" aria-describedby=\"caption-attachment-17344\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-25.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17344 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-25.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-25.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-25-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-25-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17344\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Roberto Pitella<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Chamam-no de coronav\u00edrus<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">E eis que o mundo parou em mar\u00e7o de 2020! E precisamos manter dist\u00e2ncia uns dos outros e permanecer isolados dentro de nossas casas como em pris\u00f5es domiciliares. As ruas est\u00e3o sem os autom\u00f3veis, as cal\u00e7adas sem os transeuntes, o com\u00e9rcio sem os compradores, os escrit\u00f3rios sem os executivos, os restaurantes sem os fregueses, as escolas sem os alunos. A imobilidade e o sil\u00eancio despencaram em pingos grossos e r\u00e1pidos sobre as cidades e o vento morno sopra tranquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou sentada a uma min\u00fascula mesa, na pequena sacada do quarto de uma pens\u00e3o simples, em uma capital qualquer dos cento e noventa e tr\u00eas pa\u00edses deste planeta. De pijama, tomo um caf\u00e9 e escrevo no computador. Os voos foram cancelados, n\u00e3o sei quando conseguirei marcar um de volta para o Brasil. Vim a trabalho. Alguns pa\u00edses evacuaram seus cidad\u00e3os. Mas existem pessoas, como eu, que tiveram azar e permaneceram encalhadas em alguma cidade, sem a possibilidade de regresso. Ou porque as cidades est\u00e3o fechadas, isoladas, e elas n\u00e3o conseguem chegar at\u00e9 o aeroporto. Ou porque os voos foram cancelados. Ficar presa em um quarto de pens\u00e3o, em frente a uma larga avenida, com o verde fresco das \u00e1rvores farfalhando, n\u00e3o \u00e9 desesperador. Mas a morte que ronda \u00e0 minha volta. A sorrateira e silenciosa morte que arranca de n\u00f3s nossos entes amados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhum ve\u00edculo transita na avenida. Ambul\u00e2ncias s\u00e3o vistas solit\u00e1rias nas ruas. Choveu anteriormente. Neste instante o sol brilha morno \u00e0s dez e quinze da manh\u00e3, a luz atinge os v\u00ednculos e as superf\u00edcies, e as sombras s\u00e3o mais escuras quando a claridade \u00e9 mais intensa. O c\u00e9u est\u00e1 limpo sobre a cidade s\u00f3rdida, a cidade que n\u00e3o trabalha. Da sacada, se eu olhar para leste a rua \u00e9 chata, sem com\u00e9rcio. Para oeste, as lojas e os escrit\u00f3rios est\u00e3o fechados. Alguns metros adiante o Mercado ergue sua c\u00fapula sobre as barracas vazias que possuiriam mercadorias \u00e0 venda, as carnes, os legumes, os peixes, as especiarias nacionais e internacionais. Caminhando para o ocidente encontrariam-se muitas pessoas nos restaurantes, bares e teatro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo parou e, voc\u00ea sabe, Noa, n\u00e3o foi porque a Humanidade finalmente reconheceu aquilo que fazia de mais errado e imobilizou-se para recome\u00e7ar, corrigindo as desnecess\u00e1rias injusti\u00e7as e construindo uni\u00e3o! Inclusive, especialistas alegam que devemos aproveitar esta interrup\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria e abrupta e tentar realmente diminuir as injusti\u00e7as, buscar a cumplicidade e a irmandade. Alegam que o capitalismo infrene adoece as sociedades, cada vez mais. Prejudica a Natureza. Que dever\u00edamos criar uma nova forma de crescimento e redistribui\u00e7\u00e3o de riquezas e de garantias de recursos b\u00e1sicos para todos. Que necessitamos desenvolver uma economia renov\u00e1vel e humana, para n\u00e3o disseminar injusti\u00e7as sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas sabemos, n\u00e3o foi por causa da conscientiza\u00e7\u00e3o dos povos que o mundo parou! As na\u00e7\u00f5es conheciam os seus erros e continuaram desenvolvendo \u00e1vidas produtos de consumo descart\u00e1veis e in\u00fateis, e incentivavam o irrefre\u00e1vel crescimento econ\u00f4mico \u00e0 custa de determinada camada da sociedade e de certos pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, al\u00e9m disso, querido, a vida moderna com os amplos meios de comunica\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m incentivava as amizades como a nossa: somente pelo whatsapp e facebook. Sem tempo para o encontro pessoal e para a conversa profunda sobre a vida, as conquistas, as decep\u00e7\u00f5es, os planos e os desejos. Voc\u00ea \u00e9 um dos meus in\u00fameros amigos superficiais que orbitam na minha vida como sat\u00e9lites que enviam constantes mensagens sup\u00e9rfluas: v\u00eddeos, dizeres, piadas, fake news.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s nos conhecemos em uma festa. Lembra? Conversamos, dan\u00e7amos juntos, comemos. Combinamos sair para jantar e fomos ao cinema e sa\u00edmos de novo para jantar e, naquela noite, acabamos na minha cama. Lembra? Eu poderia ter te amado quando minha boca sugou a carne de teus l\u00e1bios, minhas pernas cruzaram o teu quadril, quando nossos corpos se encaixaram. Voc\u00ea a chave eu a fechadura. Lembra? Fomos a troca de carinhos e segredos, instinto e esp\u00edrito. Naquele momento, permiti que voc\u00ea entrasse na minha vida como se voc\u00ea pudesse ser a outra metade de mim, me refazendo, me protegendo. Querido, eu quase te amei, mas voc\u00ea n\u00e3o viu nenhuma vantagem no doar-se.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde ent\u00e3o, nos comunicamos pelo whatsapp. E voc\u00ea j\u00e1 deve ter se dado conta que nos encontramos apenas raras vezes, casualmente, em algum evento ou em bares frequentados por amigos em comum. Trocamos sorrisos e frases sucintas sobre temas irrelevantes. Claro, somos adultos! Estou com trinta e quatro anos e continuo trabalhando para uma ind\u00fastria farmac\u00eautica, como representante de medicamentos para hospitais, e viajo muito \u2013 quer dizer, viajava. E voc\u00ea, com trinta e oito, deve ainda estar trabalhando na \u00e1rea de inform\u00e1tica. E sem poder viajar. Era comum as pessoas viajarem a trabalho dentro e fora do pa\u00eds, viajavam por tudo quanto \u00e9 canto o tempo todo! N\u00e3o \u00e9?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de o mundo parar, ningu\u00e9m possu\u00eda tempo, n\u00e3o \u00e9 verdade? Havia uma for\u00e7a maior que nos obrigava a usar o nosso tempo livre para fazer compras, ir a bares e restaurantes cheios de gente e postar as fotos no facebook, Instagram, twitter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora o mundo parou e somos obrigados a refugiarmos no interior de nossas casas. Como se aceit\u00e1ssemos o convite da Pampin\u00e9ia, em Decamer\u00e3o. Estamos confrontados com esta realidade que nos proporciona tempo e sil\u00eancio, mas n\u00e3o somos capazes de desenvolver uma narra\u00e7\u00e3o honesta e substancial para os nossos dias e para o nosso futuro. Creio que precisamos de um novo vocabul\u00e1rio que inclua todas as boas caracter\u00edsticas humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora a ordem \u00e9 isolar-se, como se tivesse existido a proximidade entre n\u00f3s. Como se tivesse existido o di\u00e1logo. Como se cada um n\u00e3o lutasse por si. Como se, de novo, o nacionalismo e o ego\u00edsmo e a gan\u00e2ncia n\u00e3o estivessem se expandindo r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 proibido o amontoado nas pra\u00e7as, nos shoppings, nos restaurantes, nos cinemas, nas festas, nos concertos e shows, nos est\u00e1dios de futebol\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viv\u00edamos amontoados, mas n\u00e3o viv\u00edamos realmente uns com os outros. Viv\u00edamos sufocados nos congestionamentos, nas filas, submetidos aos ru\u00eddos, ocupados com in\u00fameras futilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de o mundo cessar era dif\u00edcil respeitarmos a Natureza, conhecermos nossos verdadeiros amigos, nos dedicarmos aos nossos parentes.\u00a0 A lei era trabalhar e consumir. Viv\u00edamos incorporados na massa, conduzidos pela massa, auto-protegidos e aliviados na massa. Cegamente obedientes e multiplic\u00e1veis na massa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, voc\u00ea me dir\u00e1: \u201cM\u00e1rcia, somos seres sociais e necessitamos dos outros, da multid\u00e3o, do ru\u00eddo, da confus\u00e3o\u201d. E eu te respondo: Mas de que maneira? De que maneira eu preciso de voc\u00ea? Penso que poder\u00edamos realmente dialogar e nos conhecermos a ponto de nos importarmos um com o outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora estamos solit\u00e1rios, cada um consigo mesmo, e n\u00e3o existe nada mais solit\u00e1rio do que estarmos sem o outro de n\u00f3s, sem o outro semelhante, sem o confronto com o diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os animais aproveitam a falta de humanos espalhados e invadem as cidades. Leio nos jornais, na internet, sobre casos de raposas passeando nas pra\u00e7as, no final da tarde. Cabras, que se limitavam nas montanhas, excursionam pelas cal\u00e7adas e ruas desabitadas e experimentam a culin\u00e1ria das plantas nos jardins das casas. Golfinhos curiosos fazem turismo nos canais de Veneza. Gansos e flamingos banham-se nos lagos urbanos. Leio sobre o ar purificado do planeta. A alta emiss\u00e3o de g\u00e1s carb\u00f4nico sufocava a Terra. A camada de oz\u00f4nio igualava-se a um casaco velho, rasgado e cheio de buracos. J\u00e1 n\u00e3o servia para nos proteger dos raios ultravioletas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recebi v\u00e1rios v\u00eddeos mostrando os vizinhos cantando nas sacadas dos pr\u00e9dios. Voc\u00ea tamb\u00e9m deve ter recebido! Alguns s\u00e3o cantos improvisados, outros verdadeiros concertos acompanhados de instrumentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00e9 me dir\u00e1: \u201cM\u00e1rcia, isso \u00e9 um gesto de solidariedade indispens\u00e1vel neste tempo. Revela que somos unidos tamb\u00e9m em momentos dif\u00edceis e procuramos consolar uns aos outros!\u201d. Eu te pergunto, por que n\u00e3o podemos ser sempre assim solid\u00e1rios? H\u00e1 muitos vizinhos que nem sequer se cumprimentam! N\u00e3o \u00e9 verdade que todos n\u00f3s possu\u00edmos nossas dificuldades e precisamos, em algum momento, de gestos de solidariedade e consolo e n\u00e3o recebemos? Em vez disso somos demitidos, humilhados, recebemos sal\u00e1rios insuficientes, estacionamos na vaga de idosos ou pegamos a vaga de algu\u00e9m, furamos a fila, cobramos mais caro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me entenda mal, Noa, apenas desejo que os gestos sejam sinceros e frequentes, mesmo depois de n\u00e3o existir mais raz\u00e3o para o mundo parar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz dez dias que o mundo parou e a primeira medida tomada pelos pa\u00edses ricos foi adotar a pronta ret\u00f3rica b\u00e9lica e fechar as fronteiras: <em>estamos em guerra contra um inimigo invis\u00edvel<\/em>, disseram os pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho em conjunto \u00e9 dif\u00edcil. Unir-se diante de uma amea\u00e7a comum e ap\u00e1trida, diante de um inimigo microsc\u00f3pico que n\u00e3o faz distin\u00e7\u00e3o de nacionalidade, fronteira, cor ou classe, parece ser dif\u00edcil. Surge a desconfian\u00e7a do outro, o outro passa a ser o disseminador de um v\u00edrus mortal. Eu te pergunto, n\u00e3o \u00e9 estranho que, quando se trata de acordos econ\u00f4micos, o mundo se torna internacional. Por outro lado, quando se trata de acordos humanit\u00e1rios, as fronteiras se fecham e logo adotamos o vocabul\u00e1rio b\u00e9lico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00e1scaras ca\u00edram e as m\u00e1scaras que nos protegem est\u00e3o escassas. T\u00e3o escassas que logo se tornaram uma raz\u00e3o para a pirataria e a corrida vertiginosa pela aquisi\u00e7\u00e3o do precioso artigo. Um pa\u00eds acusa o outro de pagar mais pelas m\u00e1scaras e respiradores cujo contrato de compra j\u00e1 tinha sido fechado. Outros roubam no trajeto de transporte. A Guerra das M\u00e1scaras provocou tens\u00f5es at\u00e9 mesmo entre pa\u00edses aliados tradicionais. Quem oferece uma soma maior, ganha!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entramos na era das m\u00e1scaras. Agora somos obrigados a usar m\u00e1scaras nos supermercados, consult\u00f3rios m\u00e9dicos, dentistas\u2026 mas estas m\u00e1scaras s\u00e3o diferentes daquelas que jamais deixamos de usar. Nunca deixamos de ser um animal racional cheio de m\u00e1scaras apropriadas para distintas situa\u00e7\u00f5es. At\u00e9 mesmo m\u00e1scara para proteger ou ludibriar a n\u00f3s mesmos possu\u00edmos. Somos seres de m\u00e1scaras diversas na nossa fisionomia, no nosso esp\u00edrito. A maioria serve como revestimento da nossa fragilidade, uma esp\u00e9cie de pele grossa que nos protege dos outros e os outros de n\u00f3s. As nossas m\u00e1scaras, que alternadamente usamos, s\u00e3o diferentes destas. Elas n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis, embora algumas pessoas as enxerguem, em alguns casos. As nossas imanentes m\u00e1scaras invis\u00edveis conduzem-nos a crer que n\u00e3o as usamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Penso que n\u00e3o precisamos de m\u00e1scaras, que a nossa intelig\u00eancia pode ir al\u00e9m, que podemos nos desfazer dos instintos primitivos e evoluir em conjunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O inimigo possui a chave e entra sem dificuldade para furtar informa\u00e7\u00e3o e refazer-se, reproduzir-se e destruir a c\u00e9lula. E o corpo torna-se um universo em desequil\u00edbrio. O inimigo nos lembra que somos nada mais do que corpo e alma, limitados e perec\u00edveis. E n\u00e3o somos pe\u00e7a substitu\u00edvel dentro de um sistema de produ\u00e7\u00e3o, embora h\u00e1 quem tente nos fazer ser.\u00a0Somos seres humanos em tudo o que fazemos e podemos \u2014 diz Conf\u00facio \u2014 n\u00e3o se deve tratar o ser humano como se fosse ferramentas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ind\u00fastrias farmac\u00eauticas ainda n\u00e3o criaram um rem\u00e9dio contra esse mal. Ela pr\u00f3pria \u00e9 hip\u00f3crita e c\u00ednica em algumas circunst\u00e2ncias. Sei bem do que falo, trabalho para uma! Transformamos as doen\u00e7as em algo lucrativo. Na lei do mercado capitalista tudo pode ser convertido em compra-venda-lucro. Sem as ind\u00fastrias farmac\u00eauticas, no entanto, n\u00e3o ter\u00edamos os medicamentos. Ela e os investimentos em pesquisas cient\u00edficas s\u00e3o fundamentais. Somente a gan\u00e2ncia e a desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida humana acima do alto lucro s\u00e3o imorais e anti\u00e9ticos. Se os medicamentos s\u00e3o feitos para salvar vidas, pessoas n\u00e3o deveriam morrer por n\u00e3o possuir meios financeiros para a aquisi\u00e7\u00e3o de medicamentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como a Humanidade aprende com as cat\u00e1strofes? Eu diria que depende das sociedades. Algumas procuram mudan\u00e7as prop\u00edcias. As sociedades inst\u00e1veis sucumbem \u00e0 m\u00e1 organiza\u00e7\u00e3o, \u00e0 arraigada corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 falta de recursos. A Humanidade n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea, ela \u00e9 composta de diversas sociedades heterog\u00eaneas em concorr\u00eancia umas com as outras. At\u00e9 que ponto esta concorr\u00eancia \u00e9 primordial? Voc\u00ea j\u00e1 pensou nisso? \u00c9 realmente imprescind\u00edvel o crescimento econ\u00f4mico irrespons\u00e1vel? Ou haveria um outro tipo de crescimento, um crescimento horizontal, regularizado? Um crescimento baseado no respeito, na solidariedade, na prote\u00e7\u00e3o, n\u00e3o seria a chave para o futuro promissor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel responder estas quest\u00f5es aqui, Noa, sem tocar no nome de Adam Smith, na falsa verdade de que o mercado \u00e9 livre e deve ser livre e regulariza-se por si s\u00f3. Sem mencionar a economia peculiar dos povos denominados primitivos. Sem mencionar a destrui\u00e7\u00e3o destas economias em nome do \u201cmercado livre\u201d, que de livre s\u00f3 possui a obedi\u00eancia na vontade e no poder dos mais ricos. Sem mencionar a coloniza\u00e7\u00e3o e a escravid\u00e3o e o imperialismo. Sem mencionar Karl Marx e as ditaduras de esquerda e de direita. Sem mencionar Keyne, Hayek, Ricardo e Friedmann, Polanye e Piketty.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tem espa\u00e7o aqui para toda a evolu\u00e7\u00e3o e as falhas do capitalismo, a sacada \u00e9 pequena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvi na r\u00e1dio, agora h\u00e1 pouco, que as pombas est\u00e3o passando fome nas pra\u00e7as e nas ruas desertas. N\u00e3o h\u00e1 mais restos de alimentos ca\u00eddos no ch\u00e3o. A voz fazia um apelo para n\u00e3o deixarmos as aves definharem assim cruelmente. Coloquei alguns pedacinhos de p\u00e3o no ch\u00e3o da sacada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as pessoas que est\u00e3o morrendo de fome nas favelas, definhando de fome nos pa\u00edses pobres? Passando fome porque o mundo parou em raz\u00e3o de um v\u00edrus que circula propagando nossa mais expansiva fragilidade. Chamam-no de coronavirus, e \u00e9 origin\u00e1rio provavelmente de um mercado de animais selvagens, em Wuhan, na China. Existem animais que n\u00e3o devem ser devorados pelos seres humanos. As pessoas est\u00e3o confinadas em suas casas para se protegerem, para combater a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Mas h\u00e1 aqueles que n\u00e3o possuem casa, que precisam sair de suas pobres moradias para trabalhar, sen\u00e3o morrem de fome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 os mais fr\u00e1geis que os fr\u00e1geis nesta Humanidade fr\u00e1gil!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentada \u00e0 mesa na sacada, n\u00e3o canto. Passarinhos cantam. Estou aqui s\u00f3, neste min\u00fasculo espa\u00e7o, captando o mundo atrav\u00e9s da internet. Penso na minha fam\u00edlia, nos meus amigos, nos meus amores, e escrevo para voc\u00ea que muitas vezes n\u00e3o me responde, muitas vezes n\u00e3o l\u00ea o que escrevo, para te dizer que: precisamos tomar conta tamb\u00e9m de quem toma conta de n\u00f3s. Talvez um dia voc\u00ea entenda isso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Longe do meu pa\u00eds, distante de minha fam\u00edlia, possuo a internet como um transporte no tempo e espa\u00e7o. Com a internet alcan\u00e7o as pessoas pr\u00f3ximas de mim, aquelas que me fazem falta. Com a internet leio sobre os acontecimentos no mundo e as estrat\u00e9gias para a desinforma\u00e7\u00e3o, me informo e combato as desinforma\u00e7\u00f5es que determinados grupos procuram tenazmente inserir em nossa mente para dominar nossas c\u00e9lulas e a partir da\u00ed propagar-se doentiamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamam-no de coronavirus, por\u00e9m, tantos outros v\u00edrus convivem conosco e nos matam, sem que indetifiquemos a verdadeira causa. O v\u00edrus do preconceito, do racismo, da gan\u00e2ncia, da avareza, do \u00f3dio, da desonestidade, da inveja. Matam sem que notemos. Humanos morrem como formigas sob a pesada sola da sand\u00e1lia deste gigante obeso e horrendo. Esses gorgones \u2013 meio humano, meio monstro \u2013 sempre dispostos a liquidar os mais fr\u00e1geis sem a mais \u00ednfima compaix\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu colega de trabalho est\u00e1 na UTI, ele tem 39 anos e \u00e9 pai de tr\u00eas filhos. O mais novo tem dois anos. Tor\u00e7o por ele! Estou preocupada com a minha fam\u00edlia e amigos e triste com todas estas mortes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ah, t\u00e1 bom! Voc\u00ea dir\u00e1 que \u00e9 natural pessoas morrerem de doen\u00e7as. \u201c\u00c9 bom, M\u00e1rcia, porque o planeta est\u00e1 superpulacionado\u201d. N\u00e3o \u00e9? N\u00e3o podemos tirar a vida do outro, mas a doen\u00e7a pode fazer isso por n\u00f3s, para que haja equil\u00edbrio no planeta. Voc\u00ea acredita nisso realmente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trabalho para uma ind\u00fastria farmac\u00eautica, vendo medicamentos que salvam vidas, que liquidam doen\u00e7as. Medicamentos criados pela intelig\u00eancia humana. Voc\u00ea certamente considera natural que a intelig\u00eancia humana crie medicamentos potentes! \u00c9 natural que lutemos pela sobreviv\u00eancia e que busquemos formas dignas de viv\u00eancia e conviv\u00eancia. Por que ent\u00e3o crer que seria natural permitirmos pessoas morrerem para um suposto equil\u00edbrio da Natureza? Desta mesma Natureza que destru\u00edmos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algu\u00e9m bate \u00e0 minha porta. Deve ser o pessoal de limpeza. Deixo a sacada e sigo a abrir a porta. O jovem de pele escura e olhos negros brilhantes deseja limpar o quarto. Conversamos mantendo dist\u00e2ncia de no m\u00ednimo um metro e meio. Vejo sua boca se mover por tr\u00e1s da m\u00e1scara azulada e suas m\u00e3os enluvadas segura um pano. Bom dia, senhora! A senhora quer que eu limpe o quarto?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, por favor! Permito que entre e me refugio de novo na sacada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele faz parte daqueles que n\u00e3o podem se dar ao luxo de ficar em casa. Ele \u00e9 obrigado a se expor ao risco. Sua vida vale menos neste mundo antropof\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muita inciviliza\u00e7\u00e3o neste civilizado mundo aporof\u00f3bico!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que a limpeza do quarto terminou, tomei banho, me vesti e almocei na sacada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As horas se esva\u00edram, a claridade do dia est\u00e1 minguando, e me sinto asfixiada. N\u00e3o \u00e9 de hoje que esta Humanidade me asfixia! Pretendo me mascarar e fugir para o ar livre, passear no quarteir\u00e3o sorrateiramente. Mas n\u00e3o encontro a chave, a bendita chave!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Viviane de Santana Paulo <\/em><\/strong><em>\u00e9 poeta, tradutora e ensa\u00edsta, autora dos livros, Viver em outra l\u00edngua (romance, Solid Earth, Berlim 2017), Depois do canto do gurinhat\u00e3, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) e Passeio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Publica poemas em revistas e jornais, entre eles, Suplemento Liter\u00e1rio de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre e Coyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (M\u00e9xico). <\/em><em>Atualmente, vive em Berlim.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conto de Viviane de Santana, as densas confiss\u00f5es de um tempo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17343,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3798,2534,16],"tags":[81,3802,41,3444],"class_list":["post-17342","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-136a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-coronavirus","tag-dedos-de-prosa","tag-viviane-de-santana"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17342","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17342"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17342\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17345,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17342\/revisions\/17345"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17343"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17342"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17342"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17342"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}