{"id":17361,"date":"2020-06-29T08:54:11","date_gmt":"2020-06-29T11:54:11","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17361"},"modified":"2020-07-31T13:08:49","modified_gmt":"2020-07-31T16:08:49","slug":"dedos-de-prosa-iii-66","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-66\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_17362\" aria-describedby=\"caption-attachment-17362\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Renato-Pitella.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17362 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Renato-Pitella.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Renato-Pitella.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Renato-Pitella-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/Renato-Pitella-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17362\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Roberto Pitella<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O tempo e minhas m\u00e3os<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo, que era meu aliado, virou vil\u00e3o. A gravidade e o col\u00e1geno, tamb\u00e9m. O silicone, que tornava fausto o meu corpo, escorre sinuoso pelas n\u00e1degas e pernas, alojando-se, invariavelmente, nos tornozelos. Incham, e n\u00e3o me deixam andar; uma passada ao banheiro \u00e9 um parto que nunca tive. O rosto \u00e9 um enigma vari\u00e1vel, meses sim, dias n\u00e3o, me apresenta novidades, com formas que despertam certos sustos ou surtos ao acordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As inseguran\u00e7as lancinantes me agravam o peito, muito mais que a apar\u00eancia. Marli falava, \u201ca beleza&#8230; ah, a beleza \u00e9 tro\u00e7o fugaz, menina, escapa feito um \u00e1timo de coca\u00edna\u201d. Escapou-me, lisa, sorrateira. Ali\u00e1s, parece que me escapou. E a\u00ed? Sem bronca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitei. Pode apostar que sim, aproveitei. E digo que foram dias de gl\u00f3ria, regados a champanhe &#8211; n\u00e9 esses trens de mentira, que enchem a boca para dizer: \u201cChampagne!\u201d. Emergentes brazileiros s\u00e3o mesmo ris\u00edveis&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou estudada e tenho classe, mas, ao contr\u00e1rio do que possa pensar, nunca levei desaforo para casa &#8211; da\u00ed conclu\u00eda a for\u00e7a da mulher que domou o mundo com as m\u00e3os. S\u00f3 n\u00e3o fui precursora de Rog\u00e9ria porque abdiquei do trono, por um sumo amor \u2013 que jamais poderia revelar, para n\u00e3o comprometer uma morte, qui\u00e7\u00e1, tranquila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiz o que fiz, n\u00e3o me arrependo um segundo. Aguarei minhas vontades e desejos quando ningu\u00e9m sabia o que era mulher trans. E a\u00ed? Sobrevivi, <em>mon amour<\/em>, digna, altiva. Apenas me atormenta o tempo, que corre ligeiro. Ah, n\u00e3o fosse esse maldito <em>delay<\/em> entre mim e ele&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui a prostituta mais querida, badalada nos recantos que percorri, Europa, sobretudo Paris; e ainda, pasme, recebo elogios velados ou rasgados de l\u00e1, do outro lado do Atl\u00e2ntico. Sinto-me viva, pelo menos. Aqui me olham com desprezo, como velha meretriz. S\u00f3 aqui. Tudo bem. Olhar n\u00e3o arranca peda\u00e7o. N\u00e3o mexendo comigo, ah, meu bem, a\u00ed viro bicho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou tentando me aliar ao tempo. Damos voltas; uma hora vamos nos encontrar e correr juntos, lado a lado, at\u00e9 o fim dos dias, oxal\u00e1 que sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Orienta\u00e7\u00f5es para o embarque<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quadro de pend\u00eancias, antes de viajar, como de costume, aponto uma s\u00e9rie de medidas, as quais me incumbo de resolver, para que minha mente permane\u00e7a tranquila \u2013 em parte. N\u00e3o sou t\u00e3o met\u00f3dica (ou exc\u00eantrica) como m\u00e3e, dona Germ\u00e2nia, que no m\u00eas anterior \u00e0 viagem j\u00e1 tem uma \u201clista de afazeres\u201d, com medidas \u201cex\u00f3ticas\u201d, quais sejam, pod\u00f3loga para arrancar os cantos de unhas; trocas dos mega hair e aplica\u00e7\u00f5es de unhas de porcelana; interven\u00e7\u00e3o com a toxina botul\u00ednica ou, no popular, estiramento de rosto, para chegar \u201cbem apessoada\u201d, entre outras cositas m\u00e1s, que n\u00e3o v\u00eam ao caso \u2013 vou evitar o embrulho na leitura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa vez, por disposi\u00e7\u00e3o minha, vou de mala e cuia para Bras\u00edlia. Definitivamente, Mauriti deixou de me comportar \u2013 para lhe situar, caro leitor, falo de uma pequena cidade do interior, do interior do Cear\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou h\u00e1 meses conversando com o In\u00e1cio. Parece ser uma boa pessoa; sabe cozinhar, limpar a casa, essas coisas que todo homem deveria fazer. Na lida do sert\u00e3o, no m\u00e1ximo, os homens aprumam uma porta quebrada, as telhas (se as tiver), um cal\u00e7o na mesa, pequenos ajustes, nada demais. \u00c9 uma afronta \u00e0 sacra masculinidade mandar um homem lavar a lou\u00e7a, arrumar a cama, por exemplo \u2013 onde j\u00e1 se viu! Meu pai saiu de casa por desgosto, segundo bodejou por a\u00ed. A extravagante senhora minha m\u00e3e come\u00e7ou a ganhar dinheiro vendendo p\u00e3es caseiros. Montou uma minipadaria, com os trocados que ia juntando. Resolveu, por si, assumir as d\u00edvidas de casa \u2013 muitas \u2013, e meu pai, como um sensato cidad\u00e3o que \u00e9, mandou ela ir se lascar com o seu dinheiro: \u201cN\u00e3o sou homem para ser sustentado por mulher!\u201d. M\u00e3e acolheu a decis\u00e3o. N\u00e3o quis mais saber de homem nenhum; se fosse de prestar, dizia, teria de ser o pai. Para ela, o peso daquela masculinidade atrapalharia os seus planos. Feminista e n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 para c\u00e1, perdi gradativamente o contato com pai, \u201co ser humano mais humilhado da par\u00f3quia\u201d \u2013 foi o que me contou por \u00faltimo, chorando. Eu at\u00e9 entendo, de certa forma, bruto como papel de enrolar prego, limitado e a\u00e7oitado pela vida, n\u00e3o podia expandir muito. H\u00e1 s\u00e9culos o cen\u00e1rio se reproduzia igual, ali, homem manda e mulher obedece. Ainda bem que n\u00e3o resultou em morte. Nos arredores de Mauriti contaram-se, no \u00faltimo m\u00eas, tr\u00eas feminic\u00eddios \u2013 um dos motivos pelo qual vou me debandar daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que mulher \u00e9 amea\u00e7a; \u00e9 indignidade \u00e0 exist\u00eancia do homem, \u201c\u00e9 pau para estropiar um crist\u00e3o\u201d, nas mesm\u00edssimas palavras de pai, o velho Sebasti\u00e3o. \u201cMulher n\u00e3o \u00e9 maldi\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 tive vontade de dizer \u2013, nunca aceitei isso. \u00c9 uma fobia tresloucada, uma fragilidade sem tamanho, s\u00f3 pode, diante da imensid\u00e3o que a mulher traz consigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tempo da exist\u00eancia circunscrita \u00e0 labuta familiar passou. Eu mesma me orgulho de dizer que j\u00e1 superei isso. Sou filha \u00fanica, bem-criada por m\u00e3e, e pude estudar longe, em Fortaleza, de onde agarrei, com unhas e dentes, a oportunidade de me formar em Filosofia. Minhas primas, coitadas, foram excomungadas pelas m\u00e3es \u00e0 constri\u00e7\u00e3o marital, uma com quatorze e outra com quinze. Pegaram dois buchos, em seguida. \u201cPronto, est\u00e3o desgra\u00e7adas; o \u2018destino maligno\u2019 as imp\u00f4s cuidar dos filhos e da casa\u201d, pensei. Dito e feito. Os canalhas dos seus maridos, j\u00e1 muito folgados na condi\u00e7\u00e3o, volta e meia os encontrava numa vaquejada, numa festinha; e as mulheres ralando para amparar as crias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando desembarquei em Bras\u00edlia, In\u00e1cio veio me encontrar logo no aeroporto. Espiritualizada, senti-me abra\u00e7ada; um sentimento pleno de outras vidas. Deleitamo-nos em conversas, que n\u00e3o paravam de gerar outras, e outras, num loop infinito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sei bem que naquele dia, 21\/01\/2011, cabal\u00edstico, vibrava entre a excita\u00e7\u00e3o, a novidade e o encantamento. In\u00e1cio, que n\u00e3o era bobo nem nada, quis me levar direto para o seu ap. Ca\u00ed como uma patinha. Fomos. O local parecia mais um abatedouro, com roupas espalhadas por todos os lugares; at\u00e9 calcinha vi. Perguntei se havia mulher morando com ele. Num acesso de loucura, agarrou-me pelo bra\u00e7o e esbravejou: \u201cVoc\u00ea chegou agora, mocinha, j\u00e1 quer ditar as regras?!\u201d. Assustei-me, comecei a chorar de medo. N\u00e3o tinha o que fazer. Portas fechadas, sensa\u00e7\u00e3o claustrof\u00f3bica. Deu-me um p\u00e2nico e comecei a gritar: \u201cAbre essa porta! Abre essa porta!\u201d. Ele, parecendo que havia ca\u00eddo em si, voltou do transe, soltou o meu bra\u00e7o e desabou na cama aos prantos: \u201cMe desculpa, vai?! Fui demitido essa semana. Estou um trapo\u2026 Fica comigo?!\u201d. A demonstra\u00e7\u00e3o de total descontrole emocional do sujeito desconectou qualquer expectativa de rela\u00e7\u00e3o e, sem olhar para tr\u00e1s, de cabe\u00e7a baixa, despedi-me e sa\u00ed, para nunca mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passados sete meses, entre abusos e desaforos, consegui entrar pela porta estreita da UNB. Antes, muito antes, nem sabia que esse mundo chocante existia. Penso, absorta, como a vida deu uma guinada para o norte. S\u00f3 dependeu de mim \u2013 obviamente, com o suporte inestim\u00e1vel de m\u00e3e \u2013 estar no Mestrado em Filosofia e Sociedade. Vou concluir o curso com a disserta\u00e7\u00e3o acerca do patriarcado e dos modos seculares de controle social, e pisar na cabe\u00e7a do machismo. Agora sou eu quem vai estropi\u00e1-lo. Boa linhagem essa de m\u00e3e, benza Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><em> nasceu em Fortaleza, Cear\u00e1. Autor dos livros \u201cFlor no caos\u201d (Desconcertos Editora, 2018) e \u201cCont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias\u201d (Editora Penalux, 2020). Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem prosas publicadas nas Revistas Berro, InComunidade, Lavoura, LiteraturaBr, Literatura &amp; Fechadura, Mirada, Pix\u00e9, Ru\u00eddo Manifesto, S\u00e3o Paulo Review e V\u00edcio Velho. Advogado humanista. Mestre em Direito. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recantos delicados da vida nos contos de Adriano B. 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