{"id":17392,"date":"2020-06-29T10:00:49","date_gmt":"2020-06-29T13:00:49","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17392"},"modified":"2020-07-31T13:08:20","modified_gmt":"2020-07-31T16:08:20","slug":"dedos-de-prosa-ii-65","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-65\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Carlos Vilarinho<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17394\" aria-describedby=\"caption-attachment-17394\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-14.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17394 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-14.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-14.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-14-150x150.jpg 150w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/diversos-afins-14-300x300.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17394\" class=\"wp-caption-text\">Imagem: Roberto Pitella<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Gari<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo devia come\u00e7ar com um grito, como aquela pintura que parecia tintas derretidas que vi no museu enquanto varria do lado de fora, na cal\u00e7ada do elegante e nobre bairro da Vit\u00f3ria, em Salvador. Um grito de desespero que chegava a segurar a cabe\u00e7a e expressava horror e medo.\u00a0 Mas come\u00e7ava assim: um rapaz cujo \u00fanico trabalho foi sentir prazer antes que eu nascesse, jamais soube quem eu era. Muito menos eu lhe pus os olhos. Talvez ele, caso houvesse interesse em me conhecer, acalentasse minha alma daquelas situa\u00e7\u00f5es rasteiras de dissabores raciais, por exemplo. N\u00e3o sei qual foi a pior situa\u00e7\u00e3o, se a minha ou a de Amanda. Com minha irm\u00e3, al\u00e9m da cor da pele, minha m\u00e3e n\u00e3o tinha certeza, entre tr\u00eas rapazes, qual deles era o pai dela. Portanto, quando a m\u00e9dica disse \u201cdispneia\u201d, pens\u00e1vamos se tratar de algo letal como c\u00e2ncer. Tudo de ruim acontecia com pobre e preto desvalido. Nessa \u00e9poca, eu contava com doze anos, Amanda com oito. Minha m\u00e3e nunca conheceu as Letras, talvez por isso o servi\u00e7o do rapaz foi mais f\u00e1cil para que culminasse na minha exist\u00eancia. Nasci quando minha m\u00e3e completava quinze anos. Nasci um negro de periferia. Aos poucos quase me tornava ressentido e rancoroso pelo que faziam comigo e com os outros negros, pobres diabos no mundo. N\u00e3o foi dif\u00edcil deduzir que se tratava de racismo aqueles tratamentos d\u00edspares, ainda que me faltassem leitura e Educa\u00e7\u00e3o. Nunca esqueci uma professora que tive quando estudei na escola da prefeitura quando tinha nove anos. Gostava de ouvir e ler hist\u00f3rias de pessoas que provocavam diferen\u00e7as na vida e se tornavam essenciais \u00e0 sociedade. Ela nos mostrou uma cole\u00e7\u00e3o de fotos de pessoas importantes que venceram com coragem as adversidades. Entre as fotos havia de uma pequenina menina negra chamada Ruby Bridges. A professora disse que nos espelh\u00e1ssemos naqueles exemplos. Toda vez que me sentia ultrajado com tro\u00e7as de racistas pensava em Ruby, aquilo me fortalecia. Mas n\u00e3o era f\u00e1cil, o racista corrompia a alma alheia sem se inibir. Parecia um vest\u00edgio caracter\u00edstico do ser humano. Quase ficava com vergonha de minha pele, n\u00e3o havia ningu\u00e9m que me acalentasse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia passado trinta e tr\u00eas dias. Contava desde que aquele jornalista apareceu em minha casa dentro da televis\u00e3o. Avisava da quarentena e anunciava a primeira morte. Trinta e tr\u00eas era um n\u00famero cabal\u00edstico. Quer dizer, sempre ouvia dizer essas coisas, na verdade n\u00e3o sabia do que se tratava. Sabia que Jesus havia morrido com trinta e tr\u00eas anos, mais nada. Despois de quarenta anos de idade, vinte varrendo as ruas de Salvador, me sentia finalmente essencial \u00e0 humanidade. Nos meus primeiros vinte anos de exist\u00eancia, sonhei um dia em ser m\u00e9dico. Quando vi uma delas salvar minha irm\u00e3 da tuberculose. Era uma boa m\u00e9dica, cuidadosa, zelosa e carinhosa. Al\u00e9m disso, foi ela quem alertou o outro problema que Amanda carregava desde que nasceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Parece que ela tem dispneia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez, na idade adulta, ainda jovem, quando corria para jogar futebol. J\u00e1 praticava meu of\u00edcio com destreza e afinco, varria as ruas de minha cidade com orgulho de ter nascido na Bahia, mesmo com todas as diferen\u00e7as que eram acentuadas com discri\u00e7\u00e3o e sil\u00eancio. Tinha quase certeza que as pessoas na grande maioria disfar\u00e7avam o que sentiam verdadeiramente umas pelas outras. N\u00e3o que eu fosse desconfiado, talvez nem eu nem ningu\u00e9m tivesse raz\u00e3o para andar cismado, mas algo dentro de mim dizia que somente a pr\u00f3pria pessoa conhece a ela pr\u00f3pria. Participava de uma partida num campo de v\u00e1rzea, jog\u00e1vamos todos sem que distingu\u00edssemos o n\u00edvel econ\u00f4mico das pessoas. Simplesmente formaliz\u00e1vamos a liberdade e empreend\u00edamos a democracia que se traduziam na pr\u00e1tica do esporte, pelo menos. Evidentemente n\u00e3o havia como distinguir naquele momento as diferen\u00e7as acentuadas entre seus praticantes, cada equipe e cada jogador preocupavam-se em vencer. Al\u00e9m de tudo, exercit\u00e1vamos a coletividade. Enquanto jog\u00e1vamos, ouvi de um rapaz, acho na mesma idade que a minha, praticamente bradar a pulm\u00f5es um desaforo gratuito e preconceituoso, sem nenhuma raz\u00e3o para humilha\u00e7\u00f5es, a n\u00e3o ser que um drible que lhe ofereci entre as pernas fosse considerado insulto. Fiz o que o momento da partida oferecia e que valia e valorizava o jogo, n\u00e3o foi menosprezo, sobretudo era uma brincadeira entre as pessoas. Mas ele criou sanha e como um rapaz mimado despejou c\u00f3lera desnecess\u00e1ria. Soube depois que estudava outras L\u00ednguas e foi destaque num col\u00e9gio tradicional de classe bem afortunada. Segundo esse cidad\u00e3o estudado e bem nutrido e que fazia um ju\u00edzo final somente dele, agregado a um desprezo gratuito e arrogante que o consumia depois que a bola saiu do seu controle, disse-me entre dezenas de inj\u00farias, que o meu c\u00e9rebro n\u00e3o captava mensagens e nunca seria capaz de reproduzir uma hist\u00f3ria. N\u00e3o se sabe se tudo isso por ignor\u00e2ncia, dist\u00farbio ps\u00edquico ou mal banal. Acho que era \u00f3dio por \u00f3dio mesmo. Era o que bastava para me entristecer aquele arroto de poder. Pois agora, anos depois, ao contrariar toda uma gama de descontentes\u2012 inclusive o rapaz de not\u00f3ria altivez que envelhecia comigo e protagonizava um teatro de rancor, jamais me cumprimentou por uma tolice, atualmente tossia desesperado com falta de ar \u2012 eles, soberbos, n\u00e3o tinham como alimentar ambi\u00e7\u00e3o de ganhar mais do que possu\u00eda e era suficiente, pois o v\u00edrus n\u00e3o deixava. Pois agora, ao dar vaz\u00e3o ao meu pensamento e mesmo com os contrastes de desigualdade social expostos, fui designado pelo Universo a narrar com imagina\u00e7\u00e3o sagaz de um gari convicto o que ocorria na quarentena. Posso adiantar que se tratavam de hist\u00f3rias coletivas da humanidade e que ficaria no imagin\u00e1rio de quem sobrevivesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era dispneia. Na verdade era um problema maior, diagnosticado por outro m\u00e9dico dono da casa que minha m\u00e3e trabalhava como diarista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Catalepsia patol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o tenho certeza se receitou algo, mas Amanda ficava como est\u00e1tua de cera toda vez que algo s\u00e9rio e triste acontecia entre n\u00f3s. E algo s\u00e9rio e triste n\u00e3o era raridade em nosso casebre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com dificuldade aprendi as Letras, tomava gosto pela leitura. Gostava de ouvir e pesquisar nomes que surgiam novos para mim. Desde que aprendi a ler, eu mesmo procurava minhas hist\u00f3rias preferidas. Aos poucos assinei meu nome em Letras cursivas, mas vacilantes e tremidas: Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia de Jesus. Com o tempo melhorei o tra\u00e7o de minha letra, ficou leg\u00edvel na medida do poss\u00edvel e das minhas condi\u00e7\u00f5es. Certamente melhor do que antes. N\u00e3o sei porque Jesus foi parar em meu nome, mas sempre achei bom ter essa refer\u00eancia. Por outro lado, a professora me disse que Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia foi um grande homem rico e poderoso e que muito conversava com Jesus. Mas n\u00e3o sei se minha m\u00e3e sabia disso. Tenho certeza que ela n\u00e3o fez nenhum estudo onom\u00e1stico \u2012 esse foi o nome que ouvi de uma pesquisadora do IBGE enquanto indagada pelos moradores do lugar que morava sobre a raz\u00e3o daquele censo, s\u00f3 havia pobre por ali, n\u00e3o sei por que ela usou esse termo se ningu\u00e9m na comunidade ia saber do que se tratava, mas eu pesquisei \u2012. Amanda, que tinha mais tempo e era muito curiosa, aprendeu a ler mais r\u00e1pido do que eu, era quem inicialmente lia a b\u00edblia para nossa genitora quando ela disse que havia se entregado ao Senhor e deixado o cachimbo das drogas. Mas n\u00e3o demorou muito e morreu. Deixou um v\u00e3o oco onde nos esprem\u00edamos e divid\u00edamos o espa\u00e7o de acordo com as atividades dom\u00e9sticas. Mais tarde, eu e Amanda constru\u00edmos, de fato, uma casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, n\u00e3o tive dificuldade em perceber que meu sonho de menino, em me tornar m\u00e9dico, dificilmente se realizaria. Provavelmente n\u00e3o deixariam sem que eu apresentasse uma chancela, como se certas profiss\u00f5es eram guardadas para quem apresentasse aval, de quem ningu\u00e9m sabia. Pois, a dificuldade era infinitamente maior do que para um branco bem nascido, que estudou, teve vantagens e oportunidades singulares que eu jamais teria, muito menos imaginasse que existisse. Um branco assim vestia jaleco, era esse o referendo para ser m\u00e9dico no Brasil. \u00c0s vezes me entristecia, e ao mesmo tempo me indignava com o rumo das coisas. Pior era quando ca\u00eda em mim e entendia que aquilo era a regra do mundo e jamais mudaria.\u00a0 Certo dia, em casa de manh\u00e3 cedinho, antes de o dia clarear, ouvi uma reportagem no r\u00e1dio. A mulher que falava era de uma dessas entidades que defendem os negros, ela dizia que o racismo estrutural era o pior de todos porque nos transformava em dados de estat\u00edsticas como animais. Aquilo n\u00e3o saiu de minha cabe\u00e7a. N\u00e3o sei as outras pessoas, conhecia pouca coisa e bem menos as outras pessoas. Havia mundos que n\u00e3o sabia que existiam, mas sentia necessidade em me tornar \u00fatil de alguma forma. A ideia que tinha quando comecei a varrer as ruas era que dificilmente seria notado, as pessoas s\u00f3 olhavam m\u00e9dicos, professores, jornalistas, enfim. Um gari negro que varria ruas era invis\u00edvel e facilmente substitu\u00edvel. Tentei desesperadamente estudar e aprender, mas tudo era dif\u00edcil. N\u00e3o tinha livros, n\u00e3o havia ningu\u00e9m que soubesse mais do que eu para cal\u00e7ar minha necessidade de aprendizagem. Come\u00e7ava a era de computador, eu n\u00e3o sabia ao menos como ligar aquela m\u00e1quina. Por fim, o sentimento de impot\u00eancia acentuava minha alma a cada dia pela manh\u00e3, enquanto eu varria e nem um bom dia recebia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez, enquanto varria pr\u00f3ximo ao Campus Universit\u00e1rio da Bahia, ouvi dois rapazes que conversavam. Pela apar\u00eancia jovial e os trajes \u00e0 vontade intu\u00ed que eram estudantes de algum curso na Universidade. Um deles inclusive me presentou com um livro sobre mitologia grega. Fiquei apaixonado por Afrodite. Tempos depois, disse ao rapaz o amor que nutria pela Deusa. Imaginava, sendo gari, como conversar com meus colegas sobre Afrodite, Zeus, Atena e Hermes. Enquanto lia sobre os deuses, pensava sobre as rela\u00e7\u00f5es que podiam existir entre eles e entre tudo na vida. At\u00e9 que ao chegar em Hermes, algo me chamava aten\u00e7\u00e3o. Uma vez, enquanto nos reun\u00edamos para saber a rota que segu\u00edamos a cada dia para varri\u00e7\u00e3o, deu-se um estalo em minha mente, ruminava as coisas que lia. Naquele dia entendi como tudo o que lia se processava, era o c\u00e9rebro que buscava acarear informa\u00e7\u00f5es. E ent\u00e3o, comparei Hermes com Exu. E conversei brevemente com o rapaz sobre a minha compara\u00e7\u00e3o. Ele tirou os \u00f3culos para me enxergar melhor, ao que parece, riu e disse que estava surpreso, jamais achava que aquela leitura ia me interessar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Continue a ler, talvez haja alguma diferen\u00e7a em voc\u00ea que voc\u00ea propriamente ainda n\u00e3o sabe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse que me deu regalo reclamava incomodado como a fam\u00edlia o tratava. Segundo ele, a cobran\u00e7a e a preocupa\u00e7\u00e3o eram muito rigorosas. Parei de varrer um instante e pensei naquela frase. Como minha m\u00e3e teria me ajudado se por acaso cobrasse meus estudos. Mas n\u00e3o havia jeito, talvez o conhecimento fosse para poucos e nunca chegou at\u00e9 a mim. Ao mesmo tempo, pensava sobre esse parecer, se isso for procedente, se for real, a humanidade e a civiliza\u00e7\u00e3o seriam o maior e \u00fanico exemplo de vileza e abje\u00e7\u00e3o. E, \u00e9 claro, n\u00e3o seria tamb\u00e9m um absurdo, pois s\u00f3 o referendo do racismo j\u00e1 atestava a imund\u00edcie de certos humanos. N\u00e3o valia a pena existir. No entanto, vou me valer de que apesar de todos os meus esfor\u00e7os para ser notado como gente, talvez as coisas sejam irreais e haja outros mundos paralelos ao nosso. E cada vez mais eu era invis\u00edvel, ainda assim, me sentia bem limpando os arredores. Varria as ruas para n\u00e3o deixar o coronav\u00edrus se espalhar. Aquele of\u00edcio, simples, de f\u00e1cil manuseio e que denotava asco nas pessoas era o que me tornava essencial \u00e0 sociedade. A limpeza fazia parte do mundo civilizado, mas parecia ser t\u00e3o trivial que as pessoas que como eu cuidavam da higiene recebiam de volta o nariz tampado e o fastio e repulsa de quem passa sobre o lixo varrido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora as ruas estavam vazias, pareciam mais limpas. O v\u00edrus limpava o mundo, isso era curioso. Enquanto as pessoas ficavam em casa, para n\u00e3o se contaminar, n\u00e3o havia fardo de sujeira que o pr\u00f3prio ser humano reunia pelos cantos, ou at\u00e9 mesmo abertamente em qualquer parte da pra\u00e7a, pr\u00f3ximos onde se sentavam para comer, conversar, ler, namorar ou para ficarem quietos. Fazia de tudo para n\u00e3o tocar na m\u00e1scara que protegia do covid 19, mas desde crian\u00e7a tinha rinite e o incomodo era incessante, n\u00e3o havia jeito, puxava para cima e para baixo a m\u00e1scara negra que a prefeitura distribu\u00eda. Trinta e tr\u00eas dias de quarentena. A aus\u00eancia das pessoas nas ruas \u00e9 o que me tornava t\u00e3o importante. Era t\u00e3o curioso pensar assim como que o v\u00edrus limpava o mundo. E gostava sempre de pensar nas coisas, pois ao pensar profundamente, diriam aqueles rapazes do Campus Universit\u00e1rio, chegava-se \u00e0 conclus\u00e3o de que aquela era a prova de que a humanidade n\u00e3o tinha educa\u00e7\u00e3o. Qualquer tipo de educa\u00e7\u00e3o. Estava evidente que as pessoas n\u00e3o cuidavam de nada que n\u00e3o pertencesse a elas pr\u00f3prias. Quando lia a b\u00edblia para minha m\u00e3e junto com Amanda, se n\u00e3o me engano, havia um questionamento sobre se algo pertencia ao ser humano, a n\u00e3o ser o que se produzia com o pensamento. As ruas precisavam de pessoas como eu. Mas tudo isso que foi constatado por somente quem limpa o que est\u00e1 sujo. Era uma constata\u00e7\u00e3o sem import\u00e2ncia que emergia de filosofia barata e sem sustenta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica. Isso devia ser constatado pelo poder. Pelos poderosos. Mas ouvia dizer que o governante do Brasil n\u00e3o se importava com os vulner\u00e1veis. Diziam pelas ruas, ou quando trabalhadores se reuniam para discutir data-base, que houve governante melhor, mas que foi preso acusado de corrup\u00e7\u00e3o. Mas quem n\u00e3o subornava no Brasil? Era uma interroga\u00e7\u00e3o insinuante e que ecoava como coro de torcida organizada. Parecia que todos que apareciam de outros cantos do mundo e aportavam no Brasil carregavam essa interroga\u00e7\u00e3o no semblante. N\u00e3o lhes tirava a raz\u00e3o, pois, a injusti\u00e7a, o aliciamento, a deturpa\u00e7\u00e3o, a desvirtua\u00e7\u00e3o, a adultera\u00e7\u00e3o et c\u00e9tera e et c\u00e9tera&#8230; Contaminavam como v\u00edrus por aqui, e nesses atributos as m\u00e1scaras j\u00e1 estavam assentadas, irremov\u00edveis e firmes em cada rosto que lidava, ostentava e recorria a essas divindades diariamente. Portanto, quem n\u00e3o subornava no Brasil? Havia algum tempo, antes desses trinta e tr\u00eas dias, esse cantinho aqui vivia cheio de copos descart\u00e1veis, guardanapos, talheres pl\u00e1sticos, preservativos sexuais usados, absorventes sujos de sangue. \u00c0s vezes, tudo junto fazia uma bolo de lama e bact\u00e9rias. Eu era quem varria aquele canto, muitas vezes as pessoas passavam e cuspiam de lado. Eu continuava a varrer. E mesmo assim n\u00e3o \u00e9ramos valorizados como essenciais. Invis\u00edveis asquerosos do lixo.\u00a0 Meu colega Jo\u00edlson era um rastaf\u00e1ri que dan\u00e7ava com sua vassoura enquanto varria. Ele imitava James Brown. Nunca pisou na escola, mas fazia de conta que era mestre em ingl\u00eas. Ent\u00e3o, ele cantava e dan\u00e7ava ao meu lado <em>Sex Machine, <\/em>depois varria satisfeito e, como se imitasse minhas idiossincrasias, puxava para cima e para baixo a m\u00e1scara negra que a prefeitura distribu\u00eda. Em seguida dizia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 O show n\u00e3o pode parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns poucos o cumprimentavam de dentro dos \u00f4nibus, pobres como n\u00f3s. Os outros, dentro dos carr\u00f5es, apressados, estressados, buzinavam para que sa\u00edssemos da frente. Esses pareciam que tinham raiva de gente pobre. Filisteus. Muitos desses n\u00e3o suportavam ser solid\u00e1rios, sentiam-se mal na fragilidade que o momento impunha a todos. Todos na televis\u00e3o e os governantes do momento de cada lugar no Brasil diziam que n\u00e3o pod\u00edamos ficar juntos; segundo eles, o v\u00edrus atacava e acabava com as c\u00e9lulas que existiam em n\u00f3s. Como se n\u00e3o bastassem os massacres da sociedade sobre nossas cabe\u00e7as. Toda noite eu ficava na d\u00favida. Na Europa, as pessoas n\u00e3o sa\u00edam de casa, se protegiam para n\u00e3o se contaminar. Ouvi o rep\u00f3rter da noite dizer que o governo de l\u00e1 tomou provid\u00eancias. O governante maior daqui, n\u00e3o. E cada vez mais, mais d\u00favidas se acentuavam nos meus pensamentos com rela\u00e7\u00e3o a esse povo do governo. Mas, como um alento de todas as coisas da vida, enquanto varria novamente l\u00e1 perto do Campus Universit\u00e1rio, ouvi dessa vez dois senhores que conversavam, um dizia ao outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Sempre \u00e9 bom ter d\u00favidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto varria, em um dos dias da semana de pandemia, pr\u00f3ximo a um hospital, nas imedia\u00e7\u00f5es do Porto da Barra, as pessoas choravam. Parei e observei penalizado aquela gente. Enquanto estava parado e observava, vi um homem na sacada de um dos quartos do hospital, no sexto andar do pr\u00e9dio, dependurou-se e gritou com os poucos pulm\u00f5es que lhe restavam:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 A humanidade n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquela frase me envolvia, sentia que havia sido capturado por aquela simples senten\u00e7a como m\u00e1gica lexical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, n\u00e3o se soube como, ateou fogo no quarto do hospital e pulou da sacada. Quebrou as duas pernas e algumas costelas. Morreu dias depois de insufici\u00eancia card\u00edaca. No entanto, os m\u00e9dicos ainda n\u00e3o sabiam se ele estava ou n\u00e3o contaminado com o Covid 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sentia falta do movimento das ruas, mesmo menosprezado. Curioso, quando passei \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de essencial \u00e0 sociedade, promovido pelos \u00f3rg\u00e3os do governo, para deixar limpo e dificultar a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus letal ningu\u00e9m circulava mais. N\u00e3o havia ningu\u00e9m para atestar a import\u00e2ncia de um varredor de ruas. Isso s\u00f3 confirmava nossa invisibilidade. Todos os dias, quando era escalado na rota do Centro da cidade, na Avenida Sete, no Largo Dois de Julho ou nas imedia\u00e7\u00f5es do Pelourinho e Barroquinha, sabia que em qualquer lugar daquele que varresse seria servido um lanche para mim e Jo\u00edlson. Na Pra\u00e7a Castro Alves, por exemplo, havia Zezinho, povo como n\u00f3s dois, sofredor da vida, vendia pipoca doce e salgada e cantava m\u00fasicas rom\u00e2nticas. De prefer\u00eancia, Julio Iglesias num portunhol inepto e confuso. Quando cheg\u00e1vamos era uma festa de pipocas e cantorias produzida por ele e Jo\u00edlson. Os dois faziam tro\u00e7a da est\u00e1tua de Castro Alves, diziam que o poeta estava com a m\u00e3o estendida pedindo esmolas para publicar poemas. E, ainda em tro\u00e7a, perguntavam entre si como um poeta fazia para comer se poesia n\u00e3o dava dinheiro. Zezinho deixava que com\u00eassemos pipoca \u00e0 vontade. N\u00e3o sabia imaginar como Zezinho se virava com aquela quarentena. Provavelmente passava o dia numa fila de ag\u00eancia lot\u00e9rica, ou da Caixa Econ\u00f4mica, e tentava resgatar o que o governo oferecia. Era a humilha\u00e7\u00e3o em forma de aux\u00edlio emergencial. Ouvi dizer que as pessoas deviam baixar aplicativos de internet. Imaginava ent\u00e3o quem nunca se encontrou em frente a um computador como fazia para finalmente acessar o dinheiro e em seguida gast\u00e1-lo com as necessidades primordiais. Enquanto varria a Pra\u00e7a Castro Alves, dia desses, ouvia reportagens no r\u00e1dio port\u00e1til que sempre carregava no bolso do macac\u00e3o de uniforme e um desses estudiosos acad\u00eamicos importantes dizia que havia milh\u00f5es de pessoas no Brasil que n\u00e3o sabiam o que era internet. O sofrimento era iminente e di\u00e1rio. Sempre quando parava para pensar, as dificuldades do dia a dia passeavam em minha mente e tamb\u00e9m o que fazer para venc\u00ea-las. Ah, antes que me esque\u00e7a, \u00e9 bom fazer todos os registros; no mesmo dia que ouvi, l\u00e1 em frente ao Campus Universit\u00e1rio, um dos senhores falar sobre a d\u00favida, tamb\u00e9m escutei a resposta do outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 \u00c9 importante sempre pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Achava que o v\u00edrus veio para eliminar quem n\u00e3o prestava. Tinha uma imagina\u00e7\u00e3o f\u00e9rtil e m\u00e1gica quanto a isso, achava que a natureza observava de tempos remotos o comportamento das pessoas com as pessoas. Quem n\u00e3o era fraterno, a flecha da natureza, como a de Eros, s\u00f3 que ao contr\u00e1rio, sem paix\u00e3o, sem amor, sem erotismo, contaminava sem d\u00f3, como uma puni\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o era nada disso, quer dizer, continuava a achar que a natureza estava metida nessa mix\u00f3rdia, mas eliminava qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer condi\u00e7\u00e3o. Tempos depois, durante a quarentena, quando varria a Pra\u00e7a Castro Alves vazia e me sentia essencial \u00e0 vida, senti falta de Zezinho. E Jo\u00edlson me contou que soube que o pipoqueiro havia sido contaminado, morreu e deixou dois filhos e mulher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho, sempre havia muito trabalho, a varri\u00e7\u00e3o era gigante. As flores vendidas nas barracas deixavam muitas p\u00e9talas espalhadas no ch\u00e3o. Como em qualquer lugar da cidade, ali estava ermo naquela quarentena. A algaravia que emergia no Largo todos os dias era contagiante. Normalmente o clima era de pessoas que contagiavam pessoas com alegria, bom humor e satisfa\u00e7\u00e3o. Havia cont\u00e1gio de tristeza, mau humor e aborrecimento tamb\u00e9m. Pessoas especialmente para cuidar desses desconsolos, muitas vezes proposital. Mas n\u00e3o era o caso de alguns do Largo do Mocambinho, na entrada do Dois de Julho. Havia a senhora Lurdes, que vendia flores na barraca da esquina, ao lado do restaurante chin\u00eas. E Maria In\u00eas que fazia jogos de loteria ilegal, do lado oposto ao restaurante de Kim Xing Ming. Kim assim que nos via, eu e Jo\u00edlson, acenava desesperadamente. Fazia-nos entrar e ir ao fundo do restaurante, l\u00e1 por dentro a bagaceira de tripas, pelos, \u00f3rg\u00e3os era insuport\u00e1vel. Nunca conseguimos identificar que animais eram aqueles. Diziam que chineses comiam cachorros, mas n\u00e3o sei se aquilo eram restos caninos. Kim pedia quase sempre implorando para que limp\u00e1ssemos aquilo. Muitas vezes ele misturava as L\u00ednguas, falava mandarim, depois um portugu\u00eas embolado, o fato era que quase nunca entend\u00edamos. Kim fazia isso sempre no momento de acertar algum conosco e, ent\u00e3o, aceit\u00e1vamos o que ele dava sem entender muita coisa. Era um trabalho de H\u00e9rcules, mas tir\u00e1vamos tudo. Descobrimos depois que Kim s\u00f3 pedia para fazer aquela limpeza em seu restaurante quando a dupla de garis era eu e Jo\u00edlson. Al\u00e9m do mais \u00e9ramos funcion\u00e1rios da prefeitura e varr\u00edamos as ruas. Era um daqueles subornos que geralmente brasileiro dizia ser jeitinho. Era ilegal fazer limpezas particulares, n\u00e3o era nosso of\u00edcio. Mas a vida era t\u00e3o dif\u00edcil e t\u00ednhamos t\u00e3o pouco que sucumb\u00edamos e nos deix\u00e1vamos ser aliciados tamb\u00e9m. Soube que um dia Kim Xing Ming pediu a outros dois que foram escalados para aquela rota em nossa aus\u00eancia, n\u00e3o lembrava o motivo, achava que eu e Jo\u00edlson folg\u00e1vamos e os rapazes n\u00e3o se recusaram a fazer. Eram Joselito e Raimundo. Disseram que o que ele pedia era um servi\u00e7o extra, o que n\u00e3o deixava de ser, e queriam administrar a negociata com lucros maiores. Eu e Jo\u00edlson n\u00e3o faz\u00edamos isso. Das duas, uma. Ou as duas de vez. Ou a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil nascia nos n\u00edveis mais baixos e grotescos que se h\u00e1, em progress\u00e3o aritm\u00e9tica e infinita, ou ela chegava em via inversa, ou expressa, vinda de todos os n\u00edveis poss\u00edveis, aceit\u00e1veis, existentes e inexistentes at\u00e9 o mais baixo e grotesco. E como tr\u00e2nsito de avenida, ia e vinha ininterruptamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quem n\u00e3o subornava no Brasil? Ecoava insinuante insistente e sempre em qualquer imagin\u00e1rio do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Joselito pegou covid 19, foi internado, depois de vinte e cinco dias teve alta curado. Raimundo tamb\u00e9m foi diagnosticado positivo, mas era assintom\u00e1tico. Foi orientado para ficar em casa durante quinze dias. Kim Xing Ming fechou o restaurante quando a quarentena engrenou. Ouv\u00edamos hist\u00f3rias de que Xing Ming estava com febre alta e tossia muito. N\u00e3o funcionou atrav\u00e9s de <em>delivery<\/em>, como a maioria dos restaurantes do Centro da cidade faziam. Ali\u00e1s, as coisas n\u00e3o ficaram boas para Kim Xing Ming, os moradores do Dois de Julho e comerciantes acusavam-no de participar de uma teoria da conspira\u00e7\u00e3o. Segundo as pessoas em geral incentivadas pela <em>fake news<\/em> de um ministro do governo. Ali\u00e1s, governo esse que parecia fazer de tudo para que todos se contaminassem. As pessoas come\u00e7avam a acreditar que o chin\u00eas disseminava o v\u00edrus entre os mais pobres do centro da cidade numa compara\u00e7\u00e3o em menor n\u00edvel e proporcional aos esdr\u00faxulos coment\u00e1rios divulgados na m\u00eddia, feitas pelo ent\u00e3o ministro do governo. Come\u00e7ava a circular que o mundo ia sucumbir em raz\u00e3o do v\u00edrus que havia sido criado e dispersado pelos chineses. Curioso era que, de fato, a popula\u00e7\u00e3o mais pobre se contaminava com maior facilidade. E morria r\u00e1pido. Maria In\u00eas, que vivia de conversa com Jo\u00edlson e ensaiava romance com o parceiro gari, dormiu durante dias na porta de um hospital esperando not\u00edcias da m\u00e3e hipertensa e diab\u00e9tica que contraiu o Covid 19. In\u00eas era uma das que acusavam Kim. Segundo ela, a m\u00e3e voltou sentindo-se mal depois que almo\u00e7ou no restaurante do oriental. Infelizmente n\u00e3o sabia precisar se a m\u00e3e de In\u00eas conseguiu escapar do corona. N\u00e3o havia mais ningu\u00e9m no Largo do Mocambinho e as not\u00edcias n\u00e3o chegavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a senhora Lurdes era o que de melhor havia no Largo do Mocambinho. Antes de passar no chin\u00eas Xing Ming, antes de fazer a f\u00e9 nos jogos ilegais da loteria de In\u00eas, antes de discutir futebol com o fan\u00e1tico torcedor tricolor que parecia dono de uma loja de miudezas na esquina, enfim, par\u00e1vamos na barraca de flores da senhora Lurdes. N\u00e3o havia jeito, assim que dobr\u00e1vamos aquele peda\u00e7o na Carlos Gomes era a primeira imagem que t\u00ednhamos; a senhora Lurdes sentada em sua barraca de flores, com dois netos em cada lado, geralmente cada um com a boca cheia de doces e ela observava quem entrava e quem sa\u00eda no Largo Dois de Julho. \u00a0Havia sempre uma merenda que ela guardava e nos oferecia assim que aparec\u00eassemos. De praxe; caf\u00e9 com leite e p\u00e3o, \u00e0s vezes uma fatia de queijo. Ou bolo de chocolate. Ou tapioca com manteiga. Uma ou duas bananas, \u00e0s vezes. Deix\u00e1vamos tudo limpo e bem sequinho ao redor de todas as barracas de flores, no entanto dispens\u00e1vamos aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0 da senhora Lurdes. Era uma senhora com muito bom humor e senso de parceria. Ali\u00e1s, era uma sinergia f\u00e1cil de achar e de conquistar entre a camada mais fraca socialmente na economia. Quando o pobre via-se em apuros, era com rapidez acolhido por outro, e por outro, e por outro. Nova progress\u00e3o aritm\u00e9tica, dessa vez para o bem. Tinha a prova disso quando levantei minha casa e de Amanda junto com os vizinhos, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos contado com eles dificilmente cavar\u00edamos fundo para a funda\u00e7\u00e3o e levantar\u00edamos os blocos. N\u00e3o que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos for\u00e7as, mas o trabalho era descomunal para um homem e uma mulher que n\u00e3o nutria muita sa\u00fade, n\u00e3o esque\u00e7amos da catalepsia que tomava minha irm\u00e3 desde crian\u00e7a. Senhora Lurdes fazia a festa do seu modo, n\u00e3o era como Zezinho, por exemplo, que vivia em cantorias com Jo\u00edlson, em outro exemplo de colabora\u00e7\u00e3o m\u00fatua. Deus o tenha Zezinho. Mas a senhora deitava fala\u00e7\u00e3o. A senhora Lurdes conhecia todos e sabia de tudo referente a cada um que ela comentava. Assim soubemos da marmelada e falcatrua dos outros dois garis juntos com Xing Ming. Soubemos que a mulher do homem que discutia futebol comigo sa\u00eda \u00e0s escondidas toda quarta-feira \u00e0 tarde, como senhora Lurdes soube disso \u00e9 um mist\u00e9rio, mas procedia a verdade. O homem descobriu onde enfiava-se a companheira \u2012 acompanhada de outro \u2012 e o sentimento de trai\u00e7\u00e3o cobriu-lhe de viol\u00eancia. Naqueles tempos, muito se via na m\u00eddia reportagens de misoginia, muito mais do que de racismo estrutural. Os taxistas ficavam parados no ponto, um deles conversava sempre comigo em tom professoral, emitia sugest\u00f5es filos\u00f3ficas sobre a humanidade e comparava com uns fil\u00f3sofos que eu n\u00e3o sabia pronunciar os nomes, segundo ele, tudo procedia conforme o pensamento de Nietzsche. Fiquei na d\u00favida como pronunciar cinco consoantes de uma vez, ainda que uma fosse muda. Mesmo assim nada sabia sobre Nietzsche. Ele dizia saber tudo. O rapaz que conversava comigo sobre mitologia grega no Campus Universit\u00e1rio, que me presentou com o livro, um dia, antes da quarentena, me disse que a atitude de quem diz saber tudo \u00e9 porque n\u00e3o sabe nada. O taxista, depois de algum tempo, quando ele deixou que eu emitisse um parecer qualquer, n\u00e3o lembro sobre o que, espantou-se quando confrontei aquela situa\u00e7\u00e3o que convers\u00e1vamos com deuses gregos da mitologia. E desde ent\u00e3o, quando me via com a vassoura na m\u00e3o me aproximar da barraca de flores da senhora Lurdes, o tal corria e falava algo com rela\u00e7\u00e3o a qualquer coisa e esperava para ouvir o que eu tinha a dizer, em seguida perguntava se havia algum Deus grego que se comportasse daquela forma. Soube atrav\u00e9s da senhora Lurdes que ele havia morrido do covid 19 e contaminado toda a fam\u00edlia. Foi tamb\u00e9m atrav\u00e9s de senhora Lurdes que Jo\u00edlson soube do interesse de In\u00eas por ele. Lamentavelmente soube h\u00e1 poucos dias, agora In\u00eas passava dia e noite na porta do hospital e requeria not\u00edcias da m\u00e3e. A velha havia sido transferida duas vezes de leito e de hospital, finalmente encontraram um respirador numa UTI de periferia. Al\u00e9m de tomar conta da vida alheia, senhora Lurdes colecionou ao longo dos anos sabedoria popular. Ela pensava sobre as coisas assim como eu. E nos d\u00e1vamos muito bem quando par\u00e1vamos para conversar. Foi ela quem definiu com curiosidade, talvez at\u00e9 sabedoria, o que essa quarentena, o v\u00edrus e toda a humanidade significavam naquele momento terr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Pode escrever, isso tudo vai desandar somente para tr\u00eas caminhos: solu\u00e7\u00e3o, prazo de validade e li\u00e7\u00e3o de vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Senhora Lurdes me disse essas coisas quando t\u00ednhamos dez ou doze dias de quarentena. As ruas j\u00e1 estavam vazias e, por acaso, encontrei ela que separava as flores que n\u00e3o havia apodrecido das outras. N\u00e3o estava vendendo nada, primeiro que n\u00e3o podia, segundo que n\u00e3o havia quem as comprasse. Flores alijadas. Curioso que ela me disse sobre aqueles tr\u00eas caminhos com um leve sorriso no rosto. Dias depois que percebi que aquele sorriso era de abdica\u00e7\u00e3o. Em primeira m\u00e3o, achei que senhora Lurdes ainda n\u00e3o havia dado em si do preju\u00edzo que ela teria. Ela e todos comerciantes ambulantes. Mas ela sabia de tudo, sim. Dias depois, com a quarentena em andamento e muito depois do nosso \u00faltimo encontro quando ela separava as flores boas das podres, encontrei a senhora novamente. Ela estava sentada em frente \u00e0 barraca de flores e bebia caf\u00e9. Desculpou-se conosco por n\u00e3o haver merenda. Usava uma m\u00e1scara florida que protegia o queixo e a papada. A boca e o nariz estavam desprotegidos em des\u00e2nimo. E j\u00e1 n\u00e3o era a mesma senhora que conheci durante esses vinte anos que varria as ruas de Salvador. Abatida, havia emagrecido, carregava um semblante padecido, tinha olheiras marrons ao redor dos olhos, principalmente na parte inferior, e tossia com frequ\u00eancia. Disse que n\u00e3o teve febre, mas os dois netos tiveram. Foi ela quem nos deu a not\u00edcia da m\u00e3e de In\u00eas. A velha tinha sido enterrada coletivamente numa vala do cemit\u00e9rio de Brotas. E finalmente falou com des\u00e2nimo para mim e Jo\u00edlson.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Perdi todas as minhas flores, acho que estou doente. Ali\u00e1s, onde moro a maioria das pessoas est\u00e3o tossindo, mesmo assim n\u00e3o se entregam e saem \u00e0s ruas para buscar o que comer, um vende caf\u00e9, outro cata latas, eu vendia flores, n\u00e3o tenho mais o que vender, In\u00eas perdeu a m\u00e3e e os jogos ilegais n\u00e3o correm mais durante a quarentena&#8230; Isso veio acabar com a vida do pobre. Essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o que eles querem, o prazo de validade est\u00e1 acabando e a li\u00e7\u00e3o de vida&#8230; <em>Rum!<\/em> \u00c9 que ningu\u00e9m quer aprender li\u00e7\u00e3o de vida nenhuma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde que me falou, no in\u00edcio da quarentena, sobre esses tr\u00eas caminhos da humanidade, que pensava sobre isso. Inicialmente concordava com ela. T\u00ednhamos que tirar algo do que acontecia. A humanidade devia voltar, ou come\u00e7ar, a confiar nela pr\u00f3pria. Uns nos outros. Acontece que parecia que havia uma dist\u00e2ncia, um po\u00e7o t\u00e3o fundo quanto o oitavo anel do inferno, para duas coisas que deviam ser a mesma coisa. Ou no pior dos casos, coisas afins e pr\u00f3ximas. Mas afinidades e proximidades n\u00e3o procediam. Muitas vezes esse abismo aparecia entre humanidade e ser humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 A humanidade n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A frase do homem que pulou da sacada do hospital tomava efeito em meu pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aquele trig\u00e9simo terceiro dia de quarentena caiu num domingo cinzento de maio. Mesmo que surgissem outros s\u00f3is, aquela tristeza cinza n\u00e3o abandonaria o dia. Um vento frio soprava na rua vazia. Mesmo o calor do girassol que havia na minha porta n\u00e3o denotava ternura naqueles tempos. Aquela flor foi presente da senhora Lurdes. Ela dizia que o meu jeito pensativo e sereno lhe passava tranquilidade. Jo\u00edlson, como sabemos, era falante como ela, eu s\u00f3 ouvia e ria. Mesmo o servi\u00e7o de varrer as ruas n\u00e3o me deixava estressado e impaciente. Se n\u00e3o me resignasse quando aprendi as Letras e escrevi meu nome, mesmo que tr\u00eamulo e inseguro, talvez n\u00e3o desse certo para a vida. Mas parecia que a minha exist\u00eancia teve uma finalidade. A comunidade que morava era de uma pobreza extensa, \u00e0s vezes o esgoto alagava as ruas e a \u00e1gua podre entrava nas casas. Muitos pol\u00edticos andavam por ali, prometiam valas e higiene sanit\u00e1ria, mas nunca foi feito nada para benef\u00edcio das pessoas naquele lugar esquecido. Algumas vezes, quando tinha o <em>prazer<\/em> de estar presente quando os pol\u00edticos apareciam, tinha a impress\u00e3o ao olhar as emo\u00e7\u00f5es no rosto daqueles homens que n\u00e3o existia emo\u00e7\u00e3o. Tudo era ensaiado. Nada nem ningu\u00e9m interessava ou provocava miseric\u00f3rdia ou compaix\u00e3o naqueles homens. S\u00f3 o voto de cabresto. Como a fome parecia ter um contrato de coexist\u00eancia com a comunidade, sempre e somente em \u00e9pocas de elei\u00e7\u00e3o eram servidos feijoadas, churrascos, galinhadas e cervejas a rodo para as pessoas que estavam famintas ali h\u00e1 tempos. Depois as obras de conten\u00e7\u00e3o de encostas, onde aqueles que comiam as feijoadas, os churrascos, as galinhadas e bebiam cervejas, tamb\u00e9m morriam soterrados, e os pol\u00edticos que ofereciam aqueles banquetes lamentavam todas as mortes sem emo\u00e7\u00e3o. As creches n\u00e3o apareciam e as crian\u00e7as ficavam nas ruas, os empregos e os projetos sociais jamais ningu\u00e9m viu. Todos ali viviam como podiam, as casas em sua maioria eram de barro batido, ou, as melhores, de bloco cozido com uma laje que n\u00e3o se sabia se havia funda\u00e7\u00e3o para suportar o peso. Morava com Amanda e n\u00f3s dois conseguimos construir uma casa que nos protegia. Durante a constru\u00e7\u00e3o tivemos ajuda dos vizinhos, todos juntos, cavamos a funda\u00e7\u00e3o e suspendemos as paredes com bloco e batemos a laje. Conseguimos doa\u00e7\u00f5es de piso, al\u00e9m do que ach\u00e1vamos no lixo e ainda estava em condi\u00e7\u00f5es de ser usado. S\u00f3 n\u00e3o rebocamos, faltava dinheiro, mas convers\u00e1vamos sobre isso e combin\u00e1vamos de quando o v\u00edrus se for, se se for, \u00edamos termin\u00e1-la. Alguns ficavam dentro de casa durante a pandemia, a maioria ficava nas portas, ou na rua de barro. Achavam-se imunes, ou n\u00e3o acreditavam que havia o v\u00edrus letal. Quando acreditavam e tinham medo, n\u00e3o podiam ficar em casa porque se n\u00e3o, n\u00e3o comiam. Ent\u00e3o sa\u00edam para trabalhar, muitas vezes sem nenhuma prote\u00e7\u00e3o. As casas eram min\u00fasculas e geralmente havia no m\u00ednimo quatro pessoas em cada casa. N\u00e3o sabia como os homens do poder podiam dormir com aquelas pessoas sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de, ao menos, sobreviver naturalmente onde se encontravam e procuravam para se proteger de um v\u00edrus fatal que assolava o mundo. Os homens do poder n\u00e3o se interessavam pelas pessoas, o l\u00edder maior no meu pa\u00eds aparecia nos telejornais para pedir que as pessoas n\u00e3o se afastassem umas das outras, que as coisas n\u00e3o parassem de funcionar e agradecia a Deus por tudo. Sem falar as casas constru\u00eddas nos barrancos, era \u00e9poca de chuva e a cada tromba d\u2019\u00e1gua o temor que tudo ru\u00edsse era gigante. J\u00e1 dissemos sobre a n\u00e3o conten\u00e7\u00e3o de encostas A prefeitura instalou uma sirene que soava e avisava do perigo de desabamento para que as pessoas deixassem suas casas e n\u00e3o corressem risco de morte. Mas quase ningu\u00e9m sa\u00eda, preferiam morrer soterradas com elas. Tamb\u00e9m n\u00e3o tinham para onde ir, al\u00e9m do mais perdiam tudo que conseguiam com esfor\u00e7o. Ou no desabamento, ou, quando n\u00e3o desabava e soterrava tudo junto, pessoas, m\u00f3veis, pap\u00e9is et c\u00e9tera&#8230; A \u00e1gua da chuva invadia as casas e acabava com o que tinha l\u00e1 dentro. Eu era um dos poucos que trabalhava e tinha o dinheiro certo ao final do m\u00eas. Foi assim que comecei a pensar sobre a minha condi\u00e7\u00e3o. E uma alegria individual que quase n\u00e3o existia na comunidade tomava conta de mim discretamente. Uma alegria que durava pouco quando olhava ao redor de minha gente. Passei a uma condi\u00e7\u00e3o de essencial \u00e0 sociedade e \u00e0 vida e entendi que a minha presen\u00e7a estava comprometida no lugar que morava. Fui o primeiro a dividir os mantimentos que a prefeitura distribu\u00eda entre os garis. Na verdade, j\u00e1 receb\u00edamos uma cesta b\u00e1sica sobre o sal\u00e1rio; com a pandemia e quarentena aqueles mantimentos dobravam. Era o m\u00ednimo que se fazia por n\u00f3s. E n\u00e3o faziam mais nada do que isso. Amanda trabalhava na casa do m\u00e9dico que nossa m\u00e3e trabalhou antes de morrer com uma doen\u00e7a adquirida na \u00e9poca que usava cachimbos com drogas. Minha irm\u00e3 entendeu melhor o que houve com ela, mas s\u00f3 chorava e n\u00e3o conseguia me explicar direito. O m\u00e9dico, desde que nossa m\u00e3e se foi, n\u00e3o deixava que faltasse nada para ela e, consequentemente, para mim tamb\u00e9m. N\u00e3o havia naquele homem aquele abismo existencial que separava as pessoas da humanidade. Ent\u00e3o muita coisa sobrava. Sent\u00edamos obriga\u00e7\u00e3o de dividir com vizinhos. A fome em comunidades como aquela que mor\u00e1vamos jamais deixou de ser parceira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele dia, o trig\u00e9simo terceiro, algumas coisas chamavam aten\u00e7\u00e3o da comunidade. Primeiro era a rebeldia dos jovens. Estava em casa com Amanda, convers\u00e1vamos sobre nossos trabalhos. No meio da tarde, ouv\u00edamos passos de gente reunida. Olh\u00e1vamos discretamente pela janela, como diziam que pobre fazia, olhava pelas frestas e v\u00edamos um grupo de jovens que dan\u00e7ava sem parar. Dois deles conversavam embaixo da minha janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 N\u00e3o aguentava mais, brigava comigo mesmo em casa&#8230; Sem falar que meu pai xingava todo mundo, xingava o presidente, xingava o patr\u00e3o dele, a\u00ed come\u00e7ava a me xingar porque sou gay e acabava dando tapas em minha m\u00e3e&#8230; Dizia que a culpa era toda dela pelas mis\u00e9rias do mundo e por eu ser gay&#8230; Meu pai \u00e9 um homem horr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 E ainda dizem para ter esperan\u00e7as que dias melhores vir\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Acho que o mundo vai acabar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seguida, quase ao mesmo tempo da reuni\u00e3o dos jovens no meio da tarde, o que me fazia pensar era quando passavam hordas de evang\u00e9licos sem m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus covid. Gritavam pelo Senhor e suplicavam miseric\u00f3rdia. A maioria dos religiosos diziam que o Senhor os livraria do v\u00edrus. S\u00f3 no lugar que morava soube do desaparecimento de dezenas deles tossindo e com falta de ar. Comparava com os jovens, alguns de m\u00e1scaras, outros sem us\u00e1-las, que dan\u00e7avam sem parar. Chegavam not\u00edcias que havia doze ou treze deles contaminados na comunidade. E a d\u00favida acentuava. Lembrava do senhor l\u00e1 no Campus Universit\u00e1rio que dizia ser bom ter d\u00favidas, ao que o outro respondia que tamb\u00e9m era bom que pens\u00e1ssemos. E n\u00e3o conseguia responder a mim mesmo um questionamento que se seguiu enquanto olhava aquelas duas condutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 Qual das duas vertentes era incapaz de sentir prazer em viver?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, talvez fossem comportamentos que pedissem ajuda com gritos silenciosos de desespero como aquele expressionista come\u00e7ava a hist\u00f3ria. Cada um em seu extremo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fome era a porta de entrada de todos infort\u00fanios de quem era pobre em qualquer pa\u00eds do mundo. No Brasil e na comunidade que morava n\u00e3o era diferente, ali\u00e1s, o inc\u00f4modo no est\u00f4mago levava as pessoas a se comportarem de outras maneiras que n\u00e3o eram consideradas habitualmente costumeiras. Mas \u00e9 claro, al\u00e9m da fenda social, a fome enlouquecia. O v\u00edrus tinha um crescimento exponencial, principalmente nas comunidades como a que morava com Amanda, eram sentimentos de limita\u00e7\u00e3o, impot\u00eancia e medo. Somada a essas agruras, ou como consequ\u00eancia, aparecia serelepe, imponente e de certo modo fascinante, a viol\u00eancia. No fim da tarde do trig\u00e9simo terceiro dia, ecoavam no ar saraivada de tiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia desde cedo um movimento diferente na comunidade. Aquilo n\u00e3o era boa coisa. Alguns homens de semblantes n\u00e3o muito bons iam e vinham acompanhados de alguns outros que moravam por l\u00e1. Isso desde a madrugada do s\u00e1bado. Depois uma quietude tomou conta do lugar. Um sil\u00eancio torturante ganhou os ares daquele domingo, no trig\u00e9simo terceiro dia de quarentena. Depois que os jovens desceram a rua e, em seguida, os religiosos evang\u00e9licos se acomodavam no templo que eles constru\u00edram e de l\u00e1 suplicavam louvores. Um clima de testemunha silenciosa se apoderava na comunidade. Aquele suspense sinistro foi quebrado no come\u00e7o da noite pela algaravia dos tiros. Houve uma correria e depois a rua ficou erma. Enquanto olhava pela fresta da janela e ouvia os c\u00e2nticos religiosos, pensava na humanidade e seus crimes. Aquelas pessoas, muitas gritavam por Jesus em desespero, para mim uma atitude inexplic\u00e1vel e intolerante. Ainda que o corona v\u00edrus andasse \u00e0 espreita, t\u00ednhamos que nos cuidar, manter distanciamento social e a quarentena dentro de casa. O resto realmente era com Deus. Mas tinha d\u00favidas se aquela gritaria faria Deus, ou o Senhor Jesus, ouvir e descer para acudir a todos n\u00f3s. Talvez, antes de toda s\u00faplica misericordiosa, dev\u00eassemos assumir os pecados. Ou os erros propriamente ditos e afian\u00e7ados. Para aqueles evang\u00e9licos, e todos os outros, n\u00e3o havia sido ningu\u00e9m que rompia o silencio do lugar com tiros, mas o diabo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As not\u00edcias n\u00e3o tardavam e minutos depois soubemos a raz\u00e3o dos tiros e sua consequ\u00eancia. \u00c9 bom que se diga algo sobre essas coisas: somente em comunidades pobres que os policiais decidiam valer a autoridade. Isso acontecia em todos os cantos do Brasil, qui\u00e7\u00e1 do mundo. E sempre descambava para aquela discuss\u00e3o do racismo estrutural. Mas era racismo, sim. N\u00e3o sei se estrutural. Provavelmente, n\u00e3o. Racismo, ponto final. O pior \u00e9 que n\u00e3o havia respostas para tanta brutalidade e for\u00e7a exagerada num lugar em que as pessoas lutavam dia ap\u00f3s dia para sobreviver. Nem sequer viver, mas sobreviver. Num lugar onde as pessoas n\u00e3o tinham oportunidade, talvez quando tivessem n\u00e3o sabiam como agarrar. Faltava-lhes estudo. Faltava-lhes conhecimento. Faltava-lhes incentivo para sair da escurid\u00e3o. Nenhum pol\u00edtico, daqueles que distribu\u00edam comida e cerveja, em sua pr\u00e9-elei\u00e7\u00e3o, gostava de ver sua gente discutir cultura com sabedoria. Queria que vivessem como gado. Queriam que a gente pobre se contaminasse com o covid 19 e morresse para diminuir o peso da Previd\u00eancia. Quanto mais mortos, melhor. E ainda assim a gente resignava-se, como eu, por exemplo, que lia por conta pr\u00f3pria. E emitia coment\u00e1rios, conselhos e sugest\u00f5es a outros. Como aquele taxista que corria ao me ver abra\u00e7ado a minha vassoura e aprender mais sobre mitologia grega. Cada pessoa em lugares como esse devia pensar o que fazer em cada passo que desse em sua caminhada. Em cada respira\u00e7\u00e3o. Eu e Amanda somos exemplos vivos desse aperto. Temos que provar todos os dias e horas que \u00e9ramos pessoas capazes. Da\u00ed, minha satisfa\u00e7\u00e3o em ser transformado em essencial para a sociedade por um v\u00edrus, na ironia da vida. Parecia que cada negro que nascia nas comunidades, tinha que pagar o pre\u00e7o do erro, primeiramente por ser negro, aquilo parecia realmente um erro, nascer negro. Em seguida, pelas faltas e crimes que nasciam naturalmente na alma de quem as provocava. Era negro, branco, mesti\u00e7o. Rico ou pobre. Assim como preto e pobre emergia e vivia do crime, no pensamento de quem tinha poder e girava o dinheiro na pr\u00f3pria gangorra financeira. \u00a0Rico e branco tamb\u00e9m espalhavam drogas, sonegavam imposto, lavavam dinheiro, surrupiavam dinheiro p\u00fablico, espancavam mulheres, desrespeitavam funcion\u00e1rios p\u00fablicos de cargo inferior, criavam mil\u00edcias et c\u00e9tera&#8230; E parecia que nada disso era marginal \u00e0s regras. N\u00e3o aparecia, n\u00e3o havia for\u00e7a descomunal de pol\u00edcia que contrariasse, que combatesse esses crimes, com a mesma veem\u00eancia da periferia, nos lugares deles. Mas l\u00e1, no lugar dos fracos, l\u00e1 onde n\u00e3o havia o que comer, l\u00e1 onde n\u00e3o havia moradia decente com banho quente nas noites de chuva e frio, mas muito medo de tudo desabar barranco abaixo depois de soar a sirene da afli\u00e7\u00e3o, l\u00e1 onde as m\u00e1scaras de prote\u00e7\u00e3o ao corona v\u00edrus eram somente um peda\u00e7o de pano, \u00e0s vezes engordurado, para cobrir a metade do rosto, l\u00e1 matava-se quem n\u00e3o tinha nada a ver, que por um capricho do destino tinha um vizinho suspeito. E para contabilizar na estrutura, somente quem tinha a pele preta cometia atrocidades. Come\u00e7ava a entender a fala da mulher que defendia movimento negro e que se pronunciava na reportagem do r\u00e1dio de manh\u00e3 cedinho antes do dia clarear. Aquele era o hor\u00e1rio para indignar-se da dor e da injusti\u00e7a, quando acordava para ir \u00e0 luta com o dia sem apresentar aurora definida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os policiais invadiram a comunidade em persegui\u00e7\u00e3o a traficantes de fac\u00e7\u00e3o, segundo disseram. Falavam que eram recebidos a tiros pelos meliantes. Revidavam, e assim foi baleado com fatalidade o menino Carlos Augusto de quatorze anos. Carlos, negro, estudante do nono ano do Ensino Fundamental, sonhava em ser jogador de futebol. Estava dentro de casa sentado no sof\u00e1 e assistia a um jogo antigo da sele\u00e7\u00e3o brasileira, a final da copa do mundo de 2002 contra a Alemanha. O Brasil ganhava de dois a zero e relembrava a euforia orgulhosa de ser brasileiro e pentacampe\u00e3o naquele domingo cinzento do trig\u00e9simo terceiro dia de quarentena sobre o coronav\u00edrus. Carlos Augusto n\u00e3o foi v\u00edtima do covid 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2012 A humanidade n\u00e3o deu certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emiti sem querer aquela frase que me capturou a alma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Carlos Vilarinho<\/em><\/strong><em>, nascido em setembro de 1963. Conhecido como Pensador das Ruas como atestam seus textos e personagens que surgem e passeiam livremente pelo Centro de Salvador. Autor de: \u201cLabirinto-Homem\u201d (Romance, Editora Kalango, 2013); \u201cBaculejo e outras hist\u00f3rias\u201d (Contos, Editora Via Litterarum, 2017) e \u201cBarroquinha\u201d (Romance, Editora Via Litterarum, 2019). \u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O manto da invisibilidade no conto de Carlos Vilarinho<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17393,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3798,2534],"tags":[3811,81,41,3695,3810,903,1980],"class_list":["post-17392","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-136a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-carlos-vilarinho","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-invisibilidade","tag-o-gari","tag-racismo","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17392"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17392\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17441,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17392\/revisions\/17441"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17393"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}