{"id":17407,"date":"2020-06-29T10:32:18","date_gmt":"2020-06-29T13:32:18","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17407"},"modified":"2020-07-31T13:08:08","modified_gmt":"2020-07-31T16:08:08","slug":"aperitivopalavrai-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavrai-4\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A mem\u00f3ria como dispositivo e reinven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por K\u00e1tia Borges<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/capa-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17409\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/capa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/capa-1.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/capa-1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Devo este breve olhar sobre \u201cAs solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4\u201d (Patu\u00e1, 2020), novo livro de poemas de Tiago D. Oliveira, desde antes da pandemia que sacudiu nossas vidas. Eu j\u00e1 o havia lido, antes mesmo de sua publica\u00e7\u00e3o, numa defer\u00eancia\u00a0\u00a0deste jovem poeta, que acompanho h\u00e1 muito.\u00a0O tempo \u00e9 um texto que tem seus mist\u00e9rios e este que se instalou entre a primeira leitura dos in\u00e9ditos e esta leitura de agora, ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o e o lan\u00e7amento, p\u00f4s em relevo novas perspectivas sobre o conte\u00fado que certamente n\u00e3o teriam sido consideradas do mesmo modo em um \u201cpassado pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00e9 pelos p\u00e9s de meu av\u00f4 que entendo a vida. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>morto de cima de nove d\u00e9cadas esculpidas\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>nas rachaduras das solas duras, naquele\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>mesmo quarto de estreitos e sonhos. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>caminho nos cascos a figurar seu povo, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>na heran\u00e7a do sangue no olho\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que o eco de sua voz ainda vive. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00e9 pelos p\u00e9s do morto, numa cama de pau,\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que vejo a luz do dia chegar. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>o choro, a reza, a morrinha de paz que fica<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na perspectiva do que ora vivemos \u2013 e das elipses de nossas hist\u00f3rias for\u00e7adas pelo longo distanciamento \u2013 arrisco dizer, sem recorrer a subterf\u00fagios, que escrevo precisamente no momento certo. Isto porque os poemas contidos em \u201cAs solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4\u201d repousam sobre o exerc\u00edcio da mem\u00f3ria, e de processos mnem\u00f4nicos que\u00a0\u00a0implicam muitas vezes em esquecer para lembrar. O esquecimento, enganosamente, costuma dispersar os detalhes, em modos de expans\u00e3o da nossa capacidade mental de preservar aquilo que \u00e9 \u201cmais importante\u201d. Ironicamente, no entanto, s\u00e3o os detalhes que\u00a0\u00a0delimitam a import\u00e2ncia daquilo que se preserva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ter na morte um rosto<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ao tempo nu e ilus\u00f3rio <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que a falta pendura em n\u00f3s, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que acura se d\u00e1 em desgosto. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>meu av\u00f4 \u00e9 hoje afec\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>nada mais falta em seu corpo <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que ausente existe no que ficou, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>nos objetos estranhos \u00e0 imagem. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>em quem ficou, na impot\u00eancia <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que assume o poema sobre <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a mnem\u00f4nica arte deste improviso\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta controversa rela\u00e7\u00e3o entre aquilo que se configura como aparentemente irrelevante e o que se mant\u00e9m na extens\u00e3o da mem\u00f3ria como afirma\u00e7\u00e3o de perten\u00e7a \u00e9 o norte dos poemas que comp\u00f5em \u201cAs solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4\u201d. N\u00e3o me refiro aqui, portanto, ao simples resgate das mem\u00f3rias de certa \u00e9poca. Mas da ativa\u00e7\u00e3o de\u00a0\u00a0um todo compacto que se carrega no corpo como um dispositivo. Uma mem\u00f3ria-dispositivo que se comp\u00f5e de forma org\u00e2nica, n\u00e3o linear ou previs\u00edvel, e que \u00e9 ordenada pela l\u00f3gica do sentir em seus deslocamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>as mem\u00f3rias se movimentam com o deitar dos s\u00f3is. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>v\u00e3o se transformando em um calor pendular: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>longe do toque, perto da imagina\u00e7\u00e3o. gosto de guard\u00e1-lo como poeta.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modo como este tempo-mem\u00f3ria-dispositivo atua, movimentando-se em ciclos de reinven\u00e7\u00e3o no imagin\u00e1rio do poeta \u00e9, portanto, inst\u00e1vel e impreciso.\u00a0Mas \u00e9 nesse percurso temporal reconstru\u00eddo, a partir dos detalhes que o orientam desde o t\u00edtulo, e em um espa\u00e7o \u00edntimo ativado pelo lirismo, que Tiago D. Oliveira\u00a0\u00a0transita em \u201cA sola dos p\u00e9s de meu av\u00f4\u201d. E os p\u00e9s do av\u00f4 s\u00e3o calcinados, marcados pelo caminhar em um tempo poss\u00edvel de esperan\u00e7a e desesperan\u00e7as, tamb\u00e9m legado e lida, heran\u00e7a e rito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>fecho os olhos e escuto a sua voz <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>dentro de uma pega de boi no mato. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>o corpo do vaqueiro \u00e9 o seu mundo, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>cada galho e espinho a marcar\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a pele, seu manto sagrado: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>perneira, gib\u00e3o, chap\u00e9u, peitoral, luvas, botas. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>fecho os olhos e n\u00e3o h\u00e1 mais fim, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>apenas o boi correndo solto <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>como um trov\u00e3o sem chuva <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a ecoar em labirintos <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>o desvencilhar dos pingos <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>at\u00e9 alcan\u00e7arem a terra. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o tempo do av\u00f4 que o neto instaura em seus versos, como s\u00f3i acontecer quando se olha afetivamente para tr\u00e1s. Coragem ser\u00e1 preciso, para n\u00e3o se deixar enrijecer nessa mirada. Nem sempre \u00e9 peso ou leveza o que se carrega na bagagem ao deixar a casa, e tudo que se fez e ela fez de (em) n\u00f3s. A casa entendida\/estendida ao que nos abriga enquanto aprendemos\/apreendemos o mundo l\u00e1 fora. Se pensarmos o demiurgo nesse resgate do perdido, figura recorrente na literatura, podemos situar esta poesia em par com outras que tamb\u00e9m revisitam as lembran\u00e7as pelo vi\u00e9s do mesmo dispositivo, a exemplo de Cacaso e de Ruy Espinheira Filho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>as rinhas de galo num quintal\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>de flores e homens. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a mesma casa da m\u00fasica <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>no domingo de manh\u00e3. passou <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>diante dos gestos engessados <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>que s\u00f3 as horas sabem <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>do quando em que v\u00e3o chegar. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>estavam l\u00e1, at\u00e9 mesmo depois. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>lutar at\u00e9 morrer, gritavam <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>at\u00e9 n\u00e3o mais restar galos, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>nem flores, s\u00f3 as rinhas <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>ficar\u00e3o para o tempo abra\u00e7ar: <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>em qual caminho se perdeu <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a minha paz? este sil\u00eancio <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>nas marcas da testa <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>de meu av\u00f4. o rinhadeiro <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>j\u00e1 n\u00e3o responde mais <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>no colher derradeiro, <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>no crescer de teixos. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>seguimos a tentar entender <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>de algum lugar que passou <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>a dist\u00e2ncia entre rir e chorar.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 deste modo, no dom\u00ednio do territ\u00f3rio da mem\u00f3ria, que se reinventa \u00fanico pela experi\u00eancia, que Tiago D. Oliveira se permite o trafegar suave entre temas que lhe s\u00e3o caros e que n\u00e3o o conectam a apenas essa ou aquela vertente po\u00e9tica. Tal caracter\u00edstica o singulariza fortemente no universo recente da literatura brasileira. Este \u201cAs solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4\u201d \u00e9 um exemplo desta op\u00e7\u00e3o pela liberdade criativa, ao se voltar inteiro para dentro e se distanciar de outras abordagens do mesmo autor. Assim pensado, o livro se revela objeto-projeto inteiro e que se sustenta de seu pr\u00f3prio espa\u00e7o-tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>K\u00e1tia Borges<\/strong> \u00e9 autora dos livros \u201cDe volta \u00e0 caixa de abelhas\u201d (As letras da Bahia, 2002), \u201cUma balada para Janis\u201d (P55, 2009), \u201cTicket Zen\u201d (Escrituras, 2010), \u201cEscorpi\u00e3o Amarelo\u201d (P55, 2012), \u201cS\u00e3o Selvagem\u201d (P55, 2014)\u00a0e\u00a0\u201cO exerc\u00edcio da distra\u00e7\u00e3o\u201d (Penalux, 2017). Tem\u00a0poemas\u00a0inclu\u00eddos nas colet\u00e2neas \u201cRoteiro da Poesia Brasileira, anos 2000\u201d (Global, 2009), \u201cTravers\u00e9e\u00a0d\u2019Oc\u00e9ans \u2013 Voix po\u00e9tiques de Bretagne et de Bahia\u201d (\u00c9ditions Lanore, 2012), \u201cAutores Baianos, um Panorama\u201d (P55, 2013)\u00a0e\u00a0na\u00a0\u201cMini-Anthology of Brazilian Poetry\u201d (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>K\u00e1tia Borges fala sobre o novo livro do poeta Tiago D. Oliveira <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17408,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3798,2533],"tags":[11,3814,2896,684,159,189,3514],"class_list":["post-17407","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-136a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-as-solas-dos-pes-de-meu-avo","tag-katia-borges","tag-memoria","tag-poemas","tag-resenha","tag-tiago-d-oliveira"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17407","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17407"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17407\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17446,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17407\/revisions\/17446"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17407"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17407"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17407"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}