{"id":17511,"date":"2020-07-27T12:29:10","date_gmt":"2020-07-27T15:29:10","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17511"},"modified":"2020-08-08T20:21:50","modified_gmt":"2020-08-08T23:21:50","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-70","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-70\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ana Paula Lisboa<\/strong> \u00e9 uma das grandes vozes da atualidade. \u201cFavelada e carioca de nascimento, a mais velha de quatro irm\u00e3os, filha de dois pretos\u201d, como se define, seus textos em prosa e em poesia trazem toda a pot\u00eancia, a riqueza e a representatividade da cultura afro-brasileira, chamando aten\u00e7\u00e3o, com igual vigor, para a ancestralidade, a produ\u00e7\u00e3o cultural das mulheres negras e tamb\u00e9m se manifestando contra a\u00e7\u00f5es que silenciem, infrinjam direitos e tirem espa\u00e7os dos negros dentro e fora do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dividindo a vida entre o Rio de Janeiro e Luanda, dirige a Al\u00e1fia e a Casa Rede, espa\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o de arte e cultura na capital angolana. No Brasil, escreve regularmente para o Segundo Caderno, do jornal O Globo, um desejo que vem de muito jovem, um desejo de ser lida que nasce aos 14 anos, quando escreve seus primeiros contos e poesias. Hoje, seus escritos est\u00e3o em colet\u00e2neas nacionais e internacionais, por\u00e9m, mais que uma escritora, prefere ser reconhecida como artista textual, utilizando da palavra escrita e da falada em diferentes plataformas, com o intuito de promover a visibilidade na narrativa e na gram\u00e1tica negra no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista exclusiva a Diversos Afins, Ana fala sobre sua viv\u00eancia com a literatura, suas experi\u00eancias com a leitura de mulheres negras, aborda o problema da educa\u00e7\u00e3o e do racismo, al\u00e9m de denunciar o desvirtuamento do que se entende como \u201cliteratura negra\u201d e a falta de espa\u00e7os para a publica\u00e7\u00e3o de autores negros no mercado editorial brasileiro. Com respostas francas, marcadas por um misto de indigna\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e personalidade, a autora aponta problemas antigos e da pol\u00edtica atual, celebrando nomes como Carolina Maria de Jesus, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo e Machado de Assis, sem nunca baixar a guarda no que se refere ao respeito \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es africanas. \u201cPara mim, \u00e9 imprescind\u00edvel que Machado de Assis seja negro, n\u00e3o por uma fantasia de representatividade, mas por uma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do apagamento. N\u00e3o conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um g\u00eanio, ent\u00e3o apagaram seu rosto, porque era inaceit\u00e1vel um g\u00eanio negro\u201d, sentencia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17659\" aria-describedby=\"caption-attachment-17659\" style=\"width: 333px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-IV.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17659 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-IV.jpg\" alt=\"\" width=\"333\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-IV.jpg 333w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-IV-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 333px) 100vw, 333px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17659\" class=\"wp-caption-text\">Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Um dos pontos centrais, tanto de seus textos ficcionais quanto de suas cr\u00f4nicas, \u00e9 chamar aten\u00e7\u00e3o para a cultura afro-brasileira, em especial para a literatura produzida por mulheres negras. Queria saber, a princ\u00edpio, sobre a sua primeira experi\u00eancia de leitura de um autor negro. Quando ocorreu e o que representou para voc\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Eu sinceramente n\u00e3o me lembro da primeira leitura, o primeiro lugar em que me senti representada pela cultura afro-brasileira foi na m\u00fasica e na dan\u00e7a. Pensando agora, talvez a Elisa Lucinda fosse algu\u00e9m que eu sentisse algo especial, uma poesia de voz feminina mas que n\u00e3o representava a \u201cmulher universal\u201d, tinha ali quest\u00f5es que eram s\u00f3 dela. Eu me lembro bem quando li \u201cPonci\u00e1 Vic\u00eancio\u201d, da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, que a sensa\u00e7\u00e3o era de que tudo que era poss\u00edvel escrever sobre ser uma mulher negra no mundo estava naquele texto. Eu, inclusive, fiquei algumas semanas sem escrever nada porque parecia que n\u00e3o havia mais o que escrever.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Dentre outros meios, voc\u00ea escreve regularmente para o Segundo Caderno, do O Globo. Baseado nessa experi\u00eancia de colunista, como analisa a import\u00e2ncia de tratar de temas representativos, sobretudo no que diz respeito \u00e0s mulheres negras, num jornal de larga circula\u00e7\u00e3o nacional? Encontra ainda algum tipo de resist\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> A resist\u00eancia que eu encontro \u00e9 do pr\u00f3prio pensamento e estrutura do Brasil, um pa\u00eds em que, por mais que n\u00e3o tenha passado pela experi\u00eancia do Apartheid, os lugares para pretos e os lugares para brancos est\u00e3o muito bem definidos, n\u00e3o numa placa, mas no pr\u00f3prio imagin\u00e1rio das pessoas. Ent\u00e3o, ter uma mulher negra jovem escrevendo um jornal de grande circula\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda estranho para muitas pessoas. Eu adoro escrever no jornal, era um desejo desde muito jovem. Escrever, pra mim, nunca foi sobre s\u00f3 escrever, mas sobre ser lida, ent\u00e3o, quanto mais pessoas lendo, melhor. Os orix\u00e1s trabalham para que as coisas aconte\u00e7am da forma que elas t\u00eam que acontecer. \u00c9 muito bom chegar em pessoas fora da minha bolha, de outros estados, de outros pa\u00edses, ou em salas de aula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Entrando no universo da literatura, o livro \u201cSil\u00eancios prescritos: estudo de romances de autoras negras\u201d, da doutora da USP Fernanda R. Miranda, traz uma informa\u00e7\u00e3o espantosa de que, em 200 anos de literatura brasileira, apenas oito autoras negras publicaram romances. Voc\u00ea acredita que, neste caso, a m\u00ednima quantidade de obras est\u00e1 diretamente associada a um processo sist\u00eamico de silenciar as mulheres negras? E como isso ocorre?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Est\u00e1 ligado a v\u00e1rios processos, n\u00e3o h\u00e1 um motivo \u00fanico, porque o racismo \u00e9 um monstro com muitos tent\u00e1culos. A quest\u00e3o principal, nesse caso pra mim, \u00e9 a publica\u00e7\u00e3o, porque tem muita gente escrevendo, mas n\u00e3o tem tanta gente sendo publicada. Todos os anos, os mesmos nomes est\u00e3o nas estantes. Depois, h\u00e1 tamb\u00e9m outras coisas: eu estou passando pela experi\u00eancia de escrever um romance e \u00e9 uma coisa muito dif\u00edcil. Escrever uma narrativa longa \u00e9 muito trabalhoso, requer concentra\u00e7\u00e3o, tempo, espa\u00e7o e, \u00e0s vezes, dinheiro para bancar essa escrita. Quantas pessoas t\u00eam isso? No buraco de tempo que a gente consegue entre tantos trabalhos dom\u00e9sticos e na rua, o que d\u00e1 para fazer muitas vezes s\u00e3o s\u00f3 as narrativas curtas, as poesias. Isso tamb\u00e9m \u00e9 um dos motivos porque muitas mulheres e homens negros publicam em colet\u00e2neas, como, por exemplo, s\u00e3o os Cadernos Negros, que existem h\u00e1 mais de 40 anos. A outra coisa \u00e9 que, al\u00e9m de criar espa\u00e7o nas editoras que j\u00e1 existem, \u00e9 preciso tamb\u00e9m que sejam abertas novas editoras, de donas e donos pretos. Esse tamb\u00e9m \u00e9 um espa\u00e7o que podemos e devemos ocupar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Outra quest\u00e3o forte e alarmante est\u00e1 na afirma\u00e7\u00e3o de que, no rol de todas as express\u00f5es art\u00edsticas, a literatura \u00e9 aquela menos acess\u00edvel ao artista negro, pois tem o poder de coloc\u00e1-lo como figura central, de projetar sua voz. Penso que isso gera um deslocamento do campo liter\u00e1rio e prova um racismo que transcende a fic\u00e7\u00e3o. Sendo assim, voc\u00ea acredita que o preconceito \u00e9 o mal que explica a escassez da literatura produzida por negros, ou \u00e9 um pensamento muito limitado, que encobre outros problemas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Todas as opress\u00f5es cabem dentro da literatura, \u00e9 uma grande luta para saber quem vai narrar o Brasil, qual Brasil \u00e9 v\u00e1lido de ser contado em palavras escritas. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma grande quest\u00e3o, porque os negros foram proibidos de ter acesso a escola, era um tal de \u201cvou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas\u201d. A entrada na universidade continua a ser uma luta, um espa\u00e7o que a todo momento tentam retirar. E mesmo dentro, a luta por um conte\u00fado que nos inclua tamb\u00e9m permanece. Tudo \u00e9 um grande plano para nos afastar e n\u00e3o nos deixar emancipar, um plano que todos fazem parte de uma forma ou de outra, ainda que n\u00e3o percebam. Por isso eu acho a fic\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante, ela n\u00e3o se desloca do tempo e do espa\u00e7o que nos prende. \u00c9 o contar hist\u00f3rias dos gri\u00f4s, \u00e9 s\u00f3 inventando mundos outros que vislumbrarmos sair desse em que estamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17661\" aria-describedby=\"caption-attachment-17661\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17661 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-I.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-I-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17661\" class=\"wp-caption-text\">Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Em 2018, o romance \u201cTorto arado\u201d, do baiano Itamar Vieira Junior, ganhou o Pr\u00eamio Leya de Literatura, dando voz a duas personagens negras num \u00e9pico passado num Brasil profundo. Pensando na quest\u00e3o do lugar de fala, de alguma forma um homem dando voz a personagens femininas \u00e9 um problema? De que forma a aus\u00eancia de uma autora vocalizando quest\u00f5es ligadas ao universo feminino impede com que se chegue a uma verossimilhan\u00e7a representativa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o li o romance do Itamar ainda, mas ouvi coisas muito bonitas sobre ele. Eu acho que ser um escritor \u00e9 a possibilidade de ser outros, de ter outras vozes, de estar em outros mundos, ent\u00e3o n\u00e3o vejo um homem criando as hist\u00f3rias de mulheres como um problema. As coisas s\u00e3o s\u00f3 coisas, n\u00f3s \u00e9 que damos funcionalidades a elas. A quest\u00e3o, pra mim, da escassez de personagens negros na pr\u00f3pria literatura \u00e9 porque o homem branco escritor do sudeste, que \u00e9 o publicado, s\u00f3 fala de si.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Neste caso, h\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o do Machado de Assis branco, mulato ou negro? Qual a relev\u00e2ncia dessa discuss\u00e3o para voc\u00ea?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Eu sou apaixonada pela literatura de Machado de Assis. Na verdade, voltando \u00e0 primeira pergunta, eu me lembro da primeira vez em que li \u201cDom Casmurro\u201d, e ele come\u00e7ava escrevendo algo como pegar o trem para o Engenho Novo. Na \u00e9poca, eu morava no Engenho Novo e, pra quem conhece, sabe que n\u00e3o \u00e9 um bairro pra se ter muito orgulho. Mas foi naquele dia em que eu me apaixonei pelo Engenho Novo. Para mim, \u00e9 imprescind\u00edvel que Machado de Assis seja negro, n\u00e3o por uma fantasia de representatividade, mas por uma repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do apagamento. N\u00e3o conseguiram apagar suas palavras, porque ele era um g\u00eanio, ent\u00e3o apagaram seu rosto, porque era inaceit\u00e1vel um g\u00eanio negro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Tratando agora de autoras negras, um caso marcante \u00e9 o da mineira Carolina Maria de Jesus, cujo livro de estreia, \u201cQuarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada\u201d, \u00e9 considerado um best-seller e segue encontrando novas gera\u00e7\u00f5es de leitores e de admiradores. Contudo, \u00e9 uma literatura que paradoxalmente n\u00e3o trouxe larga visibilidade para a figura da autora, ou mesmo seu devido reconhecimento. A que se pode imputar tal discrep\u00e2ncia dado o car\u00e1ter livremente autobiogr\u00e1fico do livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> S\u00e3o v\u00e1rias as quest\u00f5es, porque Carolina, diferente do Machado, tinha rosto, tinha tra\u00e7os, tinha corpo, um corpo preto retinto. Carolina era uma mulher muito forte, ela se conhecia e conhecia o Brasil, esse Brasil racista. Ela n\u00e3o se deixou ser colocada na caixa da \u201cfavelada\u201d, como se essa fosse a \u00fanica narrativa que ela pudesse escrever. Como n\u00e3o conseguiram apagar seu rosto, tentaram apagar seus escritos, tamb\u00e9m geniais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Outra autora em foco \u00e9 a tamb\u00e9m mineira Concei\u00e7\u00e3o Evaristo que, em 2018, esteve no centro de uma campanha nas redes sociais para que fosse a primeira escritora negra a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras (cadeira que acabou sendo preenchida pelo cineasta Cac\u00e1 Diegues). Na ocasi\u00e3o, um dos assuntos mais discutidos foi se o estofo de sua obra lhe garantiria for\u00e7a para disputar a vaga ou se sua escolha se devia a sua representatividade no meio liter\u00e1rio. Qual sua percep\u00e7\u00e3o sobre essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Concei\u00e7\u00e3o Evaristo \u00e9, pra mim, a maior escritora do Brasil. Concei\u00e7\u00e3o n\u00e3o entrou para Academia Brasileira de Letras porque a branquitude n\u00e3o gosta de ser questionada, n\u00e3o suporta ser racializada e n\u00e3o tem nenhuma vontade de reconhecer seus privil\u00e9gios. Reconhecer privil\u00e9gios \u00e9 reconhecer a sua culpa em tudo isso e ningu\u00e9m quer se sentir culpado. No Brasil, o racista \u00e9 sempre o outro. Mas Concei\u00e7\u00e3o n\u00e3o perde em nada, na verdade quem perde \u00e9 a Academia Brasileira de Letras. Ela \u00e9 uma deusa e deusas j\u00e1 nascem imortais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17662\" aria-describedby=\"caption-attachment-17662\" style=\"width: 336px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17662 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-III.jpg\" alt=\"\" width=\"336\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-III.jpg 336w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/IMAGEM-III-202x300.jpg 202w\" sizes=\"auto, (max-width: 336px) 100vw, 336px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17662\" class=\"wp-caption-text\">Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea tem contos e poesias publicados em colet\u00e2neas nacionais e internacionais. No entanto, numa vis\u00e3o ampla da literatura contempor\u00e2nea brasileira, ainda h\u00e1 poucos autores negros publicando. Por parte das editoras, em especial os grandes selos, voc\u00ea percebe que ainda h\u00e1 resist\u00eancia para se publicar autores negros ou preconceito sobre temas ligados ao universo afro-brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Para que existam na literatura publica\u00e7\u00f5es de literatura negra, \u00e9 preciso que haja editores que saibam ler essa literatura, e h\u00e1 muita gente nesse mercado que n\u00e3o sabe ler. Depois \u00e9 o mercado, que est\u00e1 percebendo lentamente que os negros compram livros, leem livros e que n\u00f3s n\u00e3o lemos de qualquer coisa. \u00c9 engra\u00e7ado porque se um carioca da Zona Sul resolve comprar um livro s\u00f3 porque conhece o autor e a hist\u00f3ria se passa no Leblon, ningu\u00e9m acha isso estranho. Mas se eu disser que comprei um livro s\u00f3 porque ele se passa na Complexo da Mar\u00e9, ou porque ele foi escrito por uma mulher negra, acham que eu estou \u00e0 procura n\u00e3o de boa literatura, mas de representatividade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Falando em preconceito, temos hoje, no governo federal, um presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares que explicitamente menospreza a hist\u00f3ria de resist\u00eancia e luta dos negros no Brasil, reiterando declara\u00e7\u00f5es racistas. Voc\u00ea acredita que essa \u00e9 a pauta de um indiv\u00edduo completamente transloucado ou h\u00e1, por tr\u00e1s disso, toda uma a\u00e7\u00e3o institucional para sufocar e anular as pol\u00edticas p\u00fablicas e reconhecimento hist\u00f3rico-sociocultural do negro no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Eu acho que nada \u00e9 por acaso, n\u00e3o acho que buracos se abrem do nada, a gente sempre caminha at\u00e9 o abismo, mesmo que n\u00e3o se d\u00ea conta disso. A minha sugest\u00e3o, inclusive, \u00e9 a que mudemos o nome da Funda\u00e7\u00e3o Palmares enquanto o senhor esteja presidente. A luta ancestral n\u00e3o merece ter seu nome tratado assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 uma m\u00e1xima de que o esporte \u00e9 um instrumento para socializar e dar oportunidades reais a crian\u00e7as situadas nas \u00e1reas mais pobres do pa\u00eds. Por\u00e9m, n\u00e3o deveria ser o \u00fanico a ter essa disponibilidade. Voc\u00ea acredita que a cultura, em especial a literatura, poderia ser tamb\u00e9m um caminho? E essa aus\u00eancia n\u00e3o explicaria o baixo n\u00famero de autores negros em atividade no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Ningu\u00e9m tem muita paci\u00eancia com a crian\u00e7a e o jovem negro, h\u00e1 pesquisas que falam que professores s\u00e3o mais agressivos e se recusam, \u00e0s vezes, a explicar para crian\u00e7as e jovens negros na escola, que crian\u00e7as negras passam mais tempo chorando ou sujas nas creches. O adolescente branco, de classe m\u00e9dia, geralmente quando come\u00e7a a dar problema vai para terapia, isso n\u00e3o acontece com jovem negro. Ent\u00e3o, \u00e9 mais f\u00e1cil botar ele para jogar futebol, gastar energia, colocar para fora aquilo que t\u00e1 incomodando do que sentar com ele e efetivamente explicar o mundo. Ao mesmo tempo, eu acho que a cultura ou o esporte n\u00e3o tem o dever de salvar ningu\u00e9m, a crian\u00e7a e o jovem preto n\u00e3o precisam de salva\u00e7\u00e3o, precisam de repert\u00f3rio de mundo, terem acesso a est\u00edmulos para que possam fazer boas escolhas para a vida. Esse \u00e9 um direito que est\u00e1 inclusive na Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 O que pensa sobre a express\u00e3o \u201cliteratura negra\u201d? H\u00e1, na confirma\u00e7\u00e3o do termo, um fator de representatividade, de for\u00e7a para esses autores? Ou literatura brasileira deve ser vista em sua multiplicidade, incorporando temas e contextos sem que seja distinguida por qualquer parti\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> Eu n\u00e3o sou acad\u00eamica ou cr\u00edtica liter\u00e1ria, eu sou s\u00f3 uma escritora. Hoje eu percebo que o que eu escrevo \u00e9 literatura negra e n\u00e3o vejo nenhum problema em ser colocada nessa estante.\u00a0 O que me incomoda \u00e9 a classifica\u00e7\u00e3o \u201cescritora negra\u201d, porque geralmente quando me colocam nessa caixa quer dizer que eu s\u00f3 possa escrever, ver, ou falar a partir das quest\u00f5es do racismo. Se eu pensasse ou escrevesse sobre racismo 24 horas por dia, eu j\u00e1 teria morrido de depress\u00e3o. \u00c9 \u00f3bvio que ser uma mulher negra vai aparecer no que eu escrevo, assim como Clarice Lispector ser ucraniana criada no nordeste aparecia na literatura dela. Ser negra n\u00e3o \u00e9 a minha limita\u00e7\u00e3o, na verdade \u00e9 o que me amplia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Para os leitores que querem acessar a literatura afro-brasileira, o que voc\u00ea recomenda de contempor\u00e2neo? Quais autores ou livros s\u00e3o fundamentais hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211; <\/strong>Leiam qualquer coisa da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, at\u00e9 receita de bolo. Meu preferido, nesse momento, \u00e9 \u201cBecos da Mem\u00f3ria\u201d. \u201cUm Defeito de Cor\u201d, da Ana Maria Gon\u00e7alves, \u00e9 tipo a b\u00edblia. \u201cMeio Sol Amarelo\u201d, da Chimamanda Ngozi Adichie, \u00e9 de destruir emocionais. Nesse momento, estou lendo as poesias da Ryane Le\u00e3o, em \u201cTudo Nela Brilha e Queima\u201d, e os contos da Cidinha da Silva, em \u201cUm Exu em Nova York\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A literatura, por si s\u00f3, tem o poder de ser um instrumento de representatividade social, ou depende de uma combina\u00e7\u00e3o de fatores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ANA PAULA LISBOA &#8211;<\/strong> N\u00e3o sei responder.\u00a0 Eu acho que a literatura como qualquer outra arte est\u00e1 inserida no tempo e no espa\u00e7o de uma sociedade, ent\u00e3o de alguma forma ela sempre vai representar algo. Representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um problema do escritor, o problema do escritor, ou a tarefa do escritor, \u00e9 escrever: \u00e9 criar hist\u00f3rias, mundos, pessoas e esperar que quem esteja do outro lado entenda a hist\u00f3ria que a gente queria contar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>S\u00e9rgio Tavares<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978. \u00c9 cr\u00edtico liter\u00e1rio e escritor, autor de \u201cQueda da pr\u00f3pria altura\u201d, finalista do 2\u00ba Pr\u00eamio Bras\u00edlia de Literatura, e \u201cCavala\u201d, vencedor do Pr\u00eamio Sesc Nacional de Literatura. Alguns de seus contos foram traduzidos para o ingl\u00eas, o italiano, o japon\u00eas, o espanhol e o t\u00e2mil. Participou da edi\u00e7\u00e3o seis da Machado de Assis Magazine, lan\u00e7ada no Sal\u00e3o do Livro de Paris. Edita o site de cr\u00edtica liter\u00e1ria<a href=\"https:\/\/anovacritica.wordpress.com\/\"> <strong>A Nova Cr\u00edtica<\/strong><\/a>.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa entrevista a S\u00e9rgio Tavares, a escritora Ana Paula Lisboa aborda seus trajetos liter\u00e1rios e l\u00facidas vis\u00f5es de mundo <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17634,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3821,16,2539],"tags":[3851,63,887,3852,3853,8,903,1023],"class_list":["post-17511","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-137a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-ana-paula-lisboa","tag-entrevista","tag-literatura","tag-literatura-negra","tag-o-globo","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-racismo","tag-sergio-tavares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17511","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17511"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17511\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17686,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17511\/revisions\/17686"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17511"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17511"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17511"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}