{"id":17523,"date":"2020-07-27T13:19:08","date_gmt":"2020-07-27T16:19:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17523"},"modified":"2020-07-31T13:01:38","modified_gmt":"2020-07-31T16:01:38","slug":"aperitivo-da-palavra-i-26","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-26\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma leitura de Cinevertigem, livro instigante de Ricardo Soares<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Geraldo Lima<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/CINEVERTIGEMinterna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17534\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/CINEVERTIGEMinterna.jpg\" alt=\"\" width=\"290\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/CINEVERTIGEMinterna.jpg 290w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/CINEVERTIGEMinterna-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 290px) 100vw, 290px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cinevertigem<\/em>, de Ricardo Soares, \u00e9 um livro inovador, provocador, escorregadio. Publicado pela Editora Record, em 2005, \u00e9 obra que cruza a fronteira dos g\u00eaneros liter\u00e1rios e busca, com certeza, ampliar os horizontes da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Durante a sua leitura, o leitor provavelmente indagar\u00e1: isso \u00e9 prosa ou poesia? \u00c9 um romance ou um longo poema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num primeiro momento, o leitor, certamente, ser\u00e1 tentado a ler essa obra como um longo poema, j\u00e1 que o ritmo, as alitera\u00e7\u00f5es, as rimas internas e as imagens atestam isso: \u201cveloz dentro dessa noite oriunda quem, quem, quem me acende a boca do fog\u00e3o que est\u00e1 entupida, quem que me frita um ovo do avesso, quem me paga comida, compra ra\u00e7\u00e3o para o c\u00e3o, entende que os livros est\u00e3o espalhados pelo ch\u00e3o porque assim eles s\u00e3o&#8230;\u201d A repeti\u00e7\u00e3o do pronome \u201cquem\u201d enfatiza e reverbera o desejo do eu l\u00edrico [ou seria do narrador?], assinalando mais ainda o car\u00e1ter po\u00e9tico do texto. \u00a0Assim se inicia o texto: \u201cquem, quem, quem, quem, quem \u00e9 que me cobre de beijos? Quem, quem me lambe a ponta do nariz&#8230;?\u201d Essa repeti\u00e7\u00e3o, que se pode dizer tamb\u00e9m ic\u00f4nica, j\u00e1 que indica um sentido de urg\u00eancia, de obsessiva solicita\u00e7\u00e3o, aparece ora no in\u00edcio da estrofe [ou par\u00e1grafo?], ora no meio, mas sempre introduzindo um novo n\u00facleo de ideias, de pedidos, de coisas desejadas, um novo rol de objetos, lugares, pessoas, profiss\u00f5es etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe salientar aqui, e creio que sem perigo de dar <em>spoiler<\/em>, que estas s\u00e3o, tamb\u00e9m, as palavras que encerram o texto, expondo sua estrutura circular, ou inscrevendo-o no rol das obras que come\u00e7am pelo final. O autor, num gesto tipicamente machadiano, marcado pela ironia, parece brincar com o leitor, querendo surpreend\u00ea-lo numa falta. \u00a0Sen\u00e3o, vejamos: \u201cpara os que come\u00e7am lendo um livro pelo fim devo dizer que morri no meio da hist\u00f3ria; sou um defunto que jaz e pergunta: quem, quem&#8230;?\u201d H\u00e1 que se observar, tamb\u00e9m, que \u201cveloz dentro dessa noite oriunda\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia clara ao livro de poemas de Ferreira Gullar, <em>Dentro da noite veloz<\/em>, publicado pela Editora Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, em 1975. Ali\u00e1s, a refer\u00eancia a outras obras liter\u00e1rias, a personagens de fic\u00e7\u00e3o [\u201cquem, quem, quem me d\u00e1 essa vida de Macuna\u00edma, brincando com o pau dentro do jirau&#8230;\u201d], a nomes de autores ou figuras de destaque no mundo intelectual [\u201cquem, quem, quem me d\u00e1 a vida do cabeludo paj\u00e9 Darcy, boca seca de tanto falar\u201d] ser\u00e1, ao longo do texto, um procedimento bastante usado por Ricardo Soares, mas evitando, sempre, o tom de exalta\u00e7\u00e3o ou de discurso elevado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a\u00ed, na ficha catalogr\u00e1fica, diz que se trata de um romance. Entendemos que o romance \u00e9 um g\u00eanero h\u00edbrido, que acomoda em sua estrutura outros g\u00eaneros, como bem nos mostrou Bakhtin, mas seria esse o caso deste livro do jornalista, diretor de TV e escritor Ricardo Soares? Se formos enumerar nele a presen\u00e7a de elementos pr\u00f3prios de um texto narrativo ou ficcional, talvez nos frustremos. O narrador, no caso, se confunde com o eu l\u00edrico da poesia. H\u00e1 mais uma voz que explicita seus desejos, sua subjetividade, do que um ser fict\u00edcio que conta uma hist\u00f3ria. \u00c9 mais uma voz que clama, como numa ora\u00e7\u00e3o, ou num c\u00e2ntico pag\u00e3o, do que uma voz que narra. N\u00e3o se trata nem mesmo de um poema narrativo, de car\u00e1ter \u00e9pico, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 a figura de um her\u00f3i realizando grandes feitos, tampouco o tom elevado do discurso que caracteriza essa forma liter\u00e1ria. [Da p\u00e1gina 70 \u00e0 73 h\u00e1 de fato um poema, com versos, estrofes, rimas e composto num ritmo pr\u00f3prio da poesia feita pelos cordelistas; mas a inser\u00e7\u00e3o desse poema, claramente narrativo, no corpo do romance, \u2013 aqui admitindo-se que se trata de fato de um romance \u2013 encontra-se, ainda, dentro do car\u00e1ter h\u00edbrido desse g\u00eanero narrativo.] Os personagens, ou pessoas referenciadas, melhor dizendo, n\u00e3o chegam a mover-se, dando in\u00edcio a uma a\u00e7\u00e3o concreta, progressiva. Vez ou outra surgem fragmentos de hist\u00f3rias que poderiam se desenvolver, mas logo se esgotam e somos introduzidos em outro n\u00facleo de coisas evocadas pela voz masculina ou consci\u00eancia desejosa de experimentar novas viv\u00eancias. Os espa\u00e7os s\u00e3o variados, j\u00e1 que h\u00e1 um vagar constante da alma ansiosa desse ser que se agita no texto. Desse modo, a narrativa em si, ou o escoar po\u00e9tico da voz que fala no texto, resulta num amplo passeio por v\u00e1rios lugares da nossa geografia, por v\u00e1rios aspectos da nossa cultura e da de outros povos, nessa tentativa angustiada de alcan\u00e7ar, realizar ou incorporar aquilo que se reitera com a pergunta: &#8220;quem, quem, quem, quem, quem \u00e9 que me&#8230;?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para ampliar ainda mais o seu aspecto de obra fora do convencional, h\u00e1 a sua aproxima\u00e7\u00e3o dos recursos da montagem cinematogr\u00e1fica. Cada bloco que se inicia, quase sempre com a pergunta obsessiva \u201cquem, quem&#8230;\u201d, parece expor um fotograma que registra uma unidade de desejo ou s\u00faplica que vai se desdobrando e agregando outros elementos ao n\u00facleo tem\u00e1tico, justapondo sensa\u00e7\u00f5es ou ambientes, para ser, logo em seguida, substitu\u00edda por outra, criando sempre uma atmosfera de vertigem. Mas, ainda que aparente ter uma estrutura fragment\u00e1ria, h\u00e1 um sentido de encadeamento, de liga\u00e7\u00e3o, de amarra entre os par\u00e1grafos, ou as estrofes, ou as cenas, como queira. Como se d\u00e1 isso? \u00c0s vezes a unidade seguinte ganha corpo a partir da retomada de uma palavra da unidade anterior, sugerindo a t\u00e9cnica de \u201cpalavra puxa palavra\u201d. Um exemplo: \u201c&#8230; este velho na ativa dava inveja a outros tropeiros&#8230;\u201d Inicia-se, ent\u00e3o, a unidade seguinte retomando a palavra \u201ctropeiros\u201d no singular: \u201cquem, quem, quem me d\u00e1 essa vida de tropeiro absoluto&#8230;\u201d O vasto painel de realidades d\u00edspares que o autor vai agregando ao texto, ora com vis\u00e3o cr\u00edtica sobre quest\u00f5es sociais e pol\u00edticas, ora movido pela ironia e pelo esp\u00edrito de carnavaliza\u00e7\u00e3o, cria a imagem de um mundo ca\u00f3tico, de cinema glauberiano, em que a c\u00e2mera gira nervosa, registrando tanto o del\u00edrio po\u00e9tico do cineasta quanto o seu olhar que desvenda criticamente a nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suma, o <em>Cinevertigem<\/em> de Ricardo Soares \u00e9 esse passear delirante, aflitivo, obsessivo, desejoso por v\u00e1rios meandros do fazer humano, da experi\u00eancia de vida do outro, enfim, da cultura, numa sequ\u00eancia que se processa entre o ritmo e a imag\u00e9tica da poesia e o poss\u00edvel novelo da narrativa ficcional que vai se desenrolando num \u00fanico f\u00f4lego, at\u00e9 desembocar num final que \u00e9 puro cinema, ou refer\u00eancia\/rever\u00eancia ao cinema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lima<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritor, dramaturgo e roteirista. \u00c9 autor de \u201cUma mulher \u00e0 beira do caminho\u201d [contos, Editora Patu\u00e1, 2017], \u201cTrinta gatos e um c\u00e3o envenenado\u201d [pe\u00e7a de teatro, encenada em 2016 em Bras\u00edlia] e \u201cO colar de Coralina\u201d [roteiro de um longa de fic\u00e7\u00e3o dirigido pelo cineasta Reginaldo Gontijo]. E-mail: gerallimma@gmail.com<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Lima apresenta seus percursos em \u201cCinevertigem\u201d, livro de Ricardo Soares <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17544,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3821,2533,16],"tags":[11,250,17,149,189,3830],"class_list":["post-17523","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-137a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-aperitivo-da-palavra","tag-geraldo-lima","tag-poesia","tag-prosa","tag-resenha","tag-ricardo-soares"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17523","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17523"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17537,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17523\/revisions\/17537"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17544"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}