{"id":17732,"date":"2020-08-30T14:08:38","date_gmt":"2020-08-30T17:08:38","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17732"},"modified":"2020-08-31T18:38:26","modified_gmt":"2020-08-31T21:38:26","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-71","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-71\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por K\u00e1tia Borges<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lima Trindade<\/strong> \u00e9 rock, quadrinhos e literatura. Nascido em Bras\u00edlia, viveu intensamente os anos oitenta no olho do furac\u00e3o. Entre o Distrito Federal, o Rio de Janeiro e Salvador, onde mora hoje, construiu uma bagagem s\u00f3lida de refer\u00eancias, numa triangula\u00e7\u00e3o de afetos que transcende a ascend\u00eancia carioca-baiana. Autor dos livros Supermercado da Solid\u00e3o (LGE, 2005), Cora\u00e7\u00f5es Blues e Serpentinas (Artepaubrasil, 2007), Todo Sol mais o esp\u00edrito Santo (Ateli\u00ea Editorial, 2005), Aceitaria Tudo (Mariposa Cartonera, 2015) e O retrato: um pouco de Henry James n\u00e3o faz mal a ningu\u00e9m (P55, 2014), lan\u00e7ou no ano passado As margens do para\u00edso (Editora Cepe), romance que apresenta ao leitor um Brasil que se alimentava de sonhos, talvez ing\u00eanuos, de grandeza. Nesta entrevista, conversamos sobre influ\u00eancias, paix\u00f5es, mercado liter\u00e1rio e a primeira incurs\u00e3o de Lima Trindade no universo dos quadrinhos, na lend\u00e1ria revista NTC, com um conto e um roteiro in\u00e9ditos, que devem ser lan\u00e7ados em 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17737\" aria-describedby=\"caption-attachment-17737\" style=\"width: 275px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Lima-Trindade-1_cr\u00e9dito_Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17737\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Lima-Trindade-1_cr\u00e9dito_Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"275\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Lima-Trindade-1_cr\u00e9dito_Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg 275w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Lima-Trindade-1_cr\u00e9dito_Marcelo-Fraz\u00e3o-165x300.jpg 165w\" sizes=\"auto, (max-width: 275px) 100vw, 275px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17737\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Marcelo Fraz\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Quando o Lima Trindade que sonhava em ser desenhista descobriu a literatura como modo de express\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211;<\/strong> A express\u00e3o liter\u00e1ria chegou tarde. Talvez o grande est\u00edmulo tenha ocorrido quando assisti ao filme \u201cSociedade dos poetas mortos\u201d aos 23 anos de idade. Eu me identifiquei muito com a personagem do Ethan Hawke, um cara extremamente t\u00edmido e que se sentia deslocado em ambientes formais. Todo aquele lance do \u201cCarpe Diem\u201d, a mistura de Hor\u00e1cio com os transcendentalistas americanos e a busca por uma exist\u00eancia aut\u00eantica fizeram minha cabe\u00e7a. De vez em quando, rabiscava umas frases sem sentido nos intervalos das aulas da faculdade. Era uma coisa quase medi\u00fanica. Eu n\u00e3o censurava nada. Apenas, deixava fluir. N\u00e3o havia burilamento. Escrevia nas margens do papel timbrado, nas \u00faltimas folhas dos cadernos, no lado interno das capas. Escrevia e dava por acabado, sequer voltava a ler. Havia uma amiga na sala de aula, a Rosana Garutti, que adorava pegar meus cadernos e ler esses fragmentos. Dizia que achava bonito, que eu deveria escrever poemas ou letras de m\u00fasica. Aconteceu, ent\u00e3o, de eu me deparar com o livro \u201cWalt Whitman, a forma\u00e7\u00e3o do poeta\u201d, do Stefan Zweig. Eu fiquei fascinado com a descri\u00e7\u00e3o da maneira como o grande bardo norte-americano construiu e moldou sua vida por uma perspectiva puramente art\u00edstica, tendo influenciado at\u00e9 o Wilde. Passei a estudar e exercitar versifica\u00e7\u00e3o, trabalhando para dominar a forma e me sentir seguro para compor um poema inteiro. No come\u00e7o dos anos 90, conheci os poetas Andrei Morais e Sandro Ornelas. Juntos, lan\u00e7amos um folhetim po\u00e9tico chamado Huguy Rupi. O Andrei se desligou do projeto quando ainda imprim\u00edamos os primeiros exemplares, rodados na gr\u00e1fica do Correio Braziliense. Eu e Sandro percorr\u00edamos os bares da Asa Sul e Norte para vender e pagar o Huguy Rupi. Era uma grande aventura. Conhecemos os mais diversos poetas nessas andan\u00e7as: do marginal beatnik ao parnasiano erudito. Infelizmente, a publica\u00e7\u00e3o s\u00f3 duraria dois n\u00fameros. Sandro, que tinha ido a Bras\u00edlia para estudar, concluiu seu curso na universidade e retornou para sua casa em Salvador. Eu n\u00e3o quis tocar o jornal sozinho. Por volta de 1996, reuni uma quantidade significativa de poemas meus com o objetivo de montar um livro. Durante a prepara\u00e7\u00e3o do original, reavaliei o material cuidadosamente, percebendo, com tristeza, que ele carecia de um acento particular, que sua publica\u00e7\u00e3o nada acrescentaria \u00e0 hist\u00f3ria da literatura. Faltava-me originalidade. Eu me expressava literariamente, mas n\u00e3o com a pot\u00eancia que eu gostaria. Desse modo, desisti de escrever versos. Havia um amigo no trabalho que insistia muito para que eu escrevesse uma hist\u00f3ria de amor vivida por ele. Eu nunca experimentara a prosa de fic\u00e7\u00e3o, mas resolvi atender o seu pedido. Contudo, em vez de narrar a hist\u00f3ria que ele tanto desejava, enveredei por outro caminho e escrevi o conto \u201cA meia-sola do sapato\u201d, inspirado num epis\u00f3dio real de sua inf\u00e2ncia. Esse trabalho, que era meu primeiro no g\u00eanero, me valeu uma men\u00e7\u00e3o honrosa no Concurso de Contos Paulo Leminski em Porto Alegre. Deu-me tamb\u00e9m disposi\u00e7\u00e3o para experimentar novas possibilidades de narrativas e pontos de vistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 um momento no qual essa voca\u00e7\u00e3o tenha ficado perfeitamente n\u00edtida para voc\u00ea? Uma esp\u00e9cie de marco, de ponto de virada.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211;<\/strong> Sim. No dia do lan\u00e7amento do \u201cTodo Sol mais o Esp\u00edrito Santo\u201d, no Rio de Janeiro. Como todo ansioso, cheguei ao evento, que aconteceria no Centro Cultural dos Correios, algumas horas antes do previsto. Estava tudo muito bonito e organizado. Eu n\u00e3o tinha muito o que fazer. A n\u00e3o ser, esperar. Desse modo, resolvi dar uma volta. Chegando na Rio Branco, encontrei a Leonardo Da Vinci, que eu sempre ouvira os amigos falarem ser uma livraria fant\u00e1stica e dona de um acervo de muita qualidade. Fiquei todo animado com a possibilidade de encontrar alguns t\u00edtulos e autores que n\u00e3o achava em Salvador. Logo na entrada, tomei um susto. Vi o meu livro exposto em destaque. Ao lado, escritores como Truman Capote, Clarice Lispector, Reinaldo Arenas, Gabriel Garc\u00eda-M\u00e1rquez, Caio Fernando Abreu etc. Foi uma emo\u00e7\u00e3o sem igual. Ali, eu tive a consci\u00eancia de estar verdadeiramente inserido no jogo. At\u00e9 ent\u00e3o, nos lan\u00e7amentos em S\u00e3o Paulo e Bras\u00edlia, eu me sentia como se estivesse anestesiado, como se nada daquilo fosse real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como foi a adapta\u00e7\u00e3o do brasiliense, que orbitava o boom do rock BR, ao universo dominado pela cultura do ax\u00e9?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>N\u00e3o houve conflito. Sou filho de baiana e carioca. Meu pai e minha m\u00e3e se separaram relativamente cedo. Quando eu tinha quatro anos de idade, meu pai foi trabalhar em Manaus, por conta das oportunidades surgidas com a zona franca. Alguns anos depois, retornou, mas os dois n\u00e3o se entenderam e ele partiu novamente. N\u00f3s, meu pai e eu, s\u00f3 fomos desenvolver maior proximidade no come\u00e7o de minha adolesc\u00eancia. O resultado disso \u00e9 que passei boa parte da minha inf\u00e2ncia sendo criado por uma m\u00e3e, av\u00f3 e tia baianas. N\u00e3o sei distinguir o que \u00e9 brasiliense e o que \u00e9 baiano em mim. Sem falar que, em mat\u00e9ria de cultura, nunca fui purista. Eu mergulhei no rock de minha gera\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, gostava de ouvir Caymmi e Noel Rosa. Ou Villa-Lobos. O que apreciava no rock dos anos 80 era justamente sua rebeldia, sua n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o das regras, sua intelig\u00eancia. Vim para Salvador em 2002. Eu tinha muito preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao ax\u00e9, botava \u00c9 o Tcham e Olodum no mesmo saco, entende? Ficava irritado pelo fato de as r\u00e1dios de Bras\u00edlia n\u00e3o tocarem mais m\u00fasicas de rock e cederem quase todo o espa\u00e7o para o \u201cax\u00e9\u201d. Eu sabia que se tratava de grana, que o rock tinha sido uma moda do mesmo jeito que o ax\u00e9 era naquele momento, mas n\u00e3o me conformava. Somente morando na Bahia \u00e9 que fui compreender o quanto a classifica\u00e7\u00e3o \u201cax\u00e9\u201d era limitada, pregui\u00e7osa e excludente. N\u00e3o d\u00e1 para dizer que Ger\u00f4nimo, Lazzo Matumbi, Il\u00ea Ay\u00ea, Netinho, Chiclete com Banana e Harmonia do Samba s\u00e3o parte de um mesmo movimento, t\u00eam as mesmas identifica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e interesses art\u00edsticos. \u00c9 algo absurdo. Por outro lado, eu j\u00e1 conhecia e admirava a produ\u00e7\u00e3o roqueira baiana quando ainda estava em Bras\u00edlia. Foi uma alegria grande conhecer pessoalmente os m\u00fasicos da Brincando de Deus e da Dead Billies, por exemplo. Salvador \u00e9 uma cidade muito diversa, rica de possibilidades e encantamentos. Os amigos que fiz aqui est\u00e3o longe dos estere\u00f3tipos de baianidade propagados pela m\u00eddia. Viver em Salvador n\u00e3o foi uma decis\u00e3o motivada por falta de perspectivas. Foi uma elei\u00e7\u00e3o, uma escolha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Um aspecto marcante de sua personalidade \u00e9 a aproxima\u00e7\u00e3o com o universo dos quadrinhos e do rock. Essas refer\u00eancias influenciam a sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>Totalmente. Os dois g\u00eaneros decodificaram o mundo para mim e nutriram minha capacidade criativa. Por causa deles, atravessei oceanos, vivi momentos \u00fanicos na hist\u00f3ria da humanidade e me senti menos solit\u00e1rio. Minha sensibilidade se cunhou muito a partir das hist\u00f3rias que li e m\u00fasicas que ouvi. Pela escrita, eu \u201cdesenho\u201d. Assim como trabalho os sons numa frase de um conto, estabele\u00e7o certos climas para cenas e, digamos, me deixo dominar por uma estil\u00edstica roqueira, uma trilha sonora interna que d\u00e1 ritmo e cad\u00eancia ao texto e me embala.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; No caso espec\u00edfico dos quadrinhos, tem acompanhado a produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea brasileira e baiana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211;<\/strong> Eu tento. Por\u00e9m, meu m\u00e9todo de leitura \u00e9 ca\u00f3tico, n\u00e3o obedece a nenhuma cronologia. N\u00e3o me preocupo em estar atualizado com os lan\u00e7amentos. Meu \u00fanico compromisso \u00e9 com a qualidade. Quando recebo dicas de um trabalho legal, seja pela m\u00eddia especializada ou por amigos, corro atr\u00e1s. Tem gente que se satisfaz com quadrinhos bem desenhados e roteiros inconsistentes. Ou o contr\u00e1rio, grandes textos e tra\u00e7os ruins. Para mim, a coisa s\u00f3 funciona se os dois aspectos forem bons. No Brasil, sou f\u00e3 da Laerte, do Allan Alex, Andr\u00e9 Dahmer, Davi Calil, Louren\u00e7o Mutarelli e Rafael Corr\u00eaa. O Marcelo D\u2019Salete \u00e9 obrigat\u00f3rio. Gosto muito do Wagner William tamb\u00e9m. J\u00e1 entre os baianos, o Marcelo Lima, com os roteiros, mais o Dan Borges e a Lila Cruz, com a arte, s\u00e3o tr\u00eas nomes expressivos. H\u00e1 ainda iniciativas de colet\u00e2neas muito legais feito a M\u00e1quina Zero, da Quadro a Quadro, que \u00e9 uma editora baiana, e a Bang Bang, da Devir, de Sampa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17738\" aria-describedby=\"caption-attachment-17738\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/LT-foto-de-Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17738\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/LT-foto-de-Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/LT-foto-de-Marcelo-Fraz\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/LT-foto-de-Marcelo-Fraz\u00e3o-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17738\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Marcelo Fraz\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; H\u00e1 alguma incurs\u00e3o nesse universo na gaveta ou na cabe\u00e7a, em roteiros para HQ, por exemplo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211;<\/strong> Recebi um convite do Allan Alex para participar de um projeto superbonito, a revista NCT, uma singela homenagem a um g\u00eanero que abrigou diversos artistas nacionais de grande talento: os quadrinhos de terror. Quem tem mais de quarenta anos talvez se lembre das revistas Spektro, Pesadelo e Calafrio, que eram vendidas em bancas, e de nomes como Flavio Colin, Julio Shimamoto, Watson Portela, Rubens Cordeiro e Mozart Couto. Para a NCT, escrevi um conto exclusivo e preparei um roteiro de 6 p\u00e1ginas, que est\u00e1 nas m\u00e3os do Dan Borges. Se tudo der certo, em 2021 a revista estar\u00e1 em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Vivemos hoje o que alguns classificam como um pandem\u00f4nio, mescla da situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que nos lan\u00e7ou em um cen\u00e1rio de viol\u00eancia e inseguran\u00e7a institucional, e dos efeitos devastadores da pandemia do Covid-19. Nesse contexto, sendo um escritor brasileiro, brasiliense-baiano, como avalia as perspectivas do mercado liter\u00e1rio, no que tange \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o editorial e circula\u00e7\u00e3o de livros?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>O interesse por literatura e arte, seja ela qual for, nunca deixar\u00e1 de existir. \u00c9 vital no ser humano. N\u00e3o se trata em absoluto do impacto reflexivo que ela nos proporciona, o que n\u00e3o seria pouco, pois isso as ci\u00eancias exatas tamb\u00e9m fazem, mas sua import\u00e2ncia se d\u00e1 numa esp\u00e9cie de refinamento de nossas emo\u00e7\u00f5es, na possibilidade de oferecer uma troca de experi\u00eancias e nos conectarmos com n\u00f3s mesmos e com os outros num n\u00edvel mais profundo. Recordemos que a humanidade j\u00e1 passou por desafios ainda maiores que essa pandemia. E, fosse na quebra da bolsa dos EUA em 1929, num Jap\u00e3o destru\u00eddo do p\u00f3s-guerra ou a vida num regime ditatorial no Brasil em que, para piorar, havia um \u00edndice de infla\u00e7\u00e3o alt\u00edssimo, as pessoas n\u00e3o deixaram de adquirir e ler livros, ouvir m\u00fasicas, participar de exposi\u00e7\u00f5es ou espet\u00e1culos de dan\u00e7a. Penso que nessas situa\u00e7\u00f5es limites a necessidade de aproxima\u00e7\u00e3o com o universo art\u00edstico se torna ainda mais forte. No \u00e2mbito da cria\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quem acredite, inclusive, serem esses momentos mais f\u00e9rteis. Quanto ao mercado editorial em si, a produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de bens adaptar-se-\u00e3o \u00e0s novas realidades, sejam elas quais forem. Pode ser que a mudan\u00e7a do suporte f\u00edsico para o virtual, no caso da literatura, avance mais. Pode ser que o crescimento se d\u00ea mais apenas na forma de aquisi\u00e7\u00e3o, os leitores comprando livros de papel pela internet. Ou, ainda, pode ser que as consequ\u00eancias n\u00e3o sejam t\u00e3o amplas e tudo volte a ser exatamente como era antes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seu livro mais recente, \u201cAs margens do para\u00edso\u201d, debru\u00e7a-se sobre um pa\u00eds literalmente em constru\u00e7\u00e3o. Logicamente, h\u00e1 v\u00e1rios caminhos narrativos para contar a hist\u00f3ria de Bras\u00edlia. O que o fez escolher um formato n\u00e3o exatamente linear? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>A hist\u00f3ria de Bras\u00edlia se confunde com a hist\u00f3ria do Brasil e se confunde tamb\u00e9m com as hist\u00f3rias de todas as pessoas que viveram o per\u00edodo. No entanto, o livro foi escrito hoje e meu objetivo ao realiz\u00e1-lo n\u00e3o foi o de suprir lacunas hist\u00f3ricas ou fazer sociologia. O romance traz uma realidade completa que se fecha nela mesma e se presta a m\u00faltiplas leituras e interpreta\u00e7\u00f5es. Quando lemos o Quixote ou Hamlet pouco importa o per\u00edodo \u201creal\u201d em que a personagem vive, mas, sim, a viv\u00eancia de uma gama de emo\u00e7\u00f5es colocadas em cena por meio de uma linguagem igualmente viva. A linearidade ou a n\u00e3o-linearidade tem de atender \u00e0 capacidade do autor expressar melhor os problemas, quest\u00f5es e temas escolhidos para trabalhar. No caso do As margens do para\u00edso, esse \u201cem constru\u00e7\u00e3o\u201d j\u00e1 d\u00e1 uma t\u00f4nica da complexidade do caminho. A linearidade isolaria e simplificaria as vidas de Leda, Rubem e Zaqueu, personagens tamb\u00e9m \u201cem constru\u00e7\u00e3o\u201d, coisa que eu n\u00e3o desejava. Eu n\u00e3o quis facilitar nada para quem l\u00ea. Acredito na intelig\u00eancia de meus leitores e leitoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como se deu a op\u00e7\u00e3o por tr\u00eas pontos de vista, em processos individuais, na composi\u00e7\u00e3o de seu romance?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>Ao escolher a margem como perspectiva, eu decidi n\u00e3o colocar as personagens \u00e0 margem, entende? E n\u00e3o dava para problematizar o centro acreditando em limites \u00fanicos, restringindo o seu ser e estar no mundo numa \u00fanica voz. Seria contradit\u00f3rio. Essa era uma hist\u00f3ria que, a meu ver, um \u00fanico narrador a empobreceria. As sutilezas das diferen\u00e7as e aproxima\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas narradores se perderiam, a vis\u00e3o do todo ficaria emba\u00e7ada e n\u00e3o duvidar\u00edamos se o que a personagem diz \u00e9 uma manipula\u00e7\u00e3o ou se o fato narrado acontece \u201cverdadeiramente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u201cAs margens do para\u00edso\u201d \u00e9 um dos poucos romances contempor\u00e2neos que abordam a constru\u00e7\u00e3o da capital federal do ponto de vista dos candangos e dos primeiros habitantes de uma cidade planejada. O que, a seu ver, provoca o desinteresse tem\u00e1tico por esses personagens t\u00e3o caracter\u00edsticos quanto interessantes e hist\u00f3ricos? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>LIMA TRINDADE &#8211; <\/strong>N\u00e3o sei. \u00c9 algo que nunca me ocorreu. Talvez n\u00e3o haja desinteresse. Talvez a raz\u00e3o resida no fato de a cidade ser extremamente jovem e seu passado recente pare\u00e7a um presente sem enigma algum a ser decifrado por quem a vive hoje. Jorge Amado retratou uma Bahia em processo de transforma\u00e7\u00e3o, a passagem do est\u00e1gio agr\u00e1rio para a industrializa\u00e7\u00e3o, que poucos se detiveram com id\u00eantica acuidade. Ou ser\u00e1 que uma parcela grande de escritores enfrentou o tema, por\u00e9m sem despertar a mesma aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e alcan\u00e7ar os mesmos resultados liter\u00e1rios que Jorge? \u00c9 poss\u00edvel que haja uma literatura submersa dos candangos e primeiros habitantes da capital federal e n\u00f3s n\u00e3o saibamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>K\u00e1tia Borges<\/em><\/strong><em> \u00e9 autora dos livros \u201cDe volta \u00e0 caixa de abelhas\u201d (As letras da Bahia, 2002), \u201cUma balada para Janis\u201d (P55, 2009), \u201cTicket Zen\u201d (Escrituras, 2010), \u201cEscorpi\u00e3o Amarelo\u201d (P55, 2012), \u201cS\u00e3o Selvagem\u201d (P55, 2014) e \u201cO exerc\u00edcio da distra\u00e7\u00e3o\u201d (Penalux, 2017). Tem poemas inclu\u00eddos nas colet\u00e2neas \u201cRoteiro da Poesia Brasileira, anos 2000\u201d (Global, 2009), \u201cTravers\u00e9e d\u2019Oc\u00e9ans \u2013 Voix po\u00e9tiques de Bretagne et de Bahia\u201d (\u00c9ditions Lanore, 2012), \u201cAutores Baianos, um Panorama\u201d (P55, 2013) e na \u201cMini-Anthology of Brazilian Poetry\u201d (Placitas: Malpais Rewiew, 2013).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa conversa regada a viv\u00eancias musicais, quadrinhos e literatura, K\u00e1tia Borges entrevista o escritor Lima Trindade<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17734,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3856,16,2539],"tags":[1269,63,2896,1439,887,133,2227,2043,1980],"class_list":["post-17732","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-138a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-brasilia","tag-entrevista","tag-katia-borges","tag-lima-trindade","tag-literatura","tag-musica","tag-quadrinhos","tag-rock","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17732"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17732\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17740,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17732\/revisions\/17740"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}