{"id":17769,"date":"2020-08-30T16:53:08","date_gmt":"2020-08-30T19:53:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17769"},"modified":"2020-10-31T16:44:19","modified_gmt":"2020-10-31T19:44:19","slug":"aperitivo-da-palavra-ii-10","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-ii-10\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da crise \u00e0 salva\u00e7\u00e3o: os novos poemas de Jorge Elias Neto<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Geraldo Lavigne de Lemos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/sonetos-em-crise.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17771\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/sonetos-em-crise.jpg\" alt=\"\" width=\"317\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/sonetos-em-crise.jpg 317w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/sonetos-em-crise-211x300.jpg 211w\" sizes=\"auto, (max-width: 317px) 100vw, 317px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A recente publica\u00e7\u00e3o de formas fixas \u00e9 um novo percurso na trajet\u00f3ria de Jorge Elias Neto e traduz os eventos mais contempor\u00e2neos: revis\u00e3o de modelos e padr\u00f5es. Contudo, a inten\u00e7\u00e3o do autor ultrapassa o presente, pois avalia a crise que a humanidade atravessa desde o S\u00e9culo XX, agravada nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Nesse contexto, constr\u00f3i variadas situa\u00e7\u00f5es para conduzir o leitor por este grande observat\u00f3rio da alma que \u00e9 <em>Sonetos em crise<\/em>. A poesia da obra resulta da \u00e2nsia da palavra enquanto entidade aut\u00f4noma, desde quando apenas verbalizada at\u00e9 a presente escrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta anota logo de in\u00edcio que as mudan\u00e7as acontecem em decorr\u00eancia das necess\u00e1rias buscas por alternativas \u00e0 sobreviv\u00eancia, como modo de enfrentamento das permanentes amea\u00e7as de extin\u00e7\u00e3o. A crise civilizat\u00f3ria abordada pelo autor atravessa o existencialismo e des\u00e1gua na sociedade industrial de riscos e destrui\u00e7\u00e3o, que a ci\u00eancia deu azo, mas n\u00e3o deu cabo ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00ea-se, ent\u00e3o, um labor complexo para dar conta de tantas rela\u00e7\u00f5es intersist\u00eamicas: artes, desenvolvimento e sobreviv\u00eancia amalgamados nestes dias presentes. Ora as rimas preciosas e incomuns apresentam o extenso l\u00e9xico do autor, ora versos brancos e intertextualidades revelam o cabedal, ora a coloquialidade torna-se instrumento de intrus\u00e3o e profus\u00e3o na sociedade, ora os decass\u00edlabos remontam o cl\u00e1ssico na contemporaneidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O <em>Soneto em crise<\/em>, que inspira o t\u00edtulo do livro, persegue o sentido da vida e o divino, com o pesar do pecado que amaldi\u00e7oa a vida terrena. Tal manique\u00edsmo persiste durante toda a obra, sem esclarecer se originado na forma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Jorge Elias Neto ou se utilizado como ferramenta do eu l\u00edrico para eliciar do leitor as reflex\u00f5es pretendidas. Certo \u00e9 que, ao longo das p\u00e1ginas, o poeta manifesta o conflito entre o divino e mundano, extraindo a tens\u00e3o po\u00e9tica a partir das qualidades exigidas para ingressar no para\u00edso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse fazer, ele tamb\u00e9m questiona a religiosidade enquanto constru\u00e7\u00e3o humana e utopia, ainda que essencial \u00e0 vida. E do evidente conflito de racionalidade que nasce da religi\u00e3o, o poeta imp\u00f5e o exame permanente da morte e a salva\u00e7\u00e3o pela arte, capaz de perpetuar um estado de sobreviv\u00eancia com significado. A vida est\u00e1 em discuss\u00e3o e todos n\u00f3s, enquanto leitores e viventes, somos compreendidos pela densa e irremedi\u00e1vel tem\u00e1tica que assombra a nossa esp\u00e9cie desde a mais remota intelig\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem a busca pela perfei\u00e7\u00e3o escapa ao atento olhar de Jorge Elias Neto, rejeitando-a se porventura manchada pela vaidade. O autor quer a sabedoria e a simplicidade. Para tanto, importa deixar os espa\u00e7os de poder e privil\u00e9gio, bem como os espa\u00e7os de conforto e seguran\u00e7a. Assim, ele tra\u00e7a a perspectiva rebaixado, donde, \u00e0 margem das coisas, \u00e9 poss\u00edvel ver por inteiro o significado dos acontecimentos. Um genu\u00edno mergulho no \u00edntimo e no sil\u00eancio das coisas, tornando-os despudoradamente p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um risco e tanto, e Jorge Elias Neto parece movido por uma for\u00e7a imp\u00e1vida. Contudo, essa incessante procura pela verdade \u00e9 contraposta por um certo medo das consequ\u00eancias da raz\u00e3o plena. Dizem por a\u00ed que coragem \u00e9 continuar o caminho a despeito do medo, e dizem igualmente que a abstra\u00e7\u00e3o \u00e9 um bom rem\u00e9dio para combater o choque da realidade. Suspeito que o eu l\u00edrico tomou algumas discretas doses destes absintos, pois ele segue e chega ao destino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acontece que a revela\u00e7\u00e3o exige a imers\u00e3o nesse ambiente de certo torpor para conectar simultaneamente o poeta com o universo que o rodeia e o permeia. Sem jamais dissociar-se da consci\u00eancia, a embriaguez \u00e9 passageira e o rem\u00e9dio, um mero placebo. A raz\u00e3o cresce ao transitarmos pelos sonetos e a realidade \u00e9 cada vez mais pungente. Ao cabo, ele alcan\u00e7a s\u00f3brio o limiar da consci\u00eancia, ainda que isso lhe custe autodefini\u00e7\u00f5es ultrajosas ap\u00f3s lancinante embate. Enfim, sentindo-se vazio e diante do nada, sabe-se invenc\u00edvel e inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O retorno do poeta ganha luz, cores do outono e compaix\u00e3o. Sim, ele retorna compassivo para nos trazer o seu relato, volta fecundo de sabedoria para aplacar o frio de seus semelhantes. Mesmo que a consci\u00eancia ainda o importune, ele \u00e9 esperan\u00e7oso. E tal contrariedade incomodar\u00e1 o autor como um infort\u00fanio. Tanto que o retorno do poeta tamb\u00e9m ganha sombra e ele deixa de ser um amedrontado para tornar-se um amedrontador, uma figura m\u00edtica e colossal a transitar entre o divino e o humano, um arauto e semideus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mensagem que Jorge Elias Neto porta n\u00e3o visa facilitar a vida do leitor, mas conduzi-lo \u00e0 igual revela\u00e7\u00e3o, processo que pode ser t\u00e3o penoso para o leitor quanto foi para o autor. Ele bem compreende o qu\u00e3o custoso pode ser tocar a l\u00e2mina da verdade, mas sabe tamb\u00e9m que esta \u00e9 a \u00fanica forma de libertar o ser humano, dando-lhe autonomia e consci\u00eancia plena diante das absolutas incertezas da vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diversas \u00e1reas de conhecimento se ocuparam com as balizas da exist\u00eancia humana valorosa e digna. Os pensadores conectaram-se com as pessoas dentro de um arco, tendo em seus extremos a objetividade e a subjetividade \u2013 e aqui leia-se a arte, conceito retomado em diversos poemas. Dito isto, entenda o curioso desfecho que o autor trar\u00e1: arte e poesia s\u00e3o o caminho. Ainda que o leitor ingresse nessa jornada pelo poema, \u00e9 a poesia o m\u00e9todo de alcan\u00e7ar o que o autor pretende, renovando no leitor a forma de olhar o mundo e o tempo presente atrav\u00e9s da arte. Quem alcan\u00e7a a esperada revela\u00e7\u00e3o, ganha vis\u00e3o e consci\u00eancia t\u00e3o destoantes que, em geral, ser\u00e1 tido como louco, quando, na verdade, ser\u00e1 um dos poucos a vagar liberto e verdadeiramente vivo neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trata-se de um itiner\u00e1rio de purifica\u00e7\u00e3o das pessoas e de humaniza\u00e7\u00e3o das divindades, que reduz a vaidosa autorrefer\u00eancia e sobreleva a alteridade, quebrando as engrenagens tradicionais e as l\u00f3gicas cient\u00edficas, dando espa\u00e7o a um estado sobre-humano. Pode parecer estranho, todavia o poeta alcan\u00e7a a recria\u00e7\u00e3o do mesmo espa\u00e7o e da mesma vida de um modo diferente, completo e outrossim imperfeito, porque tem que haver nada no tudo para que seja inteiro, tem que haver todos em cada um para que seja tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Geraldo Lavigne de Lemos<\/em><\/strong><em> \u00e9 advogado e poeta, membro da Academia de Letras de Ilh\u00e9us, autor de seis livros. Publicou literatura nas revistas Revista da Academia de Letras da Bahia, Diversos Afins, Mallarmargens, Subversa, InComunidade, Ser MulherArte e Acrobata, nos jornais Di\u00e1rio de Ilh\u00e9us (Ilh\u00e9us\/BA), Fuxico (Feira de Santana\/BA) e A Gazeta (Vit\u00f3ria\/ES) e no blogue LiteraturaBR. Foi curador do II Festival Liter\u00e1rio de Ilh\u00e9us, parecerista ad hoc da Editus e membro de comiss\u00e3o julgadora de concursos liter\u00e1rios.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Lavigne adentra \u201cSonetos em crise\u201d, livro de Jorge Elias Neto<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17770,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3856,2533],"tags":[11,2869,2437,154,159,189,3801],"class_list":["post-17769","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-138a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-contrassonetos-catados-e-via-vandala","tag-geraldo-lavigne-de-lemos","tag-jorge-elias-neto","tag-poemas","tag-resenha","tag-sonetos-em-crise"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17769","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17769"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17838,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17769\/revisions\/17838"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17770"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}