{"id":17797,"date":"2020-08-30T20:19:01","date_gmt":"2020-08-30T23:19:01","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17797"},"modified":"2020-10-31T16:43:42","modified_gmt":"2020-10-31T19:43:42","slug":"aperitivopalavrai-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivopalavrai-5\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O olhar atento do escritor<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capa-do-livro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17801\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capa-do-livro.jpg\" alt=\"\" width=\"313\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capa-do-livro.jpg 313w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Capa-do-livro-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito na ideia do escritor que trabalha com o que observa. E pouco me importa se esse argumento j\u00e1 foi repetido aos milh\u00f5es ou bilh\u00f5es, das mais variadas formas. Para mim, tal atributo costuma render bons livros, independente de ser um lance nato ou inato &#8211; sendo o \u201cn\u00e3o nascido\u201d aquele que aprende no caminho, sob o desejo de lastrear a imagina\u00e7\u00e3o e enriquecer a pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito acima \u00e9 simples, mas n\u00e3o simpl\u00f3rio: o escritor deve olhar tudo atentamente. E deve gostar do jogo. Sem titubear, o \u201cescriba\u201d tem de ser aquele tipo de artista que passeia, capta, dando um novo significado ao seu entorno. Talvez algo bem pr\u00f3ximo do que Walter Benjamim descreveu em seu livro, <em>A modernidade e os modernos<\/em>, ao citar G. K. Chesterton que, por sua vez, falava sobre Dickens: <em>\u201c(&#8230;) Dickens n\u00e3o absorvia no seu esp\u00edrito a c\u00f3pia das coisas; antes era ele que imprimia seu esp\u00edrito nas coisas\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ney Anderson, escritor e cr\u00edtico liter\u00e1rio pernambucano, \u00e9 um cara jovem e tarimbado que gosta realmente de livros. Em seu site <em>Ang\u00fastia Criadora<\/em>, desde 2011 ele vem nos mostrando isso atrav\u00e9s de resenhas l\u00facidas e cuidadosas e de entrevistas. Como se n\u00e3o bastasse, Ney parece n\u00e3o ter grilos com essa coisa de participar de oficinas liter\u00e1rias, apesar dos riscos (uma oficina deve ampliar as escolhas do aluno, n\u00e3o format\u00e1-lo; mas esse papo fica pra depois). O que me leva a crer que ele \u00e9 do time dos que trabalham e retrabalham a escrita. Encarando sua arte com esmero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Espet\u00e1culo da Aus\u00eancia<\/em>, lan\u00e7ado pela editora Patu\u00e1 em meados de mar\u00e7o, \u00e9 um livro de contos com uma bel\u00edssima capa (precisamos falar sobre essas pequenas obras de arte, o excelente trabalho do artista gr\u00e1fico Leonardo Mathias). Surpreendido em meio ao estrago que a pandemia nos causou e ainda vem causando, <em>O Espet\u00e1culo da Aus\u00eancia<\/em> bem que anda merecendo um maior destaque fora do meti\u00ea, lugar onde teve boa repercuss\u00e3o entre os pares. O Ney tarimbado que apontei acima foi referendado por gente de renome. E ele bem que merece, diante do seu j\u00e1 extenso curr\u00edculo que inclui resenhas para a imprensa, participa\u00e7\u00f5es em diversas colet\u00e2neas e o seu trabalho como colunista de literatura na r\u00e1dio CBN de Recife.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pegando carona na apresenta\u00e7\u00e3o de Raimundo Carrero, e roubando um de seus adjetivos, posso afirmar tamb\u00e9m que Anderson \u00e9 um cara sofisticado \u2013 e parece que isso vai al\u00e9m do trabalho liter\u00e1rio. Em seu livro, cada detalhe, fala e cada gesto nunca surge \u00e0 toa. Fruto do bom observador que ele \u00e9, suas descri\u00e7\u00f5es s\u00e3o exatas, fin\u00edssimas (falo do cuidado e do crit\u00e9rio, tipo l\u00e2mina e corte, n\u00e3o de pedantismo), sejam elas um cigarro aceso ou uma ta\u00e7a de vinho e alguns comprimidos. Ou at\u00e9 mesmo uma viagem de metr\u00f4 onde um micro universo de vozes se imp\u00f5e, num dos melhores momentos do livro (vejam o conto \u201cEsta\u00e7\u00e3o final\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com Ney n\u00e3o tem essa de acaso, considerando aqui \u201cacaso\u201d como aquela frase solta, desvinculada, perdida e in\u00fatil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma com que as hist\u00f3rias s\u00e3o contadas demonstra em si um profundo respeito pelo humano, sujeito-objeto de sua labuta. E pelo o que esse mesmo sujeito esconde dentro de sua cabe\u00e7a e de sua alma. O olhar atento do jornalista, aquela coisa do rep\u00f3rter que investiga, parece se misturar ao do escritor, vai o mais fundo poss\u00edvel, enxergando o monstro que habita dentro de n\u00f3s, parafraseando numa boa outra das ideias do Carrero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 de cara a gente percebe o talento. Em \u201cM\u00e1scara rasgada\u201d, por exemplo, o primeiro conto, somos convidados a acompanhar bem de perto os passos e as escolhas do personagem, seguindo com ele como voyeurs de ocasi\u00e3o. Os passos que vagueiam por esquinas onde se \u201cguardam segredos que poucos conheciam\u201d s\u00e3o vis\u00edveis, palp\u00e1veis, mas sugerem e escondem muito. E o protagonista sem nome (recurso que potencializa o mist\u00e9rio) quando age, obediente ao pr\u00f3prio desejo, nos leva junto com ele, num momento que pode parecer ruptura, mas que, ao final, se mostra talvez corriqueiro &#8211; a imagem da m\u00e1scara rasgada no ch\u00e3o de um apartamento d\u00e1 o tom perfeito \u00e0 ideia de nos mostrar que, ao menos em algumas noites, nenhuma m\u00e1scara cabe, esconde ou serve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o demora nada para termos outras boas evid\u00eancias. Na sequ\u00eancia, \u201cNana nen\u00e9m\u201d nos arrebata diante de um sofrimento inesperado, e de suas consequ\u00eancias, enquanto que em \u201cNeon horizontal\u201d a mudan\u00e7a \u00e1gil de vozes e perspectivas, aliada aos cortes temporais feitos com precis\u00e3o digna de uma navalha das antigas, nos prendem e nos empolgam sob o efeito de frases tais como <em>\u201cQuer algo mais est\u00fapido e sem gra\u00e7a do que o nome morte? Mas para que adiantaria um nome bonito para a morte?\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o achem, contudo, que a obra pede convencimento atrav\u00e9s do uso batido de frases meio, digamos, filos\u00f3ficas. Ainda que Ney, com sua tarimba, provavelmente conseguisse trabalhar nessa base, sem escorregar praquela coisa chata do \u201cpapo cabe\u00e7a\u201d que desvirtua a voz do personagem, as escolhas que ele fez para conduzir o livro se ap\u00f3iam na simplicidade (o \u201cpapo cabe\u00e7a\u201d quando surge faz parte do conjunto e das inten\u00e7\u00f5es; a voz correta no momento idem). No encaixe exato, por\u00e9m amplo. No gesto banal descrito abertamente, aquele movimento antes da ruptura ou mesmo da descoberta. Gesto que carrega um mundo de possibilidades, sugerindo algo, tudo contribuindo para que o conto funcione e nos agrade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O diapas\u00e3o Carver\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro ponto a ser destacado \u00e9 a minuciosa forma de narrar esses pequenos momentos e fatos, recurso que sustenta o livro na maioria das p\u00e1ginas. Nessa riqueza de detalhes e na descri\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, pude identificar afinidades benquistas com o Raymond Carver, um dos maiores contistas que o mundo conheceu (em minha humilde e reverente opini\u00e3o). Assim como o Carver, Anderson estica at\u00e9 o limite do poss\u00edvel suas hist\u00f3rias, gerando a tens\u00e3o necess\u00e1ria para que n\u00e3o o abandonemos em qualquer rua \u00e0 beira do Capibaribe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como bons exemplos, posso listar os contos \u201cTela em branco\u201d, uma aventura meio pict\u00f3rica, \u201cA hist\u00f3ria nunca termina\u201d, \u201cJanela secreta\u201d, \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou o \u00fanico que encontrou a paz\u201d ou o j\u00e1 citado \u201cM\u00e1scara rasgada\u201d. A t\u00e9cnica que Ney usou para construir tais narrativas se parece com a do ficcionista Carver em seus melhores momentos. Contudo, ao afinar a escrita dessa forma, Ney conseguiu trazer para o contexto escolhido por ele (seus personagens, a comovente lembran\u00e7a de seu pai e o lado mais sombrio e vol\u00e1til da metr\u00f3pole Recife) a influ\u00eancia do Raymond, sem, contudo, ser um imitador vulgar do estadudinense: em <em>O Espet\u00e1culo da Aus\u00eancia<\/em> a influ\u00eancia do Raymond serve como um diapas\u00e3o, n\u00e3o impedindo que Anderson siga firme na busca de sua pr\u00f3pria melodia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, obviamente. Em outros textos, podemos ver o autor que arrisca na forma e que usa da ironia para criar seu universo (\u201cContrato exclusivo\u201d e \u201cTodos os corpos\u201d). Vemos tamb\u00e9m um escritor que constroi a profundidade em suas hist\u00f3rias, sem ser um janota, sendo \u201cA casa vazia\u201d um bom exemplo: a fundura nesse caso aparece de forma natural, como consequ\u00eancia e desdobramento do prop\u00f3sito do escritor, dos caminhos trilhados por ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro elemento que merece destaque, talvez pela surpresa que me causou, \u00e9 o jeit\u00e3o particular e eficiente de utilizar, sem vacilos, um pouco dos macetes comuns \u00e0s narrativas de suspense e, por que n\u00e3o dizer, de terror. Aqui ele tamb\u00e9m d\u00e1 conta do recado (\u201cUm conto poss\u00edvel\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00edpico de quem gosta da literatura e de quem tem dom\u00ednio sobre ela (ou seria um pacto, um acordo entre amigos?), a gente se depara com trechos marcantes, tais como:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c- A gente deve virar m\u00fasica quando morre.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cAmbulantes gritam os pre\u00e7os de suas mercadorias, pessoas correm para entrar nos \u00f4nibus, outras descem dos coletivos, caminham a passos largos. Os amigos conversando amenidades. A cidade \u00e9 dele. A agita\u00e7\u00e3o, o cheiro, as pessoas. O Recife do extremo calor. E ali, naquele centr\u00e3o, tudo se encontra. Voc\u00ea sabe, n\u00e3o \u00e9, meu filho? Eu estou em cada peda\u00e7o dessa cidade.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou ent\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cE segue. N\u00e3o acredito em literatura que n\u00e3o tenha uma base no real. Um real fant\u00e1stico at\u00e9, interessante e fora do comum. Preciso sempre que algo de verdade tome conta de mim e me fa\u00e7a querer escrever. Que seja mais forte e violento do que qualquer coisa.\u201d\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que em alguns casos o Ney tenha, talvez por escolha, evitado riscos maiores \u2013 coisa que escondeu um pouco seu talento &#8211; temos aqui um grande livro a ser descoberto. E diante de tudo disso, a leitura das 33 hist\u00f3rias me confirmou a ideia de que Ney Anderson respeita demais o fazer liter\u00e1rio. E que seus contos, trabalhados com primazia e aten\u00e7\u00e3o, s\u00e3o retratos humanos riqu\u00edssimos, um mosaico de \u201cgentes\u201d e almas que habita a cidade do Recife. Sempre vivendo no limite do limite de algo. Para o deleite de todos n\u00f3s, leitores sortudos e, certamente, atentos e felizes voyeurs de ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Gustavo Rios<\/em><\/strong><em> \u00e9 baiano e autor de Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A leitura atenta de Gustavo Rios para \u201cO Espet\u00e1culo da Aus\u00eancia\u201d, livro de contos de Ney Anderson<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17798,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3856,2533],"tags":[3844,11,419,424,914,2411,3871,3872,189],"class_list":["post-17797","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-138a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-analise","tag-aperitivo-da-palavra","tag-contos","tag-editora-patua","tag-ensaio","tag-gustavo-rios","tag-ney-anderson","tag-o-espetaculo-da-ausencia","tag-resenha"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17797","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17797"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17797\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17839,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17797\/revisions\/17839"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17798"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17797"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17797"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17797"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}