{"id":17807,"date":"2020-08-31T15:09:20","date_gmt":"2020-08-31T18:09:20","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17807"},"modified":"2020-08-31T18:39:39","modified_gmt":"2020-08-31T21:39:39","slug":"janela-poetica-iii-71","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-iii-71\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica III"},"content":{"rendered":"<p><em>Samantha Abreu<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17808\" aria-describedby=\"caption-attachment-17808\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/09.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-17808\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/09.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/09.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/09-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17808\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ricardo Stuckert<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os pelos de uma mulher crescem t\u00e3o silenciosos<br \/>\nque<br \/>\nn\u00e3o sabem deles os grandes debatedores pol\u00edticos,<br \/>\nos educadores de biologia,<br \/>\nos poetas inspirados pelas musas.<\/p>\n<p>Nenhuma legisla\u00e7\u00e3o precisa ser criada para que os pelos cres\u00e7am inabal\u00e1veis,<br \/>\nn\u00e3o precisam de autoriza\u00e7\u00e3o para tomarem o corpo como se conquistassem um reino.<\/p>\n<p>N\u00e3o escutaram seus ru\u00eddos os compositores que foram capazes de finalizar o R\u00e9quiem,<br \/>\nn\u00e3o s\u00e3o percept\u00edveis aos cineastas iranianos nem cabem no sil\u00eancio do menino Antoine Doinel olhando as franjas das ondas.<\/p>\n<p>Os pelos brotam no rosto de Cl\u00e9mentine Delait<br \/>\nsem que os bichos sintam inveja, sem que um gato se arrepie diante do mist\u00e9rio,<br \/>\nSenhoras Doloridas enfim n\u00e3o precisam inventar encantamentos para seus rostos de cavaleiros.<\/p>\n<p>Os pelos de uma mulher crescem t\u00e3o silenciosos<br \/>\nque<br \/>\nsomente ela os sabe<br \/>\nquando se observa e se acarinha,<br \/>\na aspereza das pontas abrindo os poros.<\/p>\n<p>Algumas profecias dizem que<br \/>\ntodas as vezes<br \/>\nque uma mulher corta, raspa ou depila seus pelos<br \/>\n&#8211; tomando para si o disfarce da lisura -,<br \/>\nseus restos descem pelo ralo e alimentam os monstros que um dia invadir\u00e3o o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Putas<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Elas passam pelas ruas de todas as horas arrastando peda\u00e7os de seus corpos anteriores,<br \/>\npeda\u00e7os de suas trompas,<br \/>\nsuas pontas de astros.<br \/>\nPassam altivas carregando o peso de antigos seios de tantas mamadas,<br \/>\nbra\u00e7os marcados por unhas e barbas,<br \/>\ngenit\u00e1lias explodidas por muitos n\u00e3os que foram ditos entre berros,<br \/>\ncabelos enozados por co\u00e1gulos e v\u00f4mitos cuspindo dentes.<\/p>\n<p>Caminham juntas, passo a passo, cantando dolorosamente sua elegia da carne viva, enquanto as ruas as observam<br \/>\nquase vivas,<br \/>\ngarantidas por um mandado de seguran\u00e7a: cem metros de dist\u00e2ncia<br \/>\ne maquiagens de alta defini\u00e7\u00e3o \u2013 uma renova\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a de grandes laborat\u00f3rios dirigidos por homens cientistas.<\/p>\n<p>As boas pessoas que assistem ao cortejo rezam de cabe\u00e7a baixa pedindo<br \/>\na ben\u00e7\u00e3o do esquecimento, mas as mulheres seguem<br \/>\nensanguentadas<br \/>\nem dire\u00e7\u00e3o ao espa\u00e7o reservado aos que pagam penit\u00eancias e culpas: putas!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma mulher \u00e9 uma imagem em p\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma mulher caminha ro\u00e7ando suas asas nas pernas dos sonhos<br \/>\ne as asas flamejam e estalam,<br \/>\nas asas chicoteiam quando a mulher se levanta pisando no acolchoamento de nuvens.<\/p>\n<p>Sempre que a mulher se ergue<br \/>\n\u2013 de dentro do vapor suado que circula o mundo \u2013,<br \/>\nsempre que ela se mostra, sempre que a mulher caminha<\/p>\n<p>eu entendo que anjos e dem\u00f4nios usam seu corpo,<br \/>\nque anjos e dem\u00f4nios se irmanam<\/p>\n<p>sob as formas que ela encontrou de entender o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>As rezas que inauguram o dia<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo eu me convenci de que poemas est\u00e3o no in\u00edcio e no fim.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me levanto pela manh\u00e3 com met\u00e1foras enroladas na l\u00edngua; com vis\u00f5es plenas de abismos.<\/p>\n<p>N\u00e3o respondo um bom dia sequer,<br \/>\nmas j\u00e1 repeti dois ou tr\u00eas versos em sil\u00eancio, um ritmo mental,<br \/>\na incandesc\u00eancia do dia.<br \/>\nO poema do in\u00edcio, uma funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando as lutas se acalmam e se abaixam as espadas,<br \/>\neu volto ao poema em busca do f\u00f4lego, o fim da fadiga.<br \/>\nAbro os v\u00e3os da casa e avisto um descampado,<br \/>\ninfinito campo de unguento.<\/p>\n<p>O poema que \u00e9 fim de tudo,<br \/>\no impronunci\u00e1vel: um solu\u00e7o que interrompe a l\u00e1grima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da incapacidade de matar o poema<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc\u00ea mira a boca aberta do poema e mete nela meia d\u00fazia de tiros;<\/p>\n<p>Voc\u00ea observa a ontologia do poema enquanto espana o ar com as m\u00e3os para dissipar a fuma\u00e7a dos tiros;<\/p>\n<p>Voc\u00ea quer se vingar da arrog\u00e2ncia do poema que decorou as sagradas escrituras do seu t\u00f3rax;<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea mal suspirou aliviada e o rabo do poema j\u00e1 concedeu a ele um novo corpo de mat\u00e9ria pegajosa;<\/p>\n<p>O poema rasteja e imobiliza seu assombro quando voc\u00ea d\u00e1 de cara com o fen\u00f4meno:<\/p>\n<p>O corpo asqueroso do poema \u00e9 sua pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Eu tenho nas m\u00e3os o cora\u00e7\u00e3o de um p\u00e1ssaro<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu abro o peito do p\u00e1ssaro: sinto o cora\u00e7\u00e3o bater na ponta do dedo<br \/>\ne tenho penas de todas as dores<br \/>\nenquanto o p\u00e1ssaro me observa segurando seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro ainda se debate com viol\u00eancia<br \/>\nmas n\u00e3o pode voar<br \/>\ne eu j\u00e1 n\u00e3o sei mais como devolver-lhe as palpita\u00e7\u00f5es,<br \/>\npois a morte agarrou minhas m\u00e3os e est\u00e1 tentando fech\u00e1-la.<br \/>\nEla quer esmagar a beleza do cora\u00e7\u00e3o que pulsa,<br \/>\na beleza,<br \/>\nela quer parar o cora\u00e7\u00e3o do p\u00e1ssaro.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o resisto e esmurro fortemente o ch\u00e3o,<br \/>\ndeixando que o sangue dos meus dedos se misture ao do cora\u00e7\u00e3o dilacerado.<\/p>\n<p>O p\u00e1ssaro emudeceu e n\u00e3o me olha mais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu sepulto seu pequeno corpo sob todas as formas que tenho<br \/>\nde gritar em sil\u00eancio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Samantha Abreu<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritora, professora e pesquisadora, mestre em literatura brasileira pela UEL. Participa e organiza eventos liter\u00e1rios e publicou os livros &#8220;Fantasias para quando vier a chuva&#8221; (Orpheu, 2011); &#8220;Mulheres sob Descontrole&#8221; (Atrito Arte, 2015); &#8220;A Pequena M\u00e3o da Crian\u00e7a Morta&#8221; (Penalux, 2018). \u201cDebaixo das Unhas (Olaria Cartonera, 2020). Tamb\u00e9m j\u00e1 foi publicada em antologias, sites, revistas e teve textos adaptados para o teatro. Integra o Coletivo Versa, que pesquisa e divulga autoras londrinenses.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A profunda elabora\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica nos versos de Samantha Abreu<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17808,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3856,9],"tags":[3873,107,159,3651],"class_list":["post-17807","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-138a-leva","category-janelas-poeticas","tag-debaixo-das-unhas","tag-janela-poetica","tag-poemas","tag-samantha-abreu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17807"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17807\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17836,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17807\/revisions\/17836"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}