{"id":17934,"date":"2020-10-23T11:28:36","date_gmt":"2020-10-23T14:28:36","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17934"},"modified":"2020-10-31T16:40:32","modified_gmt":"2020-10-31T19:40:32","slug":"dedos-de-prosa-i-74","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-74\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18007\" aria-describedby=\"caption-attachment-18007\" style=\"width: 256px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/FernandaB.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18007 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/FernandaB.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/FernandaB.jpg 256w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/FernandaB-154x300.jpg 154w\" sizes=\"auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18007\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Fernanda Bienhachewski<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>KALIMA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAcabou-se tudo! Acabou-se tudo!\u201d. Agitou-se o fragor interno, tomando-lhe o m\u00edsero instante de lucidez, enquanto sentia tremer o ch\u00e3o, com os passos decididos do verdugo no seu encal\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 passara tr\u00eas dias e tr\u00eas noites inteiras correndo e se escondendo, sem pregar o olho, pensando em cruzar a Serra da Barriga e p\u00f4r os p\u00e9s no solo sagrado, para a honra dos seus; que, a essa altura, n\u00e3o lhe socorria o enlevo, mas, sim, a necessidade. Iria, a\u00ed, resolver o seu destino junto dos seus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estava num descampado de perder de vista. Por sorte, havia alguns p\u00e9s de planta, n\u00e3o muito frondosos, com galhos que se derramavam sobre rochas. Alojou-se e sorveu um bocado de \u00e1gua barrenta e velha, acumulada na pedra maior, de n\u00e3o se sabe quando. O problema estava propriamente em n\u00e3o se hidratar, pois que o seu corpo clamava e n\u00e3o conseguia discernir mais que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em geral, as noites pareciam amenas nos rec\u00e9m-findados dias. Justo nessa ocasi\u00e3o, o abafado lembrou-lhe do dia em que fora jogado, qual bicho \u2013 e pr\u00f3ximo deles, dividindo o mesmo espa\u00e7o de venda \u2013, nas ruas, saindo do por\u00e3o mofado para cair na boca das afli\u00e7\u00f5es da prov\u00edncia; trocando um inferno por outro. Eram cinco, escorados na parede e acorrentados, confusos \u2013 sendo, em raz\u00e3o do porte avantajado, em menos de uma manh\u00e3, adquiridos por um senhor gordo e s\u00e9rio, de su\u00ed\u00e7as longas, que se encontravam, na altura do pesco\u00e7o, com o bigode. Diminuto nas palavras, tirano nos mandamentos. Foram testados a\u00ed, indo ao matadouro carregando seus pr\u00f3prios corpos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos tr\u00eas irm\u00e3os, era o que mais sentia o peso de ser arrancado de sua terra. Todos tinham f\u00e9; Kalima, em seu \u00edntimo, n\u00e3o. \u00c0s vezes, era censurado por supostamente n\u00e3o estar conectado aos c\u00e9us. Sofria, tamb\u00e9m, por n\u00e3o estar impregnado desse dom natural: \u201cKalima, para de ser um peda\u00e7o de pano pu\u00eddo, sem vida; vai acabar nos sugando para a indevo\u00e7\u00e3o e para a morte!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A liberta\u00e7\u00e3o era algo impensado. Jazia h\u00e1 pelo menos cinco anos em meio \u00e0 lama civilizat\u00f3rio-putrefata chamada Brasil, do qual nunca tinha ouvido falar, nem entendia aquela l\u00edngua embolada, prestes a afogar o falante de torpor; sem uma distin\u00e7\u00e3o ou reconhecimento pelo trabalho extenuante, passando, como podia, empapado com prec\u00e1rio p\u00e3o e \u00e1gua, no mais das vezes. O ju\u00edzo que calhava era que, se n\u00e3o fosse pelos irm\u00e3os e a m\u00e3e, que trabalhavam ao seu lado, teria matado um branco e se matado em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Admirava-se de Mazi, um negro alvoro\u00e7ado, submisso por medo dos graves castigos, que chorava todas as noites sentindo saudades das filhas. O lamuriar era contido, para n\u00e3o perturbar os da Casa Grande. N\u00e3o queria contato com ningu\u00e9m, por receio de provocar alvoro\u00e7o. Nada mais lhe interessava na vida. Se n\u00e3o fosse o medo e a esperan\u00e7a rasa de encontr\u00e1-las, teria preparado a maior desgra\u00e7a para morrer apanhando, refletia Kalima, para fugir do lugar-comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem conseguir dormir, depois de doze a quatorze horas ininterruptas de trabalho, j\u00e1 n\u00e3o aguentando mais, Kalima perdia o centro e gritava para que parasse; e Mazi, de pronto, respondia: \u201cVoc\u00ea, seu desgra\u00e7ado, tem sua m\u00e3e e seus irm\u00e3os; eu n\u00e3o tenho nada. Me deixa chorar em paz!\u201d. Essa foi a \u00faltima lembran\u00e7a que sucedeu a Kalima, do negro que morreu, ainda assim, a\u00e7oitado, por ter chorado e se deitado no ch\u00e3o enquanto deveria estar trabalhando \u2013 estava morto em vida, de t\u00e3o arrebentado; essa outra morte era dec\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais uma vez, sentia na carne, pelo atrito programado que aderia e rasgava, as tiras de couro embebidas em \u00e1gua e sal grosso. Pregavam nas lacera\u00e7\u00f5es \u2013 onde se podia meter um dedo, de rasgos e mais rasgos n\u00e3o cicatrizados \u2013 cristais de sal, que, na voz do capit\u00e3o-do-mato: \u201c\u00c9 pra se benzer e agradecer, seu verme, pra n\u00e3o ficar a porcaria do chorume escorrendo na terra e as varejeiras botando bicho no bicho!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Registrado no departamento da coroa como Jo\u00e3o de Borges \u2013 sendo Borges o seu senhor \u2013, originalmente Kalima de batismo, lembrava-se da sorte da m\u00e3e, por ter se jogado e se liberado no abismo, depois da ca\u00e7ada feroz, que dizimou seus irm\u00e3os. M\u00e3e e irm\u00e3os, agora, o seu orgulho, por n\u00e3o haverem se entregado. N\u00e3o suportavam mais os desmandos e n\u00e3o o diziam, decerto, para n\u00e3o o desencorajar, j\u00e1 que era fraco na f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kalima, embora aturdido de tanta pancada, vislumbrava um plano. Escondera uma pequena faca amolada do carrasco, pr\u00f3pria para sangrar. Esperava, ansioso, o novo amanhecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Adriano B. Esp\u00edndola Santos<\/em><\/strong><em> \u00e9 natural de Fortaleza, Cear\u00e1. Em 2018 lan\u00e7ou seu primeiro livro, o romance Flor no caos, pela Desconcertos Editora; e em 2020 o livro de contos, Cont\u00edculos de dores refrat\u00e1rias, pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com a Revista Samizdat. Tem textos publicados em diversas revistas liter\u00e1rias nacionais e internacionais. \u00c9 advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir &#8211; sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Liter\u00e1ria. \u00c9 dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o cora\u00e7\u00e3o inquieto.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Densas imagens do conto in\u00e9dito de Adriano B. 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