{"id":17941,"date":"2020-10-23T11:43:59","date_gmt":"2020-10-23T14:43:59","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17941"},"modified":"2020-10-31T16:40:42","modified_gmt":"2020-10-31T19:40:42","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-72","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-72\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escrever pode ser algo parecido com uma tentativa de agarrar o mundo com as m\u00e3os. Ou com a cabe\u00e7a. A mente que fervilha ideias em busca da cria\u00e7\u00e3o atravessa, em grande inst\u00e2ncia, os lampejos da natureza humana, esse grande caldeir\u00e3o de imagens, atos e investidas. Achar-se pronto para demarcar uma obra que se queira definitiva talvez n\u00e3o passe de uma quimera, flerte com o inating\u00edvel. Para alguns, a ang\u00fastia da cria\u00e7\u00e3o \u00e9 motor de solu\u00e7\u00f5es; para outros, \u00e9 penoso caminho que jamais se resolve.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comunicar bem atrav\u00e9s de uma obra liter\u00e1ria \u00e9, sem d\u00favida, um dos requisitos que conferem sentido ao trabalho do autor. Assim, leva-se em considera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o estamos s\u00f3s a engendrar os escritos, pois estes um dia tendem a encontrar amparo nas recep\u00e7\u00f5es mais diversas poss\u00edveis. Nesse sentido, a ideia de escrever para ningu\u00e9m mais parece uma fal\u00e1cia ou tentativa de distra\u00e7\u00e3o do debate. Divis\u00f5es \u00e0 parte, \u00e9 prefer\u00edvel ficar com quem advoga pela melhor forma de se contar uma boa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No eixo que transita entre obra e leitor, h\u00e1 muita gente interessada em apurar seu trabalho com as palavras, fazendo com que o texto, em suas m\u00faltiplas estrat\u00e9gias narrativas, alcance pessoas. Tal processo jamais pode ser confundido como um esfor\u00e7o do autor para agradar quem quer que seja. Pelo contr\u00e1rio, traduz a busca de quem escreve por modos de instigar a aten\u00e7\u00e3o do leitor, ofertando-lhe possibilidades para o mergulho pessoal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rodrigo Melo <\/strong>\u00e9 um desses escritores que sempre est\u00e1 \u00e0 cata de algo consistente para dizer e nos apresentar. E sua obra est\u00e1 na ordem do dia quando o prop\u00f3sito \u00e9 sondar o tra\u00e7ado cotidiano das nossas vidas em suspens\u00e3o. O autor \u00e9 h\u00e1bil nos arremates, engendra meticulosamente a arquitetura de seus personagens e os faz produtos do meio em que vivem ou vice-versa. Seu estilo de narrar abarca di\u00e1logos certeiros, \u00e1geis e que recorrentemente mostram-se provocantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento atual desse escritor baiano nos leva ao seu romance \u201cRiviera\u201d (Ed. Mondrongo, 2020), livro que apresenta uma \u00f3tica muito peculiar quando o tema \u00e9 o amor. Longe dos ardis tradicionais do assunto, Rodrigo movimenta seus personagens dentro de um contexto que sabe a idealiza\u00e7\u00f5es, devaneios e a crueza dos dias mundanos. Tudo isso somado a sacadas inteligentes e a recursos narrativos dotados de simplicidade no manejo da linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trazendo em sua bagagem obras como \u201cO Sangue que corre nas veias\u201d (Ed. Mondrongo, contos, 2013), \u201cJogando dardos sem mirar o alvo\u201d (Ed. Mondrongo, contos, 2016), dentre outros livros e participa\u00e7\u00f5es em antologias, Rodrigo Melo concede uma nova entrevista para a Diversos Afins. Desta feita, al\u00e9m de mencionar os trajetos que o levaram ao seu novo livro, o autor dividiu conosco suas impress\u00f5es sobre o fazer liter\u00e1rio, refletindo especialmente acerca da contemporaneidade, esse estado de coisas que tanto nos tem tirado do s\u00e9rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18011\" aria-describedby=\"caption-attachment-18011\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-1-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18011 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-1-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-1-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18011\" class=\"wp-caption-text\">Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Riviera&#8221; \u00e9 um livro que transita pelas paisagens urbanas tendo como mote os atravessamentos da paix\u00e3o. Nesse sentido, Michel Rodrigues, o protagonista, \u00e9 aquele que busca por algu\u00e9m na sua constru\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria sobre o amor. Com tanta dispers\u00e3o e desencontros a que estamos submetidos na contemporaneidade, o que resta para a literatura quando o desafio \u00e9 falar desse desejo pelo outro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Acho que o amor sempre foi uma fonte generosa para a literatura, e continuar\u00e1 a ser, mesmo nesses tempos t\u00e3o puxados, porque ele simplesmente precisa existir. Amar \u00e9 se movimentar. Em Riviera, ele tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1: um tanto inocente, mas tamb\u00e9m derramado, exagerado e sofrido como nas velhas can\u00e7\u00f5es. Porque a hist\u00f3ria pedia que fosse assim. Quando o protagonista abandona toda a sua antiga vida e parte, feito num jogo de azar, para o Rio de Janeiro em busca de sua amada, ele est\u00e1 apenas fazendo a roda girar. H\u00e1 quem acorde todos os dias por causa de dinheiro, outros por poder. Michel Rodrigues sentia amor ou qualquer coisa parecida com isso. E foi esse sentimento, universal e atemporal, que o fez deixar tudo para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O Rio de Janeiro \u00e9 essa cidade evocada em can\u00e7\u00f5es, misto de &#8220;maravilhosa&#8221; com o tal &#8220;purgat\u00f3rio da beleza e do caos&#8221;. E voc\u00ea tem uma trajet\u00f3ria pessoal de viv\u00eancia na metr\u00f3pole confusa e difusa. Em que medida foi importante ter a cidade como pano de fundo para o livro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Mais que importante, foi necess\u00e1rio. N\u00e3o conseguiria escrever sobre algo que n\u00e3o conhe\u00e7o e que, consequentemente, n\u00e3o me alcan\u00e7a. Foi Kurt Vonnegut quem disse que \u00e9 preciso falar do pr\u00f3prio umbigo, porque ningu\u00e9m mais o far\u00e1, e ele tinha raz\u00e3o. Fazer literatura talvez seja, por vezes, simplesmente mostrar o nosso prisma dos acontecimentos e das coisas. Claro, tem que se buscar o lirismo, a propriedade, mas falando sobre o mundo ao nosso redor. Eu morava no Rio quando nasceu a ideia de escrever essa hist\u00f3ria, e desde o in\u00edcio ela tinha a energia da cidade, de tudo o que eu pensava, sentia e fazia diariamente. Fui corretor em uma imobili\u00e1ria na Zona Sul e tamb\u00e9m trabalhei em uma empresa de caminh\u00f5es munck, l\u00e1 em Ramos, como o personagem, e, embora uma boa parte do que est\u00e1 no livro tenha sido inventada, foram essas experi\u00eancias reais que deram a base para que eu pudesse escrever todo o resto. A cidade como fundo e, ao mesmo tempo, como mais um personagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; De certa forma, a luta pela sobreviv\u00eancia tamb\u00e9m \u00e9 um tema presente no seu romance. E Michel Rodrigues personifica isso na odisseia que empreende pela cidade, quando precisa ter condi\u00e7\u00f5es financeiras de continuar sua jornada pessoal. Entre o sonho e a realidade, paga-se um pre\u00e7o para poder suportar humilha\u00e7\u00f5es e outros fardos. Como pensar essa quest\u00e3o dos cen\u00e1rios de explora\u00e7\u00e3o em que a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o humana \u00e9 precarizada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Faz um bom tempo que o homem circula por a\u00ed, centenas, milhares de anos, a subjugar o pr\u00f3prio homem. Quem tem grana e poder segue aumentando essa grana e esse poder, e quem n\u00e3o tem segue enxergando pouqu\u00edssimas chances de sair de sua situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 diferen\u00e7as mais que gritantes entre determinadas vidas e dessas diferen\u00e7as \u00e9 que brotam as explora\u00e7\u00f5es. Uns dizem que sempre foi assim, outros dizem que todos passam pelas mesmas atribula\u00e7\u00f5es. A verdade, no entanto, \u00e9 que entre uma quadra e outra h\u00e1 algu\u00e9m morrendo de fome e algu\u00e9m ostentando um carro de meio milh\u00e3o. Lembro de ler <em>Germinal<\/em>, de Zola, e ficar impactado com a forma de trabalho que aquelas pessoas eram obrigadas a encarar. Aquilo n\u00e3o era viver, apenas sobreviver. A literatura tem essa for\u00e7a, ela nos puxa sem cerim\u00f4nia e nos faz pensar nas coisas que passam despercebidas porque, de uma forma ou de outra, n\u00e3o fazem parte do nosso dia a dia. Os vendedores de balas no sinal, as prostitutas nas esquinas, os guardadores de carro, os moleques que fazem avi\u00e3o, sempre foram esses os personagens do meu Germinal. Assim como Michel Rodrigues, que vive entre o feij\u00e3o e o sonho, a necessidade de comer e de continuar a sonhar. Como muitos, ele descobre da pior forma que \u00e0s vezes \u00e9 melhor depender do acaso do que da justi\u00e7a ou da benevol\u00eancia dos homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O mundo \u00e9 um lugar cada vez mais dist\u00f3pico?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Parece que sim. N\u00e3o que caminhemos para a distopia, porque j\u00e1 estamos nela h\u00e1 bastante tempo. Entre o c\u00e9u e o inferno, entre a evolu\u00e7\u00e3o e a perpetua\u00e7\u00e3o dos defeitos, seguimos alimentando os defeitos. \u00c9 mais f\u00e1cil e c\u00f4modo, pelo menos para quem n\u00e3o passa apertos. Os escolhidos para cuidar dos outros, os eleitos, acabam por cuidar de si mesmos e daqueles que lhes compram a alma, e dessa forma vivemos em uma esp\u00e9cie de looping em que os mais favorecidos ampliam seus dom\u00ednios e os menos favorecidos s\u00e3o apartados do rebanho e vistos como n\u00e3o merecedores. A banaliza\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. A aceita\u00e7\u00e3o de que tudo sempre caminhou dessa mesma maneira. Porque toda luta, em ess\u00eancia, \u00e9 em causa pr\u00f3pria, mas poucos t\u00eam armas para lutar. Bendito seja o dia em que se descortine a verdade de que todos que nascem t\u00eam direito a tudo o que o planeta d\u00e1. Bendito seja o dia em que os eleitos, quem quer que sejam, passem a ser mais cobrados do que idolatrados. Mas hoje, analisando o que acontece com o mundo, e sobretudo com o nosso pa\u00eds, a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 de que as coisas evoluem muito mais r\u00e1pido que as pessoas. Os carros t\u00eam computadores de bordo, os elevadores s\u00e3o mais r\u00e1pidos, os celulares servem para tudo, mas ainda se vende um copo de \u00e1gua, ainda se morre de doen\u00e7a ou de fome, os corredores dos hospitais lotados, os desabamentos nos morros. A distopia, antes de ser algo para o qual precisamos nos preparar, \u00e9, por fim, a injusta realidade ao nosso redor. E um coro de gente a afirmar que a vida \u00e9 mesmo assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea \u00e9 daqueles que depositam f\u00e9 na humanidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Deposito muita f\u00e9, porque estou no meio dessa humanidade. Talvez seja uma obriga\u00e7\u00e3o acreditar nela. H\u00e1 muito perigo, mas ao mesmo tempo tamb\u00e9m h\u00e1 muito encanto nas pessoas, sobretudo quando se mostram verdadeiramente, e \u00e9 bem poss\u00edvel que venha da\u00ed a nossa salva\u00e7\u00e3o. O p\u00e3o que se faz pela vig\u00e9sima vez \u00e9 melhor do que aquele feito na primeira vez, pois o destino de tudo \u00e9 melhorar. Vive-se, sonha-se, sofre-se, aprende-se \u2013 se tivermos sorte. N\u00e3o \u00e9 raro escutar algu\u00e9m dizer que hoje h\u00e1 mais viol\u00eancia, mais injusti\u00e7as, mais diferen\u00e7as e separa\u00e7\u00f5es. Por meu lado, penso que h\u00e1 menos, mas tudo tem ficado, aos poucos, mais \u00e0 vista, mais \u00e0 tona, e isso nos traz essa sensa\u00e7\u00e3o de que o mundo nunca foi t\u00e3o ruim. Ele sempre foi muito parecido com o que \u00e9 hoje, posto que o ser humano mudou muito pouco, mas consigo mesmo enxergar uma caminhada rumo a uma evolu\u00e7\u00e3o, ao bem comum, a uma chamada de consci\u00eancia maior. Ainda h\u00e1 casos de pedofilia? Sim, centenas. Ainda se mata em nome de Deus? Sim. Mas a transpar\u00eancia \u00e9 maior, as cobran\u00e7as s\u00e3o maiores, sobre quase tudo pode se colocar um foco de luz. \u00c9 o que vejo. Ou, pelo menos, imagino ver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18012\" aria-describedby=\"caption-attachment-18012\" style=\"width: 375px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-2-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18012 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-2-1.jpg 375w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/interna-2-1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18012\" class=\"wp-caption-text\">Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A Literatura \u00e9 motor de transforma\u00e7\u00e3o de alguma coisa?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Tudo o que o mundo \u00e9 tem liga\u00e7\u00e3o direta com a literatura, sobretudo se levarmos em conta que ela existe desde as primeiras narrativas, mesmo orais, e influenciou decis\u00f5es e caminhos. Literatura, afinal, \u00e9 contar hist\u00f3rias, passar mensagens, e essas coisas n\u00e3o est\u00e3o apenas nos livros. \u00a0\u00a0Um quadro tem a sua parte de literatura, assim como uma m\u00fasica ou uma pe\u00e7a de teatro. Por esse prisma, ela pode ser considerada uma geradora de muitas outras express\u00f5es art\u00edsticas e o seu poder de transforma\u00e7\u00e3o passa a ser ainda maior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Antes de ganhar as ruas, os impressos e as redes sociais, estas \u00faltimas lugares de aplausos f\u00e1ceis, os textos liter\u00e1rios n\u00e3o mereceriam certa matura\u00e7\u00e3o e tratamento?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>H\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre textos publicados em livros daqueles compartilhados em redes sociais. O texto publicado em livro deve sempre passar pelos processos de revis\u00e3o e matura\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso, como se diz, dar um tratamento para que, enfim publicado, represente a sua melhor vers\u00e3o. Os textos compartilhados em redes sociais, por sua vez, variam de acordo com quem os compartilha. Autores com mais experi\u00eancia certamente ter\u00e3o um cuidado maior com seus escritos. Mas h\u00e1 ali gente de todo jeito, movida por todo tipo de combust\u00edvel, em diferentes est\u00e1gios. Tem a turma do aplauso f\u00e1cil, tem aqueles que, pelo pouco tempo no of\u00edcio da escrita, querem simplesmente uma resposta, e tem aqueles outros que s\u00f3 t\u00eam o espa\u00e7o das redes sociais para se externar. E muitas vezes n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quest\u00e3o da pressa que os faz compartilhar seu material em grande quantidade, sem precau\u00e7\u00e3o: \u00e9 a limita\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas, ou das manhas, que v\u00eam com a pr\u00e1tica. Fazendo uma analogia, \u00e9 como pegar uma por\u00e7\u00e3o desses novos cantores de arrocha ou de novas bandas de death metal, h\u00e1 centenas deles e delas por a\u00ed. Muitos produzir\u00e3o e jogar\u00e3o seus trabalhos no mercado sem cuidado algum. Mas, no meio de todas as tentativas, alguns v\u00e3o perseverar, aprimorar suas t\u00e9cnicas e ser muito bons naquilo a que se propuseram fazer. O talento n\u00e3o vinga sem coragem, disciplina, que se torna algo autom\u00e1tico com o tempo, e dedica\u00e7\u00e3o. E, claro, \u00e0s vezes tamb\u00e9m com um pouco de cara de pau.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O que podem os escritores nesses tempos de p\u00f3s-verdade, fake news e guerras de narrativas? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Algu\u00e9m disse, e agora realmente n\u00e3o lembro quem, que a literatura n\u00e3o tem dado conta da realidade. N\u00f3s ainda falamos de amores frustrados, enquanto Flor de Lis, com a ajuda de alguns filhos, mata o marido e depois vai at\u00e9 o enterro, encharcada de l\u00e1grimas; ainda tentamos desvendar os pecados, enquanto Jo\u00e3o de Deus estupra fi\u00e9is em seu doce charlatanismo, e padres, em um acobertamento que viola tudo o que a sua pretensa cren\u00e7a defende, seguem a se satisfazer e a fazer v\u00edtimas sem nunca serem responsabilizados pelo rastro de terror que deixam atr\u00e1s de si; ainda escrevemos sobre a liberdade, quando grande parte do pa\u00eds, informada ou n\u00e3o, idolatra pol\u00edticos e os defende como se fossem advogados de defesa, como se realmente tivessem certeza de tudo o que se passa na alma de quem leva os dias a se propagandear. Vivemos em uma esp\u00e9cie de anestesia coletiva, sem entender muito bem o que est\u00e1 acontecendo, seguindo no piloto autom\u00e1tico, tentando nos legitimar socialmente e nos dando conta da realidade anos depois, quando nada mais pode ser feito e, o pior, quando n\u00e3o se pode mais voltar atr\u00e1s. A literatura, bem como outras express\u00f5es art\u00edsticas, precisa estar acima disso, olhar a tudo com os olhos do distanciamento para, assim, absorver e analisar com limpidez e propriedade. E ent\u00e3o dar conta do seu tempo. Antes de entretenimento e cultura, os livros s\u00e3o ainda o registro de uma \u00e9poca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODRIGO MELO &#8211; <\/strong>Acho que pelo mesmo motivo que um cineasta come\u00e7a a fazer os seus filmes ou um rapper a compor as suas m\u00fasicas: dar seu testemunho, tentar pegar o mundo todo num ouvido s\u00f3. Toda pessoa tem um recado a dar, uma an\u00e1lise particular da vida e das coisas, um grito, uma bronca, um louvor, e a arte \u00e9 um caminho para despejar isso. O motivo de ser a literatura, especificamente, \u00e9 que sempre gostei de boas hist\u00f3rias. Meu pai \u00e9 um grande narrador e lembro de que quando viaj\u00e1vamos juntos, eu passava todo o tempo escutando ele falar. Isso certamente contou. Como nunca tive um leque t\u00e3o grande de boas hist\u00f3rias, comecei a inventar algumas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/strong><em> \u00e9 ca\u00f3tico, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no mundo como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre travessias liter\u00e1rias e os apelos contempor\u00e2neos, uma entrevista com o escritor Rodrigo Melo<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17970,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3879,16,2539],"tags":[63,137,8,3899,991,65],"class_list":["post-17941","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-139a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-riviera","tag-rodrigo-melo","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17941","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17941"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17941\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18013,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17941\/revisions\/18013"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17970"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}