{"id":17967,"date":"2020-10-25T12:09:28","date_gmt":"2020-10-25T15:09:28","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=17967"},"modified":"2020-12-06T15:07:43","modified_gmt":"2020-12-06T18:07:43","slug":"dropssetimaarte-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dropssetimaarte-17\/","title":{"rendered":"Drops da S\u00e9tima Arte"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Guilherme Preger<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Border. Su\u00e9cia\/Dinamarca. 2018.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cartaz-Border-m-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17977\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cartaz-Border-m-1.jpg\" alt=\"\" width=\"314\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cartaz-Border-m-1.jpg 314w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/cartaz-Border-m-1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 314px) 100vw, 314px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Obra que estreou no Festival de Cannes de 2018 e somente atrav\u00e9s das plataformas de v\u00eddeo por demanda chega ao grande p\u00fablico, <em>Border<\/em> (<em>Gr\u00e4ns<\/em>), de Ali Abbasi, \u00e9 um filme sueco que causou debate e mal-estar por onde passou. Mas parece totalmente apropriado para os tempos pand\u00eamicos em que a humanidade est\u00e1 submergida nos terrores de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia no planeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme trata da hist\u00f3ria de Tina (vivida pela atriz Eva Melander), uma policial alfandeg\u00e1ria que trabalha num aeroporto da Su\u00e9cia. O aspecto assombroso de Tina, ligeiramente andr\u00f3gino, \u00e9 devido a uma suposta \u201canomalia cromoss\u00f4mica\u201d. Tina desenvolveu uma aptid\u00e3o extraordin\u00e1ria de farejar o odor dos corpos e relacion\u00e1-los aos afetos das pessoas. Esse seu dom lhe \u00e9 de valia em sua profiss\u00e3o, na qual Tina pode detectar, atrav\u00e9s do faro, a culpabilidade de poss\u00edveis criminosos que atravessam a alf\u00e2ndega, como, por exemplo, o caso de um viajante que carrega imagens ped\u00f3filas na mem\u00f3ria de sua c\u00e2mera fotogr\u00e1fica.\u00a0 Esse reconhecimento permite \u00e0 pol\u00edcia desbaratar uma rede sueca de pedofilia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Tina falha absolutamente na identifica\u00e7\u00e3o de Vore (vivido por Eero Milonoff), cujo aspecto \u00e9 t\u00e3o bizarro quanto o dela, mas que Tina acredita guardar algum segredo. Na verdade, Vore, que possui uma complei\u00e7\u00e3o masculina, \u00e9, na verdade, do sexo feminino, e a incapacidade da personagem protagonista de identificar seu sexo causa-lhe um grande constrangimento na revista. Por esse erro, e por uma secreta sintonia com Vore, Tina lhe oferece abrigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcada por sua silhueta bizarra, por uma atestada infertilidade, por cicatrizes no corpo, Tina apesar de tudo tenta estar integrada \u00e0 sociedade: mora com um amigo, tem emprego, visita o pai habitualmente num asilo de idosos, tem a confian\u00e7a dos colegas de trabalho que admiram e tiram proveito de seu \u201cpoder\u201d paranormal. No entanto, a personagem est\u00e1 na \u201cborda\u201d da sociedade normal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17979\" aria-describedby=\"caption-attachment-17979\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17979 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-1-divulga\u00e7\u00e3o-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17979\" class=\"wp-caption-text\">Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter lim\u00edtrofe de Tina \u00e9 o mesmo do filme de Ali Abbasi. <em>Border<\/em> \u00e9 uma obra entre o fant\u00e1stico e o realista. Saberemos que Tina e Vore s\u00e3o trolls, seres mitol\u00f3gicos das culturas eslava e celta. Os aspectos supostamente monstruosos de suas silhuetas s\u00e3o na verdade naturais. A monstruosidade \u00e9, portanto, quest\u00e3o de perspectiva. Efetivamente, Tina e Vore est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da natureza do que est\u00e3o os humanos. Se eles assustam os humanos e os c\u00e3es domesticados, comunicam-se com raposas e outros animais selvagens de maneira mais direta. Est\u00e3o muito mais em casa na floresta do que no meio da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Border<\/em> foi bastante criticado, no entanto, pelas cenas de sexo aberrante e pela crueldade. \u00c9 preciso entender, no entanto, qual a fun\u00e7\u00e3o formal dessas cenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 montagem cinematogr\u00e1fica. O filme apresenta dois mundos que seriam incompat\u00edveis: o mundo dos humanos e o mundo dos trolls. O perspectivismo narrativo traz os dois pontos de vista e como eles parecem inconcili\u00e1veis: aquilo que \u00e9 \u201cnatural\u201d num dos lados da \u201cfronteira\u201d \u00e9 n\u00e3o natural na outra e vice-versa. Aquilo que parece aberrante num dos lados surge como er\u00f3tico no outro. Essa separa\u00e7\u00e3o entre mundos, no entanto, \u00e9 rompida (ou ultrapassada) de diversos modos. Da\u00ed, por exemplo, a met\u00e1fora \u201calfandeg\u00e1ria\u201d da profiss\u00e3o de Tina e sua participa\u00e7\u00e3o profissional nessa exata \u201cpassagem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esp\u00edrito transgressivo do filme est\u00e1 justamente nos modos narrativos onde a separa\u00e7\u00e3o entre mundos \u00e9 violada. Tina \u00e9 considerada \u201cinf\u00e9rtil\u201d pelos padr\u00f5es da sexualidade humana. Numa das cenas, o amigo de Tina quer transar com ela e \u00e9 rejeitado. A quest\u00e3o b\u00e1sica \u00e9 que Tina n\u00e3o sente desejo entre humanos. Sua infertilidade n\u00e3o \u00e9 devido a uma anomalia gen\u00e9tica como lhe dizem, mas porque ela n\u00e3o est\u00e1 em \u201ccasa\u201d na sociedade humana. \u00c9 Vore que conduzir\u00e1 Tina a recuperar sua libido pr\u00f3pria. Essa libido j\u00e1 estava transparente desde as primeiras cenas em que Tina se banha nua num lago das redondezas. N\u00e3o havia nada de \u201cerrado\u201d com a sexualidade da personagem. Ela s\u00f3 n\u00e3o a encontrava no lugar certo ou melhor: sua sexualidade n\u00e3o tinha \u201clugar\u201d em sua vida a n\u00e3o ser quando estava sozinha na natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A crueldade se d\u00e1 em outro modo, dentro do com\u00e9rcio entre humanos e trolls. Ela antes liga do que afasta as duas esp\u00e9cies. Por um lado, h\u00e1 a pr\u00f3pria crueldade \u201caberrante\u201d da sociedade humana, na pedofilia, ou no especic\u00eddio, forma mais abrangente de tantos genoc\u00eddios a que se dedica a esp\u00e9cie sapiens. De outro, h\u00e1 o ressentimento, que n\u00e3o \u00e9 exclusividade tamb\u00e9m dos trolls, mas abunda em nossa sociedade. A crueldade \u00e9 a mat\u00e9ria mesma da guerra e a guerra n\u00e3o deixa de ser um \u201cintercurso\u201d entre as sociedades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_17980\" aria-describedby=\"caption-attachment-17980\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-2-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-17980 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-2-divulga\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"237\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-2-divulga\u00e7\u00e3o.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Imagem-2-divulga\u00e7\u00e3o-300x142.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-17980\" class=\"wp-caption-text\">Foto: divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A guerra \u00e9 amb\u00edgua entre acabar ou manter as fronteiras. Mas a guerra tamb\u00e9m pode ser infletida para dentro, o que significa que a fronteira \u00e9 deslocada para o interior da pr\u00f3pria sociedade humana. Se Tina hesita na sua rela\u00e7\u00e3o com Vore \u00e9 tamb\u00e9m por sua fidelidade ao trabalho, aos colegas, aos vizinhos, enfim \u00e0 sociedade da qual faz parte. Em \u00faltima an\u00e1lise, a decis\u00e3o de Tina, de ordem \u00e9tica, \u00e9 um elemento de sua humanidade. A fronteira n\u00e3o est\u00e1 entre esp\u00e9cies ou entre grupos de indiv\u00edduos. A fronteira est\u00e1 no interior da pr\u00f3pria individualidade. O nome dessa fronteira \u00e9 subjetividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pot\u00eancia de <em>Border<\/em> est\u00e1 na figura\u00e7\u00e3o da fronteira e sua transposi\u00e7\u00e3o da narrativa interior para o ato cinematogr\u00e1fico propriamente dito. A fronteira dos g\u00eaneros, completamente transfigurada na representa\u00e7\u00e3o dos sexos de Tina e Vore, se transplanta para a fronteira dos g\u00eaneros estil\u00edsticos: a do filme realista e a do filme fant\u00e1stico. Como na hist\u00f3ria, o filme de Ali Abbasi cruza frequentemente a fronteira dos g\u00eaneros narrativos. \u00c9 essa ultrapassagem que gera o efeito de choque apontado por tantos espectadores. Em algum momento da trama \u00e9 revelado que na Finl\u00e2ndia h\u00e1 uma comunidade sobrevivente de trolls que vivem em liberdade. A comunidade \u00e9 um \u201cenclave\u201d ut\u00f3pico livre de guerras e livre para o erotismo entre os iguais da esp\u00e9cie. A estranheza provocada por <em>Border <\/em>vem dessa op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica de nunca apenas \u201csobrevoar\u201d esses mundos acima de suas fronteiras; ao contr\u00e1rio, a op\u00e7\u00e3o da obra \u00e9 fazer com que todo o filme seja uma habita\u00e7\u00e3o da fronteira. N\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m da fronteira, o que vale para os humanos e trolls, bem como para a demarca\u00e7\u00e3o entre fantasia e realidade: s\u00f3 existe o poder que emana de suas imagens. Al\u00e9m dessa fronteira h\u00e1 apenas a utopia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uFFdVdsUpJg\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Guilherme Preger<\/em><\/strong><em> \u00e9 natural do Rio de Janeiro, engenheiro e escritor. Autor de Capoeiragem (7Letras\/2003) e Extrema L\u00edrica (Oito e Meio\/2014). \u00c9 organizador do Clube da Leitura, principal coletivo de prosa liter\u00e1ria do Rio de Janeiro e foi organizador de suas quatro colet\u00e2neas de contos. Atualmente \u00e9 doutorando de Teoria Liter\u00e1ria pela UERJ com a tese F\u00e1bulas da Ci\u00eancia. \u00c9 colaborador do site de produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica <a href=\"http:\/\/canetalentepincel.art.blog\"><strong>Caneta Lente e Pincel<\/strong><\/a>. Escreveu sobre cinema para o site <a href=\"http:\/\/ambrosia.com.br\"><strong>Ambrosia<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme sueco \u201cBorder\u201d pela perspectiva de Guilherme Preger<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17968,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3879,2535],"tags":[3895,3894,115,13,394,1204,3467],"class_list":["post-17967","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-139a-leva","category-drops-da-setima-arte","tag-ali-abbasi","tag-border","tag-cinema","tag-drops-da-setima-arte","tag-filme","tag-guilherme-preger","tag-suecia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17967"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17967\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18045,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17967\/revisions\/18045"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}