{"id":18101,"date":"2020-12-01T08:56:43","date_gmt":"2020-12-01T11:56:43","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18101"},"modified":"2020-12-07T15:31:01","modified_gmt":"2020-12-07T18:31:01","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-73","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-73\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Clarissa Macedo<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste ano em que a pandemia instaurou uma nova operacionaliza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, a leitura e a escrita tornaram-se ferramentas de poss\u00edvel manuten\u00e7\u00e3o da sanidade. Publicado em mar\u00e7o, o livro <em>As solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4<\/em>, de <strong>Tiago D. Oliveira<\/strong>, vem construindo um percurso de alegria para um escritor cujo zelo com a palavra \u00e9 not\u00f3rio. Para mapear alguns trajetos, entre o Tejo, o Toror\u00f3, o Paragua\u00e7u e outras paisagens, sondei linhas de acesso ao livro mencionado, al\u00e9m de projetos em movimento e futuros, a conquista do Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro e a sensa\u00e7\u00e3o que o isolamento social imp\u00f4s \u00e0 face liter\u00e1ria do autor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Celebradas pela posi\u00e7\u00e3o de finalista do Oceanos, um dos marcadores do campo liter\u00e1rio atual, <em>As solas<\/em>&#8230; possibilitam uma pausa para a territorializa\u00e7\u00e3o dos fios invis\u00edveis cibern\u00e9ticos e um chamado \u00e0 mem\u00f3ria-ancestralidade na figura de um av\u00f4 desencarnado que enseja uma profunda contempla\u00e7\u00e3o do mundo. A mem\u00f3ria, essa constru\u00e7\u00e3o imprecisa de sensa\u00e7\u00f5es e acontecimentos, exige um afastamento da imposi\u00e7\u00e3o do agora para a passagem de um outro instante, um instante passado. Em <em>As solas<\/em>&#8230;, al\u00e9m do que pude desvelar no pref\u00e1cio do volume, interessa-me, neste momento, a cis\u00e3o que a obra provoca ao abordar um l\u00f3cus que transcende as <em>cibermalhas<\/em>, pois a elas resiste: o espa\u00e7o fora dos centros. Nesse aspecto, s\u00e3o dois os m\u00f3biles de insurg\u00eancia que me intrigam, modulados, por sua vez, atrav\u00e9s da fratura do tempo e da abertura ao exterior da tela, desencadeando uma narrativa po\u00e9tica que ilustra uma saga a partir dos p\u00e9s, da ancestralidade e do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guy Debord afirma que a espetaculariza\u00e7\u00e3o comporta uma media\u00e7\u00e3o de imagens e apar\u00eancias. As redes sociais, o apego \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o de tudo e a pr\u00f3pria internet cont\u00eam o fetichismo do espetacularizado que reveste, no contempor\u00e2neo, todas as zonas do humano. A urdidura do digital, como interfere na condi\u00e7\u00e3o humana e quais as formas de vivenciar o toque na tela que nos toca s\u00e3o quest\u00f5es que se imp\u00f5em. A literatura \u00e9 um terreno aberto para isso, um dom\u00ednio de resist\u00eancia onde o digital \u00e9 sangrado e desvelado. Por isso, ler Tiago D. Oliveira, hoje, em que a pandemia permanece muito por conta de not\u00edcias inver\u00eddicas a respeito do v\u00edrus que a move, parece-me necess\u00e1rio. Desde <em>Distra\u00eddo<\/em>, passando por <em>Conta\u00e7\u00f5es<\/em>, at\u00e9 o livro mais recente, a qualidade est\u00e9tica, as refer\u00eancias textuais (Tiago \u00e9 um leitor voraz) e a reterritorializa\u00e7\u00e3o conformam uma obra cuja matriz \u00e9 a da beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo, segue a conversa que tive com o autor. Desde j\u00e1, agrade\u00e7o a Tiago D. Oliveira, por ter cedido um pouco de seu tempo para n\u00f3s, e ao editorial da <em>Diversos Afins<\/em> pelo cr\u00e9dito do espa\u00e7o. Abra\u00e7os e boa leitura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18176\" aria-describedby=\"caption-attachment-18176\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/2m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18176 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/2m.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"281\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/2m.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/2m-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18176\" class=\"wp-caption-text\">Tiago D, Oliveira \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Em <em>As solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4<\/em>, dif\u00edcil n\u00e3o notar a figura de um patriarca a marcar o percurso narrativo-po\u00e9tico. H\u00e1 um movimento cat\u00e1rtico e\/ou de expurga\u00e7\u00e3o (independentemente se factual ou mais propriamente ficcional)? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; O primeiro pensamento sobre a escrita desses poemas foi na dire\u00e7\u00e3o de um resgate. Ele nasceu de uma necessidade, a de tentar entender o muito al\u00e9m dos deslocamentos dos corpos, o que fica quando n\u00e3o h\u00e1 mais a chance de um abra\u00e7o. Eu, que j\u00e1 havia me distanciado geograficamente, pois vivia em Portugal na \u00e9poca, agora via a dist\u00e2ncia girar em seu pr\u00f3prio eixo como faz t\u00e3o naturalmente a natureza. A dist\u00e2ncia n\u00e3o seria s\u00f3 material e seguiria o rio de nossas exist\u00eancias para outro lugar. Coloquei para fora o primeiro e segundo poema da sequ\u00eancia que se tornaria um livro bem depois. Inicialmente n\u00e3o havia uma vontade de livro. O que existia era a necessidade de colocar na mesa as minhas armas para gerir o desconhecido que me limitava, j\u00e1 que n\u00e3o podia largar o emprego em Lisboa nem tinha condi\u00e7\u00f5es financeiras para voltar ao Brasil e beijar a testa de meu av\u00f4. Escreveria. Os poemas foram nascendo deste momento, mas s\u00f3 escrevi o terceiro quando j\u00e1 estava no Brasil, alguns poucos anos depois. Os versos foram ganhando especula\u00e7\u00f5es, leituras, rememora\u00e7\u00f5es, recria\u00e7\u00f5es, tatuagem que se desenhava em minha carne ao passo em que as geografias do afeto afloravam em mim paulatinamente. O sentimento de saudade em Portugal \u00e9 uma experi\u00eancia muito especial e \u00fanica, aqui no Brasil ele se tornou mais pesado quando caminhei na terra com os p\u00e9s descal\u00e7os. Refletir sobre o m\u00e9todo cat\u00e1rtico que Freud aponta e no fim concluir que estes versos s\u00e3o uma voz que procura o equil\u00edbrio saud\u00e1vel a partir da linguagem, uma voz que busca substituir o sentimento da impossibilidade do ato por um movimento realizado pela linguagem, pela escrita em si, foi o que entendi nesse caminho. Aqui o patriarca exerce a continua\u00e7\u00e3o de sua caminhada impondo \u00e0 morte a vitalidade da escrita a partir de quem ficou. E j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 fic\u00e7\u00e3o nem realidade, tudo \u00e9 transpassado continuamente pelos rev\u00e9rberos e arrepios que acontecem ap\u00f3s cada leitura destes versos, destes caminhos, em cada leitor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Como voc\u00ea estava em Portugal, mais precisamente em Lisboa, a dist\u00e2ncia do Brasil, e, logo, de seu av\u00f4, funcionou como parte do processo de constru\u00e7\u00e3o do livro. Al\u00e9m disso, como foi experienciar a terra de Fernando Pessoa tamb\u00e9m na condi\u00e7\u00e3o de escritor \u2013 e brasileiro? A cis\u00e3o, ao menos em parte, com a p\u00e1tria, sob o signo do estrangeiro, o corte t\u00e1til com a geografia da Bahia: tudo isso impactou sua literatura de algum modo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Andar pelas ruas de Lisboa produz um sentimento familiar, \u00e9 a mesma sensa\u00e7\u00e3o da folha em branco diante de mim. A cidade oferece uma intimidade maior com os versos que lia na UNL ou no meu quarto. A sensa\u00e7\u00e3o que tinha era a de viver constantemente no tr\u00e2nsito das leituras, s\u00f3 que tocando, caminhando sobre as palavras, os versos. Um amigo de inf\u00e2ncia, que tamb\u00e9m morava em Lisboa na \u00e9poca, teve a sorte de morar ao lado de uma das casas em que viveu Fernando Pessoa e nunca percebeu aquela sorte, o que mudou quando fui visit\u00e1-lo pela primeira vez e depois disso aquela imagem n\u00e3o saiu mais de minha cabe\u00e7a. Outros epis\u00f3dios como esse foram somados durante os anos, mas o que ainda \u00e9 forte no emaranhado das imagens de minhas lembran\u00e7as \u00e9 o desenho afetivo que a cidade constr\u00f3i em n\u00f3s. As ruas, a arquitetura, o movimento da carris durante o dia, o tejo, tudo figura como a constru\u00e7\u00e3o de uma literatura em face de sua realiza\u00e7\u00e3o a qualquer momento. E assim aconteceu um convite para participar de uma antologia de poemas, depois de contos e l\u00e1 estava eu usando a cidade para recriar a pr\u00f3pria cidade, pois era esse o sentimento quando escrevia sobre minhas impress\u00f5es ao mergulhar cada vez mais na cultura do lugar, era um brasileiro vivendo em outra cultura e reproduzindo aquelas influ\u00eancias a partir de uma escrita em constante transforma\u00e7\u00e3o. Penso que a minha poesia come\u00e7ou a entender que a transforma\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9 a melhor linguagem exatamente nesse momento. O corte com a minha Bahia come\u00e7ava a se desfazer ali, diante da saudade a escrita, j\u00e1 envolvida pela cultura lusitana, pelos poetas todos, acontecia como instrumento funcional para re\/criar, re\/viver. Comecei a pensar e sentir novamente a minha terra, agora de uma maneira muito mais profunda e real, depois que percebi que por mais que viajasse, a natureza de meu olhar, mesmo estrangeiro, carregaria sempre o Brasil, a Bahia em mim. O impacto sempre foi o de eleva\u00e7\u00e3o, sempre olhei e senti assim, para frente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Muito produtiva a rela\u00e7\u00e3o reterritorializada com os espa\u00e7os Portugal-Brasil e que, ali\u00e1s, \u00e9 bastante cortejada pela cr\u00edtica lus\u00f3fona. Interessante mencionar, nesse aspecto, o pr\u00eamio <em>Oceanos<\/em>, de literaturas de l\u00edngua portuguesa, em que voc\u00ea \u00e9 finalista este ano com <em>As solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4<\/em>. Como tem sido essa experi\u00eancia? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Bacana voc\u00ea tocar nesse ponto, pois h\u00e1 aqui um lugar imenso de afeto, de reencontro. Ao passo que caminho pelas solas de meu av\u00f4 nesse livro, conecto-me tamb\u00e9m com Portugal e percebo a cada dia que somos, nesta minha perspectiva, uma s\u00f3 experi\u00eancia, a poesia. Estou vivendo um momento muito especial com o reconhecimento do meu trabalho, que geralmente \u00e9 muito solit\u00e1rio e sem pretens\u00e3o alguma. H\u00e1 anos longe de Portugal, mas toda vez que escuto aquele sotaque, sinto como se tivesse retornado ontem para o Brasil, que o tempo n\u00e3o passou. A possibilidade do pr\u00eamio me fez acessar novamente um velho sentimento de pertencimento, um chamado h\u00edbrido diante do Tejo ou do Dique do Toror\u00f3, sua soma. O conforto \u00e9 que somos todos filhos de uma mesma l\u00edngua, mesmo com in\u00fameros mecanismos internos de reconfigura\u00e7\u00f5es constantes, somos todos sa\u00eddos de uma mesma boca. Mas o cora\u00e7\u00e3o anda apertado com essa reconex\u00e3o com um tempo muito feliz de al\u00e9m mar. Um lugar re\/encontrado. A parte funcional de todo esse movimento chegado com a indica\u00e7\u00e3o de finalista para o Pr\u00eamio Oceanos 2020 \u00e9 que a alegria \u00e9 imensa, servir de exemplo para outros meninos de periferia, como eu fui, \u00e9 uma chance de fazer algo bom, motivador. Mas o que fica depois do vento ainda \u00e9 a p\u00e1gina em branco e eu confesso sem medo que essa \u00e9 a imut\u00e1vel realidade de quem escreve, \u00e9 o ch\u00e3o de todo autor, \u00e9 a certeira paz que me recebe de volta. Que bom! Mesmo sabendo da natureza passageira dos pr\u00eamios, confesso que \u00e9\u00a0bom sentir as mensagens das pessoas, o carinho, o brilho nos olhos. Penso que As solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4 ainda v\u00e3o me levar para lugares diversos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>O \u201cvelho sentimento de pertencimento, um chamado h\u00edbrido diante do Tejo ou do Dique do Toror\u00f3, sua soma\u201d remete \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o t\u00e3o incensada do indiv\u00edduo contempor\u00e2neo. Isso interfere noutros trabalhos, a exemplo de projetos anteriores ou mesmo in\u00e9ditos? Ou o \u201cch\u00e3o de todo autor\u201d, a p\u00e1gina em branco, resvala em mist\u00e9rios diferentes a cada livro? Consegue identificar tais aspectos na pr\u00f3pria obra?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Essa fragmenta\u00e7\u00e3o \u00e9 realmente um tra\u00e7o contempor\u00e2neo que comp\u00f5e o olhar de quem escreve. As nossas horas s\u00e3o invadidas por diversos tempos e espa\u00e7os e muitas vezes j\u00e1 nem notamos, acostumados com o ritmo normal da vida imediata. Mas h\u00e1 a palavra escrita, a literatura. Assim s\u00e3o os dias, entre a mem\u00f3ria e o tato. Penso que quanto mais o tempo passa, mais aumenta essa nossa busca por um pertencimento que se faz na fragmenta\u00e7\u00e3o. E agora digo pensando tamb\u00e9m nas vidas criadas no papel. O meu trabalho est\u00e1 mergulhado nessas \u00e1guas, a do Tejo e a do Dique. Estou inteiramente atravessado por essa chance do sentir, do criar, do referenciar, assim aconteceu com um livro que escrevi, Conta\u00e7\u00f5es, que bebe de um lugar que n\u00e3o existe mais, de criaturas reimaginadas e grafadas como partes de um mural constru\u00eddo para essa ideia de pertencimento. Personagens inventados, rememorados, todos abra\u00e7ados por essa fragmenta\u00e7\u00e3o, cada um representa um lugar perdido de geografias e eras distintas. Quando escrevo, junto todas as naturezas sob a minha, paulatinamente a preencher a folha em branco com palavras. O ch\u00e3o que piso \u00e9 feito de possibilidades, a cada livro que realizo perten\u00e7o um pouco mais a essa multiplicidade e ao mesmo tempo, sendo todos eles, fragmento-me um pouco mais. Talvez seja essa a ideia de modernidade que merecemos, a que n\u00e3o conseguiremos t\u00e3o cedo nos livrar. Quando escrevi <em>As solas dos p\u00e9s de meu av\u00f4<\/em>, novamente n\u00e3o consegui fugir dessa fragmenta\u00e7\u00e3o que me faz. L\u00e1 est\u00e3o o sert\u00e3o profundo, a urbe e\u00a0um outro pa\u00eds distante. L\u00e1 est\u00e3o o av\u00f4, o pai e o neto. Tr\u00eas tempos e espa\u00e7os distintos que s\u00e3o acessados pelo corpo da fragmenta\u00e7\u00e3o intu\u00eddo pelo sangue do autor, que escreve justamente por conseguir pertencer, mesmo sem nunca ter vivido. Estou a escrever um novo livro sobre Saveiros, o que me corre pelas m\u00e3os s\u00e3o as \u00e1guas novamente, n\u00e3o as do Tejo nem as do Dique, mas as do Paragua\u00e7u. Novamente escrevo com o sentimento de pertencimento, mesmo sem nunca ter vivido, o que me faz alcan\u00e7ar essa atmosfera de um rec\u00f4ncavo hist\u00f3rico que abastecia a capital \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o que me acolhe enquanto pesquisa, enquanto ato de talhar o verso. Os mist\u00e9rios costurados na derme da escrita de cada livro s\u00e3o consequ\u00eancias de um caminho em que pertencer e n\u00e3o pertencer s\u00e3o faces de uma mesma moeda. O jogo da escrita possibilita tamb\u00e9m essa imagem. Agora olho para a janela e o sil\u00eancio da noite me faz ouvir o barulho do rel\u00f3gio, lembro de Pessoa diante do mundo e a heteron\u00edmia de sua cria\u00e7\u00e3o. Lembro tamb\u00e9m de Drummond, em a M\u00e1quina do mundo, quando o poeta nega aquela imagem e vai embora. Sigo em posse dessa heran\u00e7a e gozo agora do sil\u00eancio que antecede o sono. Fim. Amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o sei, pode ser tudo diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18177\" aria-describedby=\"caption-attachment-18177\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/3m.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18177 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/3m.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/3m.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/3m-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18177\" class=\"wp-caption-text\">Tiago D. Oliveira \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Acima, voc\u00ea tra\u00e7a um pequeno tratado sobre os desdobramentos do ato de escrever, al\u00e9m de citar um livro in\u00e9dito, <em>Saveiros<\/em>. Muitos autores, em meio \u00e0 pandemia em curso, t\u00eam alegado que a escrita funciona como salva\u00e7\u00e3o. Como tem sido para voc\u00ea? Muitos projetos novos? <em>Saveiros<\/em> nasceu com a quarentena?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Com a pandemia vieram muitas mudan\u00e7as rapidamente, tivemos que aceitar e transformar o que nos foi imposto com tanta for\u00e7a. A\u00a0\u00fanica realidade que n\u00e3o sofreu foi a leitura, a escrita. Ali\u00e1s, finalmente havia tempo para a leitura, para a organiza\u00e7\u00e3o de algum projeto de escrita. E assim, mesmo continuando a dar aulas via internet, de alguma forma ficamos mais dispon\u00edveis para o sol se pondo, para o barulho do vento entrando em casa. H\u00e1 tempos venho\u00a0acumulando leituras sobre os saveiros para um futuro, o que nunca acontecia por causa da implac\u00e1vel falta de tempo, e nesses meses consegui ler muito do que desejava, disserta\u00e7\u00f5es, artigos, livros, reportagens, o que alimentou mais ainda\u00a0a minha vontade de conviver com todo aquele universo. Ent\u00e3o eu tinha tempo e uma vontade de escrever que s\u00f3 crescia. Iniciei os versos mesmo sem ter colocado nada no papel. Os poemas come\u00e7aram a ser escritos em mim enquanto a liberdade reinventava um livro como rio para que aqueles saveiros, que criava como versos em minha cabe\u00e7a, pudessem navegar novamente. Escrevo com os dias atravessando as palavras,\u00a0<em>tudo o que sei \u00e9 medido por versos que repito biblicamente<\/em>\u00a0e tento aceitar o que n\u00e3o posso mudar e tomar o que me cabe. Os saveiros s\u00e3o mais uma ferramenta de resist\u00eancia ao duro tempo que vivemos, assim como os acordes do viol\u00e3o, as contas amarradas na ponta do l\u00e1pis, as lives ou as receitas de p\u00e3o. A quarentena trouxe-me uma chance de desacelerar, mas tamb\u00e9m me possibilitou a constru\u00e7\u00e3o de um projeto que vai muito mais al\u00e9m da minha condi\u00e7\u00e3o de isolamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Voc\u00ea ganhou este ano o Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro. Pode comentar um pouco sobre?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Recebi uma liga\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio educadora me pedindo para falar sobre o selo Jo\u00e3o Ubaldo, que meu in\u00e9dito, <em>Soprando o vento<\/em>, tinha sido contemplado neste ano de 2020. Fiquei muito feliz e acabou passando um pequeno filme em minha cabe\u00e7a. Quando comecei a escrever poesia tinha a idade perfeita para sonhar, sem o cora\u00e7\u00e3o calejado por alguns movimentos\u00a0naturais da vida. Acho que aquele menino de Sete de Abril vibrou dentro de mim com a not\u00edcia. Ganhar um pr\u00eamio em minha cidade sempre foi uma imagem distante,\u00a0mas algo brilhava ainda em mim e depois que a ficha caiu entendi que sou a melhor propaganda de que \u00e9 poss\u00edvel nascer na periferia, sonhar com um mundo distante e um dia realizar. Esse pr\u00eamio do Selo Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro representa para mim uma semente plantada em tantos cora\u00e7\u00f5es, tantos meninos e meninas de periferia que v\u00e3o\u00a0 perceber\u00a0 que com leitura, estudo, f\u00e9, tudo acontece. Sigo acreditando na poesia e nas pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; <\/strong><strong>Gostaria de deixar alguma mensagem para as suas leitoras e leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TIAGO D. OLIVEIRA<\/strong> &#8211; Queria deixar aqui a alegria que sinto quando abro um livro.\u00a0 A paz que me toma quando termino de escrever algum projeto, quando os poemas\u00a0est\u00e3o dialogando. Queria deixar aqui a minha f\u00e9 em um mundo\u00a0feito por pessoas que acreditam\u00a0nos livros, que se encantam com as pequenas alegrias. Queria dizer que a escrita se tornou uma maneira de entendimento\u00a0e localiza\u00e7\u00e3o do mundo, cada livro escrito \u00e9 um universo que re\/descubro e aceito caminhar. Queria agradecer por uma troca t\u00e3o agrad\u00e1vel que foi essa entrevista. Estar aqui \u00e9 acreditar na palavra, \u00e9 seguir. Leiam. Leiam. A leitura \u00e9 a grande riqueza nos dias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Clarissa Macedo<\/strong> (Salvador \u2013 BA), mestra, doutora em Literatura e Cultura, \u00e9 escritora, revisora e pesquisadora. Publicou a plaquete O trem vermelho que partiu das cinzas (Pedra Palavra, 2014) e os livros Na pata do cavalo h\u00e1 sete abismos (Pr\u00eamio Nacional da Academia de Letras da Bahia, 2014; traduzido ao espanhol) e O nome do mapa e outros mitos de um tempo chamado afli\u00e7\u00e3o (Of\u00edcios Terrestres, 2019).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa conversa marcada pelas revolu\u00e7\u00f5es da palavra, Clarissa Macedo entrevista o poeta Tiago D. 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