{"id":18112,"date":"2020-12-01T09:58:55","date_gmt":"2020-12-01T12:58:55","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18112"},"modified":"2020-12-06T15:01:08","modified_gmt":"2020-12-06T18:01:08","slug":"janela-poetica-i-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-i-75\/","title":{"rendered":"Janela Po\u00e9tica I"},"content":{"rendered":"<p><em>Sara F. Costa<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18114\" aria-describedby=\"caption-attachment-18114\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ice-Diamond.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18114\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ice-Diamond.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ice-Diamond.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ice-Diamond-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18114\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Cristiano Xavier<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>deixa o sol curar as cicatrizes de inverno<br \/>\no c\u00e9u cinzento verte das veias,<br \/>\nabre golpes nos poemas suburbanos.<br \/>\nolhos sem fogo engolidos em noites<br \/>\nque s\u00e3o rastos, que s\u00e3o desordem<br \/>\nque s\u00e3o pictogramas im\u00f3veis<br \/>\nna linguagem corporal.<br \/>\ndeixa o sil\u00eancio relatar as mem\u00f3rias,<br \/>\nos poemas que surgem em sonhos<br \/>\ne que surgem nos bares, oferecem um cigarro<br \/>\noferecem uma cerveja caseira<br \/>\nnum f\u00f4lego sem p\u00e1tria, sem fronteira,<br \/>\nsem bandeiras hasteadas na exist\u00eancia.<br \/>\nsentamo-nos numa ponta da eletricidade<br \/>\ne acabamos a comer shaobing<br \/>\na ayi tem um rosto claro,<br \/>\nilumina a escurid\u00e3o do pensamento<br \/>\ntrago os dedos gelados \u00e0 boca<br \/>\nem breve acordarei em casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Portugal \u00e9 um segredo escondido na garganta,<br \/>\n\u00e9 um licor muito forte entre os m\u00fasculos e o poema.<br \/>\nlivros enevoados desdizem a l\u00f3gica subterr\u00e2nea do medo.<br \/>\num homem que amei encontra-me em esp\u00edrito ainda viva<br \/>\ncomo o Genji encontrou a Sra. Rokujo.<br \/>\nvoa em dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 minha personalidade.<br \/>\no poeta organiza os enigmas em forma de dorso<br \/>\npara manter o segredo<br \/>\nmas a Murasaki escreveu a hist\u00f3ria da minha vida h\u00e1 um mil\u00e9nio.<br \/>\na viagem do esp\u00edrito fez-se num Boeing 777.<br \/>\nacima das nuvens, n\u00e3o vejo horizontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>tenho um animal sentado entre as s\u00edlabas,<br \/>\nruge pela est\u00e9tica<br \/>\ntrouxe-o no avi\u00e3o comigo para a China.<br \/>\ncaminha pelos an\u00e9is da cidade,<br \/>\nfareja o nevoeiro de agosto,<br \/>\npontua os poemas.<br \/>\ncresce silencioso no ventre cego<br \/>\nat\u00e9 \u00e0 Cidade Proibida<br \/>\nonde vai dilacerar imp\u00e9rios<br \/>\ne invadir noites inteiras.<br \/>\ntrago um animal que lateja pelo esgotamento<br \/>\nabre-se em forma de esfinge,<br \/>\nesconde-se entre as fissuras urbanas do poema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ela deita-se todos os dias contra a pr\u00f3pria boca<br \/>\ncomo um arquip\u00e9lago im\u00f3vel,<br \/>\no nome ancorado ao desafio,<br \/>\nas pernas abertas em forma de espelho.<br \/>\ntodos os clientes s\u00e3o v\u00e1lvulas:<br \/>\ndeixam-na abrir-se ou obrigam-na a fechar-se<br \/>\ndeixam-lhe no quarto turbul\u00eancias &#8211;<br \/>\npor vezes n\u00e3o sabe se \u00e9 carne ou se \u00e9 um contentor.<br \/>\nquartos inteiros de s\u00e9men em todos os pesadelos<br \/>\ncorpos mergulhados em si mesmos<br \/>\n\u00e9 um crime definitivo<br \/>\nque n\u00e3o sai com as lavagens,<br \/>\nmesmo que se lave sete vezes por dia.<br \/>\n\u201cvagina de bet\u00e3o\u201d, descreve-se, como ao resto da cidade.<br \/>\npor vezes fala de uma crian\u00e7a que lhe mora na garganta<br \/>\nnascida numa vila em Sichuan,<br \/>\ngarante que \u00e9 ela quem chora convulsivamente antes de dormir.<br \/>\nda janela do motel l\u00ea \u201cCrescimento Pac\u00edfico\u201d<br \/>\ne \u00e9 assim que se deixa estar,<br \/>\ncrescendo apenas<br \/>\nat\u00e9 desaparecer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>entro na biografia das ruas,<br \/>\ndesaperto o vocabul\u00e1rio,<br \/>\nfalo um mandarim rouco<br \/>\ncomo a forma do sino na torre.<br \/>\nGulou dan\u00e7a el\u00e9trica nos nervos dos forasteiros,<br \/>\nartistas nas veias da noite<br \/>\nolhos violentos no \u00eaxtase vagaroso<br \/>\ndas linhas de metro.<br \/>\num velho come uma chuanr<br \/>\nenquanto outro velho a cospe, aud\u00edvel<br \/>\ncuspo tamb\u00e9m o peso sinistro<br \/>\nda mulher que vende cigarros,<br \/>\nh\u00e1 uma claridade que se desaperta do seu rosto<br \/>\n\u00e9 um n\u00e9on sinogr\u00e1fico,<br \/>\nhutongs gravitam em torno das \u00e1rvores<br \/>\nque gravitam em torno da confus\u00e3o dos turistas.<br \/>\num Bentley bloqueia o estreito caminho<br \/>\nque vai dar \u00e0 casa onde o poeta se embebeda.<br \/>\nainda n\u00e3o \u00e9 meia noite, mas j\u00e1 h\u00e1 m\u00fasica<br \/>\nendireitamos a cobra que nos desce da respira\u00e7\u00e3o<br \/>\ne lembramos que ainda \u00e9 dia no pa\u00eds de onde viemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>fala mais alto acerca das estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia<br \/>\npara que a crian\u00e7a te possa ouvir.<br \/>\nfala da forma como os dedos de prata gen\u00e9ticos<br \/>\npodem ajud\u00e1-lo em dias confinados<br \/>\n\u00e0s ambi\u00e7\u00f5es das outras pessoas.<br \/>\nn\u00f3s somos t\u00e3o fortes quanto a repeti\u00e7\u00e3o<br \/>\ndos dias que aceitamos.<br \/>\ntu estavas a brincar com os teus amigos<br \/>\ne o pequeno Xu bloqueou-te passagem &#8211;<br \/>\nele achava que era uma cortina.<br \/>\nora, se ele fosse realmente uma cortina,<br \/>\nficavas assim t\u00e3o zangado?<br \/>\nanda para a mesa da cozinha<br \/>\nantes de nos come\u00e7armos a conhecer<br \/>\ne n\u00e3o tenhas inveja:<br \/>\nsomos muito menos estrangeiros do que<br \/>\no homem \u00e0 porta com as encomendas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sara F. Costa<\/em><\/strong><em> nasceu em 1987 na Vila de Cucuj\u00e3es. Licenciou-se em L\u00ednguas e Culturais Orientais pela Universidade do Minho e tirou o mestrado em Estudos Interculturais: Portugu\u00eas\/Chin\u00eas pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de L\u00ednguas Estrangeiras de Tianjin.\u00a0O seu \u00faltimo livro \u201cA Transfigura\u00e7\u00e3o da Fome\u201d obteve o Pr\u00e9mio Liter\u00e1rio Internacional Gl\u00f3ria de Sant\u2019Anna para melhor obra de poesia publicada em pa\u00edses de l\u00edngua portuguesa em 2018. Tem poemas traduzidos e publicados em publica\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias um pouco por todo o mundo.\u00a0Faz cr\u00edtica liter\u00e1ria e traduz poesia chinesa para portugu\u00eas.\u00a0Coordena eventos liter\u00e1rios no coletivo art\u00edstico internacional Spittoon.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mais recentes percep\u00e7\u00f5es da escrita de Sara F. 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