{"id":18123,"date":"2020-12-01T10:12:46","date_gmt":"2020-12-01T13:12:46","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18123"},"modified":"2021-01-12T16:17:29","modified_gmt":"2021-01-12T19:17:29","slug":"janela-poetica-v-73","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/janela-poetica-v-73\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do amor e seus abismos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Rafael M. Foga\u00e7a<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CAPA.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18127\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CAPA.jpg\" alt=\"\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CAPA.jpg 304w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/CAPA-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando um amor come\u00e7a, nunca pensamos que ele pode acabar. Tornamo-nos t\u00e3o envolvidos pelo charme, a beleza, a conversa, as promessas do alvo de nossos afetos que partilhamos com ela ou ele um tempo aparentemente situado fora da hist\u00f3ria, um tempo m\u00edtico em que experimentamos uma sensa\u00e7\u00e3o intensa de felicidade. \u00c9 durante essa suspens\u00e3o do tempo que acreditamos ter sido bafejados pela eternidade: o amor n\u00e3o acabar\u00e1 jamais. O universo m\u00edtico, por\u00e9m, \u00e9 habitado por deuses, her\u00f3is e outros seres extraordin\u00e1rios. Como a condi\u00e7\u00e3o humana nos torna seres enredados na hist\u00f3ria, tudo em nossa exist\u00eancia sujeita-se a um processo marcado por in\u00edcio, desenvolvimento e fim. Somos perec\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode-se dizer que <em>O amor \u00e9 um abismo furtivo<\/em>, novo livro de contos de Adriano de Paula Rabelo, \u00e9 composto justamente por hist\u00f3rias sobre a perecibilidade do amor ou hist\u00f3rias de desamor. Nas oito narrativas que o comp\u00f5em, o autor mostra como este sentimento t\u00e3o decantado e t\u00e3o aspirado por tantos de n\u00f3s se desgasta e se desfaz. S\u00e3o hist\u00f3rias \u00e0s vezes tristes, \u00e0s vezes carregadas de ironia e humor, escritas em linguagem clara e fluente, com par\u00e1grafos curtos e frases precisas, sem malabarismos ret\u00f3ricos a sobrecarreg\u00e1-las. A prop\u00f3sito, vale a pena prestar aten\u00e7\u00e3o nas diversas formas que os contos assumem. Alguns s\u00e3o compostos \u00e0 maneira tradicional, com apresenta\u00e7\u00e3o linear do entrecho num s\u00f3 bloco narrativo. Outros se apresentam na forma de um quebra-cabe\u00e7a de mensagens telef\u00f4nicas trocadas pelos membros de um casal, marca\u00e7\u00f5es das etapas do desenvolvimento de uma rela\u00e7\u00e3o ao longo dos meses que ela durou, mini-hist\u00f3rias de amor reunidas numa colet\u00e2nea representativa de variadas separa\u00e7\u00f5es, o fim de um amor apresentado pelo crivo dos dois ex-amantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se em <em>Desabra\u00e7ar<\/em>, seu primeiro livro de contos, Rabelo utilizou apenas o foco narrativo em primeira pessoa, com o protagonista relatando e avaliando eventos nos quais tomou parte, agora h\u00e1 uma mescla dos dois pontos de vista cl\u00e1ssicos, com algumas hist\u00f3rias sendo contadas em terceira pessoa. Isso acontece quando o narrador busca maior objetividade. Entretanto, esse narrador \u00e9 sempre modesto, nunca se mostrando onisciente a ponto de saber o que se passa na interioridade dos personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro fato not\u00e1vel \u00e9 que os textos do escritor se tornaram mais extensos, com mais detalhes e mais desdobramentos, apesar de seguirem buscando uma concentra\u00e7\u00e3o expressiva que valorize o essencial em termos do enredo, ritmo e linguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O brilhante conto que abre o volume, intitulado \u201cPenicilina\u201d, \u00e9 muito significativo das qualidades t\u00e9cnicas do autor, bem como da como\u00e7\u00e3o sutil provocada por seus textos. Com linguagem depurada de constru\u00e7\u00f5es frasais empoladas e de vocabul\u00e1rio exibicionista, Adriano Rabelo p\u00f5e em cena uma mulher de 34 anos e um homem de 33 que viveram juntos um marcante primeiro amor durante sua adolesc\u00eancia, numa cidade do interior. Possuidora de grande talento intelectual, ela prometia se realizar como profissional de sucesso na idade adulta. Ele, por sua vez, se possu\u00eda uma intelig\u00eancia mais limitada, tinha aptid\u00e3o para os esportes. Quando o rapaz deixa a cidade natal para frequentar uma universidade na capital, em pouco tempo eles encerram um relacionamento que lhes proporcionou as experi\u00eancias fundamentais \u2013 a primeira experi\u00eancia amorosa, as primeiras experi\u00eancias sexuais, planos entusiasmados para o futuro \u2013, ficando muitos anos sem se encontrar. Quando ele volta ao interior, por ocasi\u00e3o de um problema de sa\u00fade do pai, os ex-namorados se encontram casualmente. Acabam tendo uma frustrada noite de amor. Eles mesmos n\u00e3o s\u00e3o mais nem sombra dos adolescentes promissores que foram um dia. Em meados de sua terceira d\u00e9cada de vida, n\u00e3o realizaram nada do que suas capacidades prometiam. Frustrados, ele volta para a capital, a fim de retomar uma vida e um trabalho que n\u00e3o o satisfaziam, e ela permanece no interior, a cuidar sozinha da filha que teve num casamento fracassado. Dias depois, por\u00e9m, ambos come\u00e7am a sentir os sintomas de uma blenorragia. V\u00e3o ao m\u00e9dico, se tratam com a penicilina do t\u00edtulo, e cada um pensa que a doen\u00e7a lhe foi passada pelo outro, num prolongamento ainda mais melanc\u00f3lico do desfecho de sua hist\u00f3ria. Ao final, sa\u00edmos com a sensa\u00e7\u00e3o da mais absoluta fragilidade dos la\u00e7os afetivos que estabelecemos com outras pessoas, por mais que acreditemos na resist\u00eancia do amor aos efeitos do tempo e das transforma\u00e7\u00f5es na sensibilidade dos amantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o seu primeiro livro de contos, numa esp\u00e9cie de antirromantismo de forma e fundo, o autor vem primando pela cria\u00e7\u00e3o de personagens reais num mundo real, reduzidos a sua estatura humana. Trata-se de apresentar ao leitor uma fatia da vida humana nestes tempos inseguros em que vivemos. Em certo sentido, por sua fixa\u00e7\u00e3o em aspectos pungentes da vida real, Adriano de Paula Rabelo tem se mostrado um escritor de \u201cpouca\u201d imagina\u00e7\u00e3o. Se a for\u00e7a de sua literatura tem se sustentado justamente em personagens e situa\u00e7\u00f5es reconhec\u00edveis na realidade, recortados no que t\u00eam de mais significativo, eu gostaria de testemunhar sua imagina\u00e7\u00e3o expandindo-se a ponto de ponto de retratar seres e mundos para al\u00e9m destes que encontramos todos os dias em nossas casas e nas ruas da cidade. Esta \u00e9 talvez a \u00fanica restri\u00e7\u00e3o que se possa fazer aos rumos que o escritor vem dando a sua cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Lembremos que mesmo um Flaubert mesclava trabalhos mais colados \u00e0 realidade, como <em>Madame Bovary<\/em> e <em>A educa\u00e7\u00e3o sentimental<\/em>, com outros mais imaginativos, como <em>Salamb\u00f4<\/em> e <em>A tenta\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00e3o<\/em>, ampliando o espectro de sua criatividade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De todo modo, dentro do que Rabelo se prop\u00f4s fazer, este seu novo livro de contos realiza-se como uma evolu\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a <em>Desabra\u00e7ar<\/em>, publicado h\u00e1 dois anos, e parece anunciar, para breve, voos mais altos e mais ousados do autor, que j\u00e1 est\u00e1 maduro para a escrita de romances.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, vale uma observa\u00e7\u00e3o sobre essa nova literatura brasileira de autores mais jovens, lan\u00e7ados por editoras pequenas. Justamente por n\u00e3o produzirem para o mercado liter\u00e1rio, tais autores, que v\u00eam publicando alguns dos trabalhos mais interessantes da literatura brasileira contempor\u00e2nea, encaram as letras como uma manifesta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito, n\u00e3o como uma carreira. Da\u00ed a preciosa liberdade que possuem para experimentar com enredos, linguagens, temas em ebuli\u00e7\u00e3o no momento. As reuni\u00f5es de contos em torno de um tema espec\u00edfico, que t\u00eam sido marca das cria\u00e7\u00f5es de Adriano de Paula Rabelo, cont\u00eam essa liberdade, embora utilizada somente at\u00e9 onde ela contribui para a for\u00e7a de sua express\u00e3o. <em>O amor \u00e9 um abismo furtivo<\/em> mostra um escritor em plena evolu\u00e7\u00e3o para obras que em breve ter\u00e3o um p\u00fablico e um reconhecimento maior, em virtude de suas qualidades. Quem viver, ver\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Rafael M. Foga\u00e7a <\/em><\/strong><em>\u00e9 mestre em Estudos Liter\u00e1rios pela Unicamp. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael M. 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