{"id":18277,"date":"2021-01-10T14:03:44","date_gmt":"2021-01-10T17:03:44","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18277"},"modified":"2021-01-13T15:41:46","modified_gmt":"2021-01-13T18:41:46","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-74","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-74\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o passamos pelo mundo sem sermos tocados por algo que nos desafia. Vista assim, de modo apressado, talvez esta frase soe at\u00e9 mesmo um tanto fr\u00e1gil. Qui\u00e7\u00e1 seja melhor dizer que n\u00e3o estamos aqui pelo planeta de modo inteiramente descompromissado, soltos e embalados pelo vento. Somos marcados pelas paisagens humanas que se nos afiguram cotidianamente, impelindo-nos a repensar nosso papel diante do Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida enquanto uma comunh\u00e3o de anseios: eis um prop\u00f3sito poss\u00edvel. E n\u00e3o precisamos concordar em tudo para que convivamos melhor uns com os outros, pois mentes e cora\u00e7\u00f5es s\u00e3o capazes de nos dar sua contribui\u00e7\u00e3o em meio ao engenho da diversidade de pensamento. Estamos aqui a falar do entendimento necess\u00e1rio sobre as nossas diferen\u00e7as at\u00e9 o ponto em que isso possa representar um caminho vi\u00e1vel para uma, digamos assim, lucidez social, esta que tamb\u00e9m nos fa\u00e7a agir de modo mais harmonioso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se utopia ou n\u00e3o, o fato \u00e9 que um mundo melhor passa por transforma\u00e7\u00f5es que primeiro partem dos indiv\u00edduos, engendradas que est\u00e3o nas por\u00e7\u00f5es internas de cada pessoa. Diante do desassossego que insiste em nos rondar hoje, a palavra resist\u00eancia nos \u00e9 por demais preciosa, sobretudo quando ela se inclina a combater os atropelos e insanidades que tanto ferem a nossa dignidade. E \u00e9 um verdadeiro alento perceber vozes que se insurgem contra os desvarios do presente. Gente como a poeta goiana <strong>Dheyne de Souza<\/strong> nos faz acreditar que resistir n\u00e3o \u00e9 mero artif\u00edcio ret\u00f3rico, mas uma causa que se respira cotidianamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas m\u00e3os de Dheyne, a literatura \u00e9 instrumento, palavra afiada que atravessa e sensibiliza, motor de estados da alma, indigna\u00e7\u00e3o, clamor, escuta, encantamento, espanto e estranhamento. Ler seus versos implica num exerc\u00edcio de mergulhos intimistas que reverberam not\u00edcias de um mundo que tamb\u00e9m \u00e9 nosso, esse mesmo que exige incansavelmente nossa cota e sangue. Desde \u201cPequenos mundos ca\u00f3ticos\u201d (PUC\/Kelps, 2011), seu primeiro livro, a autora j\u00e1 nos apresenta sua verve existencial a fluir entre as dimens\u00f5es internas e externas da pulsa\u00e7\u00e3o da vida. Mais recentemente, ela nos brinda com o seu \u201cL\u00e2minas\u201d (Martelo, 2020), obra que movimenta rec\u00f4nditos l\u00edricos com o olhar delicado e incisivo sobre a nossa t\u00e3o conturbada contemporaneidade. Ent\u00e3o, coube \u00e0 poeta, em seu \u00faltimo rebento, lembrar que estamos vivos e que h\u00e1, sim, ant\u00eddotos contra a crueldade e o esquecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista que agora segue, Dheyne de Souza \u00e9 pot\u00eancia, pensamento e ato, principalmente quando divide conosco suas reflex\u00f5es sobre o agora que tanto nos tem trazido desarranjos de toda ordem. \u00c9 a poeta que nos fala sobre sua trajet\u00f3ria com as palavras, capaz de nos brindar com dois poemas in\u00e9ditos em meio ao desenrolar de um di\u00e1logo que tenta sondar um pouco do que somos e daquilo que nos tornamos at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18283\" aria-describedby=\"caption-attachment-18283\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Dheyne.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18283 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Dheyne.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Dheyne.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Dheyne-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Dheyne-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18283\" class=\"wp-caption-text\">Dheyne de Souza \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 imposs\u00edvel percorrer &#8220;L\u00e2minas&#8221; e n\u00e3o notar ali verdadeiros atravessamentos da alma humana. H\u00e1 o labirinto de paix\u00f5es que se cruzam, a sondagem dos desejos e mist\u00e9rios e a conta de um presente insano. O que dizer dessa mescla de sensa\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da palavra?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Primeiramente, Fabr\u00edcio, quero agradecer pela presen\u00e7a constante nessa travessia de poesia, pela escuta e tamb\u00e9m por acolher &#8220;l\u00e2minas&#8221; e ter essa gentileza de olhar esses versos meio cortes. Bem, tentarei responder como posso, e n\u00e3o estamos conseguindo poder muito, n\u00e3o \u00e9? Eu tenho achado isso. Ent\u00e3o, por favor, releve os hiatos os par\u00eanteses\u00a0as indetermina\u00e7\u00f5es. Talvez eu dance pelas perguntas de um modo um pouco errante, talvez disperso, talvez reticente. Ando (andamos?) assim.\u00a0O que dizer dessa mescla de sensa\u00e7\u00f5es a servi\u00e7o da palavra? Nem sei o que dizer, na verdade. Acho que &#8220;l\u00e2minas&#8221; foi se construindo assim, entre a tentativa de dizer e essa parede de empecilhos (o que dizer desses \u00faltimos anos no pa\u00eds, no mundo?). S\u00e3o poemas gestados por mais ou menos uma d\u00e9cada, em que as sensa\u00e7\u00f5es (arrisco dizer, sem estar certa se \u00e9, aviso) foram se encontrando, cada vez mais, com a insanidade do presente. O livro foi publicado neste fat\u00eddico 2020. Tenho dito (ou justificado) que n\u00e3o consigo responder a este ano com reflex\u00f5es te\u00f3ricas ou cr\u00edticas satisfatoriamente objetivas ou sei l\u00e1. S\u00f3 tenho tido (n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 preciso) respostas est\u00e9ticas, que v\u00eam, como sabe, no terreno das d\u00favidas. Acho que &#8220;l\u00e2minas&#8221; (e nisso preciso dizer de mim, n\u00e3o de todos, mas o que eu gostaria mesmo \u00e9 de saber como \u00e9 para os outros) atravessa em mim um campo enorme de d\u00favidas, especialmente, agora, sociais. E a linguagem tem algo a nos dizer da cicatriz que fica nela, acho. O que dizer dessa mescla de palavras a servi\u00e7o das sensa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9? Por que atalho porventura batalha deixamos nossas almas? Deixamos? Sinto que estou mais propensa a perguntar que\u00a0responder. N\u00e3o sei. A poesia diz?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Diante das ang\u00fastias e incertezas que experimentamos, poderia a poesia nos ajudar a suportar a realidade?\u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Eu acho a poesia uma possibilidade. Gosto de pensar n\u00e3o como um apoio para suportar a realidade, mas como uma indigna\u00e7\u00e3o que confronte, questione, critique esse &#8220;real&#8221;. O que sabemos do que \u00e9 real? N\u00e3o sei. Acho que a poesia nos fortalece as d\u00favidas.\u00a0E gosto de pensar na poesia em um sentido amplo, para al\u00e9m das fronteiras de g\u00eaneros liter\u00e1rios, acad\u00eamicos, enfim. Gosto de pensar a poesia como esse sol corajoso que se p\u00f5e, o vento que deita as folhas do mato, que movimenta alguma emo\u00e7\u00e3o, que nos lembra alguma coisa de n\u00f3s que est\u00e1 no sem nome, ou o sol o vento o mato a emo\u00e7\u00e3o que porventura cai numa linha. Para lembrar que \u00e9 de todos (acho que nunca achei tanto como agora que somos esse todos, que n\u00f3s = um\u00a0&amp; outro). Gosto de pensar que a poesia, esse algum estado do que flui em n\u00f3s, toca-nos e ao outro, se permitimos, se oferecemos, se aceitamos, se lutamos, s\u00e3o muitos \u201cses\u201d. Sinestesias. Saraus. Sons. Acredito (ou procuro acreditar) que, com alguma consci\u00eancia de uma incerta &#8220;onipresen\u00e7a&#8221; dela, entramos mais fundo nas ang\u00fastias e incertezas que experimentamos. Enfrentar o medo disso. Da\u00ed, de dentro de n\u00f3s, in\u00fameras outras possibilidades. Conhecimento. Partilha. Resist\u00eancia. Lembran\u00e7a de alguma coisa que n\u00e3o sei exprimir. Talvez a lembran\u00e7a de que somos queremos ser seremos humanos. O que \u00e9 o humano? Quero acreditar que sim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;L\u00e2minas&#8221; toca em temas sociais que nos s\u00e3o muito caros. Marielle Franco est\u00e1 ali presente e, s\u00f3 em pronunciarmos seu nome, toda uma simbologia de resist\u00eancia emerge. Ali tamb\u00e9m est\u00e1 Evaldo dos Santos Rosa, homem negro que morreu ao ser alvejado com 80 tiros disparados por militares contra o carro em que tamb\u00e9m estava sua fam\u00edlia. Falar sobre tais chagas abertas \u00e9 tamb\u00e9m um clamor contra o esquecimento?\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Acredito que seja principalmente um grito contra o esquecimento. Especialmente no momento atual, com um governo que \u00e9 uma vergonha para qualquer tipo que imagino de humanidade, s\u00e3o ainda mais essenciais, na minha opini\u00e3o, gritos contra viol\u00eancias, racismos, machismos, desigualdades, entre outras pautas important\u00edssimas. Marielle est\u00e1 presente e, de fato, \u00e9 s\u00edmbolo de resist\u00eancia. S\u00e3o in\u00fameros nomes que merecemos lembrar e registrar na hist\u00f3ria. Crian\u00e7as foram assassinadas pelas m\u00e3os de policiais, elites, preconceitos.\u00a0Estamos morrendo a cada dia por qu\u00ea? Fabr\u00edcio, acredito que j\u00e1 est\u00e1 passando da hora de mudarmos v\u00e1rias coisas nesta sociedade cujo templo \u00e9 o capital, de adora\u00e7\u00e3o patriarcal.\u00a0Mudan\u00e7as dr\u00e1sticas, enormes, pode at\u00e9 ser que ut\u00f3picas.\u00a0Mas \u00e9 esse o tipo de sangue que anda correndo em minhas veias e que sinto escapar de &#8220;l\u00e2minas&#8221;. \u00c0s vezes me debru\u00e7o na janela e penso tanto. Eu sei que s\u00e3o poucos os que t\u00eam for\u00e7a e, especialmente, esperan\u00e7a de mudan\u00e7as t\u00e3o enormes. Mas eu acho que \u00e9 o que pode nos movimentar. N\u00e3o quero achar poss\u00edvel que Marielle morra todos os dias pela falta de impunidade e pela tentativa de apagamento dessa mem\u00f3ria. N\u00e3o. N\u00e3o quero imaginar que 80 tiros sejam apenas um s\u00edmbolo debaixo do tapete, porque na verdade foram muitos mais. N\u00e3o. Nem que o golpe vista outro nome, ou a ditadura militar, ou o genoc\u00eddio e etnoc\u00eddio de ind\u00edgenas, negros, mulheres, LGBTQI+s. E, enquanto n\u00e3o quero pensar nisso, escrevo. Escrevo porque acredito que as literaturas podem lembrar \u00e0 hist\u00f3ria&#8230;\u00a0sabe? E porque escrevo como resist\u00eancia, como luta e com a seguinte utopia alimentando atualmente meu peito (segura esta):\u00a0vem a\u00ed a era feminista. Avante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>(em desespero o eu l\u00edrico pede SOCORRO)<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>clarice, foram mais de 80<br \/>\ncarlos, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 rio doce<br \/>\nmanoel, o quintal est\u00e1 vedado<br \/>\nmanuel, me recuso a pas\u00e1rgada<br \/>\npaulo, o opressor est\u00e1 no cio<\/p>\n<p>diadorim, conta a sua vers\u00e3o<br \/>\nmacabeia, sem rem\u00e9dio a ang\u00fastia<br \/>\ncapitu, at\u00e9 hoje o bentinho<br \/>\niracema, anagrama de queimas<\/p>\n<p>marielle, quem mandou lhe calar<br \/>\nmariguella, onde est\u00e3o vossos filhos<br \/>\n\u00e1gatha, quantas balas da escolta<\/p>\n<p>mari, o culpado \u00c9 o estuprador<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(poema in\u00e9dito)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Como voc\u00ea vislumbra uma vindoura era feminista?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>N\u00e3o sei se exatamente vislumbro. Acho que mais intuo ou percebo (e nisso posso at\u00e9 estar equivocada, mas estou aqui dando apenas opini\u00f5es&#8230; ent\u00e3o vamos l\u00e1). \u00c9 o que estou observando e pensando. Eu conhe\u00e7o tantas mulheres incr\u00edveis, que t\u00eam trabalhado incansavelmente, seja na literatura, nas artes, na educa\u00e7\u00e3o, na economia, no jornalismo, no lar, enfim, em qualquer trabalho, eu tenho visto tantas mulheres enormes, fortes, cheias de coragem. Est\u00e3o por a\u00ed, em toda parte, suando. Cozinham, cuidam da casa, trabalham fora, criam filhos, sonham, escrevem, d\u00e3o aulas, fazem lives, participam de saraus, falam, gritam, dizem n\u00e3o. \u00c9 um movimento grandioso, \u00e9 o que sinto. \u00c9 muito trabalho. Porque toda essa indigna\u00e7\u00e3o est\u00e1 na garganta h\u00e1 s\u00e9culos. Voc\u00ea j\u00e1 imaginou? Sobrevivemos ao fogo. Estamos falando, fazendo, lutando. O que quero dizer \u00e9 que acho que, se olhamos bem, em todas as partes, estamos. Sabe?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Isso que voc\u00ea acabou de mencionar \u00e9 algo muito vivo e poderoso. Parece que temos avan\u00e7ado um pouco no processo de redu\u00e7\u00e3o de invisibilidades no que se refere a pensar o ativismo de muita gente. E notamos que n\u00e3o basta o empenho apenas daqueles que sempre sofreram os apagamentos, mas tamb\u00e9m \u00e9 fundamental a ades\u00e3o de tantos outros grupos sociais, inclusive os que sempre detiveram privil\u00e9gios. Reconhecer-se parte do problema e ser vigilante quanto isso \u00e9 um come\u00e7o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Eu acredito que sim, \u00e9 um grande passo reconhecer-se parte do problema e tamb\u00e9m da hist\u00f3ria e tamb\u00e9m das r\u00e9deas, n\u00e3o \u00e9? A gente sabe que \u00e9 muito dif\u00edcil avaliar o momento presente com uma lente justa. E eu tenho sentido que o momento presente tem pedido extrema e intensa aten\u00e7\u00e3o. Tenho sentido a escrita como um campo talvez n\u00e3o de batalha (embora a luta seja necess\u00e1ria), mas de movimenta\u00e7\u00e3o, de questionamentos, de d\u00favidas, sabe? N\u00e3o sei se sei explicar. Acho que esse volume crescente (tenho tamb\u00e9m essa impress\u00e3o) de atitudes que questionam nossas bases cheias de preconceitos, traumas sociais e desuni\u00f5es, enfim, carrega uma for\u00e7a de uma luta absolutamente justa e necess\u00e1ria. Vamos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18284\" aria-describedby=\"caption-attachment-18284\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne_foto-de-helo-sanvoy-interna-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18284 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne_foto-de-helo-sanvoy-interna-II.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"332\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne_foto-de-helo-sanvoy-interna-II.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne_foto-de-helo-sanvoy-interna-II-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18284\" class=\"wp-caption-text\">Dheyne de Souza \/ Foto: Hel\u00f4 Sanvoy<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Voc\u00ea tem raz\u00e3o quando diz que essa luta \u00e9 deveras necess\u00e1ria. Na Literatura, por exemplo, h\u00e1 v\u00e1rias frentes em a\u00e7\u00e3o advogando por vozes de mulheres, negros, pela comunidade LGBTQI+, dentre outros. Como voc\u00ea observa essas pautas identit\u00e1rias transitando pelas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Com bastante entusiasmo, especialmente porque, nas nossas manifesta\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias, est\u00e3o gritando as vozes de mulheres, negros, comunidades LGBTQI+, ind\u00edgenas, entre outros grupos minorizados socialmente. Acho esses gritos, Fabr\u00edcio, important\u00edssimos. Ouvi-los me d\u00e1 uma for\u00e7a enorme. Tenho lido autores contempor\u00e2neos (dessa contemporaneidade que est\u00e1 a\u00ed na porta, ali\u00e1s ouvindo pancadas fortes), digo dos \u00faltimos dois, tr\u00eas anos, por exemplo. Eu fico extremamente emocionada com esse presente explodindo em v\u00e1rias formas (e vozes). Tenho receio de citar nomes e cair no fat\u00eddico equ\u00edvoco do esquecimento (com o qual, feliz ou infelizmente, j\u00e1 estou me habituando), mas gostaria de citar alguns nomes n\u00e3o porque tenho condi\u00e7\u00f5es para tal (quem \u00e9 que tem condi\u00e7\u00f5es para tal em um pa\u00eds desse tamanho com os nossos n\u00edveis de desigualdades, me pergunto, mas vamos l\u00e1), mas porque est\u00e3o ecoando forte com nossa conversa. Neste 2020, emocionei-me transbordantemente com a leitura de &#8220;N&#8217;or\u00e9 \u00ceuka\u00ee X\u00fb\u00e9ne!&#8221; (editora Patu\u00e1, 2020), da goiana Suene Honorato. Do tupi antigo, o t\u00edtulo do livro faz um convite de reflex\u00e3o e tamb\u00e9m de revis\u00e3o da nossa hist\u00f3ria (e da potencialidade de nossa garganta): &#8220;N\u00e3o nos matar\u00e3o!&#8221;. Tamb\u00e9m morri um pouco com a leitura de &#8220;A mulher que nasceu sem metaf\u00edsica&#8221; (livro no prelo), da tamb\u00e9m goiana Tarsilla Couto de Brito. Esse t\u00edtulo pede muita reflex\u00e3o. Tem &#8220;Bruxisma&#8221; (Urutau, 2019),\u00a0dessa personalidade humana que \u00e9 a Pilar Bu. Exemplo de for\u00e7a pra mim e desse som alto que digo que nos espreita, assim como ouvi ranhuras altas quando li &#8220;Modus operandi&#8221; (R&amp;F, 2017), da Thaise Monteiro, mulher-escrita que \u00e9 corpo-arte. &#8220;Cobra criada&#8221; (martelo, 2019), do Mazinho Souza, foi outro livro que me despeda\u00e7ou o sangue negro que me corre a condi\u00e7\u00e3o de estar e ser. &#8220;Uma casa se amarra pelo teto&#8221; (Macondo, 2019), da Viviane Nogueira, \u00e9 algo que ainda estou desamarrando em mim. Enfim, h\u00e1 muitos nomes, muitos livros que me arrebentaram (e eu digo isso em tom de entusiasmo mesmo, porque acho realmente incr\u00edvel). Fernanda Marra, com &#8220;taipografia&#8221;\u00a0(martelo, 2019); Camila Assad, com &#8220;desterro&#8221; (Macondo, 2019); Wesley Peres, com &#8220;o corpo de uma voz despeda\u00e7ada&#8221; (martelo, 2019); Wilson Alves-Bezerra, com &#8220;Malangue malanga&#8221;\u00a0(Multinacional Cartonera, 2019); Lubi Prates, com &#8220;Um corpo negro&#8221; (nosotros, 2019); Arthur Moura Campos, com &#8220;5into&#8221; (Selo Doburro, 2019); Tarso de Melo, com &#8220;Rastros&#8221; (martelo, 2020); Natasha Felix, Ana Beatriz Domingues, Bruna Mitrano, h\u00e1 muitas, muitas vozes em todos os cantos. Precisamos ouvi-las e partilh\u00e1-las mais e cada vez mais, na minha opini\u00e3o. Enfim, s\u00e3o leituras mais recentes que dizem tanto do nosso presente que.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Junto com Hel\u00f4 Sanvoy voc\u00ea mant\u00e9m no You Tube um canal de leituras de textos liter\u00e1rios variados, o Pequenos Mundos. Como foi a concep\u00e7\u00e3o desse projeto e como tem sido a experi\u00eancia, seus desdobramentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Sim, o Pequenos Mundos. Foi uma ideia que surgiu processualmente, como se fosse um rastro (na virtualidade do nosso tempo) para leituras variadas mesmo. Um lugar para deixar l\u00e1 essa coisa que tenho achado t\u00e3o importante, cada vez mais, que \u00e9 a leitura &#8220;em voz alta&#8221;, como se diz. Eu sempre gostei muito de ler &#8220;em voz alta&#8221;, desde pequena (na verdade, fazia leituras em murm\u00fario, para n\u00e3o chamar muita aten\u00e7\u00e3o, que o neg\u00f3cio comigo foi meio que assim muito reservado, digamos assim). Fa\u00e7o isso muito com meu pr\u00f3prio trabalho, avaliando o impacto do ritmo no tema (e vice-versa), procurando achar a rachadura na l\u00edngua que faz a palavra sair. Quem deu a ideia do registro em um canal foi o Hel\u00f4 Sanvoy, que \u00e9 meu companheiro de vida e de arte (poss\u00edvel separar?). \u00c9 um trabalho que tem in\u00fameras lacunas, inclusive temporais. \u00c0s vezes, ficamos muito tempo sem &#8220;atualizar&#8221; o canal, por for\u00e7as maiores, como viver cotidianamente e suportar o pol\u00edtico que h\u00e1 nisso. Com a pandemia, senti uma necessidade muito grande de ler as vozes contempor\u00e2neas, de que falamos h\u00e1 pouco. Com essa vontade, retornou certa frequ\u00eancia de grava\u00e7\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m teve papel importante a publica\u00e7\u00e3o do &#8220;l\u00e2minas&#8221;. Quis divulgar alguns poemas em v\u00eddeos (tamb\u00e9m alcan\u00e7ando a \u00edndole instagr\u00e2mica da nossa \u00e9poca). Ler e publicar as leituras tamb\u00e9m foi uma esp\u00e9cie de compartilhamento de poesia, logo, quem sabe, de resist\u00eancia, de f\u00f4lego, de indigna\u00e7\u00e3o, de uma vontade de alcan\u00e7ar o outro de algum modo. Eu tamb\u00e9m fa\u00e7o parte de um grupo goiano de vocaliza\u00e7\u00e3o de poesia chamado Corpo de Voz, dirigido por Jamesson Buarque e Maria Ritha. Tem um corpo extremamente variado e potente de vozes, uma coisa linda de se ver e ouvir. O Corpo de Voz tamb\u00e9m tem um <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/channel\/UCj3J23UhC-6SGuPNNlrdxsQ\"><strong>canal<\/strong><\/a>, em que h\u00e1 leituras tanto dos membros quanto de convidados espalhados Brasil e mundo afora, al\u00e9m de aulas e depoimentos sobre vocaliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 um trabalho muito importante e bonito, na minha opini\u00e3o, que vem desse cora\u00e7\u00e3o gentil e generoso que \u00e9 Goi\u00e1s pra mim. Tenho notado muitas manifesta\u00e7\u00f5es assim, em que ler ou performar um texto convida a reflex\u00f5es cr\u00edticas e atitudes propositivas. Saraus, slams, batalhas de rap. Estamos vivendo uma \u00e9poca (e isso tem muita rela\u00e7\u00e3o com o que falamos antes dessa reverbera\u00e7\u00e3o de vozes representativas de in\u00fameras lutas) repleta de possibilidades, que n\u00e3o escondem nem minimizam as mazelas, mas arriscaria dizer que partem delas (tamb\u00e9m) para explodir. N\u00e3o quero soar ut\u00f3pica nem otimista diante das gravidades sociais, pol\u00edticas e atualmente sanit\u00e1rias, mas quero manifestar que tenho olhado para as experi\u00eancias e experimenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas procurando pensar no que pode estar acontecendo com o compasso da hist\u00f3ria no nosso tempo. E tamb\u00e9m (talvez mais ainda) procurar formas de resistir e participar (para mim, escrever \u00e9 uma forma de resist\u00eancia, por mais que j\u00e1 se considere isso uma opini\u00e3o d\u00e9mod\u00e9). Sei l\u00e1. Quero pensar o presente junto. E dizer disso algo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Goi\u00e1s te deu r\u00e9gua e compasso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Adorei a pergunta, principalmente porque pressup\u00f5e cortes arriscados (risos). Vou escolher uma via de resposta que pode fugir um pouco da refer\u00eancia, mas a imagem evoca medidas que me instigam a comentar. Goi\u00e1s talvez tenha me gestado na desmedida do vento, do mato, do sil\u00eancio, da imagina\u00e7\u00e3o. E quando digo que sou goiana a pretens\u00e3o \u00e9 bem el\u00e1stica mesmo, inclusive em termos geogr\u00e1ficos. Nasci em uma cidade situada no mapa, hoje, no estado de Tocantins. Mas em 1983 ainda era Goi\u00e1s e continuou sendo enquanto eu ainda estava l\u00e1. Com dois anos: de l\u00e1 para o interior goiano, onde cresci conversando (estranhamente, para alguns) com as vacas antes mesmo de desconfiar que existiam medidas filos\u00f3ficas nisso. Agora mesmo enquanto escrevo, lembro a sensa\u00e7\u00e3o nas costas da grama da tarde quando deitava para adivinhar figuras nas nuvens. S\u00f3 muito depois, vieram as nuvens de Baudelaire (digo do texto &#8220;O estrangeiro&#8221;). Diria que Goi\u00e1s me deu sinestesias nos descompassos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O quanto Dheyne de Souza conhece Dheyne de Souza?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Nossa, essa \u00e9 uma pergunta bem dif\u00edcil. Inevit\u00e1vel: o quanto n\u00f3s conhecemos de n\u00f3s? N\u00e3o sei. Eu olho para a pergunta e me pergunto se voc\u00ea (tamb\u00e9m) v\u00ea duas pessoas ou se v\u00ea apenas uma. Logo em seguida, penso que enumerar seria sempre impreciso. Mas, no geral, fugindo desavergonhadamente da pergunta, diria que pouco. Sendo um pouco mais aventureira, talvez, confesso que brinco de algumas camadas nessas identidades relacionadas ao nome, \u00e0 linguagem. Confesso tamb\u00e9m que, no meu processo de escrita, \u00e0s vezes acho que a personagem me conhece melhor do que eu a ela (estou com essa impress\u00e3o atualmente, na escrita do meu romance, o que d\u00e1 certa\u00a0medida de ang\u00fastia com a personagem). Eu considero um pouco dif\u00edcil explicar essas situa\u00e7\u00f5es de uma forma l\u00f3gica ou sint\u00e9tica. Ou talvez seja um mist\u00e9rio. E se for mesmo, parece que, de qualquer modo, a gente se conhece pouco ainda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18285\" aria-describedby=\"caption-attachment-18285\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne-itu_foto-de-helo-sanvoy-interna-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18285 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne-itu_foto-de-helo-sanvoy-interna-III.jpg\" alt=\"Dheyne de Souza \/ Foto: Hel\u00f4 Sanvoy\" width=\"450\" height=\"449\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne-itu_foto-de-helo-sanvoy-interna-III.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne-itu_foto-de-helo-sanvoy-interna-III-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/dheyne-itu_foto-de-helo-sanvoy-interna-III-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18285\" class=\"wp-caption-text\">Dheyne de Souza \/ Foto: Hel\u00f4 Sanvoy<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sabendo que as \u00e1guas do imenso e caudaloso rio da vida se movimentam constantemente, coloco novamente a pergunta que te fiz por ocasi\u00e3o da nossa \u00faltima entrevista, em 2012. Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DHEYNE DE SOUZA &#8211; <\/strong>Antes de responder (ou de me esquivar de, rs), gostaria de deixar registrado o quanto fiquei feliz com a edi\u00e7\u00e3o de &#8220;l\u00e2minas&#8221;. Agrade\u00e7o muito ao meu companheiro, Hel\u00f4 Sanvoy, por ter feito uma obra especialmente para a capa do livro e com tanto di\u00e1logo com os cortes e alinhavos. Tamb\u00e9m fiquei emocionada com o trabalho cuidadoso e com grande medida de olhar po\u00e9tico de toda a equipe da martelo casa editorial. Agrade\u00e7o a todes e particularmente ao meu editor, Miguel Jub\u00e9, pelo carinho e respeito com o objeto e subjetivo livro. O trabalho da Martelo, como o de tantas outras pequenas e m\u00e9dias editoras hoje no pa\u00eds, e a presen\u00e7a numerosa de revistas virtuais, como a Diversos Afins, t\u00eam sido, na minha opini\u00e3o, sinais de resist\u00eancia fincados neste nosso presente t\u00e3o, para dizer o m\u00ednimo, dif\u00edcil. Ter &#8220;l\u00e2minas&#8221; registrado neste 2020 significa muito para mim e me embala uma for\u00e7a para seguir trabalhando, com tantos exemplos de coragem aos redores. Sigamos! &#8220;N&#8217;or\u00e9 \u00ceuka\u00ee X\u00fb\u00e9ne!&#8221; Bem, sempre acho essa quest\u00e3o dif\u00edcil de responder. Costumo dizer que \u00e9 mais importante que comer, para mim. Mas \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o at\u00e9 isso, avaliando bem. E se a gente cavucar\u00a0um pouco, chega em subterr\u00e2neos ainda hoje muito \u00edngremes. Ent\u00e3o, se me permite a &#8220;leveza&#8221; do aparente fim:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>esquife<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>de tudo isto, o que levar<br \/>\no queixo alto, as p\u00e1ginas viradas<br \/>\na lembran\u00e7a amarelada do que latejou<br \/>\nalgum sinal que sobrou no cenho, no colo, na velocidade do sil\u00eancio<\/p>\n<p>quem sabe nada<br \/>\nnem serenos<br \/>\nh\u00e3o de ocupar todas as horas<br \/>\nvezes algum lampejo de mem\u00f3ria<br \/>\ncomo um livro em que nunca se banha duas vezes<\/p>\n<p>de tudo isto<br \/>\nquem sabe tudo<br \/>\nn\u00e3o passou de pesadelo<br \/>\ne antes de terminarem as \u00faltimas linhas<br \/>\nj\u00e1 foram lavadas<br \/>\nlevadas as m\u00e3os<br \/>\ne de dor nunca se soube<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(poema in\u00e9dito)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre palavras, olhares e mergulhos, Fabr\u00edcio Brand\u00e3o entrevista a poeta Dheyne de Souza <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18281,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3924,16,2539],"tags":[781,3925,63,137,8,17,149,65],"class_list":["post-18277","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-141a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-dheyne-de-souza","tag-dialogo","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-poesia","tag-prosa","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18277","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18277"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18277\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18407,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18277\/revisions\/18407"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18277"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18277"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18277"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}