{"id":18288,"date":"2021-01-11T09:11:50","date_gmt":"2021-01-11T12:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18288"},"modified":"2021-01-12T16:13:07","modified_gmt":"2021-01-12T19:13:07","slug":"dedos-de-prosa-i-77","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-77\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Cinthia Kriemler<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18290\" aria-describedby=\"caption-attachment-18290\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMG_1182.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18290 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMG_1182.jpeg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMG_1182.jpeg 400w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/IMG_1182-240x300.jpeg 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18290\" class=\"wp-caption-text\">Desenho: Geometria da palavra<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O S\u00caMEN DO RINOCERONTE BRANCO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Mar\u00e7o de 2018. Qu\u00eania.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eutan\u00e1sia. O \u00faltimo rinoceronte branco do norte est\u00e1 morto. Sudan, 45 anos, se torna parte das esp\u00e9cies e subesp\u00e9cies dizimadas pelo \u00fanico predador que mata por ignor\u00e2ncia, por lucro. E sempre por prazer. Um macho de sorte \u2014 mesmo que sorte seja uma palavra estranha de significado. N\u00e3o foi abatido como ca\u00e7a. Sobreviveu. Capturado aos 10 meses de idade, foi enviado para um zool\u00f3gico. Por 36 anos agradou humanos. Morre, agora, num santu\u00e1rio. E santu\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 uma palavra de significado incomum. Um cativeiro cercado por boas inten\u00e7\u00f5es. Uma fra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria que deveria ter sido. De um jeito ou de outro, Sudan foi uma vida desvirtuada. Deturpada em seu roteiro original. Fecha os olhos cercado pelos soldados que o protegem, pelos cuidadores e pelos pesquisadores que o observam h\u00e1 quase uma d\u00e9cada. E quando o seu corpo de dois mil e trezentos quilos \u2014 tomado por uma infec\u00e7\u00e3o generalizada \u2014 segue para o descanso da morte, ainda ostenta, intocado, o cobi\u00e7ado chifre que fez dele um alvo por toda a sua vida. Sudan \u00e9 o \u00faltimo macho dos rinocerontes brancos do norte. Mas o seu s\u00eamen congelado ainda \u00e9 esperan\u00e7a de rebentos. Multiplicados, alimentar\u00e3o a lenta e dif\u00edcil tentativa de reverter a extin\u00e7\u00e3o da subesp\u00e9cie. Se os ca\u00e7adores n\u00e3o se reproduzirem como pragas, se a cobi\u00e7a n\u00e3o caminhar mais r\u00e1pido do que a ci\u00eancia, se todos os obst\u00e1culos forem superados, talvez seja poss\u00edvel repovoar a savana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 l\u00e1grimas pelos rinocerontes brancos do norte. S\u00e3o apenas bichos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Abril de 2014. Chibok, Nig\u00e9ria.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negras. Virgens. Crian\u00e7as. 276 meninas sequestradas de uma escola em Chibok por fundamentalistas isl\u00e2micos do Boko Haram. Em nome do fanatismo, da domina\u00e7\u00e3o e do \u00f3dio, essa trindade depravada. Afastadas de suas fam\u00edlias, impedidas de suas cren\u00e7as, privadas de qualquer dignidade. Pasto fresco para as bestas que justificam atrocidades em nome de um deus falsificado, omisso, c\u00famplice. Ca\u00e7as impotentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">47 fugas. 117 liberta\u00e7\u00f5es em trocas \u00e1rduas com o governo. Mas 112 meninas de Chibok nunca mais s\u00e3o vistas. Para elas, n\u00e3o h\u00e1 a prote\u00e7\u00e3o do santu\u00e1rio. S\u00f3 o cativeiro. E as curras que n\u00e3o cessam. E a pari\u00e7\u00e3o de beb\u00eas indesejados que crescem ao lado de seus reprodutores selvagens, influenciados pela bestialidade de cren\u00e7as pervertidas. 112 meninas-matrizes, como as cadelas acorrentadas que cruzam e cruzam sem descanso at\u00e9 a morte por infec\u00e7\u00e3o, por inani\u00e7\u00e3o ou por maus-tratos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ser\u00e3o resgatadas. N\u00e3o t\u00eam nome ou foto nos jornais. S\u00e3o apenas meninas negras da \u00c1frica. Descarte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Fevereiro de 2018. Dapchi, Nig\u00e9ria.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o bastaram. O sequestro das 276 meninas de Chibok. Os casamentos for\u00e7ados. A destrui\u00e7\u00e3o das identidades. O aniquilamento dos alicerces psicol\u00f3gicos, religiosos e morais. As crian\u00e7as geradas por espermas sem nome. Mais 110 s\u00e3o raptadas em Dapchi. Meninas. Em plena luz do dia. Porque a luz do dia parece ter se tornado uma sentinela in\u00fatil e impotente. Em igualdade perversa, as meninas nigerianas de Dapchi s\u00e3o como as meninas de Chibok. E como os rinocerontes brancos do Qu\u00eania. Indefesas. Ca\u00e7adas. Afastadas de suas hist\u00f3rias originais. Exiladas. Cativas. Desenraizadas. V\u00edtimas da mesma gan\u00e2ncia. Neles, o que se cobi\u00e7a s\u00e3o os chifres. Nelas, os \u00fateros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo, tudo permanece sil\u00eancio. S\u00e3o apenas estat\u00edsticas ruins do Terceiro Mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>2 de setembro de 2015. Costa da Turquia.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aylan Kurdi n\u00e3o vence o mar. Como poderia? <em>[&#8230; <\/em><em>as \u00e1guas s\u00e3o rotas de bra\u00e7os frios \/ que adormecem beb\u00eas \/ meninas, beb\u00eas meninos \/ para entreg\u00e1-los, purificados \/ a um Criador envergonhado]. <\/em>Aylan Kurdi \u00e9 s\u00f3 um menino de tr\u00eas anos. S\u00edrio. Como a maioria dos refugiados que fogem das guerras pelo poder. Aylan Kurdi \u00e9 mais uma crian\u00e7a afogada numa praia da Turquia. Vira not\u00edcia porque a turca Nil\u00fcfer Demir e sua c\u00e2mera est\u00e3o em vig\u00edlia na areia tr\u00e1gica. Ah, os fot\u00f3grafos! Esses seres despudorados que denunciam com suas lentes o que os olhares fr\u00e1geis das pessoas fr\u00e1geis preferem n\u00e3o ver. Ver \u00e9 inquieta\u00e7\u00e3o. Por isso, talvez, o mundo n\u00e3o tenha chorado por Galip, 5 anos, irm\u00e3o de Aylan. O corpo dele n\u00e3o chegou \u00e0 praia. N\u00e3o foi fotografado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o ver \u00e9 a aliena\u00e7\u00e3o desejada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aylan e Galip sa\u00edram de casa para morrer no mar. Sem entender por que deixaram para tr\u00e1s o seu pa\u00eds. Crian\u00e7as n\u00e3o entendem as guerras. N\u00e3o deveriam, igualmente, fazer parte delas. Nem deveriam ser arrancadas das suas refer\u00eancias para serem jogadas no cativeiro do ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aylan e Galip fazem parte da cegueira c\u00f4moda. Afinal, s\u00e3o apenas meninos s\u00edrios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>20 de setembro de 2019. Morro do Alem\u00e3o, Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Morro do Alem\u00e3o. Ou qualquer outro morro. Desde que seja morro. \u00c1gatha Vit\u00f3ria cai. 8 anos. Tiro nas costas. De fuzil. Coisa de covarde fardado. Mais uma \u2014 e j\u00e1 foram tantas. Crian\u00e7as como ela, meninas como ela. Feitas de sorrisos, de brincadeiras, de fantasias. A de Mulher Maravilha invocando o sonho de um mundo de justi\u00e7a e de mulheres guerreiras. E o pesadelo da realidade se contrapondo. Ceifando, ceifando, ceifando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as. J\u00e1 nem se trata de quantas. \u00c1gathas, Guilhermes, Alanas, Kayos, Larissas, Adrielles. J\u00e1 nem se trata de onde. Nova Holanda, Borel, Alem\u00e3o, Guarabu. Faz tempo que essa conta est\u00e1 perdida. E perdido \u00e9 o que tudo est\u00e1. Bala. Homem. Consci\u00eancia. Futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Outubro | Novembro | Dezembro de 2019. Em todos os grot\u00f5es de pobreza.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caix\u00f5es brancos encaixados uns sobre os outros empilham-se em t\u00e9dio c\u00ednico. Aguardam os h\u00f3spedes perp\u00e9tuos que se deitar\u00e3o entre suas paredes finas. E o cheiro do sangue que, mesmo lavado, se entranhar\u00e1 nas suas fibras fracas como uma droga perigosa, viciante, nauseante. Meninas. Meninos. De algum morro, de alguma comunidade, de algum bairro pobre. De qualquer lugar esquecido ou desprezado pela tal gente de bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 tamb\u00e9m covas rasas. Esperando os que n\u00e3o podem pagar pela m\u00edsera dec\u00eancia de um caix\u00e3o vagabundo. S\u00e3o bocas indigentes essas covas arreganhadas em espera curta. Sabem que logo ser\u00e1 saciada a sua fome \u00e1vida. Mais tarde, corpos pequenos preencher\u00e3o as suas entranhas. Perfurados por balas perdidas. V\u00edtimas dos predadores que somos: os que abatem, os que aprisionam, os que empurram para a morte, os que perseguem at\u00e9 a extin\u00e7\u00e3o. Como os ca\u00e7adores do Qu\u00eania, os estupradores da Nig\u00e9ria, o ditador da S\u00edria. Como os homens e mulheres de farda que atiram pelas costas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Podemos fechar os olhos. Mais uma vez. Essa \u00e9 a nossa expertise. Podemos desligar a TV, tampar os ouvidos, cobrir a cabe\u00e7a. Podemos nos mudar para Paris. Ou para a Finl\u00e2ndia. Quando voltarmos, tudo estar\u00e1 terminado. E olharemos para o genoc\u00eddio de meninas e meninos pobres com toda a piedade hip\u00f3crita que nos foi ensinada pelos nossos pais e pelas nossas igrejas. E nos sentaremos com um copo de cerveja, de vinho ou de u\u00edsque entre amigos que tamb\u00e9m ter\u00e3o acabado de voltar de Berlim ou de Barcelona. E discutiremos planos para reverter a extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em nossos planos, s\u00f3 uma falha. N\u00e3o temos o s\u00eamen do rinoceronte branco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Cinthia Kriemler<\/em><\/strong><em> nasceu no Rio de Janeiro e mora em Bras\u00edlia. \u00c9 autora, pela Editora Patu\u00e1, de: O s\u00eamen do rinoceronte branco (Contos, 2020) \u2013 finalista do Pr\u00eamio Guarulhos 2020 na categoria Escritor do Ano; Tudo que morde pede socorro (Romance, 2019);\u00a0 Exerc\u00edcio de leitura de mulheres loucas (Poesia, 2018); Todos os abismos convidam para um mergulho (Romance, 2017) \u2013 finalista do Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura de 2018; Na escurid\u00e3o n\u00e3o existe cor-de-rosa (Contos, 2015), semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos 2016; Sob os escombros (Contos, 2014); e Do todo que me cerca (Cr\u00f4nicas, 2012). Organizou a antologia de contos Novena para pecar em paz (Editora Penalux, 2017) e participa de antologias de contos e de poesia. Tem textos e poemas publicados em diversas revistas eletr\u00f4nicas.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragmentos de um mundo insano no conto de Cinthia Kriemler<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3924,2534,16],"tags":[2923,81,41,3926],"class_list":["post-18288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-141a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-cinthia-kriemler","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-o-semen-do-rinoceronte-branco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18288"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18402,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18288\/revisions\/18402"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}