{"id":18371,"date":"2021-01-12T09:23:53","date_gmt":"2021-01-12T12:23:53","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18371"},"modified":"2021-02-28T16:12:19","modified_gmt":"2021-02-28T19:12:19","slug":"aperitivodapalavrai-6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavrai-6\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NOTAS SOBRE UM POVOADO M\u00c1GICO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Gustavo Rios<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Capa-2D-em-alta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18375\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Capa-2D-em-alta.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Capa-2D-em-alta.jpg 279w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Capa-2D-em-alta-186x300.jpg 186w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o evidentes os elementos que vinculam o livro <em>Rio das Almas<\/em>, do escritor baiano Pawlo Cidade, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o do Realismo Fant\u00e1stico. Das fam\u00edlias que atravessam o tempo da narrativa com suas hist\u00f3rias e idiossincrasias, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es inusitadas envolvendo determinado rol de personagens, Pawlo nos traz uma obra interessante. E parece bem \u00e0 vontade nesse universo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado pela portuguesa Chiado Editora, o romance <em>Rio das Almas <\/em>conta a trajet\u00f3ria de um povoado de mesmo nome que viveu seu apogeu com a extra\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o (fato importante na trama) e com as ferrovias. Em suas 304 p\u00e1ginas, somos convidados a conhecer esse lugar m\u00e1gico, que aos poucos vai se mostrando a alegoria perfeita para as ambi\u00e7\u00f5es do seu criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro cap\u00edtulo nos deparamos com o hidr\u00f3logo Pedro Parigot. Pedro, movido por uma esp\u00e9cie de milagre (uma cura que o personagem tenta entender com o olhar da ci\u00eancia), viaja at\u00e9 o povoado na busca de respostas. O ano \u00e9 1968, per\u00edodo marcante para a hist\u00f3ria brasileira \u2013 e n\u00e3o \u00e9 raro encontramos la\u00e7os entre o mundo proposto pelo autor e o real, historicamente falando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro desse enredo inicial e aparentemente simples, e entre observa\u00e7\u00f5es precisas e competentes do ambiente e da situa\u00e7\u00e3o em si (o encontro entre dois desconhecidos, Pedro e o andarilho de nome Miguel Cervantes, num cen\u00e1rio que tenta fugir do trivial t\u00e3o comum nos livros \u201cregionais\u201d), Pawlo d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 sua jornada. E o que poderia ser o \u201cn\u00facleo duro\u201d do livro, no caso a busca de Pedro Parigot por respostas, acaba por se converter numa parte. Fundamental no todo, mas nunca limitadora do muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E n\u00e3o demora nada para que outros personagens, com suas hist\u00f3rias inusitadas e bem constru\u00eddas, surjam, ampliando o escopo do autor e nos mostrando o tamanho exato de suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mudan\u00e7a de cen\u00e1rio, por assim dizer, j\u00e1 come\u00e7a no segundo cap\u00edtulo. Nele, embarcamos com Pawlo Cidade, enxergando cada vez mais seus prop\u00f3sitos e a for\u00e7a de sua escrita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cpovoado dos Santos\u201d\u00a0\u00a0 <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo a linha de trabalho escolhida pelo artista ilheense, \u00e9 importante destacar algo que prende o leitor e ter\u00e1 certamente a capacidade de mant\u00ea-lo no prumo: a hist\u00f3ria dos Santos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em minha opini\u00e3o, as p\u00e1ginas em que ele descreve as peculiaridades dessa fam\u00edlia (para usar um termo bem comportado) s\u00e3o umas das melhores partes do romance &#8211; talvez pela lembran\u00e7a que me trouxe dos tipos que habitam Macondo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da fam\u00edlia que \u201c<em>(&#8230;) todos os s\u00e1bados, no lombo de burros, iam \u00e0 feira de Rio das Almas negociar os alimentos que produziam na fazenda: leite, batatas, alface, mandioca, inhame, gabiroba e algumas pe\u00e7as artesanais como embornais (&#8230;)\u201d<\/em>, avan\u00e7amos entre belas representa\u00e7\u00f5es (lembro que a crueldade apresentada \u00e9 parte do jogo; parte da necess\u00e1ria constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria: aqui, ent\u00e3o, justifico o termo \u201cbelo\u201d), envolvidos por um ambiente m\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para exemplificar parte dessa ideia inicial, e mostrar como Cidade trabalha tais quest\u00f5es, cito o trecho abaixo:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA cada meia hora, Jairo Santos, arrastando os p\u00e9s nas t\u00e1buas aparelhadas do piso da sala, sa\u00eda na varanda e olhava para o c\u00e9u, anunciando a chegada de uma chuva que nunca vinha. Com o dedo em riste, dava ordens \u00e0 mulher e \u00e0s filhas, apontando a dire\u00e7\u00e3o, sem precisar dar uma palavra. De tanto apontar o dedo na dire\u00e7\u00e3o das coisas e dos acontecimentos, o indicador da m\u00e3o direita endureceu. A mulher, que era espichada, achou engra\u00e7ado. Disse que o dedo duro foi castigo de Deus pelas vezes que ele a fez crescer, for\u00e7ada, mas \u2018por amor\u2019, at\u00e9 ficar do tamanho dele. Dona Santaninha dos Santos cedera ao desejo desvairado e esdr\u00faxulo do marido de faz\u00ea-la se esticar at\u00e9 ficar de sua estatura, para que os filhos, quando nascessem, tivessem o mesmo tamanho dos pais\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, usando o \u201camor\u201d como justificativa, \u201c<em>(&#8230;) antes mesmo do sol cobrir todo o Vale dos Absurdos, Jairo Santos deitava a mulher sobre o \u2018estirador\u2019, um instrumento que inventou para alongar a estatura do corpo, embora um aparelho similar tenha estado em uso durante toda a Idade M\u00e9dia, sobretudo por padres inquisidores que o utilizavam para extrair confiss\u00f5es e que ficara conhecido com a alcunha de \u2018cavalete\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pawlo Cidade, pseud\u00f4nimo do escritor Jo\u00e3o Paulo Couto Santos, prossegue com firmeza no uso dos ingredientes comuns a essa literatura chamada de fant\u00e1stica: a fam\u00edlia que <em>\u201cconversa animadamente\u201d<\/em> com os animais do pasto; a fam\u00edlia que cria gatos selvagens em coleiras para torn\u00e1-los mais mansos; os Santos, que devem aprender a viver como raposas e corujas que se escondem em buracos no ch\u00e3o, pois <em>\u201c(&#8230;) l\u00e1 ser\u00e1 o destino de toda vida na face da Terra.\u201d<\/em>, j\u00e1 que, segundo o velho Jairo Santos, \u201c<em>um dia o sol cresceria tanto que queimaria quase toda a terra e s\u00f3 depois de tanto crescer ele explodiria. \u2018Toda a luz se tornar\u00e1 em trevas para sempre\u2019\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que eu destaque o uso de tais elementos, que v\u00e3o muito al\u00e9m da fam\u00edlia Santos no decorrer das p\u00e1ginas, devo lembrar que essa escolha n\u00e3o restringe as ideias do autor. Ou seja: n\u00e3o existe c\u00f3pia, apenas inspira\u00e7\u00f5es certamente assumidas (a cita\u00e7\u00e3o do livro <em>Incidente em Antares<\/em>, por exemplo), e outras talvez mais sutis (o cheiro dos gr\u00e3os de mamona num copo de metal me lembrou das am\u00eandoas amargas que deram fim \u00e0s \u201cinquieta\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria\u201d de um tal refugiado antilhano; mas isso \u00e9 pura especula\u00e7\u00e3o de minha parte). Para fechar a quest\u00e3o, digo que nada \u00e9 deliberado nem confuso, apesar de nos parecer muitas vezes que a cronologia e o enredo se perdem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade \u00e9 que Pawlo tamb\u00e9m joga com isso, e joga bem. Ele nos traz novos personagens, novas vidas que se mostram ao longo da obra. Em seu romance, o tempo pode dar um salto entre um cap\u00edtulo e o outro (anos, \u00e0s vezes d\u00e9cadas), mas essa escolha tem o efeito de nos manter interessados em seus desfechos, na promessa de algo mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essa diversidade de personagens, de casos, de tempos que saltam e de vidas distintas, acaba sendo a grandeza do livro. E o enredo ganha com isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ressurrei\u00e7\u00e3o e B\u00edblia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deocleciano, um velho que ap\u00f3s perder o grande amor de sua vida est\u00e1 \u201c<em>determinado a morrer<\/em>\u201d, sem conseguir finalizar o ato, \u00e9 o primeiro a perceber que a morte talvez tenha abandonado o povoado. E para um livro que tem como ep\u00edgrafe um trecho da B\u00edblia (<em>\u201c\u2019E naqueles dias os homens buscar\u00e3o a morte, e n\u00e3o a achar\u00e3o; e desejar\u00e3o morrer, e a morte fugir\u00e1 deles\u2019\u201d)<\/em>, n\u00e3o \u00e0 toa do famoso <em>Apocalipse <\/em>(que tamb\u00e9m significa <em>Revela\u00e7\u00e3o<\/em>), \u00e9 interessante analisar o romance na tentativa de ligar os pontos. Tentar associar uma ideia b\u00edblica com a vida da localidade em si.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro sagrado (ao menos para algumas religi\u00f5es) vez por outra \u00e9 citado na hist\u00f3ria, seja pelos personagens ou mesmo pelo autor-narrador. Quando Deocleciano grita na p\u00e1gina 35 que <em>\u201cA morte morreu, C\u00e9o!\u201d<\/em>, ou mesmo quando ele escuta sua amiga, C\u00e9o, repetir o mesmo trecho da ep\u00edgrafe, <em>\u201c(&#8230;) meio absorta, olhando atrav\u00e9s da janela, os malditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos\u201d, <\/em>podemos inferir a ideia de Pawlo em colocar na obra uma ideia comum, mas bastante aceit\u00e1vel e apropriada: a religiosidade caracter\u00edstica em diversas regi\u00f5es do pa\u00eds. Na literatura brasileira os exemplos s\u00e3o fartos. E, para n\u00e3o ficar no vazio, cito Dias Gomes e Hermilo B. Filho, entre tantos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cotidiano do povoado merece destaque, visto que \u00e9 o arcabou\u00e7o do romance, obviamente. Todavia, aqui a gente tamb\u00e9m enxerga o fabuloso na medida certa, no detalhe e no comezinho, n\u00e3o somente no evento que pode mudar de alguma forma o destino da trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, suspeito que nesse fabuloso \u201cmi\u00fado\u201d exista um pouco de cinematogr\u00e1fico, do tipo cinema-que-devaneia-e-amplia: parte do trecho citado acima (<em>\u201cmalditos redemoinhos que se formavam no Vale dos Absurdos\u201d<\/em>) deve me ajudar a explicar a ideia, na medida em que surge como algo trivial. Como se \u201cmalditos redemoinhos\u201d n\u00e3o fossem acontecimentos t\u00e3o incomuns para aquela gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do Conselho de Anci\u00e3os que<em> \u201c(&#8230;) se reunia para tratar dos assuntos mais complexos do povoado.<\/em>\u201d, podendo ser convocado por qualquer cidad\u00e3o, \u00e0 uma rotina que envolvia um Deocleciano que \u00e0s <em>\u201c(&#8230;) 15h, lia sobre os grandes fil\u00f3sofos da humanidade: S\u00f3crates, Descartes, Arist\u00f3teles, Plat\u00e3o; \u00e0s 16h, compartilhava o que havia lido com os jovens que o esperavam na pra\u00e7a do Chafariz, induzindo-os \u00e0 busca de si mesmos e \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dos problemas mais simples da humanidade, sempre com base na filosofia e nos seus questionamentos pertinentes (&#8230;)\u201d, <\/em>o leitor vai construindo em sua mente Rio das Almas. Suas ruas, seus habitantes, os acontecimentos e a magia que cabe dentro dele. Assim, esse mesmo leitor vai se tornando algo al\u00e9m de um mero espectador. Seu olhar vai se igualando em ess\u00eancia aos dos moradores do lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m a forma escolhida pelo escritor para p\u00f4r no livro tamanha variedade de situa\u00e7\u00f5es se mostra acertada, na propor\u00e7\u00e3o em que ele resolve os dilemas propostos, e faz as devidas liga\u00e7\u00f5es ao longo do texto: a falsa impress\u00e3o de que, em parte da obra, estamos diante de cenas descontinuadas, n\u00e3o impede de vermos a beleza do conjunto (o cap\u00edtulo 17 pode ser um bom exemplo, e n\u00e3o s\u00f3 pela quest\u00e3o da cronologia, mas pela inventividade). No final das contas, esse m\u00e9todo valoriza o trabalho, na justaposi\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es curiosas, bel\u00edssimas, engra\u00e7adas, incr\u00edveis e liter\u00e1rias, no sentido lato da palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Usando como base o Realismo Fant\u00e1stico, Cidade nos agrada com os mais diferentes acontecimentos, tendo como pano de fundo aquilo que chamamos realidade. Mas que podem muito bem subverter essa mesma realidade amuada e sem gra\u00e7a, extraindo dela o encantamento, o pomposo, a picardia e o mundano. Tudo que esperamos para combater essa vida que insiste num cinza duradouro e sufocante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O protagonista que interessa: o ser humano<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um erro pensar, todavia, que <em>Rio das Almas<\/em> n\u00e3o passa de um amontoado de hist\u00f3rias absurdas, com personagens marcantes e loucuras no atacado e no varejo. Ainda que Pawlo tenha optado por uma narrativa n\u00e3o linear em parte do livro \u2013 como j\u00e1 dito e recontado acima, \u00e0s vezes um detalhe s\u00f3 \u00e9 explicado alguns cap\u00edtulos depois (vide o momento em que Chico Rola ressuscita <em>\u201csem mastro e sem bandeira\u201d,<\/em> fato explicado v\u00e1rias p\u00e1ginas depois) -, o que prevalece mesmo \u00e9 a hist\u00f3ria do humano em si. O verdadeiro eixo de tudo. Para o autor, o que importa \u00e9 o que cada indiv\u00edduo sente e como ele age diante do mundo que se apresenta, ainda que esse mundo seja do tipo que acolhe, sem sustos, uma Mulher Pisadeira que esmagava o peito das pessoas que dormiam de barriga cheia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rio das Almas, povoado, \u00e9 uma potente met\u00e1fora sobre as tais idiossincrasias do ser humano. Tornando-se uma esp\u00e9cie de s\u00edntese criativa e instigante que coloca o homem no protagonismo, \u00e0 frente e acima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>Rio das Almas,<\/em> livro, o que salta aos olhos de verdade s\u00e3o as pessoas. Os amores, as amizades, as cren\u00e7as e os rancores. O que releva nas 304 p\u00e1ginas s\u00e3o as fronteiras e as nuances. As buscas e as perdas. Tudo bem estruturado num cen\u00e1rio fascinante, que n\u00e3o confunde o leitor com engana\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a ressurrei\u00e7\u00e3o ocorrida na hist\u00f3ria que se destaca no final das contas, mas os motivos e as causas da morte que n\u00e3o acontece. Da trai\u00e7\u00e3o nunca perdoada, \u00e0 velhice que deixa o Chico Rola impotente (<em>\u201cdeixou de ser cavalo para ser \u00e9gua\u201d<\/em>), passando pela dor da viuvez, onde Deocleciano v\u00ea a interrup\u00e7\u00e3o dolorosa de uma rotina em que ele <em>\u201c(&#8230;) \u00e0s 17h, voltava correndo para casa, pegava a esposa, e regressava outra vez para a pra\u00e7a, onde podiam contemplar, \u00e0s 17h45, carinhosamente abra\u00e7ados, o p\u00f4r do sol, a hora mais espetacular do povoado, em que o c\u00e9u tingia-se de tons azul-viol\u00e1ceos, rosa choque, roxo, tons alaranjados e uma infinidade de tons vermelhos que se distribu\u00edam em degrad\u00ea pelo Monte Marrom.\u201d<\/em>, o que enxergamos \u00e9 o personagem no centro de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A injusti\u00e7a social causada pelo lucro e pela gan\u00e2ncia tamb\u00e9m \u00e9 assunto presente no livro, tendo como mote a exist\u00eancia da <em>Bet\u00e2nia and San Francisco Railway Company<\/em>, empresa de minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o. Desse modo, al\u00e9m de conter os tais elementos fant\u00e1sticos (forma, labor e estilo), o livro traz tamb\u00e9m a lembran\u00e7a de quanto os humanos s\u00e3o absorvidos e devorados pela gan\u00e2ncia, pela desumaniza\u00e7\u00e3o e pela fome de lucro (realidade e conte\u00fado).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A voz narrativa e as escolhas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ponto que talvez incomode a quem vai ler a obra \u00e9 o jeit\u00e3o por vezes empolado com que o artista prossegue no romance. Mesmo em cenas engra\u00e7adas, provavelmente ao se deparar com trechos tais como <em>\u201c(&#8230;) inalar, involuntariamente, os odores nada agrad\u00e1veis de suas flatul\u00eancias\u201d<\/em> o leitor vai achar algo exagerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outros exemplos refor\u00e7am tal impress\u00e3o: <em>\u201cchorou copiosamente\u201d<\/em>; \u201c<em>Cria nisso. Como creu naquela noite\u201d<\/em>; <em>\u201cnitidamente absorto\u201d<\/em>; <em>\u201cassaz euf\u00f3ricos\u201d; \u201cdesmesuradamente perplexos\u201d,<\/em> entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, diante do que li (a obra em seu conjunto), consigo entrar em defesa do Cidade com alguns argumentos que talvez consigam explicar o caso: para mim, \u00e9 outra voz que nos narra <em>Rio das Almas<\/em>; al\u00e9m disso, Pawlo trabalha no livro com um tipo de narrador que conversa diretamente com quem o l\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a primeira hip\u00f3tese, posso resumir da seguinte forma: a voz do livro pode n\u00e3o ser a do Jo\u00e3o Paulo ou mesmo a do Pawlo Cidade. Mas a de algu\u00e9m criado por ele (ou eles) para tal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixando de lado a quest\u00e3o do pseud\u00f4nimo para n\u00e3o confundir, e sendo o autor do livro um dramaturgo, acredito na capacidade dele em \u201cdar voz\u201d a outros \u2013 como um \u201citem de s\u00e9rie\u201d, digamos, para um bom homem de teatro. Com isso, e considerando sua experi\u00eancia, acho que Cidade optou por criar uma persona que deve falar desse jeito \u201cassaz\u201d presun\u00e7oso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um narrador que precisa explicar o que \u00e9 bronha (<em>\u201co ato de se masturbar\u201d<\/em>), por exemplo, \u00e9 o mesmo que pode nos deixar um pouco confusos quando fala sobre os tel\u00f4meros que n\u00e3o conseguem mais se dividir (outros trechos me fazem suspeitar que a voz do livro seria a de um m\u00e9dico aposentado, meio s\u00e1bio, bom de copo e de prato, chegado numa picardia e um grande observador; mas isso \u00e9 especula\u00e7\u00e3o minha, um jogo interessante para o Gustavo leitor).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a voz ser a do tipo narrador que conversa com o leitor, diferentes momentos podem comprovar essa ideia. Na medida em que ele opina e compartilha experi\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como exemplo, cito os trechos a seguir (com grifos meus):<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cSe f\u00f4ssemos enumerar as coisas absurdas (e incr\u00edveis!) que povoavam o Vale, como o fato de uma vez por ano o sol brilhar em plena meia-noite, <strong>seria preciso escrever outro livro.<\/strong>\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c<strong>Vamos ver se consigo explicar.<\/strong> Quando completou sete d\u00e9cadas de vida, o fil\u00f3sofo professor leigo e funcion\u00e1rio da Esta\u00e7\u00e3o de Tratamento de \u00c1gua de Rio das Almas (&#8230;)\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, <em>Rio das Almas<\/em> \u00e9 um livro que merece ser lido. Com aten\u00e7\u00e3o e prazer, se permitindo entrar no jogo proposto por seu criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E entre coveiros g\u00eameos bivitelinos de pais diferentes, burros alados, olhos violetas e assombra\u00e7\u00f5es, acredito valer muito a pena entrar, sim, no jogo. Na deliciosa leitura desse mundo-povoado. L\u00e1, onde bar se chama taverna. E onde \u201c<em>A fragr\u00e2ncia das gard\u00eanias s\u00f3 era abandonada quando as flores da Pra\u00e7a da Matriz desabrochavam com grande intensidade e magnific\u00eancia\u201d.<\/em> Um lugar que eu gostaria muito de passar uns dias. Ou mesmo passar uma vida inteira, quem sabe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Gustavo Rios<\/em><\/strong><em> \u00e9 baiano e autor do livro Raps\u00f3dia Bruta (Mariposa Cartonera, 2016), entre outros.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O novo livro de Pawlo Cidade \u00e9 tema da an\u00e1lise de Gustavo Rios <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18372,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3924,2533],"tags":[2411,2116,3950,2289,189,3949,496],"class_list":["post-18371","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-141a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-gustavo-rios","tag-livro","tag-pawlo-cidade","tag-realismo-fantastico","tag-resenha","tag-rio-das-almas","tag-romance"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18371","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18371"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18371\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18398,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18371\/revisions\/18398"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18372"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18371"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18371"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18371"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}