{"id":1840,"date":"2012-07-02T12:30:23","date_gmt":"2012-07-02T15:30:23","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=1840"},"modified":"2012-08-14T17:40:10","modified_gmt":"2012-08-14T20:40:10","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-4\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estar no mundo \u00e9 n\u00e3o passar impune pelas vias feitas de mat\u00e9ria e alma. \u00c9 dizer mais: n\u00e3o fugir ao embate proporcionado por tudo aquilo que est\u00e1 encerrado nos mais distintos cen\u00e1rios. O olhar, esse intricado instrumento de inser\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo muito al\u00e9m de uma mera janela para a dimensionalidade do m\u00faltiplo que nos acomete. Ele parece ganhar mais sentido quando mexe nas densas tramas de que somos feitos, provocando-nos e direcionando nossas aten\u00e7\u00f5es para uma necessidade de rompermos com o \u00f3bvio e suas trai\u00e7oeiras armadilhas. E n\u00e3o h\u00e1 como se falar em provoca\u00e7\u00e3o sem pensar em transgress\u00e3o. Qualquer ruptura que se pretenda levar a cabo, traz em si mesma a perspectiva de uma coer\u00eancia de prop\u00f3sitos, para que n\u00e3o reine sorrateira a sombra do discurso vazio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caminho das palavras, utilizar a transgress\u00e3o como recurso criativo representa verdadeiro desafio a um autor, pois tal empreitada requer doses bem ministradas de lucidez e renova\u00e7\u00e3o do olhar. Tais atributos parecem se encaixar com precis\u00e3o no modo de escrever da poetisa baiana <strong><a href=\"http:\/\/operariadasruinas.blogspot.com.br\/\">Daniela Galdino<\/a><\/strong>. Dona de uma linguagem que sabe a instigantes percursos existenciais, Daniela sabe manusear palavras como quem lapida a pedra fundamental das nossas imperfei\u00e7\u00f5es. Com \u201cIn\u00famera\u201d (Editora Mondrongo), seu mais novo livro de poemas, a autora demarca, de modo especial, um lugar no mundo, fazendo convergirem sensa\u00e7\u00f5es que dialogam com terrenos complexos da natureza humana. A obra pontua travessias feitas de delicadezas, intensidades e provoca\u00e7\u00f5es, utilizando-se tamb\u00e9m de um apelo er\u00f3tico muito bem posicionado frente \u00e0s nossas dualidades e contradi\u00e7\u00f5es. Ali, a multiplica\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d \u00e9 artif\u00edcio valioso nas m\u00e3os da poetisa, fazendo com que, sob a forma de versos, contemplemos a possibilidade de sermos simultaneamente um e todos.\u00a0 Com algumas participa\u00e7\u00f5es em eventos liter\u00e1rios, antologias e organiza\u00e7\u00f5es de obras, Daniela tamb\u00e9m publicou \u201cVinte poemas CaleiDORc\u00f3picos\u201d (Via Litterarum). Graduada em Letras (UESC), a autora \u00e9 Mestre em Literatura e Diversidade Cultural (UEFS), Doutoranda em Estudos \u00c9tnicos e Africanos (UFBA) e professora de Literatura da Universidade Estadual da Bahia. No breve di\u00e1logo com a Diversos Afins, \u00e9 poss\u00edvel constatar que estamos diante de uma criadora inquieta, cujo compromisso maior \u00e9 nitidamente o de tecer vias que confiram significados consistentes ao que chamamos vida. N\u00e3o h\u00e1 regras fixas para isso e Daniela aposta firmemente que, se hoje estamos aqui, \u00e9 porque nos foi dada a capacidade de tamb\u00e9m desconfiarmos de tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"mceTemp mceIEcenter\" style=\"text-align: justify;\">\n<dl id=\"attachment_1842\" class=\"wp-caption aligncenter\" style=\"width: 360px;\">\n<dt class=\"wp-caption-dt\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-por-Felipe-Thomaz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1842\" title=\"Daniela Galdino por Felipe Thomaz\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-por-Felipe-Thomaz.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"525\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-por-Felipe-Thomaz.jpg 350w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-por-Felipe-Thomaz-200x300.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a><\/dt>\n<dd class=\"wp-caption-dd\">Daniela Galdino\/ foto: Felipe Thomaz<\/dd>\n<\/dl>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;In\u00famera&#8221;, seu mais recente livro, devota aten\u00e7\u00f5es especiais a um lirismo feminino vigoroso, capaz de observar o mundo, este grande \u00fatero que guarda nossos acessos, com olhos de lucidez, provoca\u00e7\u00e3o e algum mist\u00e9rio. Na gesta\u00e7\u00e3o de tais versos, o que lhe parece mais inquietante?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> Inquietante, para mim, \u00e9 viver. Dos tr\u00e2nsitos e transes cotidianos, capto a mat\u00e9ria de poesia, o combust\u00edvel para \u201cassustar palavras\u201d e gerar imagens. Eu fico digerindo a vida, aquela por mim experimentada e tamb\u00e9m a supostamente experienciada por outras\/os. A arte tem dessas coisas, n\u00e3o \u00e9 mesmo? A possibilidade dos desdobramentos. \u201cIn\u00famera\u201d \u00e9 uma galeria de pulsa\u00e7\u00f5es. Eu j\u00e1 disse, numa brincadeira: as percep\u00e7\u00f5es ficaram doendo, pesando, cutucando, provocando a minha alma&#8230; Enquanto eu n\u00e3o devolvi essa provoca\u00e7\u00e3o em forma de imagens po\u00e9ticas, n\u00e3o tive sossego (risos).\u00a0 A\u00ed eu me lembro de Hilda Hilst: \u201cEstou mais do que viva: embriagada.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Nos seus percursos criativos, a ideia da ordena\u00e7\u00e3o do caos interior lhe soa como algo atraente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Ao pensar numa resposta, recordo de outra poeta, Cec\u00edlia Meireles: \u201ca vida s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel reinventada\u201d. A ideia de \u201cordena\u00e7\u00e3o do caos\u201d \u00e9 muito sedutora, torna-se uma grande pretens\u00e3o, um desafio delicioso. O que h\u00e1 de atraente nisso \u2013 a meu ver \u2013 \u00e9 que n\u00e3o consigo atingir o grau m\u00e1ximo de ordena\u00e7\u00e3o do caos interior. Ou seja, a tarefa parece mesmo o trabalho de S\u00edsifo, condenado a empurrar uma pedra at\u00e9 o cume de uma montanha, sendo que essa pedra rola novamente, provocando a repeti\u00e7\u00e3o do ato. No entanto, segundo a leitura de Albert Camus, na cena intervalar S\u00edsifo acentua a consci\u00eancia e se revolta. Ent\u00e3o, para mim, ordenar o caos anterior \u00e9 uma tarefa que n\u00e3o cessa, que desafia o cotidiano. N\u00e3o \u00e9 o caos que gera a luz da estrela bailarina nietzschieana?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Acredita na literatura como sendo um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o humana?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>A Literatura \u00e9 a minha transforma\u00e7\u00e3o. Lendo ou escrevendo literatura, eu experimento um desdobrar constante, &#8220;transito por rotas imprecisas&#8221;. Sempre brinco dizendo que acredito na Arte como forma de transgress\u00e3o, e que se n\u00e3o for para transgredir de alguma maneira, melhor escrever manual de instru\u00e7\u00e3o, bula de rem\u00e9dio. Eu n\u00e3o acredito que o poss\u00edvel e a realidade sejam isso que o mundo nos oferece todos os dias via bombardeio de desejos pr\u00e9-fabricados para consumo em larga escala. E por mover essa &#8220;descren\u00e7a&#8221; acredito na for\u00e7a da express\u00e3o art\u00edstica e na for\u00e7a da palavra liter\u00e1ria, em especial. A Literatura \u00e9 o descortinar de n\u00f3s mesmos, a possibilidade de reescrever o poss\u00edvel. Ela \u00e9 tamb\u00e9m a trapa\u00e7a da linguagem e com a linguagem, como observou Barthes. Sendo assim, movendo sensibilidades, alterando olhares, desestabilizando mundos interiores, a Literatura transforma sim: a linguagem, em primeiro lugar. E como n\u00f3s somos linguagem, somos alterados, transformados produzindo e lendo Literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Abra\u00e7ar-se \u00e0 transgress\u00e3o seria, na verdade, negar os atalhos propostos pela dita p\u00f3s-modernidade?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211; <\/strong>Acredito numa po\u00e9tica do p\u00f3s-modernismo nos termos colocados pela Linda Hutcheon. Aqui n\u00e3o quero fazer discuss\u00f5es acad\u00eamicas ou enveredar por abordagens te\u00f3ricas, mas do que Hutcheon apresenta, capto justamente os aspectos transgressores dessa po\u00e9tica p\u00f3s-moderna, esse modo de constituir-se, de ser sendo: ser um\/a forasteiro\/a de dentro (ou adotar um \u201cposicionamento duplo paradoxal\u201d), investir no potencial da ironia para implodir a dita \u201carte s\u00e9ria\u201d. Em termos art\u00edsticos, valorizo bastante o car\u00e1ter ex-c\u00eantrico, que significa estar na fronteira ou na margem e, ao mesmo tempo, provocar implos\u00f5es nos modelos. Os discursos podem ser objeto de reapropria\u00e7\u00e3o constante \u2013 seja o religioso, o pol\u00edtico, o liter\u00e1rio&#8230; \u2013 e nesse jogo o que me interessa, nos exerc\u00edcios de reapropria\u00e7\u00f5es e implos\u00f5es, \u00e9 revelar uma perspectiva diferente, brotar o inusitado no peito do leitor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Em \u201cIn\u00famera\u201d, a converg\u00eancia masculino\/feminino ganha um contorno bastante especial, como se ali tiv\u00e9ssemos a perspectiva de um novo g\u00eanero, sem amarras usuais. Como voc\u00ea percebe tal quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> Amarra \u00e9 um termo que eu quis apagar em \u201cIn\u00famera\u201d. Essa converg\u00eancia \u00e9 percept\u00edvel mesmo, flutua na po\u00e9tica, sobretudo na segunda parte do livro, intitulada \u201c\u00c9 passeio abissal\u201d. Ali est\u00e3o os poemas deliberadamente er\u00f3ticos, ali est\u00e1 o corpo despojado de r\u00f3tulos \u2013 sobretudo livre do carimbo do pecado. O prazer \u00e9 linguagem tamb\u00e9m, o corpo aparece numa outra cartografia (s\u00e3o \u201cmapas distorcidos por cart\u00f3grafos loucos\u201d, como no poema \u201cSaudade amanhecida\u201d) e, nesse novo estado, a fus\u00e3o acontece. O inusitado brota j\u00e1 no poema \u201cObra de fric\u00e7\u00e3o\u201d: \u201cgosto de homens que tem buceta imagin\u00e1ria\u201d \/ daquelas bem colocadas na coxa esquerda\u201d. Eu desejei investir nisso, pois entendo poesia como recria\u00e7\u00e3o do real. E entendo a realidade comportando o invis\u00edvel, o recriado (ou melhor, o recriando-se). Da\u00ed, o que voc\u00ea chama de fus\u00e3o, ainda que tensa, \u00e9 uma fus\u00e3o. \u00c9 tensa porque mobiliza for\u00e7as que eram entendidas como d\u00edspares, o desafio fica sendo a constitui\u00e7\u00e3o, a partir das imagens po\u00e9ticas, de uma possibilidadecorporal, prazerosa, gozosa sem o punhal da viol\u00eancia simb\u00f3lica; e muito pr\u00f3xima do refazer-se. Em \u201cIn\u00famera\u201d o corpo n\u00e3o \u00e9 objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Acredita que a condi\u00e7\u00e3o de ser mulher poeta tem algo a ver com uma certa busca por uma virilidade esquecida nalgum ponto da jornada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> O que \u00e9 ser viril? A quem pertence a virilidade? O dicion\u00e1rio diz que viril \u00e9 aspecto pr\u00f3prio do universo masculino, uma condi\u00e7\u00e3o do var\u00e3o. O dicion\u00e1rio, enquanto esp\u00e9cie de lei, para mim, \u00e9 insuficiente. N\u00e3o foi Drummond quem disse: \u201cas leis n\u00e3o bastam\/ os l\u00edrios n\u00e3o nascem das leis\/ meu nome \u00e9 tumulto e inscreve-se na pedra\u201d? Pois sim&#8230; Eu n\u00e3o busco a virilidade perdida \u2013 aquela do dicion\u00e1rio! Certa feita, um poeta (e interlocutor constante) me perguntou: \u201cDaniela, voc\u00ea faz parte do grupo de autoras que escreve com a vagina?\u201d Conhe\u00e7o bem esse poeta, ele queria me provocar, obviamente, e usou uma met\u00e1fora que, ao seu ver, era at\u00e9 mesmo pejorativa. O caso \u00e9 que eu adotei essa met\u00e1fora, e a ado\u00e7\u00e3o foi ao meu modo: da vagina sai gente, quando n\u00e3o sai gente, sai sangue. Gente \u00e9 vida brotando, sangue percorrendo os atalhos do corpo tamb\u00e9m \u00e9 vida jorrando. Ent\u00e3o, eu entendo que escrever com a vagina \u00e9 imprimir vida \u00e0s imagens po\u00e9ticas. Gestar, colocar movimento, som, cor, cheiro, movimentar sensa\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 escrita viril? N\u00e3o sei. Viril de vigor descamba no que acabei de dizer: vida. Mas eu confesso: n\u00e3o estou \u00e0 procura de uma \u00a0\u201cvirilidade perdida nalgum ponto da jornada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_1843\" aria-describedby=\"caption-attachment-1843\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-pbMenor-por-Milena-Palladino.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1843\" title=\"Daniela Galdino por Milena Palladino\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-pbMenor-por-Milena-Palladino.jpg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-pbMenor-por-Milena-Palladino.jpg 550w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-pbMenor-por-Milena-Palladino-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1843\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino\/ foto: Milena Palladino<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Podemos suportar a civiliza\u00e7\u00e3o sem poesia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> Repare bem. \u00a0Eu acho que o mundo, como nos \u00e9 apresentado, e como foi constru\u00eddo (ou destru\u00eddo) at\u00e9 ent\u00e3o, \u00e9 insuport\u00e1vel sem poesia. Essa \u00e9 a minha posi\u00e7\u00e3o, a forma como me lan\u00e7o e reconstruo a realidade. No entanto, bem sabemos que essa postura n\u00e3o \u00e9 nada consensual. Costumo repetir: \u201cvoc\u00ea j\u00e1 soube de algum caso de uma pessoa que enfartou porque passou 1 ano sem ler um livro de poesia? Algu\u00e9m que definhou por falta de leitura po\u00e9tica?\u201d Eu nunca soube de uma hist\u00f3ria assim, mas sei que o senso de \u201ccidadania\u201d e de \u201chumanidade\u201d fica diminuto quando muitas pessoas s\u00e3o impedidas de exercer o seu \u201cpoder de consumo\u201d. Quem nunca se sentiu com um sinal de menos por n\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de adquirir as novidades mercadol\u00f3gicas para uma vida mais feliz, pr\u00e1tica e confort\u00e1vel? Eu estou enveredando pela ironia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A poesia n\u00e3o tem verdade(s) para professar, n\u00e3o \u00e9 a chave para a resolu\u00e7\u00e3o das nossas ang\u00fastias, poesia n\u00e3o \u00e9 autoajuda. Por isso mesmo, ela \u00e9 necess\u00e1ria: dialoga com a nossa sensibilidade, desafia as formas usuais de entendimento do mundo, provoca a nossa humanidade. Compreendendo a poesia dessa maneira, eu repito: o mundo torna-se insuport\u00e1vel sem ela. Por isso leio poesia, por isso escrevo poesia. \u201cPor uma vida menos ordin\u00e1ria pintamos o ch\u00e3o\u201d, bradam os rapazes da Na\u00e7\u00e3o Zumbi &#8211; e eu fa\u00e7o coro com os descontentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Somos facilmente seduzidos pelos apelos do consumo. No entanto, parece ser tarefa hom\u00e9rica atrair pessoas em torno da leitura. Na sua vis\u00e3o de educadora, o que podemos fazer? Acredita num caminho de forma\u00e7\u00e3o de leitores?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO \u2013<\/strong> Acredito, sim. \u00c9 o que move a minha a\u00e7\u00e3o como educadora, formadora de docentes. No entanto, h\u00e1 que se ampliar essa no\u00e7\u00e3o de leitura. Sou bem freiriana nesse sentido. Paulo Freire investiu na leitura de mundo como algo que precede a leitura da palavra, sendo componente fundamental na forma\u00e7\u00e3o dos sujeitos. E a leitura de mundo comporta o para al\u00e9m da palavra. Se a gente ponderar isso com mais aten\u00e7\u00e3o, vai surgir um caminho para a forma\u00e7\u00e3o de leitores de Literatura, por exemplo. A palavra liter\u00e1ria \u00e9 gr\u00e1vida de mundo, bem sabemos. E a leitura sens\u00edvel \u00e9 condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para o tr\u00e2nsito pela linguagem liter\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o tenho receitas para socializar, mas posso dizer que tenho encontrado pessoas por a\u00ed afora, nos mais diversos espa\u00e7os sociais, atuando com vigor nessa \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o de leitores \u2013 inclusive tendo as linguagens art\u00edsticas como grande aliada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora eu lembrei de uma experi\u00eancia de ciranda de leitura liter\u00e1ria que ocorreu num acampamento (movimentos de luta pela reforma agr\u00e1ria) no sul da Bahia. A coisa foi simples e impactante: uma educadora (em forma\u00e7\u00e3o) levou algumas obras liter\u00e1rias para socializar com a comunidade, no entanto, como muitos sujeitos n\u00e3o eram alfabetizados, essa jovem iniciou sess\u00f5es de leitura coletiva, o que acentuou o senso comunit\u00e1rio. E as pessoas se emocionavam, se encantavam com as narrativas. Ao final da experi\u00eancia, ao receber um pr\u00eamio concedido pela UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz), essa jovem socializou o seu desvelamento: a sua fam\u00edlia vive sob o barrac\u00e3o de lona, n\u00e3o havia energia el\u00e9trica, usava-se o candeeiro. Ela acordava de madrugada para ler esses livros. Depois, lia para os outros. S\u00f3 depois disso ela afirmou entender que a estante de livros que existia na comunidade n\u00e3o era para enfeitar o barrac\u00e3o de lona preta. Havia vida ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa trajet\u00f3ria recente de divulga\u00e7\u00e3o de \u201cIn\u00famera\u201d tamb\u00e9m vivi duas experi\u00eancias muito marcantes. A primeira aconteceu em Salvador, no CEPAIA\/UNEB, no dia do lan\u00e7amento do livro. Foi um dia tenso, greve da pol\u00edcia&#8230; Cheguei ao local do evento um tanto apreensiva e entrei no primeiro lugar dispon\u00edvel para ajeitar o figurino da performance (trabalho com essa linguagem). Num banheiro min\u00fasculo encontrei Sanda, auxiliar de servi\u00e7os gerais. Em meio \u00e0quela agonia toda, Sandra ia me dizendo: \u201cnossa, eu gostei do teu livro. Nele a mulher pode tudo\u201d. Imediatamente, perguntei: \u201cmas como voc\u00ea sabe disso, se ainda nem lan\u00e7amos o livro?\u201d. Ela havia lido, de uma s\u00f3 vez, todos os poemas, aproveitando o descuido de algu\u00e9m que esqueceu um exemplar sobre a mesa. Eu presenteei Sandra com \u201cIn\u00famera\u201d. E noutro dia, num samba, nos reencontramos e ela me disse: \u201colha, eu conheci homem com 16 anos, mas s\u00f3 fui gozar aos 25. No seu livro aprendi que gozar faz parte da descoberta da mulher. E muitas mulheres n\u00e3o t\u00eam a liberdade de gozar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A outra experi\u00eancia foi em Olinda, no p\u00f3s-carnaval. Num domingo cultural eu encontrei dona Concei\u00e7\u00e3o, professora aposentada, com forma\u00e7\u00e3o em magist\u00e9rio. Ela deve ter, aproximadamente, 70 anos. Dona Concei\u00e7\u00e3o leu todo o livro, teceu coment\u00e1rios e me conduziu at\u00e9 a cozinha da pousada onde est\u00e1vamos, fazendo quest\u00e3o de socializar os poemas com as cozinheiras. Aquilo me deu uma emo\u00e7\u00e3o retada, pois ver aquelas mulheres manuseando o livro, lendo os poemas com os seus trajes de trabalho, suas toucas e luvas, foi inusitado para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acho que hist\u00f3rias assim comprovam que a leitura da palavra \u2013 e da palavra liter\u00e1ria em especial \u2013 n\u00e3o \u00e9 um elemento de distin\u00e7\u00e3o, um privil\u00e9gio de escolhidos. Ela \u00e9 um direito social \u2013 e como tal deve ser trabalhada. Ler com olhos n\u00e3o convencionais, ler com o esp\u00edrito, ler com sensibilidade independe de condi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;Eu sou muitas pessoas destro\u00e7adas&#8221;, arremata em versos Manoel de Barros. Tal sensa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m parece impregnar a poetisa Daniela. A ideia da fragmenta\u00e7\u00e3o das personas a servi\u00e7o do discurso po\u00e9tico alimenta o jogo dos estranhamentos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> \u201cEu sou muitas pessoas destro\u00e7adas\u201d. Eu sou leitora de Manoel de Barros. \u201cEu sou maior por dentro\u201d, como est\u00e1 no poema <em>Conselho Infantil<\/em>&#8230; Mas eu penso nesse \u201ceu\u201d como uma conjuga\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios modos de ser. Isso escapa a qualquer forma de identifica\u00e7\u00e3o da poeta Daniela Galdino \u2013 \u201cIn\u00famera\u201d n\u00e3o \u00e9 um di\u00e1rio. Os v\u00e1rios modos de ser comportam as experi\u00eancias alheias, sobretudo as femininas. \u00c9 esse o mote do livro: \u201csou intrusa, sou in\u00fabil, sou in\u00famera\u201d \u2013 um exerc\u00edcio de multiplicidades conjugadas. A experimenta\u00e7\u00e3o dos desdobramentos a que me referi anteriormente. Talvez a\u00ed resida a ciranda que o livro tem gerado. Frequentemente, recebo fotografias de leitoras\/es de In\u00famera.\u00a0 S\u00e3o imagens de pessoas diversas (idosas, jovens, homens, mulheres, gays&#8230;) nas mais inesperadas situa\u00e7\u00f5es, manipulando o livro em cen\u00e1rios pr\u00f3ximos (Brasil) e distantes (terras estrangeiras). O que me surpreende e encanta, nessas imagens, \u00e9 que as pessoas perdem o pudor: se deixam fotografar em locais p\u00fablicos, diante de monumentos, locais tur\u00edsticos, na intimidade da cama (com o\/a parceira\/o). \u00a0J\u00e1 houve at\u00e9 uma sequ\u00eancia de fotos com nu art\u00edstico \u2013 e o mais belo de tudo: s\u00e3o pessoas que at\u00e9 ent\u00e3o nunca haviam experimentado a nudez dessa maneira. N\u00e3o preciso dizer que isso me encanta bastante. Essas imagens, antes de tudo, revelam essa conjuga\u00e7\u00e3o dos diversos modos de ser sendo.\u00a0 Elas s\u00e3o belas porque surpreendem, s\u00e3o fortes porque impulsionam que outras\/os entrem na ciranda. Nos estranhamentos a gente se reconhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Entre palavras e percursos humanos trilhados, no que acredita a oper\u00e1ria das ru\u00ednas Daniela Galdino?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DANIELA GALDINO &#8211;<\/strong> Sou entusiasta das artes, amante do invis\u00edvel, concubina do inusitado. Tamb\u00e9m flerto com as realidades min\u00fasculas e, ao mesmo tempo, sou uma megaloman\u00edaca convicta. No que acredito? Acredito que tenho que manter a minha desconfian\u00e7a perante as certezas perenes&#8230; Quem sabe da\u00ed sai o alimento para recriar mundos \u2013 aos menos os meus mundos interiores&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu respondo novamente com Hilda Hilst:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBebendo, Vida, invento casa, comida \/E um Mais que se agiganta, um Mais \/ Conquistando um fulcro potente na garganta \/ Um l\u00e1tego, uma chama, um canto. Amo-me. \/ Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos \/ Quando n\u00e3o sou l\u00edquida\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1844\" aria-describedby=\"caption-attachment-1844\" style=\"width: 569px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-IIpor-Milena-Palladino.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1844\" title=\"Daniela Galdino por Milena Palladino\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-IIpor-Milena-Palladino.jpg\" alt=\"\" width=\"569\" height=\"378\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-IIpor-Milena-Palladino.jpg 569w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Daniela-Galdino-IIpor-Milena-Palladino-300x199.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 569px) 100vw, 569px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1844\" class=\"wp-caption-text\">Daniela Galdino\/ foto: Milena Palladino<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>&#8211; TR\u00caS POEMAS DE \u201cIN\u00daMERA\u201d &#8211;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>OBRA DE FRIC\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gosto de homens<br \/>\nque t\u00eam buceta imagin\u00e1ria<br \/>\ndaquelas bem colocadas<br \/>\nna coxa esquerda.<\/p>\n<p>Gosto de homens<br \/>\naventureiros da carne e do osso<br \/>\ndaqueles que vibram<br \/>\ncom o encontro das nossas bucetas.<\/p>\n<p>Esses homens incomuns sabem,<br \/>\nno relincho do segundo,<br \/>\nno piscar do sil\u00eancio,<br \/>\nque eu explodo blasf\u00eamias<br \/>\ncom a voracidade vulc\u00e2nica.<\/p>\n<p>Esses raros homens sentem,<br \/>\nno calor da obra friccional,<br \/>\nque na dessemelhan\u00e7a<br \/>\nda minha realidade<br \/>\nnada \u00e9 mera coincid\u00eancia:<br \/>\nprimeiro, o di\u00e1logo de bucetas.<br \/>\nDepois, a penetra\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ARDIL<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>recolher<br \/>\na mat\u00e9ria<br \/>\nque \u00e9 de<br \/>\nsil\u00eancios:<\/p>\n<p>eu n\u00e3o<br \/>\nquero<br \/>\nlevantar<br \/>\na palavra<br \/>\nem v\u00e3o<\/p>\n<p>porque&#8230;<\/p>\n<p>quando<br \/>\neu falar<br \/>\nir\u00e3o<br \/>\ndespregar<\/p>\n<p>todas<br \/>\nas estrelas<br \/>\ndo meu<br \/>\nc\u00e9u da boca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>PROCISS\u00c3O LUNAR II<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Veste o teu h\u00e1bito de penumbra<br \/>\nafasta aromas de naftalina<br \/>\norna a fronte com um v\u00e9u opaco<br \/>\nflutua como uma noiva que n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Abre a gaveta da mem\u00f3ria<br \/>\ntraze aquela la\u00e7o delicado<br \/>\nvede a seda j\u00e1 sem brilho:<br \/>\ncom ele secar\u00e1s a l\u00e1grima da santa.<\/p>\n<p>Levanta dos precip\u00edcios de sil\u00eancio<br \/>\ntoma o f\u00f4lego aos ventos esparsos<br \/>\nergue o andor pesado das esquecidas<br \/>\nnele estar\u00e3o teus sonhos mofados<\/p>\n<p>Vede o tempo que escorre<br \/>\nou\u00e7a: est\u00e1s em atraso.<br \/>\nsinta a lacuna, crede: a vida<br \/>\n\u00e9 uma prociss\u00e3o que n\u00e3o sair\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capa-do-livro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1845\" title=\"Capa do livro\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capa-do-livro.jpg\" alt=\"\" width=\"250\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capa-do-livro.jpg 250w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Capa-do-livro-185x300.jpg 185w\" sizes=\"auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>\u201cIn\u00famera\u201d<\/strong> est\u00e1 dispon\u00edvel para compra no <strong><a href=\"http:\/\/www.mondrongo.com.br\/index.php?pg=produto&amp;id=39\">site<\/a> <\/strong>da Editora Mondrongo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em><strong><\/strong><br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa provocadora conversa, a oper\u00e1ria das ru\u00ednas Daniela Galdino fala sobre as motiva\u00e7\u00f5es de seus versos e outros afins 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