{"id":18459,"date":"2021-02-25T09:13:52","date_gmt":"2021-02-25T12:13:52","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18459"},"modified":"2021-02-28T16:07:37","modified_gmt":"2021-02-28T19:07:37","slug":"dedos-de-prosa-i-78","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-i-78\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcus Borg\u00f3n <\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18461\" aria-describedby=\"caption-attachment-18461\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joice-Kreiss-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18461 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joice-Kreiss-1.jpg\" alt=\"Foto: Joice Kreiss\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joice-Kreiss-1.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Joice-Kreiss-1-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18461\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joice Kreiss<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>UM PESADELO ENTRE OS DENTES<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Flanar distraidamente \u00e9 um tesouro. Perder-se em pensamentos. Absorto. O corpo em piloto autom\u00e1tico. E ao voltar \u00e0 tona, encontrar-se no rumo certo. Sem desvios enganosos. Mas desta vez, n\u00e3o. Devo ter exagerado nos devaneios. O caminho era desconhecido. Tudo me parecia estranho, remoto. Estradinha de cascalho. Lembran\u00e7a distante. N\u00e3o tenho certeza. Pode ser o cheiro de barro molhado. Cinzeiros de argila na escolinha. Meu pai os recebia com sorriso medido. Talvez antevendo o enfisema que lhe consumiria os pulm\u00f5es. O cansa\u00e7o sobrepesava minhas pernas. N\u00e3o escutava nada. Nenhum rumor de humanidade. S\u00f3 minhas pr\u00f3prias pisadas naquele ch\u00e3o pedregoso e escorregadio. Sequer lembrava de onde parti. O sapato deve ter sido emprestado a mim. Me escapava o calcanhar a cada passada. E estava sem meias, coisa incomum. Depois de quase uma hora andando por aquela trilha rudimentar, avistei uma luz acesa. Era um bar, vazio. Um homem de idade avan\u00e7ada cochilava atr\u00e1s do balc\u00e3o. A TV ligada mostrava o padr\u00e3o em cores. H\u00e1 tempos eu n\u00e3o via aquilo. Os canais costumam varar a madrugada exibindo programas religiosos. Pastores negociando terrenos no c\u00e9u. Ou prosperidade ainda na terra. Pagamento adiantado, irm\u00e3o. Gl\u00f3ria a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dei umas batidinhas no balc\u00e3o, como fazemos \u00e0 porta. O velho acordou e me olhou com espanto. Corri a m\u00e3o nos bolsos, mas n\u00e3o os achei. Usava uma cal\u00e7a sem bolsos. Ele se levantou, e perguntou se eu estava com sede. Respondi que sim, mas n\u00e3o tinha dinheiro. Eu n\u00e3o queria entrar em detalhes e explicar que n\u00e3o sabia o que fazia ali. E al\u00e9m de perdido, ainda estava sem nenhum documento. Ele me serviu uma \u00e1gua mineral em garrafa de vidro. Olhava desconfiado, me examinando de cima a baixo.\u00a0 Isso me deixou um pouco tenso. Bebi a \u00e1gua lentamente, aos tragos. Num giro de pesco\u00e7o, corri os olhos pelo ambiente. Examinei as paredes a fim de encontrar algum ind\u00edcio que pudesse me localizar no mapa. Deparei com um telefone p\u00fablico, vermelho. Daqueles que utilizavam fichas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAinda funciona?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cClaro. Quer ligar para algu\u00e9m?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respondi de modo afirmativo, meneando a cabe\u00e7a. Temia que ele me perguntasse se eu estava perdido. Certamente eu exibia um semblante extraviado. Uma cara de quem n\u00e3o estava ali. Como se minha alma e meu corpo tivessem se desencontrado. E foi exatamente o que ele quis saber. Meio ressabiado, achei melhor negar. Inventei que estava numa festa. Aborrecido com a bebedeira geral, resolvi cair fora antes do fim. Precisava apenas entrar em contato com algu\u00e9m que pudesse me buscar, ou chamar um t\u00e1xi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEra uma festa \u00e0 fantasia?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esbocei um sorriso. Julguei que fosse uma piada. Ele olhava detidamente para minhas vestes. Eu n\u00e3o havia me tocado. Estava usando uma esp\u00e9cie de farda. Cinza, semelhante a do pessoal de \u201cservi\u00e7os gerais\u201d. Uma sigla bordada na camisa, SSP. Uma mentira nunca vem sozinha. Sempre precisa de outras para sustent\u00e1-la. E no arrepio daquele clima inamistoso, forjar uma farsa plaus\u00edvel n\u00e3o era tarefa das mais f\u00e1ceis. Peguei a primeira roupa que vi pela frente, falei. Dito assim, mais parecia egresso de um grande bacanal. Arrumei uma piscina, churrasco e todo mundo em trajes de banho.\u00a0 O cen\u00e1rio estava devidamente montado. Era s\u00f3 evitar os detalhes. \u00c9 neles que a gente trope\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele desligou a TV e ligou o r\u00e1dio numa esta\u00e7\u00e3o AM. Pediu para que eu ficasse \u00e0 vontade. Iria l\u00e1 dentro e j\u00e1 voltava. Sua voz gutural ecoava por tr\u00e1s dos engradados de Crush. Conversava com algu\u00e9m que, ao contr\u00e1rio dele, n\u00e3o se podia ouvir a voz. Tentei escutar a conversa, mas o r\u00e1dio atrapalhava. O locutor esbravejava contra o comunismo, subversivos, terroristas. De fundo, o hino nacional. Ele voltou, express\u00e3o ainda carregada. Disse que n\u00e3o passava t\u00e1xi \u00e0quela hora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu aceito aquela ficha que o senhor me ofereceu.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o conseguia completar a chamada. Tornei a perguntar se aquele aparelho funcionava. At\u00e9 o in\u00edcio da noite haviam feito v\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es nele, me respondeu. Ap\u00f3s dezenas de tentativas, eu desisti. Meu dedo estava doendo de tanto de discar. Agradeci e deixei a ficha sobre o balc\u00e3o. Ele continuava a me fitar de modo inquisidor. Eu mal conseguia disfar\u00e7ar o inc\u00f4modo que aquela situa\u00e7\u00e3o estava me causando. O c\u00e9u estava apagado. Nenhuma estrela ousava cintilar. O tempo se arrastava. H\u00e1 quem acredite que universo conspira a seu favor. Ou a seu rev\u00e9s. A segunda op\u00e7\u00e3o parecia se anunciar. Tudo estava harmoniosamente combinado contra mim. \u201cFique atento aos sinais\u201d &#8211; me disse minha m\u00e3e, poucos dias antes de atear fogo ao pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTem certeza que discava o n\u00famero certo? Parecia ter n\u00famero demais&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTenho sim. O senhor n\u00e3o teria um celular para me emprestar?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele apertou os olhos, como se n\u00e3o tivesse entendido o que eu havia perguntado. Um telefone celular, o senhor n\u00e3o tem? Voltei a dizer, frisando bem cada palavra. Continuou me encarando, cenho franzido. Olhou para o rel\u00f3gio e, de forma um pouco \u00e1spera, respondeu peremptoriamente: &#8220;n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu cogitei sair dali. Continuar andando, ver se encontrava alguma rodovia, pista, canal, o diabo que fosse. O embara\u00e7o das mentiras me corro\u00eda. N\u00e3o conseguia mais encar\u00e1-lo. De repente, um barulho de motor. O dono do bar saiu de tr\u00e1s do balc\u00e3o. Ficou perto de mim, em posi\u00e7\u00e3o ostensiva. Apesar de bastante nervoso, me recostei no balc\u00e3o. Queria aparentar tranquilidade. Tomei mais um gole de \u00e1gua. Quem sabe, algu\u00e9m que pudesse me dar uma carona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois policiais entraram. Sem falar nada, vieram em minha dire\u00e7\u00e3o. Coloquei as m\u00e3os na cabe\u00e7a e perguntei o que estava acontecendo. Me mandaram virar de costas. Fui revistado. Em seguida, me algemaram bra\u00e7os e pernas. Conduzido ao cambur\u00e3o, percebi que era in\u00fatil fazer qualquer questionamento. Nem eu mesmo sabia o que fazia naquele lugar, \u00e0quela hora. Ir a uma delegacia n\u00e3o era mau neg\u00f3cio. Assim eu saberia onde me encontrava. Poderia ligar para um conhecido, me identificar. Estaria tudo resolvido. Do fundo da Veraneio, ouvi o dono do bar falando com os policiais:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 do S\u00e3o Pedro, com certeza. Procurei saber se era funcion\u00e1rio, mas ele inventou um monte de coisa. Falou que tinha sa\u00eddo de uma festa numa piscina, ligou para um n\u00famero inexistente e perguntou se eu tinha telefone celular.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTelefone o qu\u00ea?\u201d &#8211; indagou um dos guardas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cTelefone celular\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ca\u00edram na gargalhada. Um dos policiais disse que n\u00e3o haviam recebido nenhum telefonema de &#8220;l\u00e1&#8221;. Mas tudo indicava que era mesmo um &#8220;fugido&#8221; do S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, a sigla bordada na minha camisa. SSP. Era \u00f3bvia a constata\u00e7\u00e3o: as duas \u00faltimas letras significavam S\u00e3o Pedro. Mas, e o primeiro &#8220;S&#8221;? O que significava aquele primeiro &#8220;S&#8221;? O carro arrancou em alta. Comecei conjecturar as possibilidades. Sal\u00e3o? Sindicato? Simp\u00f3sio? Semin\u00e1rio? Com assombro, a inc\u00f3gnita se desvelou. Um port\u00e3o imponente se abriu. Acima dele, a inscri\u00e7\u00e3o em ferro trabalhado formando um arco. Entrei em p\u00e2nico s\u00f3 de pensar. Inje\u00e7\u00f5es, choques, camisa-de-for\u00e7a. Huxley falou em abrir as portas da percep\u00e7\u00e3o. Eu tive a percep\u00e7\u00e3o das portas abertas. Deram um enorme vacilo. Certas oportunidades n\u00e3o cruzam duas vezes o nosso caminho. Haviam me tirado as algemas. Deixaram o fundo do cambur\u00e3o aberto. O port\u00e3o, escancarado. A liberdade gritou meu nome. Sa\u00ed em disparada. Pela frente, um blecaute absoluto. Nem sei se havia algum caminho pronto. O breu n\u00e3o oferece alternativas, \u00e9 a aus\u00eancia delas. Correr de olhos fechados era mais seguro. Eu podia vislumbrar o trajeto. Dar lume \u00e0 fantasia \u00e9 a melhor forma de evitar as armadilhas da escurid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei dizer por quanto tempo corri. S\u00f3 parei quando estava esgotado. No limite das minhas for\u00e7as. Ao abrir os olhos, uma estradinha de cascalho. Cheiro de barro molhado. Aula de artes no prim\u00e1rio, trabalhos em argila. Meu pai carcomido pelo v\u00edcio. Tudo me era incrivelmente familiar. Aquela claridade l\u00e1 adiante. Uma espelunca metida a <em>vintage<\/em>, bar 24 horas. Atr\u00e1s do balc\u00e3o vou encontrar um velhote de cara amarrada, tenho certeza. Enfim, posso respirar aliviado. Achei o caminho de casa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Marcus Borg\u00f3n<\/em><\/strong><em> colaborou com a revista de cultura e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais, sites especializados em literatura, e colet\u00e2neas de contos. \u00c9 autor da novela juvenil O P\u00eanalti Perdido (P55 edi\u00e7\u00f5es, 2016).<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Medidas delirantes da vida num conto de Marcus Borg\u00f3n <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,2534,16],"tags":[81,41,1258,3954,3955,149],"class_list":["post-18459","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-dedos-de-prosa","category-destaques","tag-conto","tag-dedos-de-prosa","tag-delirios","tag-marcus-borgon","tag-pesadelo","tag-prosa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18459","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18459"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18462,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18459\/revisions\/18462"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}