{"id":18484,"date":"2021-02-25T10:04:17","date_gmt":"2021-02-25T13:04:17","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18484"},"modified":"2021-02-28T16:08:17","modified_gmt":"2021-02-28T19:08:17","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-75\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Fabr\u00edcio Brand\u00e3o<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um autor \u00e9 esse ser que engendra mundos a partir do mundo, mobiliza cen\u00e1rios, personagens e narrativas capazes de corresponderem aos des\u00edgnios da palavra gestada. Aquele que tece hist\u00f3rias, posto que \u00e9 observador, c\u00famplice ou at\u00e9 mesmo o que vive as situa\u00e7\u00f5es transpostas para o texto que brota do branco, por vezes angustiante, duma p\u00e1gina nascente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas eis que escrever pode ser resistir ou capitular, como disse certa feita o escritor Juli\u00e1n Fuks aqui pelas bandas da revista. Qui\u00e7\u00e1 para muitos seja \u00edmpeto de uma esp\u00e9cie de sobreviv\u00eancia que intenta suplantar os efeitos da realidade em nossas vidas. Pode ser enfrentar antigos e comezinhos fantasmas, mergulhar em outras personas ou simplesmente inventar tudo a partir do absoluto nada. Pode ser um desejoso exerc\u00edcio de liberdade, inst\u00e2ncia em que criadores abandonam certos fardos que atravessam suas trajet\u00f3rias pessoais. Indo mais al\u00e9m, talvez escrever n\u00e3o care\u00e7a mesmo de explica\u00e7\u00e3o alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns escritores acendem em n\u00f3s uma instigante vontade de compreendermos um pouco dos seus processos criativos. Nesse \u00ednterim, importam tanto aspectos ficcionais quanto aqueles que guardam alguma correspond\u00eancia com a explos\u00e3o da chamada vida real (se \u00e9 que podemos classific\u00e1-la assim). Um autor como <strong>Renato Tardivo <\/strong>nos provoca, com sua obra, a pensarmos um pouco sobre tais quest\u00f5es, sobretudo no territ\u00f3rio das experi\u00eancias que podem servir como alimento \u00e0s narrativas materializadas em livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tendo na bagagem os livros de contos \u201cDo avesso\u201d (Com-Arte\/USP) e \u201cGirassol voltado para a terra\u201d (Ateli\u00ea), o momento presente reserva a Renato o experimentar dos desdobramentos tidos com seu primeiro romance, \u201cNo instante do c\u00e9u\u201d, recentemente lan\u00e7ado pela editora Reformat\u00f3rio. Em seu novo rebento, o escritor chama aten\u00e7\u00e3o para alguns sintomas de nossa contemporaneidade, principalmente aqueles que perpassam o territ\u00f3rio complexo das rela\u00e7\u00f5es afetivas. Com sua narrativa \u00e1gil e que dialoga com uma esp\u00e9cie de legado das mem\u00f3rias, a tem\u00e1tica do amor aparece marcada pela pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o da instabilidade do sujeito diante da compress\u00e3o tempo-espa\u00e7o e de outros fatores mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Renato Tardivo tamb\u00e9m \u00e9 professor colaborador do Instituto de Psicologia da USP e atua como psicanalista. De forma bastante gentil e atenciosa, ele acolheu a Diversos Afins para uma conversa sobre seus caminhos liter\u00e1rios, especialmente aqueles relativos ao novo livro, al\u00e9m de refletir em torno de algumas quest\u00f5es que tamb\u00e9m implicam num breve olhar sobre o mundo. O resultado do di\u00e1logo ganhou subst\u00e2ncia e corpo na entrevista que agora segue.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18551\" aria-describedby=\"caption-attachment-18551\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-ii.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18551 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-ii.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-ii.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-ii-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18551\" class=\"wp-caption-text\">Renato Tardivo \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; &#8220;No instante do c\u00e9u&#8221; apresenta uma estrutura que chama a aten\u00e7\u00e3o logo de imediato. S\u00e3o tr\u00eas inst\u00e2ncias narrativas que se entrecruzam, embora em tempos de ocorr\u00eancia distintos, e que se prestam a dar corpo e ritmo ao romance. O que dizer dessa escolha?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Eu vinha perseguindo a escrita de um romance j\u00e1 h\u00e1 algum tempo. Mas as narrativas terminavam em conto ou novela &#8211; e foram publicadas (o conto \u201cSilente\u201d, do livro de mesmo nome, em 2012, e a novela \u201cCastigo\u201d, que saiu em e-book, em 2015). Uma das inst\u00e2ncias narrativas de \u201cNo instante do c\u00e9u\u201d, em sua primeira vers\u00e3o, foi escrita antes das demais, tamb\u00e9m com o intuito de resultar em romance. Quando a conclu\u00ed, notei que poderia ter no m\u00e1ximo uma novela &#8211; e nada contra esses g\u00eaneros, muito pelo contr\u00e1rio, mas queria mesmo experimentar o romance. Da\u00ed, aproveitei um aspecto dessa primeira inst\u00e2ncia (de onde aquele narrador em segunda pessoa escreve e revisita suas mem\u00f3rias, no presente, no instante da escrita) e mergulhei nesse outro tempo, desenvolvendo uma segunda inst\u00e2ncia. Concomitante a isso, j\u00e1 que seria um livro fragmentado, intu\u00ed que o eixo das redes sociais e mesmo a inclus\u00e3o de textos liter\u00e1rios produzidos pelo narrador (que tamb\u00e9m \u00e9 escritor) poderiam fazer parte dessa unidade fragmentada que, entre outras coisas, tematiza separa\u00e7\u00f5es, atravessamentos entre biografia e fic\u00e7\u00e3o e o pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; A ideia de fragmenta\u00e7\u00e3o, por sinal, \u00e9 muito associada \u00e0s experi\u00eancias que vivemos hoje, sobretudo no terreno da intera\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s das m\u00eddias sociais. E voc\u00ea lan\u00e7a m\u00e3o desse recurso no livro, quando, por exemplo, insere na narrativa conversas de whatsapp. Acredita que, numa era influenciada pelo excesso de informa\u00e7\u00f5es e outras tantas urg\u00eancias, a no\u00e7\u00e3o de sujeito aparece desestabilizada sob o ponto de vista emocional?\u00a0<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Creio que sim. H\u00e1, por um lado, o excesso de informa\u00e7\u00f5es, as muitas janelas, o tal encurtamento das dist\u00e2ncias, mas, por outro, via de regra majorit\u00e1rio, a desimplica\u00e7\u00e3o dos sujeitos, a banaliza\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias, algo que talvez seja, a um s\u00f3 tempo, causa e consequ\u00eancia dessa desestabiliza\u00e7\u00e3o emocional a que voc\u00ea se refere. Nesses tempos pand\u00eamicos, ali\u00e1s, temos vivido essa tens\u00e3o como nunca, n\u00e3o \u00e9? Retornando, ent\u00e3o, ao\u00a0romance, acredito que a fragmenta\u00e7\u00e3o da narrativa, a\u00ed inclu\u00eddas as intera\u00e7\u00f5es via m\u00eddias sociais, se insere tanto na crise que o narrador vivencia &#8211; ele se fragmenta &#8211; como tamb\u00e9m em seu processo de reconstru\u00e7\u00e3o. Ir encontrando esse narrador \u00e0 medida que escrevia o livro foi uma experi\u00eancia bastante interessante. De certo modo, o narrador procura ir contra a corrente, quando tenta inserir comunica\u00e7\u00f5es\u00a0aut\u00eanticas, carregadas de afeto, em postagens de Facebook ou mensagens de WhatsApp, por exemplo. H\u00e1 nesse movimento uma procura por di\u00e1logo, tanto que ocorre uma invers\u00e3o importante para a trama ao final, envolvendo a inst\u00e2ncia narrativa das m\u00eddias sociais&#8230; Mas se falasse mais a sobre isso, daria <em>spoiler<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 no entrela\u00e7amento das mem\u00f3rias que o seu romance encontra uma boa medida para seu fluxo e encadeamento. Isso sugere uma provoca\u00e7\u00e3o, qual seja a de vislumbrar como lidamos com\u00a0 nossos sentimentos no territ\u00f3rio vol\u00e1til das lembran\u00e7as. Podemos supor que o sujeito contempor\u00e2neo \u00e9 este ser que vai se dissolvendo diante das situa\u00e7\u00f5es vividas e das trai\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Obrigado pelo coment\u00e1rio sobre o fluxo e o encadeamento do livro, bem como sobre a provoca\u00e7\u00e3o que a narrativa pode sugerir. E talvez haja a\u00ed um paradoxo interessante: o fato de nos constituirmos no territ\u00f3rio vol\u00e1til das lembran\u00e7as implica o reconhecimento dessa circunst\u00e2ncia, de modo que possamos desenvolver recursos para lidar com isso sem que nos dissolvamos. A no\u00e7\u00e3o do &#8220;instante do c\u00e9u&#8221;, esse tempo que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, mas por meio do qual as rela\u00e7\u00f5es se estabelecem, tamb\u00e9m toma essa dire\u00e7\u00e3o. De resto, o reconhecimento das trai\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria \u00e9, tamb\u00e9m, assumir que a vida em certa medida se constitui enquanto fic\u00e7\u00e3o. E isso n\u00e3o significa que biografia e fic\u00e7\u00e3o devam ser tomadas uma pela outra, o que seria muito problem\u00e1tico, mas que a mera oposi\u00e7\u00e3o entre os dois registros \u00e9 t\u00e3o problem\u00e1tica quanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<figure id=\"attachment_18552\" aria-describedby=\"caption-attachment-18552\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_2720.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18552\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_2720.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_2720.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/IMG_2720-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18552\" class=\"wp-caption-text\">Renato Tardivo \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Pensar autobiografia e autofic\u00e7\u00e3o, por exemplo, sempre rende debates nada pacificados. Acredita que as fronteiras que perpassam tais termos s\u00e3o bastante t\u00eanues e ao mesmo tempo problem\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>\u00c9 isso. H\u00e1 quem afirme que toda fic\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma autofic\u00e7\u00e3o. Analogamente, h\u00e1 quem diga que toda biografia se constitui enquanto fic\u00e7\u00e3o. A obra cinematogr\u00e1fica de Eduardo Coutinho, que venho pesquisando nos \u00faltimos anos, \u00e9 um prato cheio para encaminhar essa quest\u00e3o. Seus document\u00e1rios, sobretudo a partir de \u201cSanto forte\u201d (1999), parecem transmitir a impossibilidade de se filmar a verdade. O que se pode tentar fazer, dizia Coutinho, \u00e9 explicitar a verdade da filmagem. No filme-ensaio \u201cJogo de cena\u201d (2007), ele levou esses questionamentos ao limite, por meio da pr\u00f3pria linguagem do cinema. Creio que o mesmo vale para a discuss\u00e3o sobre autobiografia, biografia, autofic\u00e7\u00e3o e fic\u00e7\u00e3o. Devem-se respeitar as fronteiras &#8211; h\u00e1, evidentemente, especificidades entre os g\u00eaneros -, mas mesmo a mais respeitosa biografia (ou autobiografia) passar\u00e1 pelo filtro de quem a escreve. E se toda apreens\u00e3o da realidade \u00e9 atravessada pelo ponto de vista, pelas fantasias, em suma, pelo lugar de quem a apreende, sempre haver\u00e1 algo de fic\u00e7\u00e3o no processo. Da mesma forma, toda fic\u00e7\u00e3o guardar\u00e1 em alguma medida correspond\u00eancias com a realidade material, hist\u00f3rica, de quem a cria. Talvez por isso eu procure trabalhar os mecanismos de constru\u00e7\u00e3o da minha fic\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito dos pr\u00f3prios textos. &#8220;Ah, mas isso de metalinguagem j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o batido&#8221;, dizem alguns. Eu tenho c\u00e1 minhas d\u00favidas quanto a isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Sua lembran\u00e7a em torno de Eduardo Coutinho \u00e9 bastante pertinente. No document\u00e1rio &#8220;Santo Forte&#8221;, por exemplo, o cineasta tem uma sacada genial sobre como representar depoimentos que narram manifesta\u00e7\u00f5es espirituais ocorridas em alguns lugares. Ele simplesmente filma os ambientes vazios, ou seja, sem a presen\u00e7a humana, onde tais fatos ocorreram. E isso n\u00e3o deixa de ser uma provoca\u00e7\u00e3o sobre a representa\u00e7\u00e3o da verdade em situa\u00e7\u00f5es que demandam um suporte imag\u00e9tico aos relatos que est\u00e3o sendo expostos diante de lembran\u00e7as debru\u00e7adas sobre o intang\u00edvel. Essa, digamos assim, sa\u00edda pela linguagem \u00e9 reveladora tanto para o cinema quanto para a literatura, n\u00e3o?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Concordo com voc\u00ea, ainda mais no cinema que Coutinho praticava, um \u201ccinema de conversa\u201d. A cena antol\u00f3gica do quintal, em \u201cSanto forte\u201d (1999), \u00e9 a filmagem do invis\u00edvel. N\u00e3o por acaso esse filme marca o in\u00edcio da \u00faltima e, para mim, mais interessante fase da obra dele &#8211; evidentemente, n\u00e3o podemos desconsiderar filmes excelentes anteriores a esse per\u00edodo: \u201cCabra marcado para morrer\u201d (1984), a prop\u00f3sito, \u00e9 um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro de todos os tempos. Mas, de fato, esses momentos de sil\u00eancio s\u00e3o muito reveladores. A sequ\u00eancia final de \u201cPe\u00f5es\u201d (2004) &#8211; quando ap\u00f3s alguns intermin\u00e1veis segundos de sil\u00eancio o entrevistado, Geraldo, emerge de uma esp\u00e9cie de po\u00e7o de ang\u00fastia e pergunta, triunfante, a Coutinho: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 foi pe\u00e3o?\u201d &#8211; tamb\u00e9m toma essa dire\u00e7\u00e3o. O plano final (um contracampo) de \u201cJogo de cena\u201d (2007), idem. No caso da obra de Coutinho, tratava-se de uma combina\u00e7\u00e3o entre uma s\u00e9rie de conting\u00eancias que ele se impunha na filmagem e um sofisticado trabalho de montagem. O efeito que ele buscava era a descoberta de \u201cpersonagens reais\u201d. Acredito, dessa forma, na pot\u00eancia da linguagem, como dizia Merleau-Ponty, enquanto sil\u00eancio: a palavra que diz ao renunciar a dizer as coisas mesmas. Essa pot\u00eancia indireta e alusiva da linguagem tem a ver com a ren\u00fancia de Coutinho a filmar da verdade e pela op\u00e7\u00e3o pela verdade da filmagem, ou seja, por abrir-se ao novo, ao inesperado, \u00e0 alteridade radical, cuja apreens\u00e3o, no limite, \u00e9 imposs\u00edvel. \u00c9 nesse sentido que acredito na pot\u00eancia &#8211; po\u00e9tica e expressiva &#8211; da metalinguagem tamb\u00e9m na literatura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Na sua avalia\u00e7\u00e3o, tendo em vista o panorama contempor\u00e2neo de superexposi\u00e7\u00e3o da intimidade em que o p\u00fablico e o privado aparecem um tanto dilu\u00eddos entre si, a figura do autor foi bastante redimensionada?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Uma coisa \u00e9 a dilui\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e do privado; outra, atentar para sua correspond\u00eancia, suas especificidades e seus limites. H\u00e1 uma passagem do meu livro em que o narrador transcreve e-mails que seus pais, personagens do romance, teriam lhe enviado. E no mesmo cap\u00edtulo o narrador diz algo como nem essa troca de mensagens se pode garantir que ocorreu. Quer dizer, enquanto autor, eu estava interessado em exacerbar as ambiguidades entre realidade e fic\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o em dilu\u00ed-las. Cristov\u00e3o Tezza, em \u201cO filho eterno\u201d (2007), e Michel Laub, em \u201cDi\u00e1rio da queda\u201d (2011), para citar apenas dois casos, constru\u00edram narradores s\u00f3lidos, consistentes mesmo, em romances que vieram para ficar. Nesse sentido, o redimensionamento em curso da figura do autor tem menos a ver com a (ou o que se costuma chamar de) autofic\u00e7\u00e3o, e mais com a volatilidade das experi\u00eancias, o tr\u00e2nsito banalizado entre o p\u00fablico e o privado, a vaidade, a necessidade do mercado em eleger o autor ou a autora da vez, para no ano seguinte ningu\u00e9m mais se lembrar deles, enfim, tendo a pensar por a\u00ed&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211;\u00a0 Em alguma medida, a sua viv\u00eancia com a psican\u00e1lise auxilia seus processos de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, principalmente no que se refere a pensar personagens e comportamentos?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Eu diria que ocorre o oposto: \u00e9 a minha viv\u00eancia com a literatura que me auxilia na psican\u00e1lise. Nunca me inspirei em um paciente para a cria\u00e7\u00e3o de uma personagem e sequer preciso me autocensurar nesse sentido: simplesmente n\u00e3o \u00e9 da cl\u00ednica que me vem a inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. S\u00e3o meus fantasmas, os v\u00ednculos de minha vida pessoal, enfim, o olhar voltado para dentro e para fora, \u00e9 da\u00ed que surgem minhas tramas. \u00c9 certo que o sigilo e os cuidados que envolvem a rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o espec\u00edfica entre terapeuta e paciente contribuem para que eu n\u00e3o fa\u00e7a da cl\u00ednica uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio para as minhas narrativas. Mas \u00e9, tamb\u00e9m, ineg\u00e1vel que a influ\u00eancia da psican\u00e1lise em minha forma de ler o mundo, a cultura, de me ler, enfim, est\u00e1 presente na minha literatura. E isso \u00e9 meio intuitivo, quase autom\u00e1tico &#8211; n\u00e3o paro para arquitetar uma trama psicanaliticamente orientada. Por outro lado, a inspira\u00e7\u00e3o e sensibilidade liter\u00e1rias, nas condi\u00e7\u00f5es de leitor e autor, atravessam a minha escuta na cl\u00ednica, minha forma de ler e procurar compreender o ser humano. Tentando resumir: n\u00e3o parto da psican\u00e1lise \u00e0 literatura, mas da literatura \u00e0 psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O mundo como est\u00e1 hoje lhe causa mais desassossego?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Sim, causa muito desassossego, medo, ang\u00fastia. Mas, por outra perspectiva, estamos vivendo um momento que demanda &#8211; e propicia &#8211; a introspec\u00e7\u00e3o, a reflex\u00e3o. Caso consigamos suport\u00e1-lo, o desassossego pode justamente ser canalizado para a amplia\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es e para a criatividade. Apesar de tudo, tive um 2020, em isolamento, muito produtivo. Vou citar de novo Merleau-Ponty: &#8220;toda tentativa de elucida\u00e7\u00e3o traz-nos de volta aos dilemas&#8221;. Se encaminharmos o desassossego nessa chave, enfrentando os dilemas e encontrando novas formas para encaminh\u00e1-los, ent\u00e3o teremos aprendido algo com essa experi\u00eancia t\u00e3o dolorosa que estamos atravessando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18553\" aria-describedby=\"caption-attachment-18553\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-i.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-18553\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-i.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"335\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-i.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/imagem-i-300x201.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18553\" class=\"wp-caption-text\">Renato Tardivo \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Seria insuport\u00e1vel conceber a realidade sem a Arte?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Acredito que sim, como de resto seria insuport\u00e1vel &#8211; e mesmo imposs\u00edvel &#8211; o contato com a realidade sem media\u00e7\u00f5es. Podem-se incluir a\u00ed a religi\u00e3o, o entretenimento, a pr\u00e1tica esportiva, enfim, s\u00e3o muitas as modalidades a que podemos recorrer para que a vida seja suport\u00e1vel &#8211; e poss\u00edvel. O que me parece central nesse aspecto s\u00e3o a qualidade das escolhas e a sua pertin\u00eancia de acordo com as especificidades de cada pessoa. \u00c9 comum ouvir que h\u00e1 quem busque nas artes um respiro. Eu tendo a achar bastante v\u00e1lida essa busca. Mas a quest\u00e3o \u00e9: respirar que ares? Nesse ponto, as artes me interessam porque promovem reflex\u00e3o, movimento, pensamento, e n\u00e3o aliena\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se por um lado as artes podem anestesiar um pouco a porrada que \u00e9 a vida, elas podem tamb\u00e9m, colocando-nos em contato com a dor, ser um atestado de que a porrada \u00e0s vezes \u00e9 suport\u00e1vel e &#8211; por que n\u00e3o? &#8211; desej\u00e1vel. Sem essa dial\u00e9tica, a realidade seria, sim, inconceb\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; O Renato Tardivo que agora publica seu primeiro romance \u00e9 muito diferente daquele que construiu seus outros livros de contos? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO &#8211; <\/strong>Com certeza \u00e9 diferente. Cada livro tem sua hist\u00f3ria e seu tempo pr\u00f3prios. O primeiro, &#8220;Do avesso&#8221; (Com-arte\/USP), que ficou pronto em 2010, re\u00fane contos escritos nos anos anteriores, bem como alguns produzidos j\u00e1 para o projeto do livro. Mas a experi\u00eancia com a sua repercuss\u00e3o foi fundamental para que eu tomasse contato, ali, com o nascimento de um escritor. De l\u00e1 para c\u00e1, houve um amadurecimento natural. Desse amadurecimento \u00e9 que surgem os narradores, as tramas e as experimenta\u00e7\u00f5es com a linguagem. Nesse sentido, sou hoje bastante diferente do que era quando escrevi os primeiros livros. H\u00e1, no entanto, tem\u00e1ticas que me acompanham desde o in\u00edcio e que procuro encaminhar de formas diferentes. Em um dos livros mais importantes da minha vida, &#8220;Lavoura arcaica&#8221; (1975), de Raduan Nassar, lemos que se pode &#8220;de uma corda partida, arrancar ainda uma nota diferente&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Afinal, por que escrever?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RENATO TARDIVO \u2013 <\/strong>\u201cN\u00e3o sei\u201d, eu poderia come\u00e7ar respondendo, e constato que j\u00e1 comecei respondendo dessa forma, n\u00e3o \u00e9? Ocorre que esse \u201cn\u00e3o sei\u201d n\u00e3o significa que n\u00e3o haja motivos importantes para escrever e seguir escrevendo. Posso ter, no m\u00ednimo, algumas pistas sobre esses motivos. Descobri a necessidade de escrever na mesma \u00e9poca em que a leitura deixou de ser algo ma\u00e7ante (como era durante boa parte da minha vida escolar) para se tornar, al\u00e9m de necess\u00e1ria, prazerosa. A partir da\u00ed, creio que retornamos \u00e0 linha tra\u00e7ada pela pergunta sobre o mundo sem as artes ser insuport\u00e1vel. Escrever \u00e9 uma forma de me manter vivo. Como j\u00e1 ouvi de Raduan Nassar algumas vezes, ao comentar sobre o tempo em que escrevia, a literatura era uma esp\u00e9cie de \u201ct\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o\u201d. Eu me identifico com essa perspectiva. E, se essa \u201ct\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o\u201d fizer sentido a outra pessoa, a uma outra pessoa que seja, \u00e9 porque houve di\u00e1logo, correspond\u00eancia. E isso \u00e9 vida. Agora, se essa forma de sobreviv\u00eancia (escrever fic\u00e7\u00e3o) vale a pena, vou recorrer de novo a Raduan. Em uma de suas raras apari\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, na Balada Liter\u00e1ria de 2012, organizada por Marcelino Freire em S\u00e3o Paulo, da qual Raduan era o autor homenageado, perguntaram da plateia: \u201cValeu a pena escrever?\u201d. Raduan fechou os olhos, pareceu buscar a resposta dentro de si e, ap\u00f3s alguns segundos de sil\u00eancio, disse resignado, voltando-se ao homem que havia feito a pergunta: \u201cN\u00e3o sei\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Fabr\u00edcio Brand\u00e3o <\/em><\/strong><em>\u00e9 frequentador do mundo da Lua, sonhador e aprendiz de gente. Se disfar\u00e7a no planeta como editor da Diversos Afins, poeta, baterista amador, mestre e, atualmente, doutorando em Letras, pesquisando eus que trafegam pelo mundo virtual. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Movido pela publica\u00e7\u00e3o de seu primeiro romance e outros afins, o escritor Renato Tardivo \u00e9 o nosso entrevistado <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18548,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,16,2539],"tags":[419,3977,63,137,887,3976,3010,496,65],"class_list":["post-18484","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-contos","tag-editora-reformatorio","tag-entrevista","tag-fabricio-brandao","tag-literatura","tag-no-instante-do-ceu","tag-renato-tardivo","tag-romance","tag-sabatina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18484","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18484"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18484\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18554,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18484\/revisions\/18554"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18484"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18484"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18484"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}