{"id":18492,"date":"2021-02-25T18:53:36","date_gmt":"2021-02-25T21:53:36","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18492"},"modified":"2021-04-07T16:07:07","modified_gmt":"2021-04-07T19:07:07","slug":"dedos-de-prosa-iii-71","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-iii-71\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa III"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Julia Sereno<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18494\" aria-describedby=\"caption-attachment-18494\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_1223-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18494 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_1223-2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_1223-2.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_1223-2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18494\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joice Kreiss<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PARTIR<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para deixar um lugar, \u00e9 preciso um pouco de coragem. Para deixar algu\u00e9m, \u00e9 preciso algo mais. Quando decidimos partir um la\u00e7o feito de cheiros e gostos, sorrisos e l\u00e1grimas, gozo e frustra\u00e7\u00e3o, sa\u00edmos de uma estrada com placas rumo ao campo sem trilhas. Deixar algu\u00e9m \u00e9 deixar uma parte de mim, do meu todo e do meu nada. Deixar algu\u00e9m \u00e9 mergulhar no vazio, buscar o completo e nadar no incerto. Deixei muitas vezes. E me deixaram tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TRA\u00c7OS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia ignorado muitos detalhes na esperan\u00e7a de que se protegeria do susto. Mas o universo n\u00e3o falha em nos empurrar ladeira abaixo. Ou seria ladeira acima?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensou nos anos de terapia e nas horas de rascunho. Orgulhou-se da coragem de dizer chega. Envergonhou-se de n\u00e3o conseguir evitar o \u00f3bvio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivia um dia ap\u00f3s o outro sem abrir os envelopes. Sabia que se procurasse bem, acharia tra\u00e7os sem tempo definido. E n\u00e3o queria encontrar mais nada. S\u00f3 paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>NA TERRA DE PESSOA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ladeiras que n\u00e3o me cansam. Caminhos que n\u00e3o me fogem. Descanso o medo na grama do jardim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acolho o novo sem perder o que era. Avisto o Tejo e ganho mais um suspiro. Brindo \u00e0 Lisboa por mudar o fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>TEMPOS E ESPA\u00c7OS<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coloco-me prazos inacabados. Mantenho dist\u00e2ncia insegura. Quando n\u00e3o dou conta, j\u00e1 passei da hora e ultrapassei a linha de chegada. Muitas vezes corri. Em desespero. Pernas cansadas, mas cara lavada. Rumo ao pr\u00f3ximo salto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De longe avisto uma ladeira poss\u00edvel. Subo com passos de formiga. No topo espero uma mulher como eu. Quem \u00e9 ela, afinal? O sonho que habita meu tempo derrete no espa\u00e7o da cidade. Nada ser\u00e1 como antes no meu castelo de areia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FLUXO<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o conseguia esconder o arrepio na espinha. De quem decide seguir sem pedir permiss\u00e3o. Talvez a intui\u00e7\u00e3o n\u00e3o falhasse e a reta final fosse menos torta do que as anteriores. O antes se espalhou com o vento. As retas viraram pontilhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desejava um c\u00edrculo de luzes. Sem maquiagem, mas com cores. Sem roupa, mas com m\u00e1scaras. Sem \u00e1lcool, mas com cogumelos. O tudo a perder faria todo o sentido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>PARTO <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos mesmo morrer para nascer de novo? J\u00e1 perdi a conta de quantas vezes eu vi uma mulher diferente no espelho pela manh\u00e3. Ou mesmo antes de deitar na cama para ler a fic\u00e7\u00e3o sonhada ao longo do dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O modo como saio de casa e piso na cal\u00e7ada, com \u00f3culos de sol e a bolsa pesada, define a rota de desencontros nas ruas da aldeia onde moro. Uma aldeia global. Uma cidade que n\u00e3o me define, mas que n\u00e3o quero abandonar t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A di\u00e1spora nos torna um pouco rebeldes. Depois que partimos, renascemos. E n\u00e3o paramos mais. Todos os dias. O choro grita a confus\u00e3o do que nos espera. O colo acolhe o medo de perder. A luz de Lisboa colore o meu mapa astral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DI\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desver a luz que o tempo nos oferece. Li algo assim nas palavras de um escritor que muito admiro. Era parte de um relato de seus dias na quarentena. Dias de ang\u00fastia, de raiva, de desejos reprimidos e de aus\u00eancias doloridas. Confesso que, ao ler seu texto, a inspira\u00e7\u00e3o bateu na porta que me separa da prosa livre. Porta constru\u00edda por mim. Fruto de desculpas rid\u00edculas, inventadas para escapar do que \u00e9 inevit\u00e1vel. Uma certa melancolia sempre habitou minhas tentativas de di\u00e1rio. Seriam os livros de Clarice na estante?<\/p>\n<p>J. me deu um belisc\u00e3o no bra\u00e7o e aqui estou, sem filtro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dias passam acelerados, envoltos em uma camada espessa de ansiedade e procrastina\u00e7\u00e3o. Falamos sobre a morte em uma conversa de botequim, de m\u00e1scaras, mas com a cerveja gelada no copo. O barulho das sirenes n\u00e3o me assusta mais. Tenho vontade de comprar livros e sentar no banco da pra\u00e7a. Talvez com uma m\u00e9dia de leite. N\u00e3o sei mais se quero fazer o que planejei. O presente n\u00e3o est\u00e1 aceitando planos. Todos os dias uma nova ideia me convida para um ch\u00e1 na padaria. Por vezes n\u00e3o apare\u00e7o. E n\u00e3o lamento. Virei rebelde depois dos 40. Talvez seja o ascendente em \u00e1ries.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero passar mais tempo contando est\u00f3rias para meu filho. Hoje farei arroz-doce.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>ABRA\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vou esperar um pouco mais, disse F., com medo de perd\u00ea-lo de vista. H\u00e1 anos procurava um abra\u00e7o que durasse para sempre. Sabia que n\u00e3o existia tal coisa, mas mesmo assim, continuava a buscar. O pouco n\u00e3o a interessava. Um dia acenou para M. na confeitaria da esquina e resolveu lhe oferecer um sorriso. Ap\u00f3s muitos passos sem rumo pediu a eternidade do abra\u00e7o. N\u00e3o aconteceu. Escondeu o sorriso at\u00e9 a pr\u00f3xima primavera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Julia Sereno<\/em><\/strong><em> nasceu em 1978 no Rio de Janeiro, mas reside em Lisboa desde 2020.\u00a0 \u00c9 professora de ingl\u00eas e portugu\u00eas, Mestre em Estudos da Literatura e Doutoranda em Literaturas de L\u00edngua Inglesa pela UERJ. Tem poemas e minicontos publicados em revistas e em sua p\u00e1gina no Medium.\u00a0<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O car\u00e1ter confessional dos minicontos de Julia Sereno<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18494,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,2534],"tags":[41,3963,3964,276],"class_list":["post-18492","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-dedos-de-prosa","tag-jula-sereno","tag-medium","tag-minicontos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18492","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18492"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18492\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18497,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18492\/revisions\/18497"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18494"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18492"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18492"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18492"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}