{"id":18498,"date":"2021-02-25T19:05:58","date_gmt":"2021-02-25T22:05:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18498"},"modified":"2021-04-07T16:06:55","modified_gmt":"2021-04-07T19:06:55","slug":"aperitivodapalavraii-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavraii-4\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra II"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Formas de Cair: Um Projeto de N\u00e3o Ser! <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Rita Santana<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/capa-formas-de-cair.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18523\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/capa-formas-de-cair.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/capa-formas-de-cair.jpg 291w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/capa-formas-de-cair-194x300.jpg 194w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<em>Eu, filho do carbono e do amon\u00edaco,\/Monstro de escurid\u00e3o e rutil\u00e2ncia<\/em>.\u201d Eis a ep\u00edgrafe do livro <em>Formas de Cair &amp; outros poemas <\/em>(Letra Capital)<em>,<\/em> do escritor Sandro Ornellas, cujo paradoxo final guiar\u00e1, sobremaneira, o livro e o sujeito de enuncia\u00e7\u00e3o, ambos imersos em jogos de luz e sombra. \u00c9 preciso demolir os velhos paradigmas &#8211; quando opressivos &#8211; e Sandro os conhece de muito perto, com profundidade porque sabe das suas funda\u00e7\u00f5es e dos seus pilares estruturais. Ao trazer Augusto dos Anjos, o maldito, prepara os esp\u00edritos leitores para as estranhezas capturadas pela vida afora e trazidas \u00e0 luz para que n\u00f3s as vejamos sem filtro, sem maquiagem; na crueza e no malabarismo das desventuras existenciais suspensas aqui. Tudo ornado com apuro e requinte l\u00edrico. O leitor, que tenha certa proximidade com o escritor, n\u00e3o ficar\u00e1 imune aos conflitos e dilemas criados para este projeto que temos em m\u00e3os. Por\u00e9m, o precip\u00edcio ser\u00e1 lan\u00e7ado, inescapavelmente, a qualquer leitora ou leitor que o abra: estaremos em plena queda!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0O livro \u00e9 dividido em tr\u00eas partes: 1. ROMANCE DEFORMA\u00c7\u00c3O, 2. URBI ET ORBI e 3. FORMAS DE CAIR.\u00a0 Na primeira se\u00e7\u00e3o, o Poeta ironiza, questiona, ludibria conceitos e a seriedade do universo em que vive, em que tece exist\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o, o universo acad\u00eamico. Temos expostos alguns procedimentos de desconstru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio c\u00e2none e descontra\u00e7\u00e3o p\u00e2ndega de pilares caros \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o. O autor j\u00e1 nos lan\u00e7a uma provoca\u00e7\u00e3o inicial, ao intitular o primeiro movimento do livro, onde aciona um desconcerto entre os g\u00eaneros e indica den\u00fancias de &#8220;deformidades&#8221; ou &#8220;deforma\u00e7\u00f5es&#8221; primordiais, de origem, que formam o sujeito do enunciado. O humor \u00e9, certamente, um dos pilares da sua obra: o riso, o desconcerto, o sarcasmo e a ironia. Constam desse momento poemas que demarcam o territ\u00f3rio da Identidade. O sujeito po\u00e9tico est\u00e1 em busca de um eu que se funde em tantos outros e que, juntos, engendram uma unidade absolutamente tosca, culminando em um processo de constru\u00e7\u00e3o de um autorretrato cubista. Talvez o autorretrato tecido seja um caleidosc\u00f3pio absolutamente revelador de assimetrias e incertezas. Um Pablo Picasso, demolindo as expectativas em torno do que seria um autorretrato. Diante de uma sociedade cada vez mais \u00e1vida por defini\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, exigindo que o indiv\u00edduo assuma uma identidade definitiva, torna-se um transtorno n\u00e3o ter ou n\u00e3o ser uma resposta. Uma sociedade capaz de reger processos excludentes aos que n\u00e3o estiverem de acordo, aos que n\u00e3o se encontram dentro de um pacote fechado do que seja considerado um modelo identit\u00e1rio, dentro dos padr\u00f5es, das nomenclaturas poss\u00edveis e aceit\u00e1veis, em determinado tempo e contexto social espec\u00edfico.\u00a0 O eu po\u00e9tico, enf\u00e1tico, desilude-nos, de cara, ao negar tais possibilidades, ainda no poema <em>1. (inquietante rosto)<\/em>:<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;\u00a0<\/span> inquietante rosto<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>que n\u00e3o sabem<br \/>\n<span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/span>nunca saber\u00e3o<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/span>ex-crer-ver<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao dissecar e expor o ato da escrita, no desnudamento da palavra, ele tenta nos persuadir \u00e0 desist\u00eancia: \u00e9 in\u00fatil tentar decifrar palavra e rosto. Enquanto tantas identidades convivem, contaminam-se, flertam com outras, num interc\u00e2mbio cada vez mais violento, veloz, fluido ou l\u00edquido, pois mediado pelos processos tecnol\u00f3gicos, transcendentais, ancestrais, inauditos e geogr\u00e1ficos que seguem o fluxo complexo e mut\u00e1vel da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Processos que sempre estiveram em nosso\/seu \u00e2mago e perpetuar-se-\u00e3o at\u00e9 a morte do Ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O dialogismo ainda nos atravessa, durante a leitura do primeiro poema.\u00a0 A Terceira Margem do Rio de Guimar\u00e3es Rosa nos chega, atrav\u00e9s da primeira estrofe: \u201c<em>terceira via\/terceiro homem\/terceiro olho\u201d.<\/em> Aqui, j\u00e1 temos uma condi\u00e7\u00e3o existencial que transp\u00f5e a l\u00f3gica regente do universo dos homens. Transitaremos numa terceira margem, alargando nossos limitados horizontes, nossa vis\u00e3o, nosso olhar, num sentido hol\u00edstico sugerido pelo pr\u00f3prio Poeta. O eu da escritura deixa-nos com o indecifr\u00e1vel que \u00e9: <em>\u201cinquietante rosto\/que n\u00e3o sabem\/nunca saber\u00e3o.\u201d<\/em> O tom prof\u00e9tico j\u00e1 aniquila qualquer esperan\u00e7a de compreens\u00e3o futura. Mais que um rosto, uma identidade impenetr\u00e1vel. Descrever, \u201c<em>ex-crer-ver\u201d, <\/em>virar o avesso da palavra, separar-se dela, da cren\u00e7a, apartar-se para, enfim, compreend\u00ea-la, ampli\u00e1-la. Descren\u00e7a, abandono, desist\u00eancia, ceticismo, estamos diante do inescrut\u00e1vel que habita a busca do que somos. Quanto de significados ele nos imp\u00f5e na ludicidade com a palavra refeita, numa anatomia que esmi\u00fa\u00e7a e refaz sentidos contidos no ato de escrever? A part\u00edcula <em>ex <\/em>atribui um car\u00e1ter pret\u00e9rito \u00e0 cren\u00e7a, \u00e0 vis\u00e3o e \u00e0 escrita, pois desarticula, desestabiliza e p\u00f5e tudo em estado de evid\u00eancia e questionamento. Tudo foi ou ter\u00e1 sido. O campo sem\u00e2ntico ainda nos liga ao que foi separado, apartado. Ornellas nos traz a ludicidade como uma de suas caracter\u00edsticas. Bella Josef assinala o car\u00e1ter l\u00fadico da escrita:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0\u201cO jogo da linguagem \u00e9 o da busca do sentido, n\u00e3o encontrado no objeto, mas armado na pr\u00f3pria linguagem que o constr\u00f3i. A arte liter\u00e1ria passa a ser o espa\u00e7o privilegiado da \u201cdoa\u00e7\u00e3o de sentido\u201d, atrav\u00e9s do inter-relacionamento de todos os elementos do texto.\u201d \u00a0<\/em><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E completa:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA linguagem l\u00fadica \u00e9 a mais significativa, no sentido da express\u00e3o do homem como ser simb\u00f3lico, e, portanto, criativo, e a mais adequada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do pensamento aut\u00f4nomo. A comicidade e o humorismo atuam como catalisadores numa tentativa de diminuir a separa\u00e7\u00e3o entre objeto e sujeito, recuperando a natureza l\u00f3gica da arte. Se o humor matiza, o jogo liberta\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em <em>2. (arte do autorretrato)<\/em>, vemo-nos diante da representa\u00e7\u00e3o de um rosto, num autorretrato que poderia elucidar uma identidade, j\u00e1 anteriormente negada e anunciada como invi\u00e1vel. A busca frustra-se novamente, ao percebermos que o sujeito do enunciado deixa pistas de que n\u00e3o h\u00e1 vest\u00edgios. Antes, o que h\u00e1 \u00e9: \u201c<em>uma montagem ad\u00faltera de tudo\/ uma mistura muito funda\/muito bruta muito puta\u201d.<\/em> <em>\u00a0<\/em>Percebemos uma revolta, forjada no emaranhado de origens, al\u00e9m de misturas e etnias que convergem para o projeto de n\u00e3o-ser que se monta diante dos nossos olhos: \u201c<em>monturo que d\u00e1 em nada\/em noves fora\/projeto sem forma\/projeto de n\u00e3o ser\/face mesti\u00e7a\/etnia posti\u00e7a\/massa de tudo.\u201c <\/em>\u00a0Uma confus\u00e3o descomunal com um suposto pertencimento que n\u00e3o se realiza e n\u00e3o se realizar\u00e1. Lembro do entre-lugar do discurso, hibridismos e uma s\u00e9rie de estudos identit\u00e1rios que se fundem diante de um eu em vertigem, turbulento, entre as buscas ou desist\u00eancias do ser. Diante de tamanha liquidez, trago Bauman:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cTornamo-nos conscientes de que o \u201cpertencimento\u201d e a \u201cidentidade\u201d n\u00e3o t\u00eam a solidez de uma rocha, n\u00e3o s\u00e3o garantidos para toda a vida, s\u00e3o bastante negoci\u00e1veis e revog\u00e1veis, e de que as decis\u00f5es que o pr\u00f3prio indiv\u00edduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age &#8211; e\u00a0 a determina\u00e7\u00e3o de se manter firme a tudo isso &#8211; s\u00e3o fatores cruciais tanto para o \u201cpertencimento\u201d quanto para\u00a0 a \u201cidentidade\u201d. Em outras palavras, a ideia de \u201cter uma identidade&#8221;, n\u00e3o vai ocorrer \u00e0s pessoas enquanto\u00a0 o \u201cpertencimento\u201d continuar sendo o seu destino,\u00a0 uma condi\u00e7\u00e3o sem alternativa.\u201d\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos diante de um autorretrato com a orelha cortada, um Van Gogh que se procura e denuncia desilus\u00f5es, imperfei\u00e7\u00f5es, perdas. Ou uma Frida Kahlo, que tamb\u00e9m se exp\u00f5e em dores, afli\u00e7\u00f5es e pensamentos, atrav\u00e9s dos seus autorretratos. Ornellas, que assina o livro utilizando um pseud\u00f4nimo, Sandro So, destitui-se, despe-se de tudo e nada lhe pertence. Um ser po\u00e9tico que busca formas de cair. Um sujeito desalojado, desencontrado: <em>\u201cEm todo e qualquer lugar eu estava &#8211; algumas vezes ligeiramente, outras ostensivamente \u2013 \u201cdeslocado\u201d\u201d<\/em>. Aqui, o nosso eu l\u00edrico tamb\u00e9m se mutila em exposi\u00e7\u00f5es, desnudamentos, em cortes profundos diante de todos n\u00f3s, seus leitores, suas leitoras, e nos entrega &#8211; em nossas m\u00e3os &#8211; reflex\u00f5es que geram perplexidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma constata\u00e7\u00e3o, em Formas de Cair, sobre a impossibilidade de conseguirmos atingir esse retrato indefin\u00edvel. Ele prossegue: <em>\u201cprojeto de n\u00e3o ser\/face mesti\u00e7a etnia posti\u00e7a\/massa de tudo\/rebarba cali\u00e7a resto rebite\/que n\u00e3o existe\/bricolagem de branco com-banto\/neto-de-filha-de santo\/linhagem de negro e galego\u201d<\/em>. Um sujeito inaut\u00eantico, um terceiro homem indefinido, exposto \u00e0 terceira margem. Eis o fio condutor deste livro: um sem-lugar, um sem-jeito. Desfazer-se de si mesmo ou assumir a sua especificidade de ser, que carrega em si tantos outros seres, al\u00e9m de tamb\u00e9m habitar uma canoa que segue o curso da \u00e1gua, sem aportar em margem alguma, sempre em tr\u00e2nsito. O n\u00e3o ser \u00e9 a loucura. \u00c9 n\u00e3o ter digitais, nem face. E o ex-eu declara:<em> \u201cfalsa persona do pr\u00f3prio rosto\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um homem imerso em teorias, pelo of\u00edcio que exerce, tem pleno conhecimento das distor\u00e7\u00f5es e indefini\u00e7\u00f5es de uma identidade e, por isso, a persegue, n\u00e3o em busca, mas em ca\u00e7a, em persegui\u00e7\u00e3o acusat\u00f3ria, persecut\u00f3ria; em den\u00fancia de si mesmo e de suas farsas ou revela\u00e7\u00e3o do que em sua hist\u00f3ria fict\u00edcia pode sugerir farsa ou inautenticidade, quando, na realidade, \u00e9 o que \u00e9 e \u00e9 o que n\u00e3o \u00e9. O desconcerto e o desassossego est\u00e3o instalados. Detetive e criminoso ou inocente, Javert e Jean Valjean. Enquanto n\u00f3s, leitoras, talvez sejamos testemunhas do seu processo de anunciar a aus\u00eancia de digitais aut\u00eanticas para a carteira de identidade. N\u00f3s, leitoras, estamos a acompanhar o indigitado nesse descampado solit\u00e1rio; desnudo campo do corpo, da cidade. Ele, o eu, descreve e revira o avesso da palavra. O terceiro olho e a terceira via atuam em todo o percurso do desconcerto, enquanto outros caminhos apontados pelo Poeta surgem. Uma terceira margem da imagem, da representa\u00e7\u00e3o semi\u00f3tica do rosto; uma persona que n\u00e3o se decifra e que se torna a obsess\u00e3o do eu- l\u00edrico desiludido, nesse escrut\u00ednio por uma decifra\u00e7\u00e3o da identidade. H\u00e1, em quase todo o livro, uma dramaticidade niilista, um olhar agudo para a sociedade; a escrita busca uma identidade que ele percorre apenas para, ao final, desmascar\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou\u00e7o ecos de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto na cad\u00eancia do poema <em>3. (dial\u00e9tica negativa),<\/em> onde, al\u00e9m do ritmo marcado, de uma m\u00e9trica permanente, versos talhados, aqui, em redondilha maior, observamos a musicalidade, o ritmo dos versos que percorrer\u00e1 todo o livro. O poema \u00e9 a pontua\u00e7\u00e3o musical dos desencontros cravados nas identidades dissolvidas em nossa sociedade brasileira, baiana. Assim, prossegue em poemas como <em>4. (mito) e<\/em> <em>5. (clandestino),<\/em> onde podemos vislumbrar origens, causas do desconforto \u00e9tnico que perseguir\u00e1 o eu l\u00edrico, durante toda a queda.\u00a0 O vocabul\u00e1rio transita entre palavras do universo afro-brasileiro, como forma de encontro, semelhan\u00e7a, familiaridade, pertencimento: <em>\u201cela \u00e9 meu hor\u00f3scopo\/meu ouro meu ori\/ meu faro\/ meu anjo\u2026<\/em>\u201d. O eu do poema prossegue em processos antit\u00e9ticos luminosos e obscuros, que s\u00e3o suas p\u00e9rolas barrocas perenes. H\u00e1 ritmo, dan\u00e7a de sons, alitera\u00e7\u00f5es, m\u00e9trica na sele\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o das palavras, primor no artefato po\u00e9tico. O rosto, o autorretrato busca por si mesmo e pela defini\u00e7\u00e3o do outro: personas em busca. Desconstru\u00e7\u00e3o, desnudamento arqueol\u00f3gico da palavra e das identidades. H\u00e1 uma exposi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o seres que nos jogam em questionamentos sobre as exig\u00eancias sociais por defini\u00e7\u00e3o, pertencimento.\u00a0 A mesti\u00e7agem est\u00e1 na roda das suas preocupa\u00e7\u00f5es e de suas consequ\u00eancias na exist\u00eancia; danos, dores, medidas, questionamentos em \u201c<em>suas funduras suas fissuras\/as origens duplas\/do atravessador\u201d<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confessa-se clandestino e atravessa fronteiras, ainda fixado em seu rosto com e sem barba, partido em dualidades, num jogo de desconfian\u00e7a, de quebra de ilus\u00f5es, ilusionismos; como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel mantermos expectativas em torno de um ap\u00e1trida, um p\u00e1ria, um aventureiro clandestino, em constantes migra\u00e7\u00f5es, al\u00e9m fronteiras. A pr\u00f3pria conviv\u00eancia \u00e9 redimensionada diante das flutua\u00e7\u00f5es, viagens, inconst\u00e2ncias do ser cujo trajeto e travessia acompanhamos. Um ser transit\u00f3rio. Um sujeito sem teto, sem lar, sem casa, sem porto. Incapaz de se fixar em qualquer parte e que insiste em reafirmar sua natureza peculiar de homem em constante tr\u00e2nsito, em constante queda e que nos apresenta suas formas de cair. Talvez assim, possamos nos aproximar dos seus descaminhos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEstar total ou parcialmente \u201cdeslocado\u201d em toda parte, n\u00e3o estar totalmente em lugar algum (ou seja, sem restri\u00e7\u00f5es e embargos, sem que alguns aspectos da pessoa \u201cse sobressaiam\u201d e sejam vistos por outras como estranhos), pode ser uma experi\u00eancia desconfort\u00e1vel, por vezes, perturbadora. Sempre h\u00e1 alguma coisa a explicar, desculpar, esconder, ou, pelo contr\u00e1rio, corajosamente ostentar, negociar, oferecer e barganhar.\u201d <\/em>(Bauman).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O amor perde-se em lapsos barrocos que se jogam em versos modernos rapidamente, como se fosse preciso estar no aqui e escapar da linguagem rebuscada, elaborada com certa sofistica\u00e7\u00e3o e exaspera\u00e7\u00e3o dos rococ\u00f3s. Mas ela est\u00e1 presente: a arquitetura que propicia \u00e0 linguagem um tratamento envelhecido, como uma p\u00e1tina capaz de cobrir com camadas de tempo o verbo e dourar &#8211; ainda que em gotas &#8211; as p\u00e1ginas que escapam \u00e0s perman\u00eancias e ao conforto do \u00edntimo, ao conforto do que vigora e persiste. O sujeito do enunciado nega-nos qualquer acomoda\u00e7\u00e3o ou facilidade: escapa, foge, nega-se a n\u00f3s! Aventura-se em mil rostos para dissolver, definitivamente, qualquer esperan\u00e7a de encontro, de busca. E percorremos o <em>suaveduro <\/em>de suas hist\u00f3rias de desist\u00eancia, enquanto paroxismos nos atravessam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece que estamos numa fic\u00e7\u00e3o, narra\u00e7\u00e3o das origens. Perambulamos por esses cobog\u00f3s sem encontrarmos o todo, pois o sujeito est\u00e1 perdido no princ\u00edpio e nos precipita em sua pr\u00f3pria queda vertiginosa e dura. A desconstru\u00e7\u00e3o e o desnudamento da palavra, a fragmenta\u00e7\u00e3o da ideia causam um efeito de transe, como se o Poeta\u00a0 nos desse um quebra-cabe\u00e7a, faltando pe\u00e7as para decifrarmos sua ang\u00fastia existencial, seu olhar ag\u00f4nico diante da consci\u00eancia do que somos, sua n\u00e1usea. Orpheu e Heuterbise de Jean Cocteau percorrendo os labirintos de Hades em busca de Eur\u00eddice, mas tamb\u00e9m em busca da Morte sedutora, intensa, bela, a sua princesa. A vertigem da caminhada, a vertigem do atravessamento dos espelhos, cal\u00e7ando luvas que s\u00e3o o passaporte para a viagem, o atravessamento do Tempo. Assim, tamb\u00e9m o nosso Poeta desfila suas inquieta\u00e7\u00f5es existenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A dimens\u00e3o da beleza das imagens apresenta-se corajosa e intensa no poema <em>10.<\/em> <em>(corpo sem pouso)<\/em> que desenla\u00e7a no tr\u00e1gico, afinal, n\u00e3o h\u00e1 pouso, repouso nem refresco na queda em que estamos imersos, num ger\u00fandio que se reafirma a cada p\u00e1gina aberta, durante o processo de leitura. Vejamos o desfecho do poema: \u201c<em>na hora das coisas cru\u00e9is\/decisivo \u00e9 ultrapassar\/ a planta carn\u00edvora da hist\u00f3ria\/para flertar\/ com a beleza do mundo\/em fulgurante desaparecimento.\u201d <\/em>Sem d\u00favida, um dos poemas mais belos do livro, composto de uma tragicidade final, pois, agora, todo o mundo desaba. A queda sobrevoa todas as esp\u00e9cies, como se estiv\u00e9ssemos atravessando um longo plano sequ\u00eancia que, velozmente, percorre o planeta. E nos atinge:<em> &#8220;um zang\u00e3o \u00e0 beira do gozo\/\u00e0 beira da abelha-rainha\/agoniza em seu amor \u00e0 morte.&#8221;<\/em> Mesmo tr\u00e1gico, encanta e arrebata por sua beleza, por sua constru\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica, capaz de provocar suspiros est\u00e9ticos. Mas a leitura nunca est\u00e1 imune a desdobramentos, ela sempre nos suscita lembran\u00e7as, complementos e elos com o que estamos vivendo ou lendo, num dialogismo inesgot\u00e1vel. Assim, surge Simone de Beauvoir, no in\u00edcio do Segundo Sexo, cap\u00edtulo Biologia, onde a autora discorre, com o seu estilo vigoroso e belo de fil\u00f3sofa e escritora, um pouco sobre o quanto a abelha e o zang\u00e3o est\u00e3o atados \u00e0 esp\u00e9cie.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cO mesmo ocorre entre as abelhas: o zang\u00e3o que se une \u00e0 rainha no voo nupcial, onde levam uma exist\u00eancia ociosa e embara\u00e7ante. No in\u00edcio do inverno s\u00e3o executados. Mas as f\u00eameas abortadas, as oper\u00e1rias, pagam seu direito \u00e0 vida com um trabalho incessante; a rainha \u00e9, de fato, escrava da colmeia: desova incessantemente. E, quando da morte da velha rainha, v\u00e1rias larvas s\u00e3o alimentadas de maneira a poderem disputar a sucess\u00e3o; a que nasce primeiro assassina imediatamente as outras.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, descortina-se esse aspecto de sacrif\u00edcio do zang\u00e3o, como se fosse ele o \u00fanico a sacrificar-se pela esp\u00e9cie. Mais adiante, ao abordar a esp\u00e9cie humana, ela dir\u00e1: <em>\u201c\u2026 ao passo que a humanidade est\u00e1 em permanente vir a ser\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou ainda:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c\u00c9 somente dentro de uma perspectiva humana que se podem comparar o macho e a f\u00eamea dentro da esp\u00e9cie humana. Mas a defini\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 que ele \u00e9 um ser que n\u00e3o \u00e9 dado, que se faz ser o que \u00e9. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem n\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie natural: \u00e9 uma ideia hist\u00f3rica. A mulher n\u00e3o \u00e9 uma realidade im\u00f3vel, e sim um vir a ser; \u00e9 no seu vir a ser que se deveria confront\u00e1-la com o homem, isto \u00e9, que se deveria definir suas <strong>possibilidades<\/strong>.\u201d <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fio que tento estabelecer aqui \u00e9 exatamente o olhar existencialista para a transcend\u00eancia, <em>\u201deste ultrapassar de uma situa\u00e7\u00e3o presente por um projeto futuro\u201d,<\/em> segundo Sartre. Trago para estas reflex\u00f5es <em>o vir a ser<\/em> que \u00e9 constante e que toca tamb\u00e9m uma identidade que n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica e talvez nunca tenha sido t\u00e3o velozmente mut\u00e1vel, influenci\u00e1vel: l\u00edquida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poema <em>11. (travessias) <\/em>irrompe cruzamentos in\u00fameros com dores e confiss\u00f5es cotidianas, de quem se perde em ressacas, em portas, numa convuls\u00e3o de desencontros, situa\u00e7\u00f5es sem sa\u00edda. Mas ali, h\u00e1 a quimera e isto restitui o car\u00e1ter on\u00edrico do nosso sujeito de enuncia\u00e7\u00e3o, que sofre o desterro em que vive, em que delira em estado bruto de consci\u00eancia; um eu cortado por desencantos, empurr\u00f5es do destino. Um ser tortuoso de onde conflitos abundam. Com o poema <em>12. (inverso)<\/em>, fecha-se a primeira parte com uma tentativa metalingu\u00edstica de organizar o caos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos, ent\u00e3o, o segundo momento do livro, intitulado URBI ET ORBI<em>, <\/em>em que os poemas tocar\u00e3o a cidade, o corpo inserido no mundo, nas ruas, em outros continentes, na \u00f3rbita universal.\u00a0 Em <em>1.<\/em> <em>(carteira de identidade)<\/em>, vemo-nos \u00e0s voltas com os complexos psicanal\u00edticos que trazem a presen\u00e7a do Pai e da M\u00e3e, em seus arqu\u00e9tipos, para a cena: &#8220;<em>esta cidade n\u00e3o me salva\/nasci fora de suas fronteiras\/pai e m\u00e3e s\u00e3o meu medo\/dupla derrota\/tatuada em meu corpo\/como cicatriz da hist\u00f3ria.&#8221; <\/em>Mais uma vez, a origem umbilical dos dramas ou dos traumas; a busca por seu territ\u00f3rio ou a constata\u00e7\u00e3o de estar ausente do seu lugar e a circunst\u00e2ncia de n\u00e3o ter lugar: \u201c<em>esta cidade n\u00e3o me basta\/sou bastardo em sua mem\u00f3ria\/tenho um n\u00e3o-lugar al\u00e9m\/sou estranho a toda est\u00f3ria\/irredut\u00edvel ao que se exprime\/em seu fado\/em suas horas\u201d. <\/em>Um inadequado, um inadaptado numa cidade, onde ele se sente &#8211; como tantos de n\u00f3s &#8211; um estrangeiro, um estranho, um forasteiro, em situa\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda de bastaria. A \u00fanica forma de subverter o estranhamento \u00e9 pular seus muros e desafiar suas fronteiras, como um clandestino em travessia, em fuga. Assim, o livro trafega entre o abandono em que nos encontramos na cidade que nos vigia, a n\u00f3s, estrangeiros, e entre o sentimento de nomadismo muito presente no livro. Temos ainda as especula\u00e7\u00f5es sobre o tempo, que chegam atrav\u00e9s de rugas sobrecarregadas de significados. O eu do poema critica a oligarquia que preside o ritmo da cidade. Sutilmente, aponta a cartografia do lugar dividido em andares, elevadores e elevados. Entre arrastares de p\u00e9s que caminham e percorrem a cidade, vemo-nos atravessados tamb\u00e9m de amores frustrados. H\u00e1 desilus\u00e3o e pessimismo nestes versos que caem. Marcas de uma cidade bem distinta daquela encontrada pelos turistas. H\u00e1 uma desconstru\u00e7\u00e3o ou exibi\u00e7\u00e3o e desnudamento de mazelas e odores de uma cidade que n\u00e3o acolhe. \u00c9 o que pontua o olhar e as idiossincrasias do eu po\u00e9tico desencantado, devido ao abandono em que nos encontramos na cidade, devido \u00e0 solid\u00e3o e \u00e0 estranheza que sentimos.\u00a0 O poema <em>4. (Casa corpo cidade) <\/em>traz, em seu t\u00edtulo, inv\u00f3lucros que nos resguardam e nos massacram aos olhos do Poeta, que sente \u00edmpetos terroristas: &#8220;<em>a sanha por penhascos\/o desejo de explodir \/o centro em peda\u00e7os\/ a conviv\u00eancia com o tr\u00e1fico de afetos e fracassos\/e v\u00edcio compartilhado&#8221;. <\/em>\u00a0O Poeta revela-se personagem que vive a crueza da cidade; algu\u00e9m que a sofre porque est\u00e1 nela e n\u00e3o apenas assiste, distante, aos acontecimentos. Ele, transeunte, vive a cidade. Seguimos em encontros remotos com Greg\u00f3rio de Matos, num di\u00e1logo de den\u00fancias comuns das mazelas da cidade, enquanto o pr\u00f3prio leitor \u00e9 convidado a entrar em sua festa de desencantos, c\u00famplice, seguindo mem\u00f3rias machadianas: &#8220;<em>Estranha virtude nos une\/ hip\u00f3crita leitor\/ meu igual meu irm\u00e3o&#8221;. <\/em>Assim nos sentimos atravessados pelo mesmo desencanto e amargura, diante dessa fera que nos devora, tamb\u00e9m a n\u00f3s que, hip\u00f3critas, fingimos que tais dramas n\u00e3o s\u00e3o nossos! Fingimos ler o outro! No entanto, o Poeta nos convoca \u00e0 Consci\u00eancia, \u00e0 Cumplicidade irmanada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir daqui, invade-nos uma atmosfera de sensa\u00e7\u00f5es, onde a solid\u00e3o e a estranheza permeiam as p\u00e1ginas do livro. A queda intensifica-se vertiginosamente, pois a insatisfa\u00e7\u00e3o e a cr\u00edtica invadem todos os espa\u00e7os, poros, pele do papel. O tempo e a constata\u00e7\u00e3o da impot\u00eancia diante da vida. A presen\u00e7a do corpo. Lugares. O lugar da Poesia. O contato, a proximidade, os contratos sociais, as redes familiares, o pa\u00eds: \u201c<em>Algo de podre parece viver nesse pa\u00eds de f\u00e1cil sorriso&#8221;.<\/em> O que um livro traz, o que ele nos ensina. Migrar, migra\u00e7\u00f5es transmigram, identidade em vertigem: o lar, a fam\u00edlia, o corpo, a cidade, o pa\u00eds, o mundo. A cidade personificada urra e todas as suas imund\u00edcies s\u00e3o compartilhadas conosco: fam\u00edlia, amor, tes\u00e3o, fracassos, tudo se mistura e \u00e9 observado pelo Poeta, em del\u00edrio, em vertigem, em queda. H\u00e1 a presen\u00e7a do corpo que sente e cheira todas as sensa\u00e7\u00f5es, numa atmosfera sinest\u00e9sica, apocal\u00edptica, feroz, mortal. Todas as mem\u00f3rias est\u00e3o impregnadas de fracassos e, mesmo quando vislumbramos um o\u00e1sis de amor, a penumbra cerca aquela paisagem on\u00edrica, permeada de beleza, como acontece no poema <em>8. (mem\u00f3rias dos carnavais)<\/em>: \u201c<em>o Jardim que voc\u00ea prometeu matou meu serafim.<\/em>&#8221; Ou\u00e7o bandas de rock de Bras\u00edlia presentes no poema, consigo ouvir toda uma gera\u00e7\u00e3o 80, entremeada nesses versos tristes. Em outros momentos, sentiremos ecos de Augusto de Campos em tentativas do Poeta\u00a0 de explorar imagens, linguagens, sons, experimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viajamos por lugares especiais, enquanto experimentamos o abandono. De que trata o poema? Mem\u00f3rias de amores, de outros carnavais? Mem\u00f3rias liter\u00e1rias que atravessam oceanos e deixam marcas na pele do Poeta? Do que se trata? A atmosfera nos penetra em interroga\u00e7\u00f5es e nos perdemos em devaneios; nos movemos em d\u00favidas, desejos que j\u00e1 s\u00e3o nossos e perdas que tamb\u00e9m s\u00e3o nossas. Uma viagem de \u00f4nibus \u00e9 mat\u00e9ria de reflex\u00f5es t\u00e3o filos\u00f3ficas e t\u00e3o amplamente profundas que mergulhamos com nossas bagagens na viagem, com o eu do poema, sem que ele o saiba. O amor est\u00e1 presente nas p\u00e1ginas deste livro com ares de melancolia. Entanto, h\u00e1 prazeres pelo instante vivido, pela alegria de viver o cotidiano simples e grandioso de conversar, durante o trajeto do \u00f4nibus, ao lado de quem nos ama: &#8220;<em>\u00edamos no \u00f4nibus e fal\u00e1vamos e o \u00f4nibus ia em n\u00f3s\/e viaj\u00e1vamos acompanhados de quem nos ama\/na solid\u00e3o do grande rio que margeamos&#8221; <\/em>(<em>11. (intermunicipal)<\/em>)<em>. <\/em>Aqui, um momento l\u00edrico-amoroso, pleno de beleza, de amor e de juventude, onde uma outra margem surge, sinto desejo de permanecer no poema!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Poeta, que confessa viver, estar num supersonho, trafega por outros continentes e traz aspectos dos povos que frequenta, traz o outro e suas influ\u00eancias; modifica-se com o outro, torna-se outro, numa geopol\u00edtica \u00edntima que traz leveza \u00e0 leitura: <em>&#8220;carrego comigo\/ muitas outras viagens\/ do atl\u00e2ntico sul<\/em>&#8221; (<em>13. (geopol\u00edtica \u00edntima)<\/em>). Viagens como busca de poss\u00edveis identidades perdidas, que trazem hist\u00f3rias inscritas na pr\u00f3pria pele, em suas origens, mas tamb\u00e9m trazem as marcas de outros povos, outras culturas que permanecem. A \u00c1frica faz-se presente, assim como Lisboa e Bras\u00edlia tamb\u00e9m delimitam influ\u00eancias.\u00a0 Quando dialoga com Drummond, deixa na p\u00e1gina a aus\u00eancia da cidade; aus\u00eancia espacial, que, no entanto, est\u00e1 l\u00e1, marcada pelo vazio. Tal dispositivo est\u00e9tico-sem\u00e2ntico pontua a import\u00e2ncia do signo cidade, corpo, cidade-eu no livro. Busca por uma identidade atmosfera de desencanto, de aus\u00eancia, desesperan\u00e7a; um olhar que perscruta o mundo. Migra\u00e7\u00f5es internas e externas, identidade em vertigem. Encerramos a segunda parte do livro com uma sensa\u00e7\u00e3o de encontro, movimento e busca de possibilidades dentro das linguagens urbanas de expressar e imprimir a si mesmo em seus muros, suas paredes, numa queda mais branda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciamos o movimento final do livro com tons de metalinguagem e questionamentos acerca do lugar do poeta no mundo, onde a &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; entra na mira do eu l\u00edrico. Em <em>Formas de Cair,<\/em> terceira parte do livro, encontramos uma ep\u00edgrafe que simboliza e sintetiza todo o projeto, pois \u00e9 o t\u00edtulo de um texto da Poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, &#8220;O poema ensina a cair&#8221;, que ser\u00e1\u00a0 imediatamente mencionado no segundo poema, indicando que,\u00a0 apesar da queda, o poema cumpre uma fun\u00e7\u00e3o\u00a0 importante\u00a0 em nossas vidas e \u00e9 uma Poeta quem nos sinaliza, como nos informa o nosso sujeito de enuncia\u00e7\u00e3o: &#8220;<em>\u00c9 \u00e9 bom saber que se\/ocorrer de n\u00f3s cairmos\/e n\u00e3o\u00a0 nos ferirmos \u00e9\/porque o poema ensina\/ a cair &#8211; conforme Luiza\/ categ\u00f3rica explicou\/ e que humilde subscrevo\/ ciente de que neste jogo\/erro, vertigem e queda\/s\u00e3o as verdadeiras vit\u00f3rias\/que o poema pode pode ter&#8221;. <\/em>Permanecer\u00e3o os dilemas cotidianos, mas ser\u00e3o iluminados pela m\u00e1xima deixada pela Poeta e o poema guiar\u00e1 o eu vertiginoso que acompanhamos at\u00e9 aqui. No poema <em>5<\/em>, teremos uma exposi\u00e7\u00e3o\u00a0 mais \u00edntima do eu l\u00edrico, pois o contato social, o estar com outras pessoas na sociedade ser\u00e1 tratado com extrema delicadeza e profundidade, dando-nos um retrato mais n\u00edtido do ser que enfrenta a sociabilidade, como tantos de n\u00f3s, com extrema dificuldade, quase sempre disfar\u00e7ada. Ele traz no desfecho ao poema: &#8220;<em>As conven\u00e7\u00f5es s\u00e3o o trono\/ das pervers\u00f5es mais severas<\/em>&#8220;. Os embates permanecem, mas h\u00e1 uma outra respira\u00e7\u00e3o\u00a0 musical nos textos; momentos onde o arrebatamento po\u00e9tico nos toma e sentimos vontade de dan\u00e7ar, como no poema <em>7<\/em>. O Poeta segue desenhando desejos, sonhos, paix\u00f5es com mais suavidade. O cinema se apresenta como uma for\u00e7a que move o eu l\u00edrico. Estamos aprendendo a cair com seus textos, com suas perdas. O Poeta nos deixa uma interroga\u00e7\u00e3o, antes do seu <em>posf\u00e1cio aos peda\u00e7os<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cMas afinal quem juntou os cacos<\/em><br \/>\n<em>dessas hist\u00f3rias de erros e quedas<\/em><br \/>\n<em>que tanto lemos?\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Rita Santana<\/em><\/strong><em> nasceu em Ilh\u00e9us, Bahia, a 22 de agosto de 1969. \u00c9 graduada em Letras pela Universidade Estadual de Santa Cruz. \u00c9 atriz com trabalhos em teatro, cinema e televis\u00e3o; escritora e professora. Em 2004 ganha o Braskem de Cultura e Arte para autores in\u00e9ditos com o livro de contos Tramela. Em 2006, Tratado das Veias (poesia) \u00e9 publicado pelo selo Letras da Bahia. Publica Alforrias (poesia) em 2012, pela Editus. Em 2019 publica Cortesanias (poesia), pela Caramur\u00ea, e participa do Festival Internacional de Buenos Aires. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rita Santana mergulha em \u201cFormas de Cair &#038; outros poemas\u201d, livro de Sandro Ornellas <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18524,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,2533],"tags":[11,914,3970,3972,159,189,1086,3969,3971],"class_list":["post-18498","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-aperitivo-da-palavra","tag-ensaio","tag-formas-de-cair","tag-nao-ser","tag-poemas","tag-resenha","tag-rita-santana","tag-sandro-ornellas","tag-ser"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18498"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18498\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18576,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18498\/revisions\/18576"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18524"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}