{"id":18505,"date":"2021-02-26T10:16:56","date_gmt":"2021-02-26T13:16:56","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18505"},"modified":"2021-04-07T16:06:35","modified_gmt":"2021-04-07T19:06:35","slug":"dedos-de-prosa-ii-70","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/dedos-de-prosa-ii-70\/","title":{"rendered":"Dedos de Prosa II"},"content":{"rendered":"<p><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18545\" aria-describedby=\"caption-attachment-18545\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_9461.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18545 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_9461.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_9461.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/MG_9461-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18545\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Joice Kreiss<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>viga-mestra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">coleciono noites. Olho aberto deslizando impune sobre prateleiras, livros, cinzeiros, h\u00e9lices de ventiladores, olho aberto avan\u00e7ando sobre os escombros do que sobrou do dia. H\u00e1 certa mudez ressoando nos quadril\u00e1teros adjacentes \u00e0 sala estupidamente calada. Coleciono delinqu\u00eancias \u00edntimas no caminho do baixo ventre, eloqu\u00eancia insuspeita que n\u00e3o deixa pistas, caminho borrado das 3 da manh\u00e3 ou mais. Coleciono horas mortas em dias \u00fateis, escassas tardes no que h\u00e1 de ar nos pulm\u00f5es, e \u00e9 quase nada. Coleciono asfixias, apneia viga-mestra num punhado de hesita\u00e7\u00f5es, olho aberto percorrendo a d\u00favida, vida espor\u00e1dica percorrendo o ch\u00e3o. Na contabilidade dessa vig\u00edlia end\u00eamica, \u00e9 dia sim, dia n\u00e3o que se dorme. Coleciono olhos abertos em seu escrut\u00ednio pela noite desprovida de bordas, avermelhadas pupilas de quem h\u00e1 muito se perdeu do caminho do sossego. E note: nenhuma gota a mais resolve o impasse. Coleciono solil\u00f3quios. Deslizes. Dias amanhecendo em qualquer \u00e9poca do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Coleciono ecos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>miasma<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">isolada. exilada. asilada. arrasto um n\u00f3 g\u00f3rdio no epicentro do corpo. v\u00f4mito acumulado (volumoso l\u00edquido miasm\u00e1tico com espessura em cent\u00edmetros) ou fome de muitos dias. o n\u00f3 g\u00f3rdio deu cinco voltas ao redor do p\u00e2ncreas, associou o f\u00edgado no bolo visceral e arrebanhou est\u00f4mago e intestino delgado na embolada sem repente. a jornada em espiral do n\u00f3 adelga\u00e7ou o intestino grosso, deu pontadas no marco inicial da garganta, fez o c\u00e9u da boca rebaixar seu p\u00e9 direito: l\u00edngua esmagada, dentes espatifados, voz desaparecida, procura-se. jogo-me na cama, em ex\u00edlio. pode ser que n\u00e3o me levante mais. olhos fechados pingando suor miram o teto com insist\u00eancia. por horas a fio. asilo. azia. perco o fio da meada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>erro de c\u00e1lculo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">devasta\u00e7\u00e3o. sintoma. erro de c\u00e1lculo. entre o desejo, o amor e o encontro, largu\u00edssima margem de erro. isso foi o que disseram, isso foi o que anotei. sintoma, glaucoma, rizoma, livre associa\u00e7\u00e3o de palavras fanhosas. e os cadernos? esses, em que desenha suas anota\u00e7\u00f5es e depois joga fora, farta da sua fisionomia ali espelhada em letra que ningu\u00e9m entende. e os cadernos? engodos com pauta, um preparado promissor de garrancho e linhas tortas. blocos prontos para o fracasso. \u00e0s vezes, cont\u00eam espiral. n\u00e3o levam ningu\u00e9m a nada, s\u00f3 \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina. 98 folhas. l\u00e1 est\u00e3o anotadas as pegadas sujas desse erro de c\u00e1lculo, desse c\u00e1lculo err\u00e1tico, dessa margem sem borda. \u00e9 sintoma errante o que trago nas m\u00e3os, sempre retorna ao peito natal, aloja-se eficaz na sombra espraiada no lado esquerdo. \u00e9 glaucoma que estoura a vista, liquefaz a paisagem imediata, rizoma que n\u00e3o se desborda. o amor \u00e9 erro e \u00e9 c\u00e1lculo sim, acolho as advert\u00eancias, sequer uso o artif\u00edcio da rasura. mesmo assim indago, com o sintoma pulsando desde dentro, devasta\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, erro de c\u00e1lculo numa equa\u00e7\u00e3o sem come\u00e7o, mesmo assim pergunto, minha voz um murm\u00fario acovardado: mas, vida, e se a\u00ed, quem sabe, eu for feliz?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">repousa a cabe\u00e7a larga na colcha do fracasso. de bru\u00e7os, pensamentos disl\u00e9xicos, afetos disl\u00e1licos, paix\u00f5es tristes. quer esquecer o dia, apagar conversas da lousa ressecada, ocultar intentos. sente o len\u00e7ol morno ofuscar o corpo, o sol morto descascar a sombra. epiderme castigada de toques sem m\u00e3os. afunda no colch\u00e3o rugoso, ponte entre o nada e\u00a0 coisa alguma, toca de sil\u00eancios distra\u00eddos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">desiste.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">abandona a mem\u00f3ria de si encorpada de atributos rasos. \u00e9 melhor esvazi\u00e1-la. fecha os olhos vivazes para os sinais das v\u00edsceras em levante. desaprende a l\u00edngua p\u00e1tria, os gestos h\u00e1bitos, os gestos r\u00e1pidos, os gestos d\u00e1divas. repudia os verbos vagos. persegue o ju\u00edzo \u00faltimo, perde o ar na empreitada. dobra em quatro o pensamento, adia-o, agora n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">adormece sem argumento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">prefere n\u00e3o ter raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>quando eu quase morri\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">quando eu quase morri, havia pessoas \u00e0 minha volta, elas n\u00e3o disseram nada, n\u00e3o fizeram nada, e n\u00e3o pude gritar. quando quase morri, minha voz virou um fiapo estrangeiro, e era \u00e1spero, e era triste, era terreno baldio. as pessoas que me rodeavam (havia pessoas me rodeando) n\u00e3o sabiam que eu quase morria, mas ouviram meu fiapo. uma delas chegou a toc\u00e1-lo, aquele fiapo estrangeiro, irreconhec\u00edvel, esguio. ela puxou o fiapo, e o esticou, e o esgar\u00e7ou, e minha voz era agora um istmo, deixou de ser territ\u00f3rio, nunca foi lar. quando quase morri, ningu\u00e9m me reconheceu, e o \u00faltimo a sair n\u00e3o se preocupou em apagar a luz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Vivian Pizzinga<\/em><\/strong><em> \u00e9 escritora e psic\u00f3loga. Lan\u00e7ou Dias Roucos e Vontades Absurdas (contos), em 2013, e A primavera entra pelos p\u00e9s (contos), em 2015, ambos pela Editora Oito e meio. Em 2018, lan\u00e7ou, em co-autoria com o escritor Igor Dias, o romance epistolar Extravios, pela mesma editora. Tem participa\u00e7\u00e3o em colet\u00e2neas diversas, como Escriptonita (Patu\u00e1, 2016) e Cada um por si e Deus Contra Todos (Tinta Negra 2016). Atua como psic\u00f3loga em Sa\u00fade do Trabalhador e na cl\u00ednica.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fio intimista da prosa po\u00e9tica de Vivian Pizzinga <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18545,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,2534],"tags":[41,3975,149,595,2716],"class_list":["post-18505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-dedos-de-prosa","tag-dedos-de-prosa","tag-intimista","tag-prosa","tag-prosa-poetica","tag-vivian-pizzinga"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18505"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18546,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18505\/revisions\/18546"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}