{"id":18513,"date":"2021-02-26T10:35:24","date_gmt":"2021-02-26T13:35:24","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18513"},"modified":"2021-04-07T16:06:22","modified_gmt":"2021-04-07T19:06:22","slug":"aperitivodapalavrai-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivodapalavrai-3\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA QUASE RESENHA<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Andr\u00e9 Rosa<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/CAPA-barroquinha-interna.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18515\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/CAPA-barroquinha-interna.jpg\" alt=\"\" width=\"304\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/CAPA-barroquinha-interna.jpg 304w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/CAPA-barroquinha-interna-203x300.jpg 203w\" sizes=\"auto, (max-width: 304px) 100vw, 304px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A beleza da exist\u00eancia humana se apresenta nas p\u00e1ginas do livro intitulado <em>Barroquinha <\/em>(Ed. Via Litterarum), do escritor Carlos Vilarinho, testemunha contempor\u00e2nea de uma Salvador visceral. Suas hist\u00f3rias revelam a complexidade humana em uma sociedade cada vez mais apegada a projetos individualistas pretensamente vitoriosos. Na emerg\u00eancia de um cotidiano excludente, em meio a dias cada vez mais acelerados, revelam-se hist\u00f3rias de pessoas comuns que se operam em rede, entrela\u00e7adas pela imagina\u00e7\u00e3o de um literato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou lento, portanto insurjo-me. Ao ler <em>Barroquinha<\/em>, vou-me sem pressa: quero da vendedora, \u00e0 porta da loja, not\u00edcias das novidades chinesas. Tamb\u00e9m sorver uma x\u00edcara demorada de m\u00e9dia pingada. Saber do cobrador os hor\u00e1rios mais tardios da linha de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o. Talvez contar calmamente, ao apontador do bicho, um sonho esquisito com livros e tra\u00e7as em um sebo recentemente fechado. Continuo, assim, lentamente pelas cal\u00e7adas do livro. Com passos e olhos atentos, passeio entre as p\u00e1ginas e a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como relata Elieser C\u00e9sar, na sua apresenta\u00e7\u00e3o, esse livro espelha uma outra cidade, fora dos clich\u00eas tur\u00edsticos, tal como tantas outras loca\u00e7\u00f5es de vidas soteropolitanas. Uma Barroquinha composta de trabalhadores, donas de casa, exclu\u00eddos. Um povo de tantas religiosidades, com seus trajes coloridos e aparatos diversos. Lojas repletas de gente e bugigangas essenciais nos fazem arrefecer o passo nos par\u00e1grafos. Gritos de compra e venda, corpos astutos embaixo dos toldos de lona gramatical, nos dirigem imantados ao norte da poesia urbana dos seus meios-fios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vilarinho tem como cen\u00e1rio uma \u00e1rea geogr\u00e1fica e cultural bem espec\u00edfica, uma parte do todo-caleidosc\u00f3pio Cidade do Salvador: a Barroquinha, art\u00e9ria-abrigo incessante de uma popula\u00e7\u00e3o flutuante, que a habita entre o nascer e o p\u00f4r do sol. Findo o dia, uma outra Barroquinha se apresenta: face noturna de um mesmo universo c\u00eanico, cujo artefato de cimento e asfalto permuta os sons de m\u00fasicas, motores e vozes pelo sil\u00eancio estranho de outras personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retrato ficcional e representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de uma Salvador em meio a tantas outras, o livro de Carlos Vilarinho inebria. Cada p\u00e1gina, um c\u00e1lice. Cada personagem, uma dispers\u00e3o em mim mesmo. Inebriei-me de vida, pujante vida: soteropolitana e contempor\u00e2nea. Como agora retornar \u00e0 Barroquinha, sem olhar de soslaio para os transeuntes, admir\u00e1-los em sua simplicidade e festividade urbana. Tamb\u00e9m suas dores, percal\u00e7os e sonhos. Especular, inconscientemente, em qual deles se encaixaria tal personagem. Onde morariam, o que desejariam? Seus amores, seus gostos. Torceriam, almas tricolores, pelo Ba\u00eaa ou, rubro-negros cora\u00e7\u00f5es, pelo Vitorinha da Barra? Ainda existiriam reminisc\u00eancias ipiranguenses entre leg\u00edtimos barroquenses, ou seriam barroquinos? Aceitariam um trago no botequim mais pr\u00f3ximo, em prosa ligeira? Nela tudo caberia: seus medos, se de noite choveria, o pre\u00e7o da carne, a festa de Santa B\u00e1rbara. Como ir agora \u00e0 Barroquinha e n\u00e3o pensar nos semblantes liter\u00e1rios ao sabor do sol refletido nas suas cal\u00e7adas atemporais?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como cidad\u00e3o afeito ao passado, ao ler Vilarinho penso em abandonar nostalgias. Abrandar o v\u00ednculo afetivo a uma Salvador da pesada arquitetura colonial, para apreciar a deliciosa beleza de um DVD pirata, a capa pl\u00e1stica de um guarda-chuva <em>made<\/em> in Taiwan, os tabuleiros dos ambulantes que mercadejam com seu suor o dia a dia. O casal de namorados com seus trajes escolares. Os garis imprescind\u00edveis, suas vassouras a varrer para os meus olhos os cristais das gentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou daqueles que penso em Salvador enquanto um pol\u00edgono imagin\u00e1rio que, partindo da Pra\u00e7a da S\u00e9, desce ao cais e retorna ao Pelourinho via Baixa dos Sapateiros. Estendo-me, por vezes, ao Engenho Velho (de Brotas e da Federa\u00e7\u00e3o) e ao Retiro de S\u00e3o Gon\u00e7alo. Fixo-me agora, no entanto, na velha Barroquinha, a do primeiro terreiro nag\u00f4. Desde os fundos da igreja \/ espa\u00e7o cultural ao porvir. Nesse espalhar de letras no teclado em prosa do autor, surgem suas p\u00e1ginas de cimento e cal, abarcam seus contos repletos de humanidades precisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, fica por aqui essa quase resenha. Valeu, Vilarinho!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Andr\u00e9 Rosa<\/em><\/strong><em> \u00e9 nascido na antiga capitania de S\u00e3o Jorge dos Ilh\u00e9us. Professor titular da Universidade Estadual de Santa Cruz, atualmente exerce a presid\u00eancia da Academia de Letras de Ilh\u00e9us. Coordena o Pr\u00eamio Sos\u00edgenes Costa de Poesia e participa da Comiss\u00e3o Organizadora da Festa Liter\u00e1ria de Ilh\u00e9us. Autor de livros de car\u00e1ter acad\u00eamico e liter\u00e1rio, entre os quais: \u201cFam\u00edlia, Poder e Mito\u201d, \u201cIdentidade e Mem\u00f3ria\u201d, \u201cIn Memoriam\u201d, \u201cQuintais do Tempo\u201d e \u201cInvent\u00e1rio do Caos\u201d. No terreno religioso, tem o cargo de Tata Mabaia no Terreiro Matamba Tombenci Neto, de na\u00e7\u00e3o Angola, o mais antigo templo de matriz africana em atividade no sul-baiano.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na resenha de Andr\u00e9 Rosa, o olhar para \u201cBarroquinha\u201d, romance de Carlos Vilarinho <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18514,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3953,2533],"tags":[2826,11,1111,3968,3811,189,496,1980],"class_list":["post-18513","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-142a-leva","category-aperitivo-da-palavra","tag-andre-rosa","tag-aperitivo-da-palavra","tag-bahia","tag-barroquinha","tag-carlos-vilarinho","tag-resenha","tag-romance","tag-salvador"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18513","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18513"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18513\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18580,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18513\/revisions\/18580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}