{"id":18637,"date":"2021-04-04T12:31:08","date_gmt":"2021-04-04T15:31:08","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18637"},"modified":"2021-04-07T16:08:13","modified_gmt":"2021-04-07T19:08:13","slug":"aperitivo-da-palavra-i-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/aperitivo-da-palavra-i-28\/","title":{"rendered":"Aperitivo da Palavra I"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>UMA FORMA DE CONTEMPLA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Por Sandro Ornellas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong> <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/capa.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18639\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/capa.jpg\" alt=\"\" width=\"289\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/capa.jpg 289w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/capa-193x300.jpg 193w\" sizes=\"auto, (max-width: 289px) 100vw, 289px\" \/><\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A teoria da felicidade<\/em> \u00e9 o s\u00e9timo livro de K\u00e1tia Borges, primeiro de cr\u00f4nicas, publicado no final de 2020 pela Patu\u00e1. O livro ideal para uma hora t\u00e3o desidealizada como a da pandemia em que todos nos metemos e n\u00e3o sabemos como sair. Mas o que \u00e0 primeira vista pode parecer algo escrito com tino comercial para a sobreviv\u00eancia nesse contexto, \u00e9 na verdade fruto de alguns anos de exerc\u00edcio semanal da autora na cr\u00f4nica, conforme podemos acompanhar no jornal Correio da Bahia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem conhece a poesia de K\u00e1tia, reconhece seu estilo, temas e atmosfera. E at\u00e9 pode confundir alguns dos textos com poemas \u2013 o que n\u00e3o seria errado, j\u00e1 que a cr\u00f4nica \u00e9 um g\u00eanero eminentemente fronteiri\u00e7o e h\u00edbrido, misto de jornalismo, literatura, memorialismo, coment\u00e1rio e, entre os melhores, poema em prosa. E o Brasil a elevou ao estatuto de arte no distante s\u00e9culo XX, com nomes de peso praticando-a, de Jo\u00e3o do Rio a Drummond, passando por Bilac, Bandeira, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Rubem Braga. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, quando o pragmatismo neoliberal assumiu nossos desejos mais \u00edntimos, a cr\u00f4nica perdeu espa\u00e7o nos jornais para o artigo de opini\u00e3o, transbordando sangue nos olhos, urg\u00eancia pol\u00edtico-institucional e descartabilidade cr\u00edtica, t\u00e3o t\u00edpicas do nosso tempo de iscas para o agressivo debate p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da\u00ed eu sentir uma profunda lufada de ar fresco durante a leitura da <em>A teoria da felicidade<\/em>. A promessa do t\u00edtulo se cumpriu \u00e0 risca e abriu uma janela na sufocante quadra em que vivemos. A \u201cteoria\u201d anunciada se faz na contempla\u00e7\u00e3o e observa\u00e7\u00e3o (do grego, \u201ctheor\u00eda\u201d) lan\u00e7ada para os min\u00fasculos instantes que s\u00f3 notamos se suspendemos o fluxo ininterrupto do tempo e detemos nosso olhar na captura dessa felicidade. Logo em seguida perdida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9, portanto, do tempo que K\u00e1tia fala. N\u00e3o do \u201cnosso\u201d tempo, da nossa \u201ccontemporaneidade\u201d compartilhada, mas do que h\u00e1 de contempor\u00e2neo a todos os tempos, entre todos os tempos. Aquele \u00e1timo de poesia que a fotografia consagra nos instantes eternizados. K\u00e1tia os captura pelas palavras, transformando-os em imagens. Em cr\u00f4nicas. Em poesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 qualquer coisa de fragment\u00e1rio nessas imagens escritas. S\u00e3o mesmo fotografias, n\u00e3o filmes. Em v\u00e1rios fragmentos, percebo K\u00e1tia costurando assuntos como quem caminha pelo centro de Salvador, n\u00e3o com o objetivo de chegar a qualquer lugar que a coloque \u00e0 salvo e em melhor posi\u00e7\u00e3o (imposs\u00edvel nessa cidade), mas desejando se equilibrar (f\u00edsica e emocionalmente) em meio ao violento giro das informa\u00e7\u00f5es, das vozes, da mem\u00f3ria e dos acontecimentos. Numa \u00fanica cr\u00f4nica, os assuntos se sucedem com inteligente fluidez, sem qualquer pretens\u00e3o a esgot\u00e1-los, ensin\u00e1-los ou dar li\u00e7\u00e3o de moral cr\u00edtica. A quem assim deseja, ela apenas diz, no in\u00edcio de \u201cAs pequenas vilanias do cotidiano\u201d: \u201cEntrego a voc\u00eas a nobre miss\u00e3o de tomar conta do planeta. Fiquem com ela, resolvam todas as pend\u00eancias seculares, revolvam os arquivos e os acervos, estabele\u00e7am um novo c\u00e2none. Se preciso, lutem para subir algum p\u00f3dio imagin\u00e1rio. Reservem espa\u00e7o em suas estantes para expor os trof\u00e9us colecionados, providenciem um arm\u00e1rio com muitos cabides para o alinhamento das medalhas\u201d. A poesia de suas cr\u00f4nicas est\u00e1 em fazer do fragmento a melhor forma para representar a felicidade que jamais se realiza por completo. \u00c9 como se K\u00e1tia soubesse que conquistar completamente a felicidade arrisca a se confundir com o show de autoritarismo que presenciamos crescentemente. Por isso, apenas fragmentos de felicidade. Essa, sua teoria. E pr\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, tamb\u00e9m, certa melancolia nessa teoria. Tristeza mesmo, pois \u201cpara fazer um samba com beleza \u00e9 preciso um bocado de tristeza\u201d. Aquele tipo de nostalgia do perdido que faz da mem\u00f3ria lugar privilegiado das cr\u00f4nicas (de Cronos, desnecess\u00e1rio lembrar) que dizem da passagem do tempo. E as mem\u00f3rias fazem desses textos de K\u00e1tia solo ideal, alternando o que h\u00e1 de pessoal, geracional e cultural, \u00e0s vezes misturados a ponto de n\u00e3o conseguirmos discerni-los muito bem. Exemplares s\u00e3o \u201cSobre a fragilidade da esperan\u00e7a\u201d, \u201cUma menina vinda de Marte\u201d, \u201cA aerodin\u00e2mica dos p\u00e1ssaros\u201d, \u201cA nostalgia, esse dem\u00f4nio\u201d, \u201cFelicidade a gente aprende; \u00e9 preciso treino\u201d, \u201cO casaco esquecido de Janis Joplin\u201d, \u201cNa malinha do meu cora\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cO grande circo l\u00edrico\u201d, \u201cSobre andar em sil\u00eancio\u201d, \u201cDez coisas a fazer quando se est\u00e1 exausto\u201d, \u201cCivilidade e inutens\u00edlios\u201d. Todos recheados de refer\u00eancias pessoais, coletivas, liter\u00e1rias, musicais e cinematogr\u00e1ficas. E em tom distante do pedag\u00f3gico, mas pr\u00f3ximo do afeto reflexivo. Como \u00e9 t\u00edpico seu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nosso mundo \u2013 e n\u00e3o me refiro apenas \u00e0 Covid ou ao sujeito que ocupa a presid\u00eancia (eles s\u00e3o os \u00faltimos avatares de um longo processo) \u2013 tornou-se ref\u00e9m da a\u00e7\u00e3o produtiva e do desempenho perform\u00e1tico. Ambos misturam no mesmo gesto trabalho e consumo e os mascaram como pol\u00edtica e cidadania. Da\u00ed que ler algu\u00e9m capaz de parar, olhar, pensar e escrever sobre isso com delicadeza, intelig\u00eancia e comprometimento \u00e9 coisa rara \u2013 ao menos para mim, e para quem fez das redes sociais seu habitat na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na cr\u00f4nica que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, K\u00e1tia apresenta-nos a teoria da felicidade de Albert Einstein. Ele teria escrito um bilhete a um camareiro do Hotel Imperial de T\u00f3quio dando um conselho: \u201cuma vida calma e modesta traz mais felicidade do que a busca de sucesso e a inquieta\u00e7\u00e3o constante\u201d. O bilhete fora dado como uma esp\u00e9cie de gorjeta ao camareiro e depois vendido por 1,5 milh\u00e3o de d\u00f3lares por seus herdeiros. A seguir, K\u00e1tia passa aos conselhos que Rainer Maria Rilke d\u00e1 ao jovem Franz Xavier Kappus para que se torne poeta: \u201cconfesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever?\u201d. Depois dos dois exemplos famosos de conselheiros, a autora apresenta-se como \u201cconselheira compulsiva\u201d e dispara o seu: \u201c\u2018Cabe\u00e7a erguida, sempre\u2019, dizia minha m\u00e3e, diante de qualquer derrota\u201d. Escrevendo com calma e mod\u00e9stia, K\u00e1tia Borges re\u00fane os conselhos de seus dois ilustres personagens e nos d\u00e1 a melhor s\u00edntese do que \u00e9 seu pr\u00f3prio livro: calma em tempos inquietos e mod\u00e9stia em tempos soberbos s\u00e3o os ingredientes de uma escrita capaz de formular a teoria da felicidade poss\u00edvel nesta nossa \u00e9poca derrotada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Sandro Ornellas<\/em><\/strong><em> \u00e9 poeta, escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Bahia. Autor de Em obras (Cousa, 2019), Linhas escritas, corpos sujeitos (LiberArs, 2015), dentre outros.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandro Ornellas percorre os recantos de \u201cA teoria da felicidade\u201d, novo livro de K\u00e1tia Borges <\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18642,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3980,2533,16],"tags":[298,2713,2896,2255,189,3969],"class_list":["post-18637","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-143a-leva","category-aperitivo-da-palavra","category-destaques","tag-cronicas","tag-felicidade","tag-katia-borges","tag-patua","tag-resenha","tag-sandro-ornellas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18637","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18637"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18753,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18637\/revisions\/18753"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18642"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}