{"id":18660,"date":"2021-04-04T14:01:58","date_gmt":"2021-04-04T17:01:58","guid":{"rendered":"http:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/?p=18660"},"modified":"2021-04-07T16:00:35","modified_gmt":"2021-04-07T19:00:35","slug":"pequena-sabatina-ao-artista-76","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/pequena-sabatina-ao-artista-76\/","title":{"rendered":"Pequena Sabatina ao Artista"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Por Rog\u00e9rio Coutinho<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de hoje que estudiosos e autores de fic\u00e7\u00e3o discorrem sobre o impacto da tecnologia sobre nossa sociedade, seu uso para o bem ou para o mal. Seremos capazes de evoluir a ponto de erradicar guerras, mis\u00e9ria e mortes desnecess\u00e1rias ou a tecnologia nos escravizar\u00e1, difundir\u00e1 ainda mais a estupidez e potencializar\u00e1 nossos instintos de autodestrui\u00e7\u00e3o? O estado de coisas atual n\u00e3o nos d\u00e1 muitos motivos para otimismo. Imerso em questionamentos como esse, o autor <strong>Rodolfo Guimar\u00e3es Neves<\/strong> lan\u00e7a suas preocupa\u00e7\u00f5es sobre nosso futuro e nossa democracia, sem se esquecer de onde veio e das peculiaridades do cotidiano do presente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conhe\u00e7o Rodolfo desde que \u00e9ramos adolescentes, nos anos noventa, quando ambos mor\u00e1vamos no Esp\u00edrito Santo. Desde aquela \u00e9poca, j\u00e1 era percept\u00edvel sua tend\u00eancia para a erudi\u00e7\u00e3o, sua sensibilidade e seu amor por Pernambuco, sua terra natal, e pelo Brasil. Atrav\u00e9s dele, foi a primeira vez que ouvi falar de Chico Science, de quem n\u00e3o tardei a ouvir e me tornar um f\u00e3, assim como de todo o movimento Mangue Beat. Lembro de nossas conversas sobre hist\u00f3ria e sociedade na biblioteca da escola na hora do intervalo, quando a maior parte da turma se entupia de refrigerante e salgadinho ou jogava futebol.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cada um seguiu o seu caminho e, para Rodolfo, veio o curso de Direito, os empregos na Universidade Federal e no Tribunal de Justi\u00e7a. Mas havia um autor dormente, um observador de costumes e um poeta que gradualmente emergiu, al\u00e9m de uma hist\u00f3ria \u00e9pica que pedia para ser contada, se insinuando atrav\u00e9s da leitura das p\u00e1ginas de Asimov, das sess\u00f5es de filmes que expandiam a imagina\u00e7\u00e3o sobre o futuro e de uma forma\u00e7\u00e3o humanista e, sobretudo, curiosa sobre o mundo e suas inst\u00e2ncias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns de seus contos apareceram em antologias divididas com outros autores: \u201cConto Brasil\u201d (volume 1, 2018 e volume 2, 2019), ambos pela Editora Trevo; \u201cVeraneio\u201d, da Editora Jogo de Palavras (2019); \u201cParaty\u201d, da Editora Gaya (2019) e \u201c23 Formas de Morrer\u201d, da Editora Am\u00e9lie (2020). Sua poesia j\u00e1 foi publicada em \u201cPoesia Agora &#8211; Edi\u00e7\u00e3o Inverno 2018\u201d, da Editora Trevo e em \u201cConcurso Nacional Novos Poetas 2018 &#8211; Antologia Po\u00e9tica\u201d, da Editora Vivara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seus maiores voos liter\u00e1rios, agora solo, aconteceram recentemente. Em 2020, a colet\u00e2nea \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d e o romance \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d, incurs\u00e3o na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, foram publicados pela Editora IGP, do Recife. Enquanto os contos e poemas mostram uma vis\u00e3o mais pessoal e cotidiana, mas sempre oferecendo uma sensa\u00e7\u00e3o desconcertante ao leitor, \u00e9 nas p\u00e1ginas do romance que a imagina\u00e7\u00e3o de Rodolfo alcan\u00e7a um n\u00edvel poucas vezes visto. Por tr\u00e1s da sua fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, com direito a viagens no tempo e o protagonismo de Pernambuco, quase um personagem por si s\u00f3, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o sincera com os rumos da democracia e com o uso da tecnologia contra o interesse p\u00fablico. \u201cEu me orgulho muito do livro. Foi uma conquista na minha vida, uma das coisas mais alegres, uma realiza\u00e7\u00e3o\u201d, festeja Rodolfo, e com motivos para tanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 em 2021, mais duas publica\u00e7\u00f5es: a adapta\u00e7\u00e3o para quadrinhos de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d, feita em parceria com o quadrinista Pedro Ponzo, um dos grandes nomes da cena pernambucana atual dos quadrinhos, e a pe\u00e7a teatral \u201cRessentimento\u201d, na qual as experi\u00eancias de Rodolfo no mundo do servi\u00e7o p\u00fablico serviram de grande inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para minha grande satisfa\u00e7\u00e3o, Rodolfo aceitou conversar com Diversos Afins sobre sua obra. Sentindo-se com um alto n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o pessoal e autorrealiza\u00e7\u00e3o, ele manifesta seu grande agradecimento \u201c\u00e0 minha atual namorada, a Maria Luciene, que me d\u00e1 todo o apoio para escrever mais coisas\u201d. Uma longa conversa que passa n\u00e3o apenas pela literatura, mas tamb\u00e9m pela filosofia, administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, cinema e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18662\" aria-describedby=\"caption-attachment-18662\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-I.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18662 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-I.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"382\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-I.jpg 500w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-I-300x229.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18662\" class=\"wp-caption-text\">Rodolfo Guimar\u00e3es Neves \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sua obra transita entre o texto em prosa e a poesia. H\u00e1 alguma hierarquia entre essas formas de escrita no seu processo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? Voc\u00ea se considera um poeta que tamb\u00e9m escreve em prosa ou um ficcionista que eventualmente usa o verso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Eu me considero, antes de tudo, um escritor iniciante. Fiz alguns cursos, tr\u00eas deles ministrado por Rodrigo Gurgel, um escritor do Rio de Janeiro, e outro de Pedro Bial, \u201cO ato de escrever\u201d. Eu comecei escrevendo poesia para um site chamado Luso-Poemas. Os poemas em \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d s\u00e3o mais antigos do que os contos. J\u00e1 participei de alguns saraus em Olinda, mas n\u00e3o \u00e9 habitual. Mesmo tendo come\u00e7ado com poesia, a prosa tamb\u00e9m me atrai muito, pela fluidez das ideias e pela necessidade de escrever. Participei de alguns concursos liter\u00e1rios com poemas que foram selecionados para compor antologias, acabei mandando contos tamb\u00e9m, alguns dos quais est\u00e3o no livro. O conto \u201cO mal iluminado\u201d me deu maior visibilidade, pois foi selecionado para a antologia \u201c23 Formas de Morrer\u201d, da Editora Am\u00e9lie. Nessa quest\u00e3o de transitar entre prosa e poesia, fico dividido. Tamb\u00e9m escrevo pe\u00e7as teatrais, uma delas se chama \u201cRessentimento\u201d e teve uma resposta muito positiva de membros da Academia Esp\u00edrito-Santense de Letras. Outra pe\u00e7a, que deve sair em breve, chama-se \u201cResigna\u00e7\u00e3o\u201d. Eu transito entre a dramaturgia, a poesia e a prosa, n\u00e3o me considero nem melhor, nem pior em nenhum dos tr\u00eas. Ainda me considero algu\u00e9m que est\u00e1 aprendendo. Mas pretendo sempre evoluir e aprimorar meu texto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013<\/strong> <strong>Em seus contos do livro \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d, h\u00e1 a descri\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es, cen\u00e1rios e emo\u00e7\u00f5es que pertencem ao cotidiano do meio urbano, narrando epis\u00f3dios ins\u00f3litos ou at\u00e9 mesmo banais. Ao mesmo tempo, <\/strong><strong>\u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d traz uma organiza\u00e7\u00e3o urbana completamente diferente, com uma proposta radical. Como \u00e9 transitar por essas duas dimens\u00f5es narrativas? O que h\u00e1 de uma na outra?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Todo escritor tem a necessidade de contar hist\u00f3rias. No livro \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d, retrato as coisas que vejo no cotidiano. Seja um <em>podcast<\/em>, a vida de um amigo, as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, a vida urbana\u2026 h\u00e1 at\u00e9 um conto um tanto quanto zen-budista que destoa do restante. Tento fazer tramas, aventuras curtas, s\u00e3o contos muito curtos, o maior deles \u00e9 \u201cO Imp\u00e9rio de Momo\u201d, que fala do carnaval de Olinda, o qual conhe\u00e7o bem, e tamb\u00e9m de quest\u00f5es morais. S\u00e3o coisas que eu vivencio e que outros vivenciaram e cada vez mais surgem ideias para escrever sobre coisas novas. Sobre \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d, \u00e9 algo mais escapista. Eu procuro ver um futuro mais ut\u00f3pico, mais justo do que a realidade que a gente vive. Enquanto em \u201cEles\u2026\u201d o mundo \u00e9 como eu o enxergo, h\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas, rela\u00e7\u00f5es de poder, rela\u00e7\u00f5es de amor, coisas banais como, por exemplo, o concurso p\u00fablico. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 uma paix\u00e3o pessoal. Uma das maiores alegrias era quando, aos doze anos, meu pai chegava em casa com uma fita VHS de \u201cJornada nas Estrelas: A Nova Gera\u00e7\u00e3o\u201d. Era uma alegria aquele mundo de naves e planetas. Ver a sociedade como um organismo \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201ctara\u201d que eu tenho desde crian\u00e7a. Peguei um avi\u00e3o uma vez e vi a cidade de cima, parecia um organismo, aqueles pr\u00e9dios p\u00fablicos e particulares. Ver o mundo de forma diferente foi algo muito estimulado pela fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. E eu a vejo como um escapismo meu diante de tanta mis\u00e9ria e corrup\u00e7\u00e3o, para imaginar um mundo melhor. At\u00e9 a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mais dist\u00f3pica, como \u201cMad Max\u201d (1979), nos faz pensar no que pode se tornar a humanidade. Ent\u00e3o, eu quis eu mesmo escrever a minha pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de tanta paix\u00e3o que eu tenho pelo g\u00eanero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d traz uma hist\u00f3ria futurista num ambiente muito brasileiro e muito pernambucano, o que n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o comum na produ\u00e7\u00e3o cultural <em>mainstream<\/em> nacional. Voc\u00ea acompanha a produ\u00e7\u00e3o brasileira de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Eu acompanho o <em>blog<\/em> de Alexander Meirelles da Silva, um dos maiores especialistas de fantasia, fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e terror do Brasil, tenho contato com ele e com outras pessoas do meio atrav\u00e9s do Facebook. Mas n\u00e3o acompanho tanto assim a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional, procurei \u201cFractais Tropicais\u201d (2018), uma colet\u00e2nea de contos brasileiros de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas n\u00e3o encontrei para venda. Eu escrevi \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d porque eu tinha esse impulso. E fiz de uma forma regional porque eu sou apaixonado por Pernambuco. Em uma ocasi\u00e3o, comentei com amigos da minha ent\u00e3o esposa que eu estava escrevendo um livro de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Me perguntaram: \u201ce onde vai se passar?\u201d \u201cEm Recife\u201d, respondi. A rea\u00e7\u00e3o foi de um riso abafado. Fiquei indignado. A\u00ed pensei comigo: \u201cagora que essa porra vai se se passar toda em Recife, n\u00e3o quero saber\u201d (risos). \u00c9 bem regional, mas tamb\u00e9m bem brasileiro, tem passagens na Ilha de Maraj\u00f3, menciona S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Paran\u00e1. Tem personagens da Para\u00edba, de Mato Grosso\u2026 Na minha concep\u00e7\u00e3o, o Brasil seria um baluarte do mundo livre contra as na\u00e7\u00f5es que decidiram seguir o processo da Din\u00e2mica Org\u00e2nica e se tornarem um organismo vivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 H\u00e1 cita\u00e7\u00f5es de Philip K. Dick e de Isaac Asimov na ep\u00edgrafe de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d, sendo que uma das personagens leva o sobrenome de Asimov, numa clara homenagem. Quais suas outras influ\u00eancias dentro da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Eu consumo muita fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas n\u00e3o sou um grande leitor do g\u00eanero, li \u201cAdmir\u00e1vel Mundo Novo\u201d (1932), de Aldous Huxley; \u201cFunda\u00e7\u00e3o\u201d (1951) e \u201cO Fim da Eternidade\u201d (1955) de Asimov, \u201cMil Novecentos e Oitenta e Quatro\u201d (1949) de George Orwell\u2026 Mas sou um \u00e1vido consumidor de cinema de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, at\u00e9 de filmes mais antigos dos anos 60 e 70, como \u201cColossus 1980\u201d (1970) e \u201cSolaris\u201d (1972), de Andrei Tarkovski. Imposs\u00edvel n\u00e3o falar de \u201cBlade Runner\u201d (1982), \u201cMatrix\u201d (1999), das irm\u00e3s Lily e Lana Wachowski e \u201cInterstellar\u201d (2014), de Christopher Nolan, que me chamaram muito a aten\u00e7\u00e3o; e tamb\u00e9m da franquia \u201cStar Trek\u201d, inclusive os mais recentes. \u201cTHX 1138\u201d (1971), de George Lucas, que \u00e9 baseado num curta anterior do pr\u00f3prio diretor. A anima\u00e7\u00e3o \u201c\u00c6on Flux\u201d, cuja adapta\u00e7\u00e3o em filme n\u00e3o \u00e9 muito boa, mas a s\u00e9rie \u00e9 excelente, tem uma abordagem filos\u00f3fica subliminar bem interessante. Filmes surreais como \u201cCubo\u201d (1997), \u201cO Po\u00e7o\u201d (2019). Tenho uma pilha de livros aqui em casa esperando para serem lidos, mas meu tempo \u00e9 ocupado por v\u00e1rias atividades diferentes, estudo economia e l\u00f3gica da argumenta\u00e7\u00e3o, fa\u00e7o parte de organiza\u00e7\u00f5es filantr\u00f3picas, tenho que dar aten\u00e7\u00e3o a membros mais idosos e fragilizados de minha fam\u00edlia. Tamb\u00e9m leio outras coisas como misticismo, rosacrucianismo, a sincronicidade de Carl Gustav Jung, que \u00e9 um tema que me interessa muito, estou lendo \u201cJung, o M\u00edstico\u201d (2010), de Gary Lachman, que foi membro da banda Blondie, de quem li tamb\u00e9m \u201cA Hist\u00f3ria Secreta da Pol\u00edtica Ocidental\u201d (2008). Tudo isso influencia voc\u00ea e, como disse Chico Science, \u201cenche a imagina\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio\u201d. Eu fui criando aos poucos, tinha um caderno de notas e ia anotando. Um dia, fui rever \u201cBlade Runner\u201d com minha ex-esposa. Depois do filme, contei para ela a premissa de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d e ela me incentivou muito a escrever e publicar. Hoje sou grato a ela, foi uma grande incentivadora. Passei quatro anos escrevendo o livro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 A meu ver, a melhor produ\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica parte de assuntos s\u00f3cio-pol\u00edticos-filos\u00f3ficos relevantes no tempo do autor e os projeta em um contexto tecnol\u00f3gico e\/ou futurista, propondo um desenvolvimento que pode ser ut\u00f3pico ou dist\u00f3pico.\u00a0 \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d parece transitar simultaneamente entre ambos. Quais as quest\u00f5es atuais que serviram de mote para a cria\u00e7\u00e3o desse universo?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013 <\/strong>Boa pergunta. A nanotecnologia, a hiperconsci\u00eancia, esses conceitos cient\u00edficos mais novos. A Brainet, uma internet cerebral, que \u00e9 abordada pelo Miguel Nicolelis. Isso me leva ao seguinte: o fascismo tem muitas faces. Ou melhor dizendo, o totalitarismo, j\u00e1 que o stalinismo n\u00e3o \u00e9 algo que me agrade. Essas tecnologias em m\u00e3os erradas podem transformar um pa\u00eds em um monstro, literalmente. Isso vem me preocupando. Li o livro de Yuval Noah Harari, \u201cSapiens: Uma Breve Hist\u00f3ria da Humanidade\u201d (2014) e estou lendo do mesmo autor \u201c21 Li\u00e7\u00f5es para o S\u00e9culo XXI\u201d (2018)\u00a0 e \u201cHomo Deus: Uma Breve Hist\u00f3ria do Amanh\u00e3\u201d (2016), que aborda os desafios atuais da humanidade com a disponibilidade de recursos tecnol\u00f3gicos. Quem imagina que o totalitarismo \u00e9 algo afastado na hist\u00f3ria, est\u00e1 muito enganado, o que \u00e9 refor\u00e7ado pelo contexto atual, pelo que estamos passando. N\u00e3o vou citar nomes, mas estamos em uma situa\u00e7\u00e3o em que o fascismo n\u00e3o foi obliterado. Meu medo \u00e9 a ascens\u00e3o do totalitarismo com esses recursos tecnol\u00f3gicos, seria algo muito mais brutal do que o nazismo de Hitler. Pode se ter o controle total de uma popula\u00e7\u00e3o, de uma na\u00e7\u00e3o inteira atrav\u00e9s de algoritmos do Google ou do Facebook. Isso nas m\u00e3os erradas, sem controle, sem liberdade, sem o garantismo do poder judici\u00e1rio\u2026 me fez pensar muito sobre o futuro. Em contrapartida, imaginei como seria um mundo melhor, com uma internet chamada de Mindnet, que tem um lado m\u00edstico, de energia vital, n\u00e3o seria id\u00eantica \u00e0 Brainet de Nicolelis, mas que seria usada para o bem. Ent\u00e3o tem os dois lados: um quando a tecnologia ajuda a fazer uma sociedade mais justa e outro quando \u00e9 usada para a opress\u00e3o. H\u00e1 um conceito no livro chamado \u201ceconomia por energia\u201d que eu levo t\u00e3o a s\u00e9rio, detalho tanto como funciona, que passei a estudar economia com um certo sonho de explicar isso para a linguagem econ\u00f4mica, propor uma economia sem dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_18668\" aria-describedby=\"caption-attachment-18668\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-II.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18668 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-II.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-II.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/IMAGEM-II-300x272.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18668\" class=\"wp-caption-text\">Rodolfo Guimar\u00e3es Neves \/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea j\u00e1 adiantou esse pr\u00f3ximo tema um pouco, mas eu pergunto: com a recente escalada neo-autorit\u00e1ria em v\u00e1rias partes do mundo e a &#8220;algoritmiza\u00e7\u00e3o&#8221; do indiv\u00edduo do s\u00e9culo XXI, com manipula\u00e7\u00e3o de dados e dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es falsas para fins comerciais e pol\u00edticos, voc\u00ea acredita que a sociedade atual caminha para algo similar ao \u201corganicismo\u201d descrito em \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> O risco do \u201dorganicismo\u201d, da maneira em que est\u00e1 no livro, \u00e9 real. \u00c9 como numa passarela de desfiles de moda, onde s\u00e3o exibidas roupas extravagantes. N\u00e3o quer dizer que as pessoas v\u00e3o usar aquelas vestimentas, o estilista aponta as tend\u00eancias, um salto maior, um chap\u00e9u com uma aba diferente. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica funciona assim, se exagera um pouco para dizer onde podemos chegar, como em \u201cMad Max\u201d. Talvez nunca iremos chegar a esse cen\u00e1rio, mas \u00e9 um futuro plaus\u00edvel. Se acabarem os recursos naturais, vamos nos matar uns aos outros por \u00e1gua, por petr\u00f3leo. O que eu quis mostrar \u00e9 um lado onde a tecnologia oprime e os seres humanos s\u00e3o aperfei\u00e7oados geneticamente, inclusive intelectualmente, criando uma casta. Talvez o fosso entre ricos e pobres se torne totalmente intranspon\u00edvel, como os estamentos da Idade M\u00e9dia, porque os pobres n\u00e3o conseguiriam pagar por essas interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas. A ignor\u00e2ncia e o obscurantismo s\u00e3o direcionados para as classes mais baixas. Isso, de certa forma, j\u00e1 foi abordado em outras obras, como no livro de H. G. Wells, \u201cA M\u00e1quina do Tempo\u201d (1892). \u00c9 algo ainda distante, mas \u00e9 uma amea\u00e7a real. \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d \u00e9 minha contribui\u00e7\u00e3o para despertar esse alerta no p\u00fablico. Eu quis fazer um livro regionalizado por ser apaixonado por Recife, mas tamb\u00e9m porque sonho com que o Brasil seja esse baluarte do mundo livre, eu n\u00e3o sonho com o Brasil de Bolsonaro, eu sonho com um Brasil livre, democr\u00e1tico. Eu sou um democrata e o totalitarismo, tanto com os expurgos de Stalin quanto com o nazismo de Hitler, j\u00e1 provou que n\u00e3o presta. Sou um democrata ferrenho, na verdade, um social-democrata, algo que seria um meio termo. Muita gente n\u00e3o gosta desse termo por causa do PSDB. Eu n\u00e3o sou do PSDB, sou filiado ao PDT, do espectro trabalhista, do espectro social-democrata, de Leonel Brizola. Enfim, meu medo \u00e9 esse, de ser criada essa casta super evolu\u00edda e se degenerar. Como coloca a \u201cPol\u00edtica\u201d de Arist\u00f3teles, os sistemas pol\u00edticos podem se degenerar. Com o uso da tecnologia, a tirania talvez se converta em um ser vivo. Por isso eu fa\u00e7o um trocadilho na divulga\u00e7\u00e3o dos quadrinhos de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d: \u00e9 a hist\u00f3ria da luta contra a pior \u201cesp\u00e9cie\u201d de totalitarismo. \u201cEsp\u00e9cie\u201d aqui serve tanto como \u201ctipo\u201d quanto como ser vivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea falou sobre a economia por energia, me pareceu um conceito com alguma influ\u00eancia de princ\u00edpios orientais, como o Chi, por exemplo. Voc\u00ea chegou a estudar algo dessas filosofias?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Eu li \u201cTao Te Ching\u201d de Lao-Tze e \u201cO Tao da F\u00edsica\u201d (1975), de Fritjof Capra, mas li sobretudo literatura esp\u00edrita. No Nordeste, h\u00e1 muitos nomes de origem eslava. H\u00e1 uma certa profecia esp\u00edrita que fala que o nordeste brasileiro iria acolher os eslavos. Peguei isso como mote e coloquei nomes eslavos para v\u00e1rias personagens: Asimov, Sokolov, Dmitri. E outras leituras como experi\u00eancias de quase-morte, anjos, literatura rosacruz. Embora tenha lido v\u00e1rios livros, eu n\u00e3o sou um grande pesquisador, sou algu\u00e9m que vive bastante da imagina\u00e7\u00e3o. Dentre todas essas refer\u00eancias, seleciono aquilo que serve \u00e0 minha tese. Nos crimes de ordem energ\u00e9tica, que est\u00e3o no livro, tive muita influ\u00eancia do espiritismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Sua forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica \u00e9 em Direito e Gest\u00e3o P\u00fablica. O que foi incorporado desses saberes na sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013 <\/strong>Em \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d, h\u00e1 um conto bem antigo sobre concurseiros, onde acontecem coisas um pouco surreais quando a luz apaga durante uma aula noturna de revis\u00e3o, um \u201cmadrugad\u00e3o\u201d. \u00c9 algo que n\u00e3o existe, mas que poderia existir. Eu mesmo estudei muito para concurso e fui aprovado em alguns. Minha vida de servidor p\u00fablico influenciou o conto \u201cTalentos Entre Escaninhos\u201d, a partir de uma observa\u00e7\u00e3o da estrutura de poder numa estrutura burocr\u00e1tica. Em \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d, aproveitei minha forma\u00e7\u00e3o em Direito para tipificar os crimes daquela sociedade do futuro. Tamb\u00e9m me inspirei na estrutura hier\u00e1rquica de um \u00f3rg\u00e3o p\u00fablico, tendo um Diretor, um Supervisor, um Supervisor Assistente e o \u201cpe\u00e3o\u201d que vai fazer o trabalho. Eu trabalho em um Tribunal, ent\u00e3o tem o Desembargador, o Juiz\u2026 uma hierarquia muito forte. Eu nem conhe\u00e7o nenhum Desembargador porque sou algu\u00e9m da baixa burocracia, n\u00e3o sou nem do segundo escal\u00e3o. J\u00e1 fui Diretor por um ano e nove meses, no n\u00facleo de auditoria e presta\u00e7\u00e3o de contas.\u00a0 Fiquei doente por um per\u00edodo e pedi para sair. Voltei como Supervisor de licita\u00e7\u00f5es e contratos. Voc\u00ea j\u00e1 viu \u201cThe Corporation\u201d? \u00c9 um document\u00e1rio sobre o comportamento de organiza\u00e7\u00f5es, como empresas. H\u00e1 uma compara\u00e7\u00e3o entre os tra\u00e7os de uma empresa que s\u00f3 visa o lucro com os de uma pessoa. E essa empresa, se fosse uma pessoa, seria um psicopata. Cita empresas que geram danos ao meio ambiente, empresas cujos produtos causam c\u00e2ncer. Fazem seus c\u00e1lculos e decidem que \u00e9 melhor gastar com indeniza\u00e7\u00f5es do que fazer um <em>recall<\/em> do produto, por exemplo. A sociedade luta contra isso, tem a figura do garantismo do poder judici\u00e1rio, que com defeitos ou n\u00e3o, \u00e9 o \u00faltimo recurso que n\u00f3s temos contra essas for\u00e7as. O constitucionalismo, os direitos, o garantismo, todas essas coisas, n\u00e3o podemos abrir m\u00e3o de jeito nenhum. Se n\u00e3o houver controle, o <em>check-and-balance<\/em>, se entregar o controle a uma casta de pessoas, n\u00e3o vai dar certo. Eu trabalho com controles internos na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, eu sei como funciona. Isso tamb\u00e9m me inspirou. Se n\u00e3o houver controle, as coisas degeneram, come\u00e7am a falhar, vira uma luta contra a entropia. No livro, tem uma fala dos habitantes do mundo livre: \u201cn\u00f3s j\u00e1 somos um organismo, mas os alem\u00e3es levaram a s\u00e9rio demais\u201d [Nota: na trama, a atual Alemanha \u00e9 um dos pa\u00edses que passaram pelo processo de Din\u00e2mica Org\u00e2nica]. S\u00e3o como gl\u00f3bulos brancos em nosso organismo, temos institui\u00e7\u00f5es como o Judici\u00e1rio, o Minist\u00e9rio P\u00fablico, a Pol\u00edcia, as ONGs\u2026 temos \u00f3rg\u00e3os de defesa da sociedade lutando contra um impulso natural de acumula\u00e7\u00e3o, de destrui\u00e7\u00e3o, um impulso predat\u00f3rio do capitalismo, uma for\u00e7a entr\u00f3pica do ser humano. Infelizmente, chamam o servidor p\u00fablico de \u201cparasita\u201d. Parece que n\u00e3o sabem o que o mercado financeiro faz com a sociedade, muitas vezes gera riqueza sem produzir nada e fica na m\u00e3o de poucos, concentra. \u00c9 um parasitismo danado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Como se os especuladores n\u00e3o fossem parasitas\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013 <\/strong>Especulador, um cara que est\u00e1 com dinheiro em Xangai, depois manda para Nova Iorque, trocando dinheiro, n\u00e3o produziu nada. Como no filme \u201cWall Street\u201d (1987), em que o pai, que era dono de uma empresa pequena, fala para o filho: \u201cEu produzo, n\u00e3o vivo trabalhando com isso de mercado financeiro\u201d. Existe um impulso natural de as pessoas quererem acumular, tem coisas muito mais complexas em jogo. Esses instintos primitivos, se n\u00e3o forem domados, podem acarretar em algo muito s\u00e9rio no futuro. Tem exemplos na hist\u00f3ria em que n\u00e3o se podia contestar. Eu n\u00e3o quero viver em uma sociedade em que n\u00e3o se pode falar mal do Presidente. Claro que respeitando a integridade moral. Mas eu quero ter o direito de dizer: \u201cMeu amigo, voc\u00ea est\u00e1 equivocado. Estamos numa pandemia, se reporte decentemente, voc\u00ea \u00e9 um Chefe de Estado, tem que prestar contas\u201d.\u00a0 Ent\u00e3o, esses sistemas de defesas que n\u00f3s temos, como auditorias, servem para frear esse impulso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 No pref\u00e1cio, voc\u00ea relata que a ideia central de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d nasceu de um debate com um professor de filosofia. No que a filosofia influencia a sua escrita? Quais as suas leituras nessa \u00e1rea?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Nesse pref\u00e1cio, eu relato que durante uma conversa com esse meu amigo professor aqui de Pernambuco, faz\u00edamos um jogo de palavras sobre as ideias de Plat\u00e3o sobre o bom, o belo, o justo e o verdadeiro. Se tudo o que \u00e9 bom \u00e9 belo, verdadeiro e justo, o que seria uma sociedade boa? Seria uma sociedade em que uma minoria extremamente culta e inteligente domina uma casta de ignorantes e brutos? Em \u201cA M\u00e1quina do Tempo\u201d h\u00e1 o questionamento: \u201cquem \u00e9 voc\u00ea para questionar oitocentos mil anos de evolu\u00e7\u00e3o?\u201d Ser\u00e1 que \u00e9 nisso que vamos nos transformar? Em seres brutos trabalhando para seres ultra desenvolvidos? Eu quis mostrar os dois lados que a tecnologia pode nos oferecer, um bom e outro ruim. Isso \u00e9 algo pouco mostrado na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, uma luta entre utopia e distopia. Dentre os autores que j\u00e1 li, tem Nietzsche, Schopenhauer, a Fenomenologia de Edmund Husserl, algo de Giovanni Reale.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Quais as suas principais influ\u00eancias no romance, no conto e na poesia? <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> No romance, Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, \u201cCrime e Castigo\u201d (1866). \u201cO Castelo\u201d (1926), de Franz Kafka, \u00e9 fant\u00e1stico. Um livro que me encantou muito foi \u201cA Morte de Ivan Ilitch\u201d (1886), de Li\u00e9v Tolst\u00f3i, at\u00e9 chorei com o livro. Confesso que j\u00e1 li livros de Dan Brown, n\u00e3o tenho preconceito com livros de aventura. \u201cAs Aventuras de Tom Sawyer\u201d (1876), de Mark Twain. \u201cO Grande Gatsby\u201d (1925), de F. Scott Fitzgerald. \u201cO Apanhador no Campo de Centeio\u201d (1951), de J. D. Salinger. Machado de Assis com \u201cQuincas Borba\u201d (1892) e \u201cO Alienista\u201d (1882). Me influenciaram e me ajudaram a contar minhas hist\u00f3rias. Na poesia, o que eu li mais recentemente foi Hilda Hilst. Mas n\u00e3o tenho exatamente um poeta favorito. Estou lendo Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, \u201cMorte e Vida Severina\u201d (1955)\u00a0 e Ferreira Gullar, \u201cPoema Sujo\u201d (1976). S\u00e3o meus livros de cabeceira, chego em casa morto, mas leio alguma coisa antes de dormir. Paulo Leminski, acho muito interessante, li a antologia \u201cToda Poesia\u201d (2013). Augusto dos Anjos, li toda a poesia dele. Aquilo me chocou bastante, \u00e9 misterioso, \u00e9 sinistro, eu gosto bastante. Lembrei de \u201cNotas do Subterr\u00e2neo\u201d (1864), de Dostoi\u00e9vski, outro livro fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_18669\" aria-describedby=\"caption-attachment-18669\" style=\"width: 450px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/imagem-III.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18669 size-full\" src=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/imagem-III.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"452\" srcset=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/imagem-III.jpg 450w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/imagem-III-300x300.jpg 300w, https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/imagem-III-150x150.jpg 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-18669\" class=\"wp-caption-text\">Rodolfo Guimar\u00e3es Neves\/ Foto: arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; Cujo protagonista, ali\u00e1s, havia sido um servidor p\u00fablico&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> Exatamente, ele \u00e9 mesquinho, todo preocupado com o que os outros pensam. Olha, minha pe\u00e7a \u201cRessentimento\u201d \u00e9 sobre coisas que vi no mundo do servi\u00e7o p\u00fablico. H\u00e1 muito ressentimento no servi\u00e7o p\u00fablico. Tem muita gente cuja vida se resume \u00e0quela fun\u00e7\u00e3o, s\u00f3 faz aquilo. Voc\u00ea precisa se realizar em outros meios. Eu j\u00e1 fui um pouco ressentido tamb\u00e9m, mas isso s\u00f3 me deu mais vontade de sair desse ciclo. Eu vi pessoas de \u00f3rg\u00e3os que eu j\u00e1 trabalhei muito entristecidas, deprimidas, e n\u00e3o se sabe por que est\u00e3o deprimidas. Deveriam fazer dan\u00e7a de sal\u00e3o, escrever poesia, participar de saraus\u2026 a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquele meio burocr\u00e1tico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA &#8211; \u00c9 muito alienante\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> N\u00e3o me refiro ao meu setor, tem um pessoal maravilhoso l\u00e1. Mas as coisas a que a gente assiste, as not\u00edcias que chegam\u2026\u00a0 uma mulher que se suicida porque n\u00e3o cumpriu a meta\u2026 um t\u00e9cnico que briga com um analista por causa de sal\u00e1rio\u2026 Por que essas pessoas est\u00e3o adoecendo no servi\u00e7o p\u00fablico? Por que tanto ressentimento? Na minha pe\u00e7a eu abordo isso, esses ressentimentos e a forma de lidar com isso, de maneira um tanto ilus\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Voc\u00ea trabalhou em uma adapta\u00e7\u00e3o em quadrinhos de \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica\u201d. Para (re)contar sua hist\u00f3ria e produzir um roteiro de HQ, quais os principais desafios em fazer essa transi\u00e7\u00e3o entre a linguagem liter\u00e1ria e a dos quadrinhos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> \u00c9 dif\u00edcil. \u00c9 um livro de trezentas p\u00e1ginas e chamei um dos melhores quadrinistas de Pernambuco, Pedro Ponzo. Eu acreditei tanto na hist\u00f3ria que pensei: \u201cisso vai ser escrito e desenhado para que as pessoas entedam\u201d. Essa transi\u00e7\u00e3o foi dif\u00edcil porque tivemos que fazer todo o roteiro da HQ, pegando as principais partes do roteiro do livro e verificando o que realmente valia a pena ser contado, concatenando os principais pontos. Muitas coisas foram cortadas, a revista acaba sendo bem mais pobre do que o livro, mas h\u00e1 um ganho no desenho, na arte. Eu participei desse processo de roteiro, al\u00e9m de escritor da hist\u00f3ria original tamb\u00e9m sou co-roteirista dos quadrinhos junto com Ponzo, que desenhou maravilhosamente bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>DA \u2013 Em \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d, h\u00e1 uma ep\u00edgrafe com cita\u00e7\u00e3o de Clarice Lispector no qual ela se pergunta \u201cpara que escrevo?\u201d Para que escreve Rodolfo Guimar\u00e3es Neves?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>RODOLFO G. NEVES \u2013<\/strong> \u00c9 uma necessidade. Uma vontade de contar uma hist\u00f3ria. Vem na sua cabe\u00e7a uma hist\u00f3ria t\u00e3o interessante que voc\u00ea pensa: \u201ceu preciso cristalizar isso em um escrito\u201d. Eu escrevo para me autorrealizar, fazer uma obra que impacte, que tenha potencial para transformar. Fazer, quem sabe, uma pessoa ver o mundo de uma forma diferente. Fazer as pessoas conhecerem a minha forma de ver o mundo, uma forma de comunica\u00e7\u00e3o. \u00c9 um impulso que n\u00e3o consigo controlar, a vontade de contar uma hist\u00f3ria \u00e9 muito grande. Pedro Bial fala que todo escritor deveria se perguntar se a hist\u00f3ria vale a pena ser contada. Todas as hist\u00f3rias que eu contei, eu considerei que valem a pena ser contadas, sen\u00e3o n\u00e3o teria escrito. Eu fiz o meu melhor e espero que o p\u00fablico goste.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>* O romance \u201cA Din\u00e2mica Org\u00e2nica&#8221; e sua adapta\u00e7\u00e3o em HQ, a colet\u00e2nea \u201cEles, Outros Contos e Poemas\u201d e a pe\u00e7a \u201cRessentimento\u201d, todos da Editora IGP, est\u00e3o dispon\u00edveis na Livraria Imperatriz do Shopping Recife ou direto com o autor pelo e-mail <\/em><a href=\"mailto:rodolfogn@hotmail.com\"><em>rodolfogn@hotmail.com<\/em><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Rog\u00e9rio Coutinho <\/em><\/strong><em>\u00e9 oficial de comunica\u00e7\u00f5es de alguma nave estelar, de onde colabora eventualmente com Diversos Afins, transmite o <a href=\"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/podcast-gramofone\/\"><strong>Podcast Gramofone<\/strong><\/a> e emite notas sobre aleatoriedades no <a href=\"https:\/\/twitter.com\/RogCou\"><strong>Twitter<\/strong><\/a>. <\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na entrevista a Rog\u00e9rio Coutinho, o escritor Rodolfo Guimar\u00e3es Neves reflete sobre seus percursos liter\u00e1rios e outros temas<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":18666,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3980,16,2539],"tags":[63,3988,8,1290,3987,1618],"class_list":["post-18660","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-143a-leva","category-destaques","category-pequena-sabatina-ao-artista","tag-entrevista","tag-ficcao-cientifica","tag-pequena-sabatina-ao-artista","tag-recife","tag-rodolfo-guimaraes-neves","tag-rogerio-coutinho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18660"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18660\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18750,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18660\/revisions\/18750"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18666"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diversosafins.com.br\/diversos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}